Isso não é um convite para me estuprar!

Texto de Renata Lima.

O título desse post é a tradução do site: “This is not na invitation to rape me“. Encontrei-o no começo do ano passado, quando fiz o atendimento de um caso de estupro. Foi uma peleja, foi atípico e foi o clássico “date rape” mas, não temos essa figura e o sujeito poderia ficar impune se não fosse o trabalho de interpretação e de hermenêutica que fizemos para demonstrar que a violência psicológica também é violência, conforme prevê a lei Maria da Penha.

Isso não é um convite para me estuprar. Crédito da Imagem: This is Not An Invitation to Rape Me – Campaign Pack. Clique na imagem para conhecer melhor a campanha.

Quase um ano depois do fato, consultei o site do Tribunal e vejo que o Ministério Público ofereceu denúncia e ela foi recebida.  A jovem vítima deste crápula, eu espero que fique bem, que a catarse de haver ido até o final a ajude a se recuperar. O mesmo não posso dizer de outra vítima, esta no começo deste ano. Registramos a ocorrência, mas depois a atendente me disse que o companheiro da vítima estava do lado e o tempo todo ficava culpando… um doce para quem acertar… isso mesmo! O “companheiro” culpava a vítima. Que saiu de casa após brigar com ele e havia bebido. Logo, à noite, se foi presa fácil de um predador, de quem é a culpa??? Lógico que não é do animal irracional que tenta estuprar uma mulher semi-desacordada, mas da própria mulher.

A gente lê sobre isso, escreve sobre isso, vive essas situações. Mas o mais triste é que enquanto por uma vítima eu consegui fazer alguma coisa, a parte que me cabia, pela outra não consegui sequer convencê-la de que não, ela não é “estuprável” por haver se excedido na bebida, brigado com o companheiro e saído para a rua, em um horário tardio, para tentar espairecer.

Vão me dizer que se fosse um homem aconteceria a mesma coisa. Sim, a mesma coisa. Antes de tentar estuprá-la, o agressor a derrubou e roubou o dinheiro que estava com a vítima. Em seguida, decidiu tirar as roupas da mulher, e, no meio da rua, descer as próprias calças, em busca de penetração e da satisfação de seu senso distorcido de prazer. Prazer que não é necessariamente sexual. É um prazer que em geral decorre da sensação de poder, de se impor sobre a vítima. Pouco provável que um assaltante fosse tentar estuprar um homem semiconsciente, da mesma forma que tentou estuprar uma mulher. (salvo se o homem semiconsciente for um homossexual ou uma travesti, e isso for de conhecimento do agressor, muito comum ocorrer!)

Agora, me pergunto: o que faz com que alguns homens, desde jovens, tenham a capacidade de considerar as mulheres como presas? Como objetos ao seu dispor, especialmente quando vulneráveis, fragilizadas? Vemos depoimentos de jovens e, mesmo os que buscam outras possibilidades de vivência, sem as limitações do machismo, confessam que muitas vezes reincidem em brincadeiras ou comentários que não escondem o conteúdo misógino, homofóbico e preconceituso.

Na segunda-feira, assisti a reprise de um episódio da série Two and a half man. Jake, sobrinho do Charlie (personagem principal vivido pelo conturbado ator Charlie Sheen), estava tomando conta de uma mulher jovem que havia trepado com o Charlie, possivelmente bêbada, e desmaiou no quarto. Até aí nenhum problema diante do conteúdo da série, porém, a noiva do Charlie, Chelsea, estava chegando, e não podia descobrir a “traição”. Logo, Charlie pede para Alan, seu irmão, se livrar da moça e este pede ajuda ao filho, Jake. Jake já está com uns 15 ou 16 anos (sei que deixou de ser a criança fofinha do começo para se tornar um adolescente comum) e enquanto o mesquinho do Alan negocia com oCharlie a grana para levar a moça para um hotel, Jake está no quarto tentando tirar uma foto com a jovem desmaiada, para se exibir para os colegas. Legal, né? #NOT

