A pornografia nossa de cada dia

Texto de Ana Rita Dutra.

Era mais um dia de trabalho exaustante que chegava ao fim, Rafaela estava saindo do trabalho, vestida em seu uniforme, ela caminhava rumo a sua casa. Neste dois homens param o carro e descem rumo a Rafaela, Ao ver que aqueles homens desconhecidos iam em sua direção, ela sai correndo e entra em um matagal. Os dois homens persistem, entram no matagal e, apesar dos esforços de Rafaela, conseguem encontrá-la. Rafaela começa a gritar, é jogada no chão, enquanto um homem a segura por trás, o outro prensa suas pernas entre seus joelhos e começa a rasgar sua roupa. Rafaela se debate, grita, mas não consegue afastar os dois predadores. Ela esta ali no chão com as roupas rasgadas, sendo segurada para que um dos rapazes a penetre violentamente. Enquanto Carlos….

Este texto pode parecer para nós o relato daquele que pode ser o pior dia da vida de uma mulher. Eu já tive contato com algumas mulheres violentadas e muitas vezes o relato se assemelha com a historia de Rafaela. Com certeza se algumas dessas mulheres violentadas lê-se a historia de Rafaela, iria se comover, iria ter a mente invadida pela cruel lembrança de um momento que viveu. Eu me comovo ao pensar na dor de Rafaela.

Porém, querid@s, Rafaela não existe. Pelo menos esta Rafaela, esse é um trecho de um vídeo pornô que você pode acessar em qualquer site pornográfico. O roteiro pode mudar um pouco, mas facilmente você encontrará vídeos onde uma Renatinha estava andando pelo encostamento e foi surprendida por dois homens e estuprada, ou uma Flávia que foi com seu carro numa oficina mecânica e acabou estuprada, ou uma filha que o pai foi acordar no meio da noite e a estuprou, uma aluna que foi chamada na direção e acaba estuprada pelo direitor, uma empregada doméstica estuprada pelo patrão… Enfim o enredo varia um pouco, mas o ponto crucial destas historias continua o mesmo: o estupro.

Alguns podem dizer que esta relação entre pornografia e violência contra a mulher, é apenas um fetiche, que não há nada de errado em consumir este material, ou quem sabe (e isso eu já ouvi), serve para muitos homens se aliviarem e não machucarem mulheres reais. Bom, se você é uma dessas pessoas, eu lhe digo: Procure ajuda médica. Você precisa no mínimo de um psicólogo.

No fundo de todas essas historias onde mulheres são estupradas, onde as mulheres gostam de serem penetradas a força, serem humilhadas, agredidas, vemos a naturalização da violência contra a mulher. Isso não choca, pois é natural. É apenas um fetiche…

Lembro de uns meses atrás, quando saiu a propaganda da Devassa Negra, uma menina que estava comigo viu a propaganda pela primeira vez e chorou. Ela se sentiu humilhada, ofendida, agredida, com aquele slogan de que a verdadeira negra se conhece pelo corpo. Depois eu fui para um encontro e ouvi de uma determinada pessoa que era só a propaganda de uma cerveja, era um fetiche, nada demais. Para mim, as lágrimas daquela menina ao se sentir violentada por aquela imagem são o bastante.

Eu não vou dizer aqui que toda a pornografia faz apologia à violência contra a mulher, nem que assistir vídeos pornôs onde uma mulher é violentada, vá com certeza criar um estuprador. Não posso fazer essa afirmação tão categorica. Mas eu posso chamar você leitor à reflexão.

É necessário isso? Por que você consome esse tipo de material? O que você leva guardado ai dentro que te fez ter prazer ao ver a encenação de um estupro? Por que tantos vídeos de mulheres sendo violentadas? Por que isso te dá prazer? No meu blog pessoal eu uso muitos termos como puta, estupro, violência, então nas pesquisas do google, muitas pessoas que procuram pornografia são direcionadas para lá, toda a semana eu vejo nas estatísticas uma grande lista de termos pesquisados como: novinha sendo estuprada, ninfetinha levando no mato, mulher estuprada com dor, sexo violento sangue, mulher dizendo não estupro.. Por que pesquisamos isso?

Anúncio da marca de jeans Calvin Klein proibido em alguns países por sugerir claramente violência e estupro.

A violência contra as mulheres é uma realidade, ela esta enraizada profundamente na nossa sociedade. A cada 2 minutos , 5 mulheres são vitimas de violência no Brasil. Quem já viu uma mulher violentada, numa maca de hospital, em posição fetal, tremendo, sabe o horror que é o estupro. O que você mulher, que já foi vítima de violência sexual, pode falar disso? É muita dor, caros leitores. Violência sexual é realidade e, é também um fetiche. Homens se masturbam fantasiando com histórias fictícias de violência que são reais no nosso dia a dia.

Isso não é natural. JAMAIS vou considerar o sofrimento, a dor, a violência como natural, ou válvula de escape para o que quer que seja… Reflita um pouco sobre isso!

Autor: Ana Rita Dutra

Ana Rita Dutra dos Santos é Especialista em Novas Tecnologias Aplicadas a Educação. Feminista, professora e educadora.

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