Brincar é bom, mas consumir…

Hoje é dia das crianças, dia que é antecedido por semanas de propagandas direcionadas para as crianças, são milhares de brinquedos, roupas, acessórios e tudo muito bem adornado com os personagens da moda. Para muitos propaganda não é nada, os pais decidem se compram ou não o que as crianças ficam pedindo a torto e a direito milhares de figuras de ação, carros, pelúcias e afins.

Sijogando para pintar e bordar, esse é o espírito de criança. Arquivo pessoal

Pois bem, hoje as blogueiras feministas chamaram uma blogagem coletiva sobre criança e consumo e é com este tema que venho postar hoje aqui. Muita gente deve pensar que o programa feminista só deve fala sobre mulheres, sua representação na mídia, seus direitos junto a sociedade, porém a luta das mulheres também nasce em conjunto com a luta pelos direitos das crianças, justamente por conta da divisão sexual do trabalho e do acúmulo de responsabilidades que tivemos com a revolução industrial: as mulheres e as crianças eram a carne mais barata para os industriais explorarem.

Negar a necessidade de se debater realmente uma regulação da mídia em nosso país beira ao analfabetismo político, pois em diversos países propagandas são proibidas durante a exibição de desenhos animados, sendo as crianças as principais responsáveis e o principal alvo da publicidade em geral.

É possível dizer não? É. Mas é extremamente difícil em tempos de ditadura do consumo. Como disse Frei Betto, um dos convidados do Forum, estamos vivendo em um estado totalitarista, tão opressivo quanto qualquer outro, pois somos oprimidos pela necessidade de consumir. Há países que reverenciam Alá, Jeová, Buda. Nós reverenciamos o Deus Consumo. Nossos templos são os shoppings. O terço é o cartão de crédito. O pastor é a TV. E dizer aos nossos filhos que eles não precisam de celular aos 8 anos, é coisa de hereges. De gente chata e inconsequente ameaçada com a queima de milhares de empregos na fogueira. (VINHA, Thaís. Criança e consumo)

O consumismo infantil e o apelo direto da publicidade às crianças acaba trazendo para dentro das casas necessidades que não são reais em momento algum, quando falamos de criação e de dia das crianças acho que há algo para além do presentear ou não com brinquedos sexistas (panelinhas, carrinhos, bonecas, figuras de ação), mas também de como todo este perverso sistema de consumo e produção vem afetando diretamente os mais vulneráveis de todos.

Poucos anos de vida e dezenas, centenas de presentes. Falta espaço em casa até para guardar os mimos oferecidos por pais e familiares às crianças. Se antigamente para se ter nas mãos a boneca dos sonhos ou o carrinho mais moderno os pequenos precisavam esperar o aniversário ou o Natal, hoje os brinquedos são comprados compulsivamente, na tentativa dos pais de agradar aos filhos a qualquer custo. Custo que no fim do mês chega na conta e pode deixar toda a família num aperto financeiro. (Presentes para crianças: compre com moderação)

Hoje é dia das crianças, data que para mim deveria ser abolida do calendário, pois dia das crianças sempre foi todos os dias, brincando na caixa de areia, indo para a piscina, correndo para brincar de alguma pira e não apenas um dia a mais para ganhar mais presente, mais coisas que não são necessárias para trazer felicidade e afins. Presente é bom, mas o excesso que tem sido colocado nas nossas vidas desde a infância beira ao absurdo, tão absurdo que lembro da época de colégio em que alguma garota popular havia brigado feio com a mãe pelo fato dela não ter ganhado presente no dia das crianças, deve ter sido uma das primeiras vezes que acabei percebendo o quanto havia coisa absurda acontecendo por aí.

Dar o brinquedo é moleza, né? Difícil é acompanhar de verdade uma brincadeira. Inteira, ali. Entregue. Estar junto faz as crianças ficarem muito felizes. Eu vejo o quanto meu filho se sente feliz quando eu ou meu namorado ou o pai dele ou o avô sentam e realmente se envolvem numa brincadeira. (Kathy. Você sabe brincar?)

Antes que chamem de censura e o escambau é bom lembrar que publicidade não entra no campo do debate e confrontar idéias, está ali como ferramenta para vender algo, para publicizar algo e sim deve ter limites, na França há limites, em outros países também, pois no final das contas não estimulam apenas o consumismo infantil, mas também sua erotização.

Autor: Luka Franca

Paraense radicada em São Paulo, jornalista, mãe, feminista, socialista e do PSOL, ou, 1- a versão feminista de Rob Fleming e/ou do Menino Maluquinho; 2- roquenrou-meio-nonsense; 3- menina-mulher-mãe da pele preta; 4- olhos de comer fotografia; 5- passional e chorona

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