E me lembrou de outra reprise, desta vez do filme “Gatinhas e Gatões” (Sixteen Candles no original), filminho da década de 80 com Molly Ringwald e AnthonyMichael Hall. Clássico do John Hughes. No geral um filme de sessão da tarde. Mas tem uma cena que sempre me causou um certo desconforto: a namorada do Jake (o quarterback, lógico…) é a líder de torcida cobiçada. Em uma festa, na casa do Jake, o nerd metido a galã entra de penetra e depois de quase ser trucidado e todos os clichês de romance colegial estadunidense, acaba sendo um dos últimos da festa, junto com o Jake, que ficou fascinado pela ingênua Samantha (a ruivinha Molly) e a líder de torcida bêbada e inconsciente.

Os dois, Jake e o nerd metido a galã (que não tem nome, não é a toa que não me lembrava, o nome do personagem dele é… “The Geek”), acabam conversando, sobre as mulheres e fazem uma troca. Na verdade, Jake, o bonitão, o bom  moço, o gente boa, entrega a namorada (a essa altura Ex-Namorada, claro, mas ela ainda não sabe disso) ao nerd-aspirante-a-galã. E o nerd a leva, desacordada, para onde? Para a casa dos outros nerds, onde tentam tirar fotos para provar que ele “pegou” a “gostosa”. A cena é supostamente cômica, uma vez que as fotos não saem enquadradas e não dá pra identificar quem seria “o pegador”.

Mas é isso. Da década de 80 até hoje, é considerado “normal” tirar vantagem de um mulher desacordada, embriagada, desmaiada. Até quando? Até quando o entretenimento vai estimular, incentivar, incitar a esse comportamento??

Enquanto escrevia, me lembrei de outra cena recente, de um comercial salvo engano alemão, no qual um “nerd” estilizado oferece carona a uma colega bonitona em seu carrão.  Após fazer uma curva bem acentuada para que a menina bata a cabeça e caia no seu colo, passa em frente a um bando de “atletas” (vamos usar nerds e atletas aqui somente para reproduzir o estereótipo de filme de Hollywood, ok?), com o intuito de simular  que a garota, semiconsciente, estava lhe fazendo um boquete. E inclusive o cara faz o gesto que simula um boquete, pressionando a língua contra a bochecha e fazendo gestos com a mão. Não sei se a publicidade foi retirada do ar, não vou lincar o vídeo do youtube que a mostra na íntegra, porque nem quero que ela seja divulgada.

Mas serve para lembrar que, se existem homens que respeitam e gostam das mulheres, existem outros que sob o discurso “mas eu não sou machista, tenho mãe, tenho irmãs, tenho filhas!” odeiam as mulheres, existem homens que maltratam as mulheres, existem homens que estupram e existem homens que matam.

E, entre todas as formas de preconceito contra mulheres, as mais ofensivas são as que fazem piada com assunto sério.

Estupro é assunto sério.

Assassinato é assunto sério.

A gente pode brincar com o sexo (deve! Sexo é lúdico, é prazer, é alegria, ou deve ser.)

A gente pode brincar com a morte? Sim, A morte faz parte da vida, fazer piadas com a morte é uma tentativa de negar sua existência? Pode ser.

Mas piadas e gags com assuntos como estupro, que tem uma das maiores taxas de subnotificação entre todos os crimes, a maior entre os crimes graves, é como negar a gravidade do fato, a gravidade do trauma, é legitimar a conduta do agressor, do predador, e objetificar, de novo, a vítima. Fazendo-a, de novo, vítima.

Não, o fato de eu ser mulher não é um convite ao estupro.

Não, o fato de eu te beijar ou algo mais, não é um convite ao estupro.

Não, o fato de eu beber não é um convite ao estupro.

Está na hora de parar, não está?

Autor: Renata Lima

Mulher em um mundo masculino. Delegada de Polícia. Tuiteira, blogueira, leitora compulsiva. Feminista, libertária, de esquerda. Contradição? Não. Liberdade.

56 pensamentos em “Isso não é um convite para me estuprar!”

