Aquele do jantar indigesto

Texto de Ana Rita Dutra.

Quarta feira aqui em casa foi dia de fazermos supermercado. Eu particularmente ODEIO ir no supermercado, por mim minha geladeira e despensa continuariam somente com a tequila, as cervejas e os amendoins… Já meu marido (o que? feminista casa? Casa com homem? Casa sim!), é ótimo com isso. Eu fico nervosa no supermercado, não sei empurrar o carrinho, não tenho paciência de ficar andando nos corredores. Já meu marido é um poço profundo de paciência. Ele vai com uma lista de compras pré elaborada, no local compara qualidade, preço, validade do mantimento, vai comprando, depois faz trocas, enfim, ele é ótimo, com isso e adora.

Como eu estou trabalhando manhã e tarde no centro da Cidade todos os dias da semana, e ele é músico e professor particular de música, seus horários são bem mais maleáveis que os meus, então  durante a semana normalmente quem lava roupa, cozinha, limpa a casa, cuida das crianças (tenho 7 gatos, meus filhos), é ele. No final de semana, ele normalmente esta mais envolvido tocando em bares e ensaiando, eu assumo mais essas funções, quando estamos os dois disponíveis dividimos e nos ajudamos. E assim vivemos muito bem.

As pessoas em geral simplesmente não entendem isso. Como pode um casal ser assim?

Quinta feira a noite estávamos com alguns amigos e familiares, comemorando um aniversário com um jantar na casa de um parente do Gui, e como quase em toda reunião com nossos familiares, logo começaram as cobranças: Quando vai vir o rebento? Ixxi, você não esta dando no coro Guilherme? Qual o problema de vocês? Nós tentávamos mudar de assunto, para não provocar uma discussão mais profunda naquele momento. Mas parece que as pessoas tem a necessidade de “cutucar a onça com vara curta”. Eu, como toda feminista, tenho fama de esquentadinha, mal humorada, estava quieta no meu canto tentando não chamar atenção naquele maldito aniversário. Nisso, daqui a pouco uma “tia” do meu companheiro diz: Ixi, fiquei sabendo que agora é o Guilherme que esta em casa, e a Ana esta trabalhando fora, to desconfiada desse casal hein? As coisas estão invertidas ai, acho que tu não é o homem, hein. Nisso meu nobre companheiro se levanta, larga os talheres e na sua forte voz de tenor, em alto e bom tom diz:

– Ok? Vocês acham que eu não sou homem? Tudo bem! Eu realmente acho que não sou! Porque se ser um homem nessa família, é ser este ser arrogante, incapaz de tomar conta de sua vida, incapaz de limpar aquilo que sujou, incapaz de ser doce, gentil, carinhoso, incapaz de chorar, de rir, de dançar, se ser homem é olhar para a companheira com ar de superioridade, imputa-la com uma série de papéis pré estabelecidos e preconceituosos, se ser homem é não ver a mulher como alguém que tem os mesmos direitos e deveres, se ser homem é não respeitar, e ter que me resumir a uma corrente que diz que você deve peidar, arrotar , coçar o saco e esperar tudo de bandeja na sua mão, ok! Eu não sou homem! Me recuso a ser esse homem! Me recuso a ser o machão, me recuso a ser preconceituoso, me recuso a ter que ficar reafirmando a minha sexualidade, me recuso a não respeitar a diversidade sexual, me recuso a esconder as minhas emoções. Me recuso a me acorrentar e acorrentar a minha companheira em algo que não queremos, não concordamos. Eu realmente me recuso. Agora se me dão licença, posso terminar a minha lasanha?

E eis que o Gui se senta, segue comendo, e no local um silencio fúnebre se faz. hehe

Vida de feminista não é fácil, seja homem, seja mulher.  Eu já perdi as contas de quantas vezes fui chamada de assassina, mal comida, frustrada, mulé-macho… Já fui humilhada, difamada. Mas apesar dessas questões, vale muito a pena o vivenciar e expor meu feminismo no dia a dia.  Na sexta depois daquele momento de explosão de indignação, conversei com algumas pessoas que estavam lá, e trabalhamos algumas idéias. Fiquei sabendo que uma outra tia do Gui, que estava por lá, depois disse para os outros convidados: – Eles estão certos. Tem que ser feliz, dividir as tarefas. Eu não quero que minhas netas, sejam como eu fui. Não vi a bunda do meu marido durante todo nosso casamento, porque aquilo não era coisa de mulher decente, passei a minha vida limpando, criando filho, não me arrependo, mas a gente tem que ter opção e fazer aquilo que gosta. Casamento é dois, não um só que manda.

E assim a mudança vai se fazendo e grilhões vão se rompendo.  Homens e mulheres vão se libertando, o feminismo é para todos.

Acho que pra muitas pessoas esse jantar não caiu bem.. hehe Para outras, quem sabe foi uma oportunidade de entrar em contato com outra forma de ver as relações pessoais. O fato daquela senhora ter levantado a voz, e compartilhado sua experiencia, questionado, já foi algo admirável.

E seguimos lutando!  Chega de amarras, chega de grilhões!

Autor: Ana Rita Dutra

Ana Rita Dutra dos Santos é Especialista em Novas Tecnologias Aplicadas a Educação. Feminista, professora e educadora.

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