Mulheres e discriminação salarial

Texto de Bia Cardoso.

A manchete é: Mulheres ganham 20% a menos que homens, segundo o IBGE. Os comentários são:

– Essa diferença se explica pela menor produtividade que as mulheres costumam ter.

– As mulheres deveriam ganhar bem menos. Quando estão grávidas, saem várias vezes para ir ao médico.

– O homem produz em média 40% a mais do que a mulher (isso, quando esta está 100% disposta a trabalhar, sem problemas relacionados ao seu ciclo fértil ou a questões domésticas).

Olhando essas respostas parece que o mercado de trabalho capitalista sofre terrivelmente com as mulheres. Pois somos criaturas que não produzem o mesmo que os homens e são cheias de problemas pessoais para resolver. Olhe para sua colega de trabalho, ela é essa pessoa descrita aí em cima? Ela é alguém que não está disposta a trabalhar 100%? E se a resposta for sim, ela tem esse comportamento só por ser mulher? Não há nenhum homem que enrola no trabalho, que costuma chegar atrasado e é cheio de desculpas? Na primeira página de comentários dessa matéria há 14 comentários, apenas 1 concorda com a pesquisa, mas finaliza o comentário com: “Quem não reconhece o valor feminino não reconhece o valor da própria mãe”. É perceptível que mesmo com a ampla atuação das mulheres no mercado de trabalho, a maternidade parece perseguir a mulher, às vezes como uma benção que a faz ser praticamente uma santa, outras vezes como uma preguiçosa que não quer trabalhar pois só pensa nos filhos e nas cólicas menstruais.

Você já viu alguém perguntar a um homem, numa entrevista, como ele concilia carreira e filhos? Provavelmente não. Mas qualquer mulher já foi questionada sobre isso em algum momento, mesmo as que não são mães já tiveram que parar para pensar no assunto. Numa rápida pesquisa sobre o assunto no google, encontrei apenas um vídeo que trata do dilema carreira x filhos para mulheres e homens. Porém, quando é feita a pergunta: as crianças ficam com quem quando os pais viajam a trabalho? As opções são majoritariamente femininas: a funcionária, a babá, o colégio, avó, tia ou irmã. Como disse a Iara em A Maternidade como trabalho não pago: “É como se à mulher tivesse sido permitido o acesso à realização profissional contanto que ela continuasse respondendo pelas tarefas que lhe foram destinadas na divisão sexual do trabalho.”

Foto de Zeinab Mohamed no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

A Pirâmide do Trabalho

Um dos principais fatores que fazem com que mulheres ganhem menos que os homens é o fato delas não alcançarem cargos de chefia, o topo da carreira. Como explica José Roberto de Toledo em Elevador Quebrado:

Para as mulheres brasileiras, o elevador profissional não chega à cobertura. Elas estudam cada vez mais do que os homens, preenchem mais vagas no mercado de trabalho que requerem melhor qualificação, mas são barradas antes de chegarem ao topo salarial e ao comando. Dilma Rousseff é a exceção que confirma a regra. A mesma eleição que colocou uma mulher na Presidência da República manteve uma baixa ocupação feminina no Congresso, nas assembleias e nos governos estaduais. A culpa é do machismo das cúpulas partidárias, é certo. Mas o problema se estende a toda a sociedade.

Não vou entrar na questão de assédio sexual, mas importante notar que José Roberto destaca o assédio de homens poderosos como uma reação ao empoderamento feminino no mercado de trabalho. O “The New York Times” contou como funcionárias do Fundo Monetário Internacional evitam usar saias para não atrair a atenção indesejada dos chefes.

Mulheres são maioria nas universidades, são 40% da força de trabalho formal no Brasil, mas não alcançam os maiores salários, permanecem na base da pirâmide. A diferença salarial duplica entre os homens e mulheres que fizeram faculdade. As mulheres ganham, em média, 41% a menos do que seus colegas que estudaram tanto quanto elas. São R$ 2.150 a mais para os homens todo mês. A licença-maternidade é colocada como a principal razão para que os empregadores paguem menos as mulheres. Essa idéia provém muito mais do machismo do que dos gastos reais que a empresa tem, como mostra José Roberto de Toledo no vídeo A discriminação salarial contra a mulher e a falsa desculpa da licença-maternidade:

A desculpa dos empregadores é que as mulheres tem licença-maternidade e que custam mais caro, por isso as empresas compensam esse custo pagando menos. Pura balela. Com dois filhos em média por mulher, o custo médio seria de 8 salários ao longo de toda carreira. A diferença salarial seria no máximo de 5%. Nas carreiras do serviço público, cujos cargos são preenchidos por concurso e as promoções são por mérito e tempo de serviço, a diferença salarial entre os sexos é muito menor. Já no mercado informal de trabalho, onde não há lei, as mulheres ganham muito menos do que os homens. Ou seja, o problema não é a legislação, é o machismo mesmo.

Em pesquisa de 2008 do IBGE, descobriu-se que mulheres com nível superior recebem 60% do rendimento dos homens. Analisando a distribuição entre as atividades econômicas, das mulheres ocupadas verificamos que 16,5% estavam nos Serviços Domésticos ; 22,0% na Administração Pública, Educação, Defesa, Segurança, Saúde ; 13,3% nos Serviços prestados à Empresa ; 13,1% na Indústria ; 0,6% na Construção , 17,4% no Comércio e 17,0% em Outros Serviços e Outras Atividades. Veja também: tabela com as diferenças de salário entre homens e mulheres com 3º grau nas funções mais bem pagas.