  1. ah, isso eh otimo, sabe. na minha despedida (quando vim do BR pra FR), fiz uma festa, fiquei super bebada e dormi antes mesmo dos convidados irem embora. aih um “amigo” tirou umas fotos comigo desacordada: eu na cama, e ele la fingindo que tava me lambendo e me pegando de uma forma bizarra. e eu la, dormindo… olha, parece nao ser nada demais, sabe, mas quando vi essas fotos, eu fiquei TAO PUTA (tambem pelo historico dessa figura que nao vale a pena ser trazido aqui, mas…). nao se perde uma oportunidade, eh foda.

    1. Luci,

      Acho que muitas das mulheres que bebem(os) já passou por uma sitação assim.
      Eu fiquei anos sem beber vodka, pq quase fui vítima de um date rape quando tinha 18 anos. Por sorte, ou por proteção da minha querida avo, sei lá, eu não creio nessas coisas, mas elas existem!, eu “acordei” antes dele fechar a porta. Em uma festa, só com gente conhecida. E ninguém percebeu nada. Eu só fiquei cinco minutos com o cara, mas não lembro nem de tê-lo beijado.
      E o pior, é isso mesmo, vai ter gente que vai falar que não é nada demais, o que a culpa é minha. Mas enquanto com os homens bêbados nessas festas o máximo que acontece é fotos de sacanagem, fósforos, creme dental, ou poses humilhantes, com as mulheres em geral tem cunho sexual.
      E o pior: como nas cenas do filme, da série e da publicidade, essas cenas são corroboradas todos os dias. Não é questão de senso de humor. É questão de dignidade e de respeito.
      Mas na cabeça de muita gente, o fato de uma mulher sequer beber, ou pior, ficar bêbada, já é motivo para desconsiderá-la como digna de respeito…

    2. Renata, parabéns pelo texto e pelo blog. Gostei, mesmo. De ambos. Um abraço forte, Carlos Tautz

  2. Parabéns pelo post, Renata! Você tocou em várias questões superimportantes, mas destaco duas: a questão de mulher bêbada ser automaticamente “estuprável” e condanada por ter sido estuprada e a tentativa de negar a gravidade do fato. Ambas empoderam o agressor, fazendo com que ele se sinta no direito de repetir os seus atos e, ainda por cima, de justificá-los. Enquanto as pessoas não se assumirem como machistas e continuarem vendo um abismo entre uma piadinha de estupro e um estuprador (em vez de verem uma gradação), estarão contribuindo para a perpetuação de práticas traumáticas e desumanas contra a mulher.
    Beijos!

    1. Maira,
      Obrigada, querida.
      Como disse para a Luci, são tantas as coisas que tornam uma mulher “estuprável”… passamos tanto tempo convivento com um conceito jurídico de “mulher honesta”, ou seja, a mulher que merece a proteção do direito, com conceitos de que se a mulher não “resistir”, de forma quaee heróica, ela não é digna da proteção, que me embrulha o estômago ver cenas como as que descrevi, passando em horário comercial na tv…
      Parece que as pessoas não tem noção de que esssas “piadas” e essas “brincadeiras” tem consequências graves, com repercussão inclusive nas decisões jurídicas de proteção à mulher.
      Bjs!!

  3. É um absurdo tomarem que pelo fato de tu estares bêbada, dormindo ou o que for podem abusar… O pior é quando tu vais denunciar e é tratada como desprezo, humilhada e afins, conheço algumas histórias de festas de faculdade que as meninas tinham vergonha do que havia acontecido e sentiam-se extremamente culpadas!

    1. Luka,

      é tão óbvio para nós, para quem reflete apenas alguns minutos, mas para tantos é exatamente o contrário…
      Temos que fazer trabalho de formiguinha para mudar isso.
      Abs
      Renata

  4. Andar de vestidinho curto e decotado ñ é crime; estuprar, é.

    Andar sozinha à noite por onde qer q seja ñ é crime, estupro, é.

    Ficar bêbada ñ é crime, estuprar é.

