Brinquedo é coisa séria

Cena 1: Na escolinha, a turminha de Maternal trabalha um projeto sobre afetividade e a professora lê os livrinhos em que uma menininha, a Bibi, passa por várias situações: corta cabelos, vai à escola, etc. A turma tem uma boneca grandona da Bibi, do tamanho das crianças, e todo dia alguma delas tem a tarefa de levar a “amiga” para casa. Alguns meninos se recusam a levar Bibi pra casa, dizendo que “boneca é coisa de menina”.

Cena 2: Três crianças brincando juntas, uma menina e dois meninos, idades entre quatro e seis anos de idade. Estão no alto de um daqueles brinquedos com escadas, escorregadores, plataformas. Os pais sentados em dois bancos em volta conversam, de olho em seus filhos. O pai do menino mais velho levanta a voz e pergunta pro filho e pra coleguinha (uma vizinha da mesma idade que o garoto):”Vocês estão brincando do quê? Não é de casinha não, né? Não é pra brincar de casinha não, já falei!”. Então o moço não desvia os olhos das crianças e informa aos outros pais: “Não quero que meu filho fique brincando desses negócios de casinha não. Não é brinquedo pra ele.”

Cena 3: A lista de material para um novo ano letivo chega. Imensa. Entre os itens variados são pedidos um livrinho, um jogo qualquer, um carrinho para meninos ou boneca para meninas, um baldinho com pazinhas e um jogo de panelinhas. Na hora de procurar as panelinhas os pais do menino só encontram peças cor-de-rosa ou lilás. Com meninas sorridentes e faceiras nas embalagens. O menino gosta imensamente do brinquedo e pede para abrir antes que o material todo seja levado; é atendido, brinca com gosto e com naturalidade.

Se me permitem o comentário infame, “não é brinquedo não”. A gente vira do avesso pra tentar instaurar um clima de liberdade em casa, de respeito às opções e aos interesses da criança, a gente tenta ensinar a ela desde pequena que não tem esse babado de “rosa pra menina”, “azul pra menino” e de brinquedos separados por gênero, mas não precisa nem botar o pé pra fora de casa! Liga aí a televisão em canal com programação infantil, faz favor. Por que não aparecem meninos na propaganda da maquininha de lavar roupa, que é fabricada naquela cor rosa-Barbie? Por que a boneca-bebê é “Little Mommy” e não “Little Daddy”? Será que isso tem a ver com o fato de que na agenda da escola do meu filho os avisos do dia-a-dia escritos a caneta começam sempre com “Mamãe, favor providenciar…”? Será que há bonecas que falam “pa-pai” no lugar do costumeiro “ma-mãe”? Então as bonequinhas adoráveis são todas filhas de mamães solteiras?

Conversando com uma amiga que vive na Alemanha contei que nessas férias meu filho, passando uma temporada na casa da minha mãe, ganhou uma pia com loucinha de plástico pra lavar (sai água de verdade, amigos. Eu achei fofo demais, e olha que eu TENHO uma pia de verdade com louça de verdade e água de verdade e não acho a mínima graça, não é impressionante?), um conjunto de feirinha com cestinha, balancinha e caixinhas de produtos, legumes e frutinhas de plástico, e mais um conjuntinho de panelinhas com legumes e frutinhas que podem ser “cortados” com uma faquinha de plástico. Só que, como comentei com a minha amiga, era tudo cor-de-rosa. Pra mim isso não é problema não, nem pro meu moleque, nem pro pai dele, pra ninguém. O lance chato é que o rosa está lá, mais uma vez, pra marcar aqueles brinquedos e atividades ali representadas como algo destinado às meninas, porque a lógica besta do setor é o “rosa de menina”. Cadê as panelinhas vermelhas, amarelas, verdes?

"Minha primeira cozinha", à venda na Toys R Us alemã. Tem como ser mais fofa...e unissex?

E então minha amiga me mostrou essa busca aqui, feita na loja virtual da Toys R Us pras terras alemoas: ela usou o termo “Küche”, que é “cozinha”, e os resultados que retornaram mostram uma grande variedade de conjuntos e apetrechos de todas as cores do arco-íris, e as imagens mostram meninos e meninas brincando juntos (nah, nada do menino sentadinho em frente ao pratinho e a menina de avental cozinhando, ambos ali com a mão na massa). Talvez isso tenha a ver com o fato de que, segundo ela, naquele país meninos e meninas aprendam Economia Doméstica na escola: todos passam roupa, conhecem noções de cuidado e manutenção da casa, aprendem a administrar o lar, a estabelecer um mínimo de independência para quando saírem de casa. No nosso país algumas reportagens (como essa e essa) comentam que @s filh@s da classe média têm retardado cada vez mais a saída da casa dos pais – é a chamada Geração Canguru.

O que precisamos fazer, aqui no nosso país, pra que essa mentalidade de “é de pequenino que se torce o pepino” (=se faz o “hominho” ou a “mulherzinha”) vá recuando? Aqui, com meus botões, acho que o mínimo é questionar, resistir e cobrar. Questionar essa fabricação de estereótipos de gênero (e, consequentemente, geração de repressão e infelicidade), resistir a esses padrões pra lá de datados, cobrar das pessoas dos nossos círculos de convivência que elas também questionem se precisamos reproduzir os modelões do tempo dos nossos avós: todo mundo conhece mulheres que trocam pneus, que assumem o sustento da família, homens que lavam roupa e fazem comida, temos brigado tanto para que mesmo a homossexualidade seja descolada dos estereótipos de sempre. Passa da hora, aliás, de pararmos de enxergar esses casos como “especiais”, “diferentes” – quando for perfeitamente normal que a mãe faça jornada profissional fora de casa e que o pai assuma afazeres domésticos, ou mesmo que as famílias os dividam igualitariamente, quando não for motivo de espanto nem de cochicho o estabelecimento de um casal gay, então aí a gente pode virar e dizer que vive uma realidade de respeito e igualdade com relação à afetividade, a papeis sexuais e vida doméstica. Também podemos começar a chiar pra indústria de brinquedos e para o pessoal da publicidade, por que não? Eu aposto como existe sim demanda para brinquedos que saiam desse tradicionalismo todo.

Tem gente que veria aqui um gay em formação. Ou uma minifeminista dominadora exercendo seu poder... Eu vejo crianças se divertindo.

Enquanto isso o moço que não quer o filho brincando de casinha deve achar que criamos nosso menino com o incrível perigo dele virar “bichinha”. Paciência. Pra ele pode ser ofensa, pode ser condenável. Pra nós não é, até porque a orientação sexual do menino é questão íntima, fora da alçada dos pais. Fundamental é, acima de tudo, criarmos uma pessoa feliz.

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Agradeço muito muito à Camila Gläser, Schatz (Tesouro), pela prosa sensacional a respeito do tema desse post e pelo mergulho no mundo dos brinquedinhos de casinha alemães.

PS: A famosa IKEA tem uma linha fofa de brinquedos de cozinha. Nada cor de rosa – a brincadeira não é representar a realidade? Alguém aí tem fogão pink ou microondas lilás?

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Fonte das imagens: Toys R Us

Autor: Deh Capella

Sou bibliotecária, mãe, feminista, leitora, musical, curiosa. Baby, we were born to run.

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