Cris Cyborg e as pioneiras heroínas

Texto de Mari Moscou.

Ja falei aqui de MMA – Mixed Martial Arts, uma prática marcial recentemente esportivizada que é muito comum entre lutadores brasileiros, mas cujo público só começa a se expandir agora. No primeiro texto fiz uma crítica à generalização massiva e estereotipação do público, de lutadores e do próprio esporte. Pois bem, o assunto ainda é MMA, mas o feminino.

A primeira coisa que vem à minha cabeça quando penso em MMA feminino é a divisão dos esportes em categorias por sexo. Nunca li nada sobre o assunto e não tenho opinião formada, então deixo para vocês: qual o argumento por trás dessa divisão (que parece rolar em todos os esportes)? Não seria possível categorias integradas no futebol, vôlei, basquete e até no MMA, dado que inclusive em treinos de academias as mulheres e homens treinam juntos?

A segunda coisa que me vem à cabeça é a Cris Cyborg, minha “ídala” do MMA feminino e as dificuldades que andam a fazendo quase desistir da própria carreira. Parece óbvio que entre estas dificuldades estaria o preconceito contra mulheres lutadoras né? Mas não, não é isso que desestimula a Cris. Só que para entender esse quadro vou precisar contar a historinha. Tudo começa com uma moça chamada Gina Carano.

Cris Cyborg.

Gina Carano é estadunidense, ariana e tem 28 anos. Foi campeã invicta dos pesos médios até sua luta com Cyborg. Depois disso nunca mais lutou e fez alguns filmes bem ruinzinhos pra TV e cinema nos EUA. Ao que tudo indica deve fazer uma volta em 2011, mas por enquanto não há muitos detalhes sobre isso. Carano faz um estilo muito mais bonitona-mídia do que Cyborg, que parece ser mais reservada.

Se você jogar “Gina Carano” no Google as primeiras imagens que aparecem são photoshopadas e sexualizadas, ela é considerada uma “musa” do MMA por sua beleza, além de seu talento. Vale dizer que Carano é uma pioneira do MMA feminino e foi uma das primeiras (se não “a” primeira) mulheres a receber treinamento tão bom quanto o dos homens. Então, quando começou a lutar com a mulherada que era supermarginalizada nas academias, ela simplesmente detonou. O MMA feminino ainda não dá grana, nem patrocinadores, nem tem muito público, por isso poucos treinadores topam treinar essas mulheres.

Até que veio a Cris. Cris Cyborg é Cristiane dos Santos. Brasileira, 25 anos, adora cor-de-rosa e lê a Bíblia (o que, aliás, quebra de uma vez só uns dez preconceitos comuns sobre MMA, né?). Canceriana, começou a treinar Muay Thai na Chute Boxe, em Curitiba, ainda na época de colégio. Em quatro meses já passou a lutar MMA e logo começou uma série de vitórias incríveis, estabelecendo uma sólida jovem carreira. Seu apelido “Cyborg” é também usado pelo marido que, por sua vez, também é lutador. Cris veio num ascendente, invicta exceto por sua primeira luta, mostrando muito mais técnica e atitude de lutadora do que era encorajado à maioria das mulheres. Até a hora em que foi lutar com a campeã da época, Gina Carano.

Cris simplesmente detonou a Gina no ringue e o juiz chamou um nocaute técnico. Esta luta é considerada a maior batalha do MMA feminino até hoje. É o que no futebol chamaríamos de “clássico”, meio como deve se tornar a luta do Anderson Silva com o Belfort em pouco tempo…

Como depois dessa luta a Gina parou de lutar, a Cris passou um tempo derrotando uma galerinha, mas o que se diz no mundo do MMA hoje é que ela anda profundamente desestimulada. Por quê? Porque simplesmente não há mulheres adversárias que a desafiem em termos técnicos. E por que isso, Marília? Por que as academias não treinam mulheres? Oras, vejo que é uma questão cíclica meio “quem veio primeiro o ovo ou a galinha”: MMA feminino não tem público.

O público geral de MMA é formado predominantemente por homens — que poderiam assistir MMA feminino mas preferem o masculino — segundo eles, porque a qualidade das lutas é melhor. As mulheres não são treinadas a sério nas academias e a qualidade técnica acaba ficando a desejar. Por sua vez, os treinadores acham que não vai dar prestigio gastar o tempo deles com MMA feminino.

Então, extrapolando um pouco, digo que a Cris Cyborg está mesmo numa sinuca de bico. Sou super pró-MMA feminino, para fomentar mesmo, ver a categoria crescer e tudo mais. E, acho que mais gente deveria abandonar seus preconceitos e ser também. Fico pensando sobretudo em mulheres que foram pioneiras em outras áreas. Caramba, pensem na primeira mulher médica que devia ser rejeitada por vários pacientes? Na primeira mulher jornalista que talvez tivesse que escrever sobre pseudônimo masculino? Na primeira mulher advogada que talvez tenha perdido vários processos por preconceito dos juízes>? Então, será que esse argumento da “falta de técnica e treinamento” é suficiente pra justificar a falta de público do MMA feminino?

Um momento emblemático de que esse pode não ser o argumento mais plausível para entender a ameaça de extinção do MMA feminino, foi quando um repórter quis ser bonzão para cima da Cris e ela, minha heroína linda, revidou com classe e estilo:

[youtube=http://www.youtube.com/watch?v=BVhEbTIExrk]

E aí, que estratégias nós feministas podemos adotar para fomentar essas mulheres no MMA e em outros esportes que são marginalizadas?

Autor: Mari Moscou

Socióloga, blogando firme desde 2005. Mestranda na Unicamp, escorpiana, atéia.

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