    Mto simples, mto simples. Será mesmo tão difícil entender?!

    1. Gabriela,
      Como eu disse para a Luka: não é difícil para quem se dispõe a refletir por poucos minutos, e tentar se colocar em nosso lugar, caminhar um quilômetro com nossos sapatos (figurativo, adoro a exprssão “in her(his) shoes”, expressa tão bem o que é a empatia…).

      Abs

      Renata

  5. Muito bom o seu texto!
    Um dia conversando num grupo de amigos, ouvi de um colega meu que uma mulher que desiste de transar depois das preliminares não tem direito de reclamar se for estuprada, aquilo me chocou muito. Violência é violência independente de se a menina já transou com o cara, se ela começou e desistiu no meio do caminho. Tem homem que ainda não entende isso!

    1. Sarah,

      Um dos casos de estupro que eu relatei, o primeiro, foi desse jeito.
      E eu convenci poucas pessoas, mesmo mulheres, de que não, só pq ela beijou e deu uns amassos no cara, mesmo que estivesse na casa dele, não gera automaticamente a presunção de que vai “dar”.
      É tão revoltante, porque até nós, mulheres, ficamos nessa dicotomia, de santa e puta, de honesta e “piriguete”, de “ah, mas também…”
      “Ah, mas também… ” o cara….!!!
      Isso cria a cultura de que nós somos responsáveis pelo controle não da nossa sexualidade, mas da sexualidade e dos “instintos” (my ass!) dos homens. É humilhante para os homens tb, porque os reduz a um mero amontoado de hormonios e instintos, sem capacidade de raciocínio!
      Bjão!

  6. Mandou benzão Renata!!! Bem bom ler seu texto e conhecer a campanha, que é uma ótima sacada.

    1. Társis,

      Valeu pelas indicações!
      O punk é uma das minhas paixões, mas estou numa era proto-punk, então… rs
      Engraçado isso, né? Como o rock e seus derivados tem um potencial iconoclasta, mas na maioria das vezes apenas reproduzem os preconceitos em geral… O punk teve muito disso, de romper com o estabilishment, e por isso é um dos meus gêneros preferidos.
      Grande abraço!!

      1. poxa Renata,

        que bacana você responder todos os comentários aqui.

        afinal, isso é web 2.0, não é mesmo?

        o punk hardcore, apesar dos pesares, acaba sendo o estilo musical (arrisco dizer dentro de todos os outros que existem) que resguarda o inconformismo.

        o mais legal disso tudo é ver alguém do direito militando com paixão por algo que realmente acredita e ainda usa as ferramentas atuais, que vamos combinar, não é de muito uso do juristas.

  7. sempre fui culpada por todos quando acontecia algo comigo, se algum homem me seguia na rua, se ele se masturbasse ao me ver (já ocorreu pelo menos umas 4 vezes..), etc. Para meu pai e irmão, a culpa era minha pois eu estava com roupa imprópria para andar na rua.
    Sempre me perguntei se então não existe violência sexual em países que aas mulheres se escondem atr´s de burcas…
    Infelizmente a culpa não é nunca do culpado.

    1. Pois é, Katarina, o julgamento moral sempre é mais pesado sobre as mulheres.
      Esse resquício de uma época da sociedade ocidental na qual a mulher era posse do pai ou do marido ou de outro responsável masculino, e por isso, só por isso, merecia proteção, é bem visível aí, né?
      Porque, até 2009, o titulo do Código Penal que falava dos crimes sexuais era “Dos crimes contra os costumes”, e tinha conceitos como virgindade e “mulher honesta”, para agravar os crimes, além de prever o perdão para o ofensor que se casasse com a vítima.Porque a desonra não era dele, pelo estupro, mas da vítima e da família…
      Mudou o código penal, mas a mentalidade, ah, essa vai demorar tanto para ser alterada…
      Bjs!

