Blogagem Coletiva: Fim da Violência Contra a Mulher

Hoje, 25 de novembro, é Dia Internacional de Combate À Violência contra a Mulher. A Luka falou sobre as origens da data no texto Violência contra mulher é também não garantir sua inclusão nos espaços políticos. As irmãs Mirabal são símbolo da resistência das mulheres contra a violência.

As violências cometidas contra mulheres são universais. A expressão “violência contra as mulheres” designa todos os atos de violência dirigidos contra o sexo feminino, que causam ou que possam causar prejuízo ou sofrimentos físicos, sexuais ou psicológicos às mulheres, incluindo a ameaça de tais casos e a restrição ou a privação arbitrária da liberdade, seja na vida pública ou privada. Convocamos essa blogagem coletiva para apresentar diferentes olhares sobre um grave problema que as pessoas insistem em tratar como casos isolados. No início do terceiro milênio, as mulheres ainda têm suas vidas ameaçadas pelo fato de serem mulheres.

Confira os posts participantes:

Violência sim! Porque não é só o “olho roxo” que é atestado de violência com a mulher! Nosso sistema de assistência ao pré-natal, parto e pós parto é recheado de violência. E você, mulher, não precisa se submeter a isso!!! Você tem o direito de ser tratada com respeito e com dignidade! Você tem o direito de recusar um procedimento médico de rotina! Há inúmeros direitos garantidos.

Este mês o graffiti que fizemos no projeto “Arte pelo Fim da violência Contra as Mulheres”, em parceria com a ONG Feminista Católicas pelo Direito de Decidir, ilustra a capa da Revista “Lutas Sociais”, dedicada a feminista/marxista Heleieth Saffioti, leiam o editorial publicado no site do NEILS – Núcleo de Estudos de Ideologia e Lutas Sociais.

A violência no local de trabalho, onde não são praticados salários iguais para trabalho de valor igual; onde o assédio sexual é prática tantas vezes silenciada; onde as demissões de mulheres grávidas são feitos à revelia da legislação em vigor; onde as mulheres permanecem nos últimos degraus do acesso aos cargos de decisão; onde, em algumas profissões, a exigência “de boa aparência” é critério para discriminação indirecta.

Mulheres de todo o mundo são discriminadas e têm seus direitos violados: a violência contra a mulher é o fenômeno mais “democraticamente” distribuído na sociedade, porque atinge todos os continentes, classes sociais e grupos étnicos. E a maior parte dessas agressões parte de homens que convivem ou conviveram com as vítimas.

Já fui alvo de piadas machistas, desprezo e comentários infelizes, mas até onde me lembro nunca fui ameaçada ou perseguida por ser mulher no ambiente de trabalho nem na universidade. Me lembro de episódios de caras que se sentiram no direito de me assediar porque eu me comportei de maneira gentil e simpática, mas na época sequer pude imaginar que isso era violência de gênero – „afinal, o que mais tem nesse mundo é homem folgado“, pensava. Até uns anos atrás não formulava esse tipo de questão nos termos „de gênero“. Mas algo que sempre tive muito presente, uma percepção da que tenho lembranças que vêm desde os meus dez, onze anos de idade, é a da diferenciação muito clara e reiterada, entre os membros da minha família, entre homens e mulheres, e seus respectivos lugares, obrigações, modos de se comportar, pensar, falar, amar, viver.

Voltei imediatamente no consultorio da medica, pensando que ela diria que estava tudo bem e que ficariamos monitorando a pressao. Que nada! Ela disse no mesmo tom em que leu o resultado do meu doppler: “Entao, deu tudo normal. Mas eu prefiro nao arriscar. Estah tudo bem hoje, mas nao sabemos o que pode acontecer com a sua pressao.” (Tah, eu estava fazendo atividade fisica). “Entao, vamos marcar a sua cesarea para hoje!” Eu dei um pulo para tras.

O enfrentamento à violência contra as mulheres no Brasil tem as suas primeiras manifestações nos anos setenta, como uma das principais bandeiras de luta da Segunda Onda do feminismo no país. Sob a insígnia “Nosso Corpo nos pertence”, “Quem Ama Não Mata” e “O privado é político” as feministas reivindicavam o direito ao corpo, ao prazer e lutavam contra o patriarcado e o machismo.

