Campanha contra estupro causa polêmica. Por que será?

Este post está saindo superultra atrasado, e ainda, repetindo o tema do post de ontem.

Mas tive que mudar toda a programação, diante da matéria que assisti ontem, no Jornal da Globo (veja aqui a versão escrita)

A notícia diz que a campanha, que começou diante da existência de números alarmantes de estupros cometidos, pasmem, não por desconhecidos, mas por colegas de farda, dentro da Marinha dos Estados Unidos, provocou polêmica.

Print Screen da Página do G1.

Polêmica? Por quê?

A resposta, infelizmente, é que, ao tirar a responsabilidade da vítima do estupro, e colocá-la sobre o estuprador, rompe-se toda uma lógica construída…

A imagem do estuprador como a de um “serial killer”, ou seja, uma personalidade psicótica ou perversa, que vai atacar independente de quantas campanhas sejam feitas, que não tem cura nem tratamento, ajuda a perpetuar essa justificativa: se se trata de um “animal”, logo, cabe à vítima se prevenir, não “provocando” os instintos irrefreáveis do “monstro”, ou seja, não saindo sozinha, não se vestindo de forma provocativa, não conversando com desconhecidos, coisas do gênero (falando claramente: sendo uma moça comportada)

Contudo, a maioria do estupros é praticada por pessoas que conhece a vítima, e que muitas vezes com ela tem até relações de intimidade. O crime é cometido por pessoas que não são “monstros”. Que, ao serem acusados de estupro, se defendem e são defendidos, pela sociedade em geral, como sendo “pais de família, honestos, trabalhadores, decentes, religiosos, bons filhos, bons maridos” etc, et al, ad nauseam.

Tradução do cartaz original feita pela Lola do Lola Escreva. E gráfico feito por Kentaro Mori.

E, mesmo diante de situações tão opostas, ou seja, dos “monstros” vs. “bons cidadãos”, a situação de culpar a vítima é o que sempre ocorre. Não só culpar a vítima, mas ridicularizar e menosprezar qualquer tentativa de romper com a lógica perversa que foi construída.

 Um homem de bom-caráter e boa índole, por outro lado, não estupraria uma mulher e portanto não precisa ser “conscientizado”.

Essa sempre é a parte mais complicada de explicar: o estupro é uma manifestação de poder, não simplesmente de sexo (claro, de sexo também, porque, em nossa sociedade, sexo é colocado, exposto e vendido como uma relação de poder, logo… entenda a lógica d@s machistas como conseguir, porque eu, sinceramente, não entendo…)

Se a mulher é bonita, “gostosa”, jovem, logo, merece ser estuprada.

Se é “feia”, gorda, velha, logo, o estupro é um favor.

Feia ou bonita, jovem ou velha, não importa, se estava vestida para ir ao culto, ao trabalho, à escola, à boate, ao bar, ao cinema, ao motel, não importa: a culpa é sempre nossa.

Honestamente, trabalho muitas vezes com o que há de pior na natureza humana. Mas nem mesmo eles conseguem ser tão estúpidos, incoerentes, virulentos, asquerosos, como os comentários anônimos de sites masculinistas e machistas e mesmo de portais de notícias.

Sim, nós, mulheres, temos que nos conscientizar que temos sim, que denunciar.

Mas, mais ainda, temos que sempre, sempre, sempre, lutar para mudar a cultura machista e opressora, mesmo que as vezes, essa luta pareça impossível de vencer.

A notícia, de que um cartaz que começou em um desconhecido blog feminista, nos Estados Unidos, cheguou a ser citado no contexto dos estupros cometidos, por integrantes da Marinha, contra integrantes da Marinha (me digam, por favor, onde estão os psicopatas que não são capazes de se conter? Mas, já sei, ainda hoje, no século XXI, ou XII, dependendo do ponto de vista, vão aparecer aqueles que vão dizer que se uma mulher quer se enfiar em um navio cheio de homens, boa “coisa” ela não é) é um sinal, todavia, de que nossas pequenas ações podem, sim, repercutir, de forma positiva.

Mesmo com tantas pessoas que não entenderam a ironia, o número absurdo de estupros foi divulgado, e isso pode estimular outras mulheres a também falar, e denunciar a violência.

Autor: Renata Lima

Mulher em um mundo masculino. Delegada de Polícia. Tuiteira, blogueira, leitora compulsiva. Feminista, libertária, de esquerda. Contradição? Não. Liberdade.

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