A mulher na capoeira

Fui assistir a um batizado de capoeira na noite de sexta. Para quem não conhece os rituais da capoeira, dessa expressão originária da cultura negra do Brasil, lá vai uma definição do Wikipedia que me pareceu boa: “O batizado é uma roda de capoeira solene e festiva, onde alunos novos recebem sua primeira corda e demais alunos podem passar para graduações superiores. Em algumas ocasiões pode-se ver formados e professores recebendo graduações avançadas, momento considerado honroso para o capoeirista”.

Sempre considerei bastante acessível o ambiente da prática da capoeira, no qual todos podem participar desde que respeitem a hierarquia dos professores e dos capoeiristas mais velhos. Isso nos ensina a sermos pessoas mais humildes e a respeitar quem sabe mais que a gente, independente de cor de pele ou do gênero daquele que ensina. No batizado de sexta, ainda houve apresentações de Samba de Roda e de Maculelê, uma dança de bastões, ambas apresentadas por aqueles que participavam da capoeira, a atração principal da noite. Gostei bastante do batizado e não pude deixar de reparar que a ampla maioria era composta de homens e uma grande parte deles, negros. Dentre as três graduações mais elevadas, havia apenas uma mulher.

Apesar desse ambiente acessível, a primeira vez que me lembro de ter sofrido preconceito explícito por ser mulher foi na capoeira. Era interior de São Paulo, lá pelo fim dos anos 90, início dos anos 2000, quando eu praticava capoeira, atividade extra-curricular oferecida pela minha escola. Eu devia ter uns 13, 14 ou até mesmo 15 anos, idades que me parecem todas iguais hoje em dia. Ia a umas aulas, depois parava um tempo, ia de novo, depois parava durante um período mais longo ainda. Não me dedicava com afinco, mas foi naquela época que comecei a me interessar pelos movimentos da capoeira, pelo gingado, pela musicalidade. O treino da capoeira exige força, concentração, alongamento, agilidade e possibilita o desenvolvimento da capacidade de improvisação.

Tínhamos um professor excelente na época de escola, extremamente habilidoso e todo engajado e encantado pela capoeira. Negro e de origem pobre, ele seguia o Mestre Suassuna, fundador do Grupo Cordão de Ouro em São Paulo.

Num dia de apresentações das atividades extra-curriculares promovidas pela escola, todos os outros capoeiristas da cidade vieram se apresentar, assim como nós também, os alunos do meu professor. Era uma apresentaçãozinha sem importância, nada que se compare a um batizado. Eu, que já não consigo me soltar numa roda de capoeira, estava ainda mais inibida porque não tinha aquela calça branca característica, tinha apenas uma outra calça com motivos de capoeira, mas não era a mais apropriada. Quando tive uma oportunidade de perguntar para o meu professor se haveria problemas em me apresentar com aquela calça, ele, que estava a todo vapor devido aos preparativos, respondeu-me mais ou menos isso: “Pode ser, sim, ninguém repara em mulher mesmo”. Não me lembro exatamente das palavras que ele usou, mas foi isso que ele quis dizer. Na hora, retruquei algo como “ai, que horror!” rindo, ele riu, eu meio que desacreditando no que ele havia dito há pouco. Eu ri por estar embaraçada com a situação. Aí ele saiu rindo e eu fiquei lá parada, meio nervosa, meio chocada, pensando se aquilo tinha sido uma humilhação ou uma brincadeira (será?).

Duas capoeiristas esperando para entrar na roda. Foto de Marcelo Bittencourt/ND

Comecei a pensar em tantas coisas. Ele não quis dizer que ninguém repararia em mim especificamente – que, sendo bastante tímida numa roda, melhor que não olhassem mesmo -, ele se referiu às mulheres em geral, aquelas que praticam capoeira. Embora eu não me engajasse tanto, outras meninas e mulheres se esforçaram bastante para estar lá naquele momento e fazer uma boa apresentação; senti-me mal pelas mulheres que se envolveram e se envolvem com garra na capoeira e que, na opinião do meu professor, não concentrariam tantos olhares quanto os homens. Mesmo que as mulheres capoeiristas se esforçassem tanto quanto os homens capoeiristas, a capoeira, no corpo delas, seria menos interessante que no corpo deles, não seria tão espetacular, nem tão envolvente e inspiradora… não teria tanto brilho. O mesmo suor derramado e aquela força motriz que impulsionava os corpos delas a executar os movimentos valiam menos, então…

Dentre os pensamentos que crepitavam em minha cabeça, um deles me fez questionar todas as vezes que meu professor tinha falado que as meninas que treinavam todos os dias em São Paulo, na capital, eram super ágeis, “até mais rápidas que muito homem”; entendi que ele admirava uma e outra e não @s mulheres que faziam capoeira, era uma e outra mulher que valeria a pena olhar, e só valeria a pena porque a movimentação delas seria parecida com a movimentação masculina.