No caso das travestis, a violência contra esse segmento é bem corriqueira, principalmente contra aquelas que expulsas de casa e vítimas do preconceito extremo, tanto por parte da sociedade como do Estado, não permitiu que elas conseguissem encontrar outro meio de sobrevivência que não a prostituição. Em relação aos gays, aqueles que possuem características mais delicadas – que muitos denominam como “afeminados” – são os que mais se encontram expostos à violência que é um misto de aversão e ódio à fragilidade / feminilidade que esses homens mais delicados possam apresentar.

A face da violência física contra a mulher é a mais facilmente vista, mas há outra forma de violência igualmente perversa: a violência psicológica. Também previsto na Lei Maria da Penha, que considero uma enorme conquista pra nós, mulheres brasileiras tão vítimas desse machismo latino.

Aos 12 anos, ainda menina e cheia de bonecas nas prateleiras, fui assediada por um tio. Estava deitada no sofá assistindo TV depois da escola em uma tarde qualquer e ele chegou me alisando. Apesar de não entender direito o que estava acontecendo, eu sabia. Sabia que era errado e abusivo. Diante da minha impotência, corri, me escondi e chorei. A desculpa do “tio” era de que o meu short era muito curto e, portanto, eu havia provocado seus instintos.

Cresci com isso sem nunca falar com ninguém. Me sentindo injustiçada por ter nascido mulher; durante fases da adolescência, usando roupas largas e folgadas com medo de chamar uma atenção “inadequada”. E mesmo assim, chamava. E me sentia culpada.

Se ensinarmos a nossos meninos que a mulher nunca quer dizer não, estaremos dando a eles carta branca para forçar a barra… para insistir da forma que lhe convier, pois afinal, em sua mentalidade, é só isso que a garota deseja. “O não quer dizer sim”, “ela está apenas bancando a difícil”, “ela quer que você mostre que tem pegada”. Quantos já não ouviram este discurso por aí? Repetido por seus amigos, parentes, por pessoas boas que talvez nem sejam capazes de agredir alguém, mas que esquecem que o discurso costuma vim antes do comportamento. O discurso lhe serve como argumento. Ao menos já serviu a tanta gente.

A violência institucional é uma das marcas mais fortes do atendimento obstétrico no Brasil. Seja em hospitais particulares ou públicos, as agressões ultrapassam o limiar físico para chegar ao psicológico. Acontece quando uma mulher, já privada de seu corpo sem pelos, sem fezes, é privada de sua voz. A vocalização, auxílio importante para a fase expulsiva do parto, é calada com desdém: “Na hora de fazer não gritou.”, é o lugar-comum da equipe obstétrica. Em vez de obedecer seu corpo, a mulher deve obedecer o comando médico: “Faz força, mãe!”

Sobre o post: são pequenos relatos de FATOS que já ocorreram comigo e/ou com milhares de mulheres Brasil afora. Você pode pensar que é exagero. Ou que é apenas um #mimimi sem sentido. Aliás, será bem comum isso. Faz parte da violência moral que sofremos diariamente…

Imagine: você tem ao seu lado um cara que é calmo e faz todas as suas vontades. Ele possui um histórico que não é nada parecido com seu comportamento hoje: era violento com a ex-mulher.

Todos nós somos responsáveis. Não se cale, proteste, denuncie.  Porque em briga de marido e mulher, quando não se mete a colher quem perde é sempre a mulher.

E no pós-parto? Que tal ser deixada sem carinho, sem aquecimento, sem suporte emocional em seguida de tudo que a mulher passou? Ou ser retirado seu bebê sem mostrar para quem acabou de tê-lo. Ou ainda fazer vários procedimentos mecânicos num ser qua acabou de chegar e não deixá-lo cheirar a mãe, sentir seu carinho ?

Amigas queridas, ele pode ser o cara mais generoso, mais inteligente, mais sedutor que vocês já conheceram. Mas, palavras de ameaça física ou psicológica NÃO. Ciúmes não é justificativa para agressões. E, ciúmes não é prova de amor. Também não vale cobrar de vocês aquilo que lhes é “socialmente esperado”, mas do qual não têm a menor obrigação. Não aceitem que ele cobre a roupa limpa e passada, ou a comida feita, porque no fim do mês ele “paga a conta”. Não aceitem que te jogue na cara uma escolha que ele mesmo fez. E, se ele não paga a conta, nem mesmo uma parte dela, e isso não foi uma escolha feita pelos dois, também não me parece ser um acordo justo.