  8. Renata, parabéns pela reflexão. Acho importantíssimo que estas questões sejam postas de modo didático e claro, como é o caso, porque auxiliam na “interpretação” das mensagens que circulam em nossa sociedade e, muitas vezes, não são percebidas como contribuição/reforço das práticas sociais.

    Abraços. =)

    1. Luiz Henrique,

      Obrigada pela visita.
      O processo de despertar e passar a questionar esses padrões é doloroso, ainda mais que em todos os lugares a gente é obrigada, ainda, a ver tais representações colocadas, sem um contraponto ético e crítico…
      Abs

  9. Só agora vi que eu não tinha comentado. O post é sensacional, Renata, e a campanha é muito boa. Gostei da idéia de entrarmos em contato para traduzir. Será que rola?

    1. POis é, Iara, acho a campanha ótima, mas meu inglés não é tão bom, a gente podia discutir na lista para entrar em contato, o espaço do blog seria super adequado para lançar por aqui, não é??
      Bjs!

  10. Parabéns, Renata. É um ¨desabado¨ consciente e sensato, realista e objetivo. Parece que sou o primeiro homem a comentar seu post… Hoje, aos 30 anos de idade, posso te dizer que sempre repudiei essas atitudes, geralmente feitas por adolescentes. É ume grande falta de respeito às mulheres, seguramente. Porém, minha cara, au acredito que o seu post não irá mudar em nada o pensamento dos animais que tiram proveito das mulheres, digamos, ¨vulneráveis¨. Sugiro a todas vocês pensarem muito bem antes de ingerir álcool! Lembrem do que poderá acontecer quando vocês ficarem ¨alegres¨. O homem respeitoso, educado, sensível, aquele que jamais tiraria proveito dessa situação, também é o homem que gosta de uma mulher consciente, madura, sem crises adolescentes de bebedeira. Veja que é uma crítica minha, mas assim como você, tudo que mais quero é acabar com estes acontecimentos. Daqui a alguns anos minha filhinha estará entrando na adolescência, e eu espero que ela não dependa exclusivamente do bom senso masculino.

    1. Desculpe o engano, não fui o primeiro homem a comentar seu post. De qualquer forma espero contribuir com mais um ponto de vista. Abs.

    2. Bem, Vinícius,
      Fico grata pela visita, e pelo comentário.

      No entanto, vejo em seu texto um tom de algo que é muito difícil para todos nós, que vivemos em sociedade, nos livrarmos: o julgamento moral.
      Você fala que um “homem respeitoso, educado, sensível, aquele que jamais tiraria proveito dessa situação, também é o homem que gosta de uma uma mulher consciente, madura, sem crises adolescentes de bebedeira”.
      Aí você já está deixando explícito o julgamento moral sobre a mulher que bebe.
      Não queremos “depender do bom senso masculino”.
      Não consideramos homens inferiores ou animais, acreditamos na possibilidade de uma sociedade igualitária, em todos os sentidos.
      O sentido do post, talvez não alcance além do público restrito que aqui frequenta, mas mesmo para esse público, o importante, agora, é ter voz, e saber que NÃO é culpa da vítima, se uma pessoa sem controle de impulsos se aproveita, se um psicopata nos persegue, ou se um companheiro possessivo julga que tem direitos sobre nós, mulheres.
      Então, agradeço seu ponto de vista, mas peço que você considere as palavras que escrevi acima.
      Espero que a sua filha não seja criada para ser uma vítima. Espero que ela saiba se defender e fazer-se ouvir.
      E a responsabilização da vítima, pelo próprio estupro, é tática, repugnante, de defesa, não só nos casos de embriaguez, mas nos casos de roupas consideradas (pergunto: por quem? ) provocantes ou vulgares, no caso de a mulher estar em um encontro, ou seja, já está em uma relação de intimidade ou mesmo de preliminares.
      Acho que já falei em um dos comentários anteriores, que considerar que um homeme é incapaz de se controlar se for “provocado” sexualmente, e não responde pelos seus instintos, isso sim seria inferiorizar o sexo masculino. Isso sim seria considerá-lo irracional. O aue não é o caso.
      Abs

      1. Depois, os masculinistas vem se queixar de Valerie Solanas porque no sei livro tem a frase “todo homem é um estuprador em potencial”.
        Ué, é a sociedade que vê o homem é assim. Inclusive, são os homens que gostam de ver assim, de dar conselhos como se assim o fosse, de julgar as mulheres que como se essa fosse a realidade.