Caí em mim que, para muita gente mesmo, mulher valia menos que homem, que o machismo não se manifestava apenas em pessoas de pensamento retrógrado: fazia-se presente e atuante; acabara de se atualizar em minha frente! Não me apresentei naquele dia, porque me sentia, de fato, humilhada e com a sensação de estar no lugar errado. Uma voz, lá dentro de mim, sussurrava: “Seu lugar é no ballet, jazz, sapateado, mas não na capoeira”.

Eu sei, entretanto, que essa forma de ver a mulher em apresentações de capoeira é uma das formas de ver e não representa a maioria das opiniões sobre as capoeiristas*. Com o tempo, a sensação de ser desprezada foi passando e, hoje em dia, entendendo um pouquinho mais da nossa sociedade, consigo compreender o que levou meu professor a proferir tal frase. Não era para desmerecer as mulheres propositalmente, não, era – e ainda é – apenas um pensamento recorrente que não se cansa de repetir que mulher “é mais fraca” e “mais devagar” que homem, portanto, não há tanta graça em assistir mulheres fazendo capoeira ou qualquer outro esporte, com exceção de uma e outra. Meu professor era um sujeito bom.

Para muitos, ainda persiste o pensamento que se pergunta: “Pra quê assistir a uma corrida de mulheres sendo que, ao se comparar desempenhos femininos e masculinos em competições, a mulher mais rápida será mais lenta que o homem mais lento?”. Ou mesmo que “o homem mais rápido será sempre mais veloz que a mulher mais rápida”. Tal pensamento entoa a ladainha sobre mulheres e as atividades físicas e desmobiliza as pessoas a prestigiarem mulheres esportistas: “mulheres não fazem coisas tão espetaculares quanto os homens e nunca vão fazer. Então, para quê prestar atenção nelas?”.

Eu ainda acredito que a capoeira seja uma das manifestações artísticas, esportivas e filosóficas mais acessíveis que conheço e essa foi, infelizmente, a minha história de machismo na capoeira. Na maioria dos grupos, valoriza-se, sim, o gingado feminino e a destreza em usar as ferramentas que se tem para dar uma rasteira no adversário, por exemplo. Percebam que, aí, não se trata de força e nem de velocidade física, mas de uma mente rápida e reflexos afiados para se dar bem nesse “jogo de pergunta e resposta”. E, claro, a capoeira sugere uma certa malandragem para perceber o momento exato em que se pode tirar o equilíbrio do oponente.

A capoeira, através da maioria dos grupos, proporciona uma forma mais igualitária de olhar para o desempenho físico feminino, não tendo o ideal de “o mais forte” e “o mais rápido” como os indicadores comparativos, entre homens e mulheres, determinantes no sucesso da atividade física, ou seja, aqueles que seriam os mais dignos e merecedores de admiração nesses quesitos.

Porém, com o ocorrido, deixei de ser tão ingênua a ponto de achar que a capoeira estava livre de preconceitos de qualquer tipo, em particular o de gênero. Como já disse, esse foi o meu caso de machismo na capoeira. Para outras capoeiristas mais experientes, por exemplo, o machismo pode se manifestar de outras maneiras na capoeira. Discutimos sempre no Blogueiras Feministas que o machismo, assim como o racismo etc, estrutura a nossa sociedade e condiciona nossas mentes de forma explícita e implícita, mesmo entre aquel@s que, assim como eu, consideram-se mais receptiv@s a ultrapassar as fronteiras simbólicas existentes na nossa sociedade. E mesmo entre os capoeiristas, portanto.

Ah, pois hoje digo que a capoeira é, sim, o meu lugar e o de todas as mulheres interessadas em sua prática. E sei que, quando eu quiser voltar para esse universo de muito gingado, as portas estarão sempre abertas em qualquer lugar onde haja o contagiante som do berimbau.

Fonte:

Wikipedia. Verbete: “Capoeira (arte marcial)“

* Agradeço à Fernanda Marinho, a capoeirista do grupo, pelas preciosas dicas!

Autor: Karen Polaz

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