Como hoje é o Dia Internacional pela Eliminação da Violência contra a Mulher, resolvi publicar as fotos de alguns dos cartazes expostos na Casa del Alba, em Cuba. Os autores dos cartazes são homens, parte da campanha Atrévete a ser hombre: el machismo mata, da Red Iberoamericana de Masculinidades (RIM).

Infelizmente, o que aconteceu com a Maggie continua acontecendo com milhares de mulheres em todo o mundo, sendo algo até comum de se ver em profissões em que é preciso lidar com o público. Por terem que lidar com clientes homens (por “clientes” entenda qualquer um que vá contratar o seu serviço, como acontece em agências de publicidade, por exemplo), ainda tem muitas mulheres que se submetem ao abuso de poder e autoridade para não perder aquele trabalho fantástico que é bom para a empresa. A maioria não chega a se transformar em uma prostituta, mas tolera charminhos, insinuações e outros tipos de assédios somente para não se indispôr com o cliente.

A mulher geme, grita e pede ajuda diante da dor e da inexperiência no trabalho de parto. O profissional mais próximo diz: “Na hora de fazer foi fácil, né?” (essa é clássica), ou “Gritar fará o seu bebê subir, você não está ajudando o seu bebê nascer”. Mentir ou fazer com que a mulher se sinta diminuída também é violência.

Nós mulheres devemos exigir o direito de sermos respeitadas e bem tratadas tanto pelos profissionais que nos atendem como pelas instituições. É no mínimo triste pensar que uma mulher em um momento tão delicado, sensível e frágil como o parto possa sofrer tantos maus tratos e violência. A não permissão (que é um direito por lei) de um acompanhante que ela escolha e confie, a falta de assistência quando ela solicita, a quantidade excessiva de exames de toque, a falta de explicação sobre os procedimentos que serão realizados, episiotomia desnecessária, cesárea desnecessária, separação de mãe e bebê após o nascimento são só alguns exemplos.

Os números da violência contra a mulher continuam assustadores. A cada dia, uma mulher é assassinada pelo seu (ex)-companheiro no Brasil. 70% das mulheres vítimas de assassinato no mundo são mortas por (ex)-maridos ou namorados. Segundo a Unesco, uma em cada três meninas é abusada sexualmente antes de completar 18 anos. Pesquisas realizadas pela Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres revelam que 43% das mulheres brasileiras já sofreram violência conjugal de algum tipo, incluindo-se aí o estupro. Em números absolutos, o Brasil é o país onde mais se matam mulheres no mundo: são 50.000 assassinadas a cada ano.

Enquanto isso, a cada 2 minutos, 5 mulheres são espancadas no Brasil. Este tipo de manifestação é boa, sempre. É preciso falar, denunciar, forçar a polícia a nos atender, fazer que a Lei Maria da Penha seja aplicada. Porque a gente sabe – e não precisa de novela para isso – que denunciar é difícil. A cada 10 ligações, uma é para denunciar violência. Importante: este número diz respeito aos contatos. E quem nunca fala nada? Quantas são? Porque a gente sabe, sim, que muitas mulheres não têm coragem, força e suporte para denunciar seus agressores – que na maioria das vezes é o marido. E, não, não são casamentos recentes, são relações com mais de 10 anos em 40% dos casos.

Minha médica conversou muito comigo e com o Gui, deu todo apoio necessário e todas as decisões foram tomadas em comum acordo pelos 3 e sempre depois dela explicar tudo pra gente, esclarecer todas as nossas dúvidas, sempre se procupando muito com nosso bem estar emocional. Depois de mais de 48h de indução foi necessário uma cesariana, e que bom que ela existe! Pois em casos como o meu ela foi necessária, mostrou a sua importancia qdo bem aplicada. Mas nem de longe esse é um procedimento de rotina, é uma cirurgia, cheia de riscos como qq outra!

Para romper o silêncio que cerca a violência doméstica, faz-se necessário um processo de mobilização social contra a violência nas famílias. Este documentário pretende estimular a discussão, contribuindo para fortalecer o discurso de combate à violência contra as mulheres, principalmente, aquela que é perpetrada no âmbito familiar.

