Existem mulheres filósofas, cientistas, intelectuais?

Texto de Marilia Moscou.

Façamos aqui, leitor/a, eu e vocês, um breve exercício. Sem pensar, em 30 segundos, digam o nome de dez grandes filósofos, cientistas, pensadores, homens ou mulheres. Valendo!!!

… [30 segundos depois] …

E aí? Desses dez quantos são mulheres? E se você fizer esse teste com as pessoas aí em volta, em casa ou no trabalho, quantas mulheres serão lembradas?

Esse assunto há certo tempo passou a me incomodar (e hoje estudo algo relacionado com isso no mestrado – www.mariliamoscou.com para conhecer mais), como imagino que esteja as incomodando agora. Acabo de conhecer o genial jogo “Filosofighters” (veja aqui) lançado pela revista Super Interessante no qual filósofos se encontram e este assunto voltou. Entre oito opções de “filósofos” com quem jogar – e os golpes são baseados em suas teorias e história – há somente uma mulher que nem é um personagem independente. Simone de Beauvoir aparece junto a Jean-Paul Sartre (que aparece com Simone, respectivamente) e, embora sua parceria amorosa não possa ser dissociada de ambas as obras, seus trabalhos enquanto autores e filósofos são bem distintos e até independentes. Além disso, a parceria amorosa é mais frequentemente lembrada e tomada como causa do sucesso intelectual quando se fala de Simone do que quando se fala de Jean-Paul. Ela é mais comumente tratada pelo primeiro nome e ele pelo último. Enfim, fica difícil dizer que a presença dela ali no jogo é, neste contexto, suficiente para se “incluir” as mulheres.

A presença e a obra de várias mulheres na filosofia, na ciência e enquanto intelectuais de forma mais abrangente, é muito pouco reconhecida e valorizada. Seus nomes são frequentemente “apagados” da história da ciência. Quando aprendemos física newtoniana no colégio, por que em momento nenhum é mencionada a obra de Émile du Chatelêt, grande comentadora de sua obra que foi a primeira pessoa a desenvolver a idéia de conservação de energia? Por que ao estudarmos sistemas binários e conceitos de programação raramente se fala do trabalho de Ada Lovelace, que foi a primeira pessoa a desenvolver um programa de computador e a noção de programação?

Hypatia, filósofa e matemática grega. Imagem: Bettmann/Corbis no The Guardian.

Embora possamos ter a impressão de que essa “ausência” das mulheres em nossas listagens no exercício que propus aqui se deva à sua ausência nesses campos de estudo ou à pouca relevância de seu trabalho, isto não é verdade. Uma boa busca e uma lida no documento que indico neste post do meu blog , ou no site Women Philosophers, podem elucidar de cara esta questão. Foi uma mulher que descobriu que o petróleo poderia ser usado como combustível mais eficiente ao invés do carvão e usou sua influência para que a indústria na Europa transformasse seus hábitos. Mulheres desenvolveram instrumentos, conceitos, aparelhos, cálculos, ferramentas, teorias. Raramente são lembradas por seu trabalho.

O jogo Filosofighters infelizmente peca neste aspecto, embora a ideia ainda que sem trema seja genial. Se pegarmos só o campo da filosofia,  veremos que não estao lá (no jogo) autoras cruciais como Hypatia, Emma Goldman, Hannah Arendt, Susan Blow… Se incluirmos intelectualidade em geral, faltariam pelo menos Pagu, Gertrude Stein, Virginia Woolf, Gilda de Mello e Souza, além de inúmeras outras que podemos listar nos comentários! Nesse ponto o jogo decepciona, apesar de que o golpe de sutiã e o beijinho entre Simone e Jean-Paul possam ser fofuchos e bem-humorados (ainda assim, a chatice da consciência feminista fica meio irritada de ver que o golpe da Simone não tem muito a ver com sua obra, mas com uma idéia equivocadíssima de feminismo).

Dê uma olhada e me avise se eu estiver exagerando. Mas acho que é bem por aí. Sem vergonha, contem lá: quantas mulheres nas listagens de vocês? Como foi esse exercício?

Autor: Mari Moscou

Socióloga, blogando firme desde 2005. Mestranda na Unicamp, escorpiana, atéia.

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