  11. Renata,

    Você veja como a coisa é entranhada. Eu fico pensando: a gente ñ pode parar de falar. E qanto mais gente, melhor. Porqe a gente vai lapidando e a diversidade de forma deve servir a nosso favor.
    Porqe o comentarista ali:
    “(…)Porém, minha cara, au acredito que o seu post não irá mudar em nada o pensamento dos animais que tiram proveito das mulheres, digamos, ¨vulneráveis¨. Sugiro a todas vocês pensarem muito bem antes de ingerir álcool! Lembrem do que poderá acontecer quando vocês ficarem ¨alegres¨.(…)”
    Ele nem se percebe machista, me pareceu. Te dizendo que acredita que o post ñ irá mudar o pensamento das pessoas qer o q? Te calar? Ah ñ, ele ñ é machista, é um cara bem intencionado, qer só nos alertar, abrir nossos olhos para os perigos que nos rondam…
    Eu fico boba. Como as pessoas ñ qerem entender! “É assim e pronto, voc~es que fiqem precavidas.” “Ñ sejam ingênuas…”, etc.
    A gente ñ está ‘andando fora da linha’, a gente não está sendo leviana, nem má, nem desrespeitosa, qando bebenoms, andamos de roupas curtas justas e decotadas por lugares ermos madrugada afora. Nem precisa ser só um ‘item’. Pode ser tudo junto!

    Qem está sendo cruel, mau, nojento, leviano, egoísta, desgramento, desrespeitoso, insensível, inconsciente, inconseqente, aproveitador, imaturo (isso eu já ñ sei…), criminoso!!!, é qem estupra.

    Céus!, eu acho que filosofia e literatura tinham que ser mto bem dados. As pessoas ñ sabem ler e nem pensar.

    Ñ sei se é qestão apenas de se dispor a aprender.

    A responsabilidade é sempre nossa? A gente que se cuide, se previna, ‘ande na linha’, etc? Que canseira, isso!

    Ñ!!!, ñ!!!. A gente (todos nós, n importa o sexo ou a origem sexual, até) é que tem que se respeitar profunda e mutuamente.

    É só isso. É simples demais. E há qem consiga a façanha de ñ entender!

    Brigada e beijos, Renata.

  12. Ótimo post Renata!

    Li no face da Clarice Scot e lá mesmo um rapaz bem intencionado comentou que precisamos tomar cuidado, não podemos ser inocentes e acreditar que o mundo é cor de rosa e que podemos agir da maneira que bem entendermos, pois o perigo está a solta…

    Acho que ele e muitos não entendem que a questão aqui maior é a não culpabilização da vítima e sim a “descoberta” que o errado é o agressor. Você já conhece minha história e, tirando duas das diversas situações que me aconteceram, na maioria era dia, eu estava trajada de calça jeans e camisa de malha, sem maquiagem, sem bebida…

    E mesmo assim também fui culpabilizada. “Ah, você sorri demais. Ah, você é muito amigável, o povo fica achando que está dando bola”. Como assim, Arnaldo? Eu então tenho que andar de cara amarrada também, é isso? E, mesmo que eu estivesse dando bola pra alguém quer dizer, como foi bem colocado aqui “ei, vem cá me estuprar?”

    Precisamos mostrar sim para todos que não é culpa da vítima o estupro. Veja, estamos em um estágio ainda tão inferior que é ainda nosso primeiro passo…

    Mas sou otimista. Anos atrás ninguém pensaria assim. Veio “Os acusados”, com Jodie Foster, lembra? E jogou isso na nossa cara. Alguém tem que falar a respeito.

    Obrigada por carregar essa nossa bandeira.

