Empoderar!

Texto de Ana Rita Dutra.

‘De Mariazinha a Maria’, é o título de um livro da década de 80 da Marta Suplicy onde, com base em análises de cartas de telespectadoras, ela fala sobre fases que a mulher passa para sair de uma situação de submissão total, até tomar às rédeas de sua vida. Não vou falar aqui das minhas criticas ao livro, sua relevância ou mesmo do que acho da Marta Suplicy, não vem ao caso. Fiz essa referência porque gosto muito do título desse livro: De Mariazinha a Maria! Essa expressão me remete  uma idéia de empoderamento, que é o assunto que quero conversar com vocês hoje.

Essa semana estava participando de uma oficina sobre direitos das mulheres e meninas em um Projeto chamado ‘Escola Lilás dos Direitos Humanos‘, com um grupo de garotas adolescentes de um bairro de Porto Alegre. Durante a discussão, acabamos entrando na questão da violência da mulher e uma das meninas do grupo, fez a seguinte afirmação: “Mas profi! Tem mulher que gosta de apanhar”. Repetiu essa afirmação, justificou diversas vezes e deu o exemplo de sua prima. Segundo essa menina, que esta participando desse ciclo de oficinas, sua prima de 18 anos apanha do marido há alguns anos e não faz nada. Todo mundo “fala dela”, mas a prima não se mexe, não toma uma atitude, fica quieta, até “apronta” para fazer o cara “ter” que bater nela. Ela não reage, “parece que aquilo é natural para ela”, palavras da nossa oficinanda. Nisso iniciamos toda uma discussão: por que será que a prima não faz nada? Por que aquilo parece natural para ela? Por que, segundo nossa colega, ela chora, mas não consegue romper com o ciclo?

Todas as meninas começaram a participar e levantar histórias de mães, tias, primas e vizinhas que são humilhadas (que é uma violência psicológica), que são agredidas fisicamente e não conseguem tomar uma atitude. Histórias de mulheres que toda a vizinhança dizia que ela não deixava o cara porque não queria e, no final da forma mais trágica descobriram que ela, os filhos, os irmãos eram ameaçados de morte.

Uma das meninas foi às lágrimas ao tocar no assunto da dependência econômica da mulher e o quanto muitas vezes isso invibializa o término de um casamento. Foram tantas histórias que surgiram daquelas meninas, tantos questionamentos, que tivemos que interromper a discussão e retomaremos na próxima oficina, abordando a questão da naturalização da violência contra a mulher, do porque da não reação, as alternativas existentes e entre outros tópicos que conversaremos, da necessidade do empoderamento, de discutir e impulsionar os poderes de soma positiva, a busca individual da autoestima, da autoconfiança, que vai se manifestar nas relações sociais, culturais e afetivas da mulher, na busca da construção da sua própria identidade. Devemos trabalhar isso com as mulheres e meninas.

Promover o empoderamento das mulheres. Eu acredito que essa é uma grande questão que pode implicar em uma série de mudanças em situações graves que vemos no dia a dia da sociedade, obviamente, com toda a série de medidas necessárias que envolvem as questões dos direitos das mulheres. Mas, juntamente com essa luta, não podemos esquecer do empoderar-se!

O empoderamento não irá resolver como num passe de mágicas todos os problemas das mulheres, nós militantes sabemos que a agenda feminista é vasta, mas o empoderamento é um diferencial, ele é chave,  não podemos esquecer disso! Nós mulheres somos domesticadas, condicionadas a acreditar que somos inferiores, que somos mais frágeis, fracas e que precisamos de protetores, homens protetores. Essas meninas com quem tenho partilhado momentos maravilhosos nos últimos dias acreditam nisso. Coisas básicas como conhecer o nosso corpo, toca-lo, descobrir ele, isso não ocorre.

