Por que sou feminista?

Por que sou feminista?

Você já foi estuprada?

Você já apanhou do seu marido?

Você já fez aborto?

Essas três perguntas costumam aparecer no meu dia a dia, quando o assunto é feminismo e a minha militância feminista e, principalmente, quando me assumo feminista. Felizmente, posso responder negativamente aos três questionamentos. Posso dizer também que poucas mulheres do meu convívio pessoal passaram por quaisquer dessas situações. Mas, infelizmente essa é a realidade de milhões de mulheres e meninas espalhadas mundo afora e de quem eu certamente jamais saberei sequer o nome.

O fato de nenhuma dessas violências ter acontecido comigo, não me traz menos sofrimento. Isso não me deixa aliviada. Pelo contrário. Saber que nesse exato momento em que escrevo na tentativa de alinhavar pensamentos, na tentativa de não enlouquecer, mulheres são violentadas por seus namorados, por seus maridos, são estupradas por um desconhecido na rua, ou pelo padre da igreja, recorrem a métodos totalmente inseguro para interromper uma gravidez não planejada, me embrulha o estômago, me dói tão profundamente que me leva às lágrimas.

Charge de Carlos Latuff

Percebo que muitas pessoas não se importam com o sofrimento alheio, a ideologia da família está cada vez mais presente. “Se não me atinge, não atinge minha família nem meus amigos, não merece minha atenção”. Essas pessoas não conseguem ter a dimensão de que o que acontece com uma mulher, acontece com todas. Ser ameaçada com uma faca pelo namorado, levar um murro na boca do estômago, ser violada numa avenida movimentada da cidade são expressões máximas da violência machista. Atrás de cada ato violento desse, há um mundo de violência simbólica que nos persegue dia após dia, ano após ano, século após século.

Ao mesmo tempo em que isso me machuca, me dá forças para seguir na militância, ainda que isso não possa salvar essas mulheres dos homens que acham que possuem seus corpos e suas almas. Não cabe aqui falar sobre os caminhos que me levaram a ter uma postura feminista, a me organizar em uma entidade, a escrever em um blog feminista, em estudar as relações de gênero. O que me interessa responder a todos aqueles e aquelas que querem saber porque eu não tenho vergonha de dizer que, sim sou feminista, é que eu me sei parte de uma humanidade que mata, tortura, mutila, estupra, violenta milhões de mulheres pelo mundo todo. E isso me dói. E não fazer nada, ainda que o que eu faça seja pouco, muito pouco, me dói muito mais.

Autor: Lis Lemos

Jornalista, Relações Públicas, feminista. Não necessariamente nessa ordem.

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