Nós mulheres e homens ecologistas, assim como não toleramos a degradação da natureza, também não podemos ser complacentes ao inúmeros processos de opressão que as mulheres sofrem diariamente. A opressão da natureza, a opressão das mulheres (e de uma série de minorias que são na verdade maiorias) é um dos meios do modelo capitalista neoliberal se sustentar, se reproduzir. Assim o capitalismo encontra base material na superexploração da mulher no mundo do trabalho produtivo e reprodutivo. Frente a natureza, trata dos seus elementos, como meros recursos naturais, recursos feitos para exploração massiva afim de alguns acumularem capital.

Venho dar a minha participação na blogagem coletiva (com a iniciativa das Blogueiras Feministas) divulgando a Programação de Florianópolis da Campanha 16 Dias de Ativismo Pelo Fim da Violência Contra a Mulher, que este ano traz o tema: “Uma vida sem violência é um direito das mulheres”.

O tema era a Lei Maria da Penha, que envolve não somente a violência física, mas a verbal, psicológica e emocional. Durante a entrevista, o principal problema levantado referiu-se ao cumprimento da lei, por vários motivos, o que revela que a sociedade ainda precisa avançar – e muito – na proteção à mulher vítima de violência.

Quatro em cada dez mulheres brasileiras já foram vítimas de violência doméstica. O número consta do Anuário das Mulheres Brasileiras 2011, divulgado em julho passado pela Secretaria de Políticas para as Mulheres do governo federal e Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socieconômicos (Dieese).

Eu me sinto violentada quando leio essa mensagem porque sei o quanto ela influencia uma mãe culpada por não ter tempo para o filho. É tudo o que a gente mais quer ouvir porque a intuição não pára de reclamar pela nossa escolha! Mas se ouvimos essa mensagem, corremos o risco de entrar em dois fenômenos que as famílias enfrentam hoje em dia: a terceirização sem culpa e a acomodação.

Hoje é o Dia Internacional de Combate à Violência contra a Mulher e escolhi destinar meu post à visibilidade das lutas por direito das mulheres indígenas. Quase sempre esquecidas nos debates sobre gênero, as mulheres indígenas são vítimas de graves violações de direito e são multiplamente ameaçadas pela discriminação de sexo, raça, etnia e classe social.

Não só existem homens machistas. Machistas somos todos, quando julgamos uma vítima de estupro pela roupa que vestia quando aconteceu o abuso. Machistas somos quando falamos que aquela nossa amiga/ parente/ colega de trabalho que apanha do marido, gosta de apanhar e é por isso que “não larga dele”. Machistas somos quando xingamos uma mulher com palavras pejorativas que aludam ao seu comportamento sexual. Machistas somos sempre e é preciso muito esforço e reflexão para não sermos, para não repetirmos os padrões de comportamento machistas que a sociedade em que vivemos e estamos inseridos nos ensina.

Segundo o Mapa da Violência 2010, do Instituto Sangari, “Uma mulher é assassinada a cada duas horas no Brasil, deixando o país em 12º lugar no ranking mundial de homicídios de mulheres. O machismo quando chega ao ponto da covarde agressão em suas variadas formas é uma excrescência dessa cultura perpetuada em tempos conservadores e que deve ser combatida diariamente, principalmente na educação das novas gerações.

Como sou a primeira a atear fogo nas pessoas para se mobilizarem e mesmo quando não é possível ir às ruas pelo menos inundarem as redes sociais com essas mobilizações, estou deixando minha justificativa pela falta de um texto com mais conteúdo e dados e postando as duas charges super bacanas do Carlos Latuff — sempre ele! — para a mobilização virtual pelo #FimDaViolenciaContraMulher.

Pra trazer algum conteúdo que dificilmente aparecerá em outros blogs, dei uma garimpada em trabalhos acadêmicos pra quem deseja explorar diferentes esferas deste grave problema social. Entre os temas indicados no post abaixo estão a atuação de profissionais da psicologia no atendimento a mulheres em situação de violência, as formas com que as mulheres enfrentam essa experiência, os juizados especiais onde ocorrem os processos e julgamentos de violência doméstica, o direito à visita íntima de presas e a luta por reparação e justiça das mulheres que têm seus filhos mortos pela polícia no Rio de Janeiro.