Mulheres tem vergonha de tocar seu corpo, de falar sobre seu corpo. Quantas meninas de 10, 11 anos ficam menstruadas e não tem ideia do que esta acontecendo, nada lhe é falado, é tudo fechado, vergonhoso, escondido, ser mulher desde a mais tenra idade vai se tornando um fardo, um peso, um problema.

Ela, desde criança, só pode brincar de fogãozinho, panelinha, comidinha, bonequinha, colocando na sua cabeça o desenvolvimento das atividades básicas que ela deve aceitar e executar na sua vida adulta. Já existem até bonecas que vem com um sutiã com mamas para que a menina coloque e possa ensaiar que esta dando de mamar para a filhinha. E se essa garota não quiser ter filhos? Será que ela não pode jogar bola, se sujar com terra, construir brinquedos com barro, será que o menino não pode querer cozinhar e vestir uma boneca?

Acho tão triste como domesticamos as nossas crianças. Colocamo-as em categorias, tanto meninos, como meninas. Por que colocar em caixas os pequenos? E assim as meninas vão crescendo podadas, condicionadas a exercerem um papel especifico do que é ser mulher. E, esse papel é inferior e na pratica vai se tornando humilhante, passivo, cansativo.

Ainda na questão do empoderamento, quantas vezes vemos mulheres grandes, com bastante estatura, peso, força, apanhando de homens de estatura pequena, força mediana, sem nenhum conhecimento básico de defesa, tecnica de luta, etc. Sendo que facilmente ela poderia se defender daquela agressão.

Quantas vezes o grito de um homem impõe o medo e imediatamente seguimos submissas e nos calamos. Porque somos condicionadas a ter medo dos homens, colocamos (e colocaram) em nossa cabeça que eles são mais fortes, invencíveis, poderosos, e quando somos ameaçadas não sabemos usar nossa força, não sabemos nos defender, nem impor nossa vontade, a presença masculina nos intimida, pois somos criadas assim, desde pequenas.

Não somos preparadas para reagir, mas sim para aceitar passivamente. Normalmente na cabeça de muitas meninas, desde cedo se forma a idéia de que o pai é forte, bravo, disciplinador, e a mãe carinhosa, bondosa, frágil e meiga, esses esteriótipos levamos para nossa vida adulta. Você pode achar que isso é coisa do tempo das nossas avós, que agora tudo mudou.. Infelizmente muitas estruturas de dominação, submissão da mulher, seguem firmes e fortes, passando de pais para filhas, filhas para filhas… Tenho visto isso intensamente nesse ciclo de oficinas.

Ressalto aqui que não estou falando especificamente deste ou daquele homem, mas falando sobre uma construção muito forte do ser homem que existe e se manifesta na sociedade em geral e dentro de inúmeras casas. E de uma outra construção do ser mulher, do ser menina que aprisiona e poda as nossas meninas.

São tantas as meninas de 15 a 18 anos que, sofrendo os mais diversos tipos de violência dentro de uma relação, ainda assim acreditam que somente aquele homem é capaz de protegê-las e que com ele, apesar de tudo é menos pior do que lá fora, sozinha. Não é fácil sair da sujeição. É um caminho árduo que requer conhecimento, empoderamento e sim apoio. Muitas mulheres ficam em cima do muro, não querem mais a violência, mas também não sabem como sair dessa situação. Dai você vai me dizer: ahhh mas todo mundo sabe que tem lei, tem casa de apoio, tem informação.. A situação infelizmente não é tão simples.

Empoderar a mulher! Empoderar nossas meninas! Empoderar a mulher não é delegar poder para ela, como se fosse um benefício, um favor que a sociedade deve oferecer para ela, empoderar é uma busca da mulher pelo seu próprio poder, pelo poder que sim esta implícito nela, que nós muitas vezes desconhecemos.

De Mariazinha a Maria empoderada!

Autor: Ana Rita Dutra

Ana Rita Dutra dos Santos é Especialista em Novas Tecnologias Aplicadas a Educação. Feminista, professora e educadora.

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