Valorização e Discriminação do Trabalho Feminino

Muitas vezes vemos a seguinte situação: o presidente de uma empresa tem uma secretária que faz absolutamente tudo, coordena agenda, cuida da comunicação, assessora o patrão. Quando a empresa cresce, ao invés de contratar a secretária tão competente como assessora, o patrão a deixa no mesmo posto de trabalho e contrata um assessor que irá ganhar bem mais que ela. Essa situação se repete todos os dias. As mulheres permanecem na base da pirâmide salarial, porque não tem seu trabalho reconhecido.

Para não ficar só em exemplos, Adelmir Freire em Diferenças Salarias entre homens e mulheres: algumas reflexões, indica vários textos do IPEA que podem ser fonte para averiguação do preconceito de gênero no mercado de trabalho brasileiro e ressalta:

Os estudos econométricos indicam que esses diferenciais de salários não refletem apenas as desigualdades alocativas. Mesmo que assim o fosse, ou seja, que esses diferenciais de salários tivessem origens nas diferenças de inserções no mercado de trabalho de homens e mulheres, caberia uma indagação do porque dessa diferenciação. Será, portanto, que a própria inserção dioferenciada já não retratasse por si só alguma forma de discriminação?

No texto Evolução do desemprego feminino nas áreas metropolitanas (texto 756, pg. 29) há algumas conclusões sobre as  taxas de desemprego e reforçam a questão da escolaridade, que afeta sobremaneira as mulheres com nível de instrução intermediário.

O grupo feminino mais poupado pelo desemprego ao longo da última década constitui-se das mulheres com nível superior, embora estejam se tornando de 1996 para cá mais vulneráveis. O comportamento evolutivo da taxa de desemprego das mulheres com terceiro grau completo já foi destacado por apresentar patamar baixo em relação aos demais grupos de escolaridade e um comportamento relativamente mais estável na sua evolução. Percebemos que a principal razão da oscilação em suas taxas de desemprego, diferentemente das demais, é a flutuação no nível de atividade econômica (PIB), com a qual apresenta correlação negativa.

No texto O Perfil da Discriminação no Mercado de Trabalho – Homens Negros, Mulheres Brancas e Mulheres Negras (texto 769, pg. 23) as conclusões sobre a discriminação de gênero mostram que a mulher branca sofre menos, mas tem seu trabalho desvalorizado, enquanto a mulher negra sofre todo o ônus da discriminação de raça e gênero:

As mulheres brancas são tão bem ou mais qualificadas que os homens brancos e trabalham em setores industriais e regiões cuja remuneração é idêntica, mas, na hora de decidir o tamanho do contracheque, o delas é muito menor que o deles. A diferença está em torno de 35%, e já foi bem maior. A minha interpretação do perfil da discriminação contra mulheres é que existe um acordo tácito no mercado de trabalho de que as mulheres, mesmo exercendo tanto quanto os homens atividades que exigem qualificação, precisam ou merecem ganhar menos. Afinal, os homens são chefes de família, têm mais responsabilidades, e assim por diante.

A minha interpretação da discriminação contra negros é que existe uma visão do que seja o lugar do negro na sociedade, que é o de exercer um trabalho manual, sem fortes requisitos de qualificação em setores industriais pouco dinâmicos. Se o negro ficar no lugar a ele alocado, sofrerá pouca discriminação. Mas se porventura tentar ocupar um lugar ao sol, sentirá todo o peso das três etapas da discriminação sobre seus ombros.

As mulheres negras arcam com todo o ônus da discriminação de cor e de gênero e ainda mais um pouco, sofrendo a discriminação setorial-regional-ocupacional mais que os homens da mesma cor e as mulheres brancas. Sua situação dispensa comentários.

A porcentagem da diferença salarial está diminuindo com o tempo, mas há muito o que se fazer. Se em 1995 ela era de 40% e hoje está na faixa de 20%, diminuiu pela metade em 16 anos. Precisamos acelerar essas mudanças e para isso é fundamental que desculpas biológicas e maternais não sejam colocadas nos caminhos das mulheres. Políticas públicas que visem o aumento do número de creches públicas, maior tempo de licença-paternidade, inclusão social e educional para mulheres e homens negros e valorização do trabalho feminino são fundamentais para mudar a realidade da discriminação salarial.

[+] IBGE divulga informações sobre a mulher no mercado de trabalho.

[+] Inserção Feminina no Mercado de Trabalho. Dados do SEADE/SP

[+] O Trabalho da Mulher e as Negociações Coletivas. Autoras: Solange Sanches e Vera Lucia Mattar Gebrim. Estudos Avançados, vol.17, no.49. São Paulo, Sept./Dec. de 2003.

[+] O Trabalho Industrial Feminino. Texto para Discussão nº 764. Autora: Hildete Pereira de Melo. Rio de Janeiro, out. 2000, 38p.

[+] Publicações sobre gênero da OIT – Organização Internacional do Trabalho

Um obrigada especial a Barbara Lopes que enviou os textos do José Roberto de Toledo. E a Sharon Caleffi que enviou o texto do Adelmir Freire.

Autor: Bia Cardoso

Uma feminista lambateira tropical.

Os comentários estão desativados.