O estupro nosso de cada dia

Texto de Ana Rita Dutra.

Algum dias atrás recebemos a noticia do estupro de uma mulher, pastora de uma igreja evangélica. Isso mesmo, a líder religiosa de uma determinada comunidade foi estuprada por um dos membros de sua congregação. Fato lastimável, inaceitável, absurdo.

Talvez você possa estar pensando: “Bom, pelo menos ela tem os membros fiéis, cristãos de sua comunidade para lhe apoiar…”  A referida pastora foi AFASTADA de sua congregação por CONDUTA IMORAL, pois segundo as lideranças da igreja, se ela foi estuprada e agredida é porque ela não gritou e se defendeu o suficiente.

O que comentar? Espero que no minimo estas pessoas sejam processadas judicialmente, pois é INADMISSÍVEL este tipo de comentário sobre uma mulher vítima de estupro. A acusação de conduta imoral foi divulgada em toda a igreja, a pastora agredida foi humilhada perante sua congregação. Espero que agressor e congregação — tambem agressora — sejam exemplarmente punidos e que a Pastora tenha forças para seguir em frente, apesar de tamanha violência que sofreu.

Culpar mulheres por estupros, duvidar de sua palavra, alegar que a mesma pode ter seduzido o estuprador, infelizmente, é rotina no Brasil. Existe um senso comum de que nós mulheres somos dotadas de pecado e sedução, assim temos o poder de despertar a “besta” que há dentro de cada homem. “Ele não se controlou”; “Ele estava bêbado”; “Ela estava provocando”; converse sobre casos de violência sexual na sua familia, na sua vizinhança e certamente ouvirá estas frases.

Outra idéia comum é de que existem mulheres estupráveis. Em alguns casos o  estupro é encarado como cortesia, quem sabe um bem para a mulher, ele pode gerar bons frutos. No Orkut, popular site de relacionamentos da internet, temos uma comunidade que faz apologia a penetração corretiva, uma “bem intencionada” ação para que mulheres deixem de ser lésbicas.

Se uma mulher é “solteirona” e considerada feia, o estupro dela toma uma forma de favor, “quem sabe ela até gostou”, é uma frase chavão que aparece nesses casos. Aqui entram também as piadinhas sobre a violência sexual e mulheres fora do dito “padrão de beleza”.

Uma outra questão ainda nesse tema: nada mais estuprável que uma prostituta. Você acha que as prostitutas denunciam as agressões que sofrem durante a realização de programas, ou mesmo quando estão andando pelas ruas? Muitas não denunciam. E, no caso das que conseguem denunciar, você acha que as autoridades dão ouvidos? Não, não dão. A prostituta é estuprável.

O Coletivo Feminino Plural, entidade feminista da qual sou assistente, desenvolveu um documentário chamado ‘Canto de Cicatriz’ falando sobre a violência sexual contra crianças e adolescentes, onde dentro da proposta de trabalho, foram coletados depoimentos não somente de vitimas de violência sexual, mas também de pessoas nas ruas sobre o assunto.

[vimeo=http://vimeo.com/27586763]

 

Ao falar sobre violência contra meninas adolescentes, boa parte dos entrevistados levantou a questão da menina que “provoca” o homem: elas usam roupas curtas, elas estão pedindo, elas estão cada vez mais assanhadas. Quão cruel é imputar à vítima a culpa sobre a violência extrema que sofreu. NADA justifica ou minimiza um estupro. Independente da situação da mulher, ela é vitima de uma agressão. Questões circunstanciais não podem servir para amenizar a pena ou culpa do agressor. De forma alguma um homem será menos culpado por causa da vestimenta da vitima, do horário em que ela andava na rua. Não há nada que lhe dê direito a violentá-la.

Na comunidade ‘Feminismo e Libertação’ do Orkut, uma companheira usou o seguinte termo uma vez: “o direito inalienável da foda masculina”. E é isso que vemos, o homem naturalmente tem o direito de “cobrir” todas as fêmeas, ele é o senhor do mundo e pode tudo.

A pornografia esta aí, cada vez mais violenta, criminosa, incentivando a violência contra a mulher, alimentando o fetiche sobre o estupro e o quanto nós gostamos da mistura de sexo e violência. Digitando “novinha sendo estuprada” no google você terá mais de 500 mil referências. E isso alimenta nossa sociedade, alimenta nossos filhos, irmãos, pais, amigos, maridos e colegas. Isso é cruel.

A cada 2 minutos, 5 mulheres sofrem algum tipo de violência no Brasil. Mas podemos ignorar tudo isso, podemos simplesmente continuar culpabilizando aquela que historicamente é tida como serva do demônio, porta do pecado, ardilosa.

No tempo do Brasil colônia, mulheres eram trancafiadas em casa por suspeita de conduta imoral, a Igreja tecia novenas e rezas para controlar os instintos satânicos das mulheres que seduziam os homens. Na Idade Média Européia fomos chamadas a tribunais, fomos mortas por acusações de atos libidinosos incentivados pelo demônio, por compactuarmos com satanás. Hoje, nas igrejas, somos chamadas e excluídas da congregação por conduta imoral, ao sermos violentadas..

Parece que o tempo parou… Ou será que fomos nós?

Autor: Ana Rita Dutra

Ana Rita Dutra dos Santos é Especialista em Novas Tecnologias Aplicadas a Educação. Feminista, professora e educadora.

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