As vadias e as feministas – Uma discussão datada

Texto de Glaucia Fraccaro*.

A Marcha das Vadias teve início em abril de 2011. O histórico do movimento ficou bem conhecido das feministas e dos que se interessam pelo tema. Em tempo: o movimento começou quando um policial, numa palestra numa universidade do Canadá, afirmou que as mulheres, para evitar estupros, deveriam evitar se vestirem como sluts, vadias em português. Foi aí que as ativistas se empunharam da ideia “Don´t tell women how to dress, tell men not to rape” (Não digam as mulheres como se vestir, ensinem os homens a não estuprar) e saíram em marcha pelas ruas de Toronto.

Logo da Marcha das Vadias de Campinhas

Essa foi a primeira das inversões. E uma das grandes. Muitas de nós sequer havia pensado nisso com a dimensão que a marcha deu. Desnaturalizar, transformar algo que consideramos normal e inerente a nossa natureza num problema, numa reflexão, perceber que o patriarcalismo é construído em nossas mentes e culturas e não é um dado, é transformar sim, até para quem se presa em levar uma vida não fascista.

A Marcha das Vadias se espalhou pelo mundo como rastilho de pólvora. Em setembro, já havia acontecido nas principais cidades do mundo e do Brasil: Londres, Paris, Berlim, Nova Déli, Goiânia, Salvador, Belém,  Rio de Janeiro, Brasília e Curitiba, não nessa mesma ordem.

A celeridade da organização dos movimentos para além das fronteiras foi acompanhada pela velocidade da análise sobre o tema. Muitas feministas rapidamente produziram textos e opiniões, isso para não falar no debate travado nas redes sociais. A ligeireza da análise vai inclusive fazer deste texto algo obsoleto: “de novo a discussão sobre Marcha das Vadias? Isso é tão datado, do mês passado.” É claro que a internet é a grande explicação: tanto quanto as marchas foram organizados pela rede, foi possível pensar sobre ele na velocidade da transmissão.

Marcha das Vadias em Capinas. Imagem de Tatiana Oliveira.

Esse tempo determinou análises intrigantes entre as feministas nos blogs. A maior parte dos textos firmava a importância de um movimento que desse visibilidade para a luta das mulheres contra o machismo, mas também torciam o nariz para o nome. O incômodo ficou claro: como essas mulheres se prestam a glamourizar a prostituição? Vadia é um termo usado pelo homem para nos agredir! Para quê se valer de uma ideia que endossa coisas brutais como a prostituição infantil? Impor o uso de roupas curtas às mulheres é como proibir a burka! Acharam até uma ex-prostituta que afirmou que não ia marchar, não. Mulheres de lingerie na rua é tudo que um homem machista quer. Esta última fez nascer um conceito pejorativo, a Marcha das Vadias seria a expressão do “feminismo gracinha”, que reafirmaria a ideia de que as mulheres precisam agradar aos homens para serem ouvidas, e se agirem como feministas clássicas (seja lá o que isso queira dizer) seriam apenas repudiadas.

Tanto quanto a própria marcha, as críticas eram perturbadoras. E lá, no meu sofá, eu achava tudo muito pertinente. Pois foi quando marchamos aqui em Campinas, no dia 24 de setembro.

A Marcha das Vadias em Campinas foi movida pelos altos números de violência contra mulher na região. Mais do que um movimento pela liberdade de se vestir, a construção do ato, que durou três meses (quase meia eternidade, para um movimento que nasceu em abril), se voltou para a denúncia dos números da violência e práticas de opressão a mulher, principalmente contra estupros. O apoio de mulheres da periferia, negras, de classes pobres foi muito maior do que pudéssemos supor e isso só poderia ter um motivo, quem já foi agredida (63% de nós) entendia de pronto sobre o que estávamos falando. Mas não é só sobre mulheres desprivilegiadas, nem sobre prostitutas, é sobre todas nós que desde o primeiro sinal de ter peitos de mulher, lá por nossos 10 anos, somos tratadas como sexualmente disponíveis nas ruas por homens de todas as idades e classes sociais. E somos agredidas, estupradas, assassinadas pelo simples fato de sermos mulheres. Isso está longe um universo de ser uma glamourarização da prostituição, (aliás, as putas não devem ser agredidas pelo simples fato de serem putas).