E aí eu te pergunto: você sabe o que é femicídio? Sabe, né? É o assassinato sexista de mulheres. Isso: é quando uma mulher é morta exatamente por isso: por ser mulher. É revelador e perturbador saber que as mulheres entre 15 a 44 anos têm uma maior probabilidade de serem mutiladas ou assassinadas por homens do que morrerem de câncer, malária, acidentes de trânsito ou em decorrência de guerra, todas as causas somadas. Os meios são vários: tiros, facadas, foices, machados, chaves de roda, todos esses meios foram utilizados para assassinar mais de 4,5 mil mulheres em 2010, em todo o Brasil.

Quero falar da paz diária, feita do desejo de um mundo melhor. Um mundo em que as pessoas possam escolher seu destino, sem medo do outro. Um mundo onde o medo da mulher não more junto dela, em sua própria casa.  Um mundo aonde se possa confiar no próximo como confiamos em nós mesmos. Um mundo aonde o braço esteja para o abraço. Um mundo aonde as mãos nos dêem apoio.

Eu considero a data sobretudo uma lembrança. Parece meio óbvio que a violência contra as mulheres geralmente está diretamente relacionada a uma série de valores machistas presentes na nossa sociedade. É claro que a violência atinge a todxs, mas alguns tipos de violência contra as mulheres são mais recorrentes, e devem ser combatidos de forma diferente das outras formas de violência.

Sabe aquele corte na vagina no momento em que o bebê está nascendo? Não é necessário, quase nunca. Muitas mulheres parem bem, obrigada, sem ele. Mas tem que deixá-la acocorar-se, e também, pode ser que tenha que deitar-se no chão para pegar o bebê em um expulsivo super-partolândia.

Não demorou muito para que a voz agressiva se transformasse em gritos. Quase rugidos. A outra voz, ainda baixa, começou a ressoar pavor, mas ainda tentava manter isso em segredo. E o cheiro de raiva dominou o ambiente, agora mesclado ao odor de suor.

Aos poucos, os gritos começaram a se tornar desesperados. Desesperados de ódio, desesperados de medo. Do alto da escada, o gato ouvia a tudo, temendo pelo pior, mas certo de o que o pior aconteceria. Exatamente como nas outras vezes.

Campanha do Blog Mamíferas

Não dá para fazer pouco caso do poder da palavra. Nossas falas moldam nossas vivências porque nos representam e disseminam nossas convicções, opiniões, acertos, equívocos. Indo mais longe, posso cometer um crime com minha boca ao proferir uma fala racista; posso caluniar; posso ferir; posso humilhar. Ou posso ser mais sutil e “apenas” preparar o terreno para que as assertivas mais violentas encontrem espaço e se consolidem. Assim, posso fazer piadinhas misóginas e, literalmente, rir da desgraça alheia. Porque a misoginia muitas vezes está na base de muitos casos de agressão à mulher. Posso difundir piadas de cunho machista, pseudomoralistas, e perpetuar o controle social sobre o corpo da mulher, sobre sua sexualidade, tolhendo seu direito inalienável de vivenciá-la como bem lhe aprouver. Posso oprimir com piadas. Posso quase justificar agressões.

Colega, entenda uma coisa: Ninguém pede para que um ato brutal lhe aconteça, nem fora ou dentro de casa. E o tipo de roupa ou a maneira da mulher se comportar não é convite para ninguém a violentar, a desrespeitar suas vontades, pois não sei se xs maschistóides (independente de gêneros, porque há mulheres que também se comportam de maneira misógina), mas seres humanos com os cromossomos XX também são, hum… humanos, nem piores e nem melhores do que o resto da humanidade.

Reduzir justiça a segurança pública reforça apenas o discurso repressor, se afastando da discussão sobre o processo de criminalização que age de forma seletiva para punir e discriminar grupos específicos (não só os clássicos 3Ps: puta, preto e pobre, mas também, por omissão, homossexuais, jovens e mulheres – vide feminicídio). Em um governo de esquerda não se deveria jamais reduzir a questão criminal ao aparato policial e preservação de um sistema que mantém discriminação.

Olhem só, eu acredito mesmo que relações às vezes são mais complicadas do que discursos explícitos. E meu relacionamento só começou porque meu marido insistiu. Mas insistiu uma vez, com muito cuidado, dizendo, em outras palavras “tem certeza de que esse não é não?”. E bom, eu mudei de ideia. O primeiro “não” era só “não sei”. E ele me disse que se rolasse um segundo “não” ela ia embora. E ok, gente. Mas veja bem, a mulher dispensar o