Romance água com açúcar? Sim, por favor!

Texto de Renata Lima.

A primeira vez que consumi, foi em segredo. Peguei escondido. Se tornou um vício. Gastava toda a mesada comprando. Certa vez, no intervalo da escola, acho que estava na oitava série, uma colega de sala me viu tentando esconder, mas percebeu o que era. E se aproximou, perguntando se eu não topava dividir. Não imaginam o alívio que senti ao saber que outras pessoas também gostavam.

É, isso mesmo que vocês estão pensando: romances de banca, literatura açucarada vendida a preços populares, impressa em papel de jornal, com capas ligeiramente bregas.

O primeiro que li foi um Barbara Cartland da minha tia. Ficava meio escondido e, como tinha um casal se beijando, eu, no auge dos meus 13 anos, achei aquela clandestinidade excitante. Li em poucas horas, escondida. Confesso que achei meio frustrante, já havia lido cenas mais picantes nos livros de Sidney Sheldon e Harold Robbins, também lidos em segredo, furtivamente, das estantes dessa mesma tia.

Depois, descobri outros: Julia, Sabrina, Bianca, Momentos Íntimos. Esses eram contemporâneos, mas sempre tinham o mesmo roteiro: mocinha virgem, ingênua, mas determinada, conhece homem — em geral de extrato social superior — e passa por vários percalços até viver feliz para sempre. Em geral, o inimigo do casal era a Ex do protagonista, ou a mãe deste, que era contra o filho casar com alguém de outra classe social.

Depois, descobri os históricos. Capas melodramáticas, sem o menor respeito pelas vestimentas de época, com cenas que por mais que procurássemos não encontravamos no livro. Eu gostava de pesquisar na Barsa lá de casa sobre os países e reis retratados nos livrinhos que lia.

E, vejam a contradição: nos históricos, nem sempre a mocinha era a sonsa dos contemporâneos, em geral era uma mulher à frente de seu tempo.

Nessa mesma época, descobri, no mesmo nicho, a coleção “Angélica, a Marquesa dos Anjos”.

Passada na época do auge do absolutismo francês, retrata uma jovem, Angélica, que se casa com um conde, mas é desejada pelo rei Luís XIV e por todos os homens (e até mulheres) que cruzam seu caminho. Angélica passa por inúmeros tormentos durante a saga, que cobre mais de vinte anos pela França, Oriente Médio, onde ela, previsivelmente, é feita odalisca em um harém, até chegar no Canadá.

Esses livros, junto com a saga das “Brumas de Avalon”, foram responsáveis pelo meu excelente desempenho escolar em literatura, português, história e geografia. E mesmo assim, quando um professor de literatura me viu lendo um desses, teve o desplante de dizer que estava decepcionado, que logo eu, boa aluna, com potencial lesse aquela cultura inútil.

Durante o segundo grau (hoje ensino médio), na década de noventa, descobri que uma colega de sala também os lia e colecionava, passamos a compartilhar o consumo. Na banca de revista do bairro era fácil encontrar novos ou mesmo trocar nossos usados. Ao contrário dos livros das livrarias, os romances eram baratos e cabiam em nossas contas de estudantes.

Já havia lido quase tudo da biblioteca da escola e costumava ir a Biblioteca Estadual Luiz de Bessa, na Praça da Liberdade, para descobrir novos livros, mas os romancezinhos… ah, eram uma tentação. Leitura fácil, leve, sem complicações e com garantia de final feliz. Precisa mais?

Até na faculdade lembro de ainda lê-los, escondida às vezes, sob as capas de códigos penais e outros livros de Direito. Quando decidi assumir que realmente comprava e lia os tais romances, as reações foram as mais diversas, passando pelo pasmo até a repreensão. Minha mãe não entendia como eu podia gostar desses livrinhos “cheios de bobagens” e repreendia minha tia por compartilhar comigo e por ser minha iniciadora, mesmo involuntária.

Com o acesso à internet, descobri que eu não era a única, pelo contrário!

No livro ‘Todo mundo que vale a pena conhecer’ de Lauren Weisberger (autora de ‘O Diabo veste Prada’), a protagonista é uma garota que transita pelo mundo da alta sociedade e das baladas de NY, para desgosto de seus pais hippies. O livro é bem fraquinho, mas me identifiquei com Bette Robinson porque ela lia os romances sentimentais e passou pelas fases da negação, culpa, até a aceitação. No livro, ela encontra um grupo de mulheres como ela, que não se encaixavam nos estereótipos sobre quem lê esse “tipo” de literatura.

Descobri que existem teses acadêmicas sobre os “romances de banca”, “romances sentimentais” e outras denominações. Simone Regina Ferreira Meirelles escreveu a dissertação ‘Das bancas ao coração: romances sentimentais e literatura hoje’ (.pdf) e continuou com o tema no doutorado por meio da tese ‘Romance com coração: leitura e edição de romances sentimentais no Brasil’ (.pdf).

No capitulo sobre a leitura crítica feminista, a pesquisadora cita:

“Culler cita ainda o estudo de Jane Tompkins, sobre A Cabana do Pai Tomás, em Sentimental Power, do qual nos interessa a seguinte questão: embora seja na avaliação de Tompkins o mais importante livro do seu século, A cabana… é colocado em um gênero – o romance sentimental – “escrito por, sobre e para mulheres, e portanto, visto como lixo ou pelo menos não merecedor de uma crítica séria”. Ou seja, o próprio gênero é relegado a um segundo plano não por suas qualidades ou falhas, mas por ser escrito e dirigido por e para mulheres. “

Essa citação me fez mais uma vez voltar ao passado e refletir: por que os romances de bolso do meu tio (em geral de faroeste ou de detetive) ficavam à mostra e os romances “de bolsa” da minha tia eram relegados à prateleira do fundo?

Autor: Renata Lima

Mulher em um mundo masculino. Delegada de Polícia. Tuiteira, blogueira, leitora compulsiva. Feminista, libertária, de esquerda. Contradição? Não. Liberdade.

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