Nos chamar de vadias é tirar a palavra e o poder do agressor, é mostrar que se um homem for agredir uma mulher por ser puta, por querer o fim do namoro, porque ela não o ama mais, vai ter que agredir a todas nós, porque gostamos todas de sexo, gostamos de falar o que pensamos e não gostamos de ser tratada como disponíveis desde a infância, portanto somos todas vadias e  juntas, nos fazemos fortes. Por Raianes, Paulas, Elisas, Mércias e Marias da Penha tiramos camisetas e sutiãs mostrando que nosso corpo é nosso campo de batalha política, se é ele o alvo da agressão e da castração é com ele que vamos nos levantar e gritar juntas em praça pública: Basta!

Marcha das Vadias em Campinas. Imagem de Flávia Ramos.

A apropriação do termo vadia, por mais que a rejeição feminista exista, na prática ganhou um sentido que eu jamais tinha visto antes. O oprimido tomar o termo usado pelo opressor, nem novidade é, já que a juventude do movimento negro se proclama preta que, historicamente, quer dizer cativa, e os gays, se apropriam do queer, que significa esquisito. A teoria queer até epistemologia virou, mas mulher se auto-chamar de vadia ficou no âmbito do “não gosto” em análises apressadas. Por que mulher ativista que gosta de sexo e não admite violência não é uma apropriação legítima? Será que a noção do não se “comporte como você não gostaria de ser tratada”, como apontou o policial canadense, se espalhou pelos textos feministas? Como se comportar como quem não gosta de sexo, quando gostamos, para demonstrar que temos força e poder para dizer não?

O empoderamento causado pela apropriação foi um fato que tivemos que lidar, muitas das ativistas de Campinas chamaram isso de catarse, jamais havíamos sentido antes. Tem coisa que só a rua faz. A rua é o lugar das vadias, putas e travestis, transgêneros, afinal, lugar de mulher é em todo lugar.

Por outro lado, a rejeição dos homens foi muito grande, graças a uma amiga linguista, pude perceber que o homem agressor é o interlocutor privilegiado das Vadias e é bem por esse motivo que a pecha de feminismo cheirosinho não procedia se o assunto era a vida real. Muitos se sentiram agredidos apenas com a discussão que foi posta por aqui nos meses de organização, outros se sentiram agredidos nas ruas, enquanto por elas marchávamos. Outros tantos, nos apoiaram incondicionalmente, pintando seus próprios corpos em nosso nome.

Marcha das Vadias em Campinas. Imagem de Danton Yataba.

A Marcha das Vadias propõe uma série de inversões, como forma de empoderamento é o movimento do “não”: “isso não é sobre sexo, é sobre violência”, queremos e podemos dizer não, não estupre, não agrida e, por fim, faz a interlocução com os homens com o objetivo de dar força às mulheres. Não é possível compreender isso, e eu estou longe de ter uma visão analítica segura, com análise rápidas e categóricas. Era preciso, ao menos, ter nos deixado levar pelas ideias que nos foram colocadas por Toronto, mas que não eram sobre o Canadá. Eram sobre o machismo no mundo todo, uma linguagem quase universal que fez muitas de nós gritar “Mexeu com uma, mexeu com todas”, travando um forte vínculo de solidariedade na Marcha de las Putas, na Marcha das Vadias, na Marcha das Vagabundas, na SlutWalk, na Besharmi Morcha, Marche de Salopes.

A internet imprimiu, nestes meses, uma nova rodada de diálogo global contra o machismo, porém os textos sobre a Marcha das Vadias não ganharam ainda um sentido internacional, nem uma versão feminista. E isso não se alcança na velocidade da transmissão, é preciso se despojar da conexão, sair às ruas e gastar tempo com as inversões que a própria disputa de ideias no espaço público nos impõe.

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*Glaucia Faccaro é historiadora, corinthiana, feminista e vadia.

Autor: Autoras Convidadas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. A gente continua essa história do Feminismo nas ruas e na rede.

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