    Bjs

    Adriana

    P.S. Adorei o vídeo do comentário, vou compartilhar no facebook…

  13. Sobre o “convite para estuprar” e a piada do “two and half a men” (que não assisti).

    Primeiramente, recentemente vi uns protestos com placas com dizeres como “a sociedade ensina a mulher ‘como não ser estuprada’, e não ensina ‘não estupre'”. Pois bem, a assunção implícita aí é que estupro é quase que só uma falta de etiqueta, uma indelicadeza, que as mães falam muito “não fale com a boca cheia filhinho” e muito pouco “não estupre a sua irmãzinha/priminha/amiguinha”. Não é, é coisa de psicopata mesmo.

    Ao mesmo tempo que usar qualquer coisa sexy não é convite para estuprar, usar qualquer coisa cara não é convite para ser roubado. Mas não adiante postar na internet tópicos de protesto querendo “explicar” isso para os bandidos. Por que acham que seria diferente com estupradores? Estuprar é algo muito mais doentio que roubar. Ninguém pode realisticamente imaginar que estupradores ou ladrões (principalmente os primeiros) vão “se tocar” vendo textos sobre isso.

    Algo parecido vale quanto a bebida. OK, estar caindo de bêbada não é convite para estuprar. Eu pessoalmente acho até meio desagradável até o estado pré-pré-bêbada, de beberem para “se soltar”, e acho que, enquanto talvez haja aqui uma linha meio turva entre a psicopatia e o mero babaca filho da puta que talvez pudesse tomar jeito se tomasse uns cascudos, há também a linha turva entre a capacidade de decisão da mulher que bebeu para “se soltar” mas ainda pode ser considerada uma adulta responsável e em plena capacidade de consentir com sexo (se não tiver ela mesma tomado a iniciativa), e a que passou da conta. Não estou dizendo, de jeito nenhum, que “merecem”, só é mais complicado de apontar um estupro como tendo acontecido (como no caso do “2,5 men”, houve estupro, mostrado como algo cômico, ou será que talvez não tenha nada disso implícito, ela não perdeu sua capacidade de julgamento mas passou mal mesmo assim, ou talvez bebeu mais depois?), e é especialmente perigoso se colocar nessa situação. Não precisa de “drogas nas bebidas” para isso acontecer, não falta quem beba além da conta. Uma vez vi na TV uma reportagem chocante, as garotas enchiam a cara e ainda sentavam num brinquedo de crianças para girar, com a intenção de fazer o álcool “subir” mais rápido (não sei se funciona, mas a leviandade com que levam estar bêbada não deixa de ser evidente). E a “droga do estupro” mais usada, ao contrário de algumas lendas urbanas perpetuadas até por programas como o “fantástico”, é só o álcool mesmo, ou bebida alcoólica batizada com mais álcool, não com outra droga — não existe a droga “sem gosto e sem aparência” que tanto dizem, uma que de fato existe tem odor e gosto bem perceptíveis e esse mito faz com que até tenham perdido processos para estupradores nos tribunais.

    Enfim, não estou de modo nenhum tentando jogar a culpa nas mulheres, mas não podem levar a sério a idéia de ser só uma questão de “educação” mais do que levariam para qualquer outro tipo de bandido, ou especificamente, de um psicopata. Psicopata não é só como o vilão dos filmes de thriller bobos que sai por aí com facas, é também uma pessoa não violenta, aparentemente normal, só que não tem capacidade de empatia com o sofrimento alheio. E isso me parece componente essencial de qualquer estupro mais propriamente qualificado, que não seja um cara achando que “ela vai curtir” apesar de estar bebaça e etc. Esses sim, talvez possam aprender alguma coisa, mas não sei nem se são a maioria dos casos, nem se há mesmo uma linha clara entre os dois. Em todo caso, a prevenção por parte da mulher, em coisas desde tomar cuidado com roupas, por onde anda, e o quanto e na presença de quem bebe, infelizmente, é a única coisa realisticamente mais capaz de diminuir as chances de ser vítima de estupro.

    É muito triste mas é assim que as coisas são. Eu não sei como as mulheres conseguem se manter mentalmente sãs apesar de coisas como saber que, se for estuprada alguma vez na vida, as maiores chances são de ser por alguém que conhece. Isso é de endoidar. O que eu imagino que releve um pouco é que esse dado apenas não traz a informação desses conhecidos talvez não serem de todo acima de qualquer suspeita. Novamente, não quero culpar as mulheres de forma alguma, é só um lembrete de que talvez as coisas não sejam tão ruins e enlouquecedoras quanto parecem, só precisando um rigor extra para ter alguém como sendo de confiança.

  14. Nós temos o direito,DIREITO,ir e vir,de vestirt as roupas que quisemos,de ser livres.Os homens que devem aprender a controlar seus intitos brutais e doentes.nÃO É CRIME ANDAR NUMA RUA DESERTA,NÃO É CRIME USAR UMA ROUPA DECOTADA,CRIME É ESSA BRUTALIDADE,MATAR CORPO E ALMA E FAMILIA DE MULHER,CRIME É ISSO.

    p.s Me refiro não a totalidade de homens,so aos doentes,animais e brutos.

    Seu blog é maravilhoso

  15. ler este texto me lembrou um fato ocorrido aqui em Floripa, acho que no ano passado, quando o filho do dono da afiliada da Rede Globo (a RBS TV) e mais dois outros guris, um inclusive dizem ser neto do governador do estado na época… estupraram a colega de 13,14 anos… o caso foi arquivado recentemente por falta de provas… abafaram o quanto puderam o caso… e lembro, que ouvi de muitas pessoas, inclusive de mulheres… que a menina (vítima) pediu para ser estuprada.. ao ir sozinha com três amigos a casa de um deles… provando mais uma vez que a ignorância / preconceito / machismo são coisas que não tem classe social, nem nivel educacional… parece até meio inerente a muitos seres humanos….

    uma tristeza homens machistas.. mas ver mulheres machistas.. que defendem atitudes como essas é de chorar… muitas vezes me entristeço pensando para onde está caminhando a humanidade… parabéns pela coragem, pelo texto, pelo blog!!! Cristiane Mohr – jornalista

  16. Olá, post perfeito, recentemente acompanhei uma mulher aliás uma menina pela peregrinação pós estupro, isso me revoltou, pois o sitema de saúde deixou muito a desejar e fez com o que fosse pra ser um afago, fosse pior ainda, pois a forma comoa vitima é tratada, e dependendo do caso até por ela mesmo, nos deixa muito mal…é revoltante…

    abraços

    fer

  17. Renata, sem palavras. Aconteceu comigo.
    Estava numa fase muito bad, muito mesmo! A menina que morava comigo ná época, insistiu pra irmos à uma balada, fui.
    Comecei a beber e subiu muito rápido. Fiquei com um carinha ainda consciente. Logo depois lembro dele no carro, fomos até a casa dele e transamos. Até aí ok! Não foi forçado.
    Antes de me levar pra casa, passou na balada pegar o tio.
    Quando o mesmo viu meu estado, decidiram ‘se divertir’.
    Voltaram ao apto dele, os dois me estupraram.Me estupraram! Lembro em flashs. Minha calcinha cheia de sangue, eu toda roxa. Depois da ‘festa’ me jogaram numa calçada, próximo à um terreno abandonado.
    Sem bolsa, sem chave de casa. Quando um casal me viu, pediu meu endereço e me deixou em casa. A ‘amiga’, nem se importou. Foi para um motel com um cara, e eu dormi na porta do apto, suja, semi-desacordada e chorando.
    Eu já estaba quase fora do corpo quando saí da boate. Não a culpo, mas sempre cuidei do estado em que ela ficava. O mínimo seria cuidar uma única vez, era só chamar um táxi, poxa!
    Eu me culpo por isso até hoje. Nunca mais os vi. Até procuro na internet, porque isso me assombra até hoje.
    Cruel, cruel!

    Obrigada por pôr em pauta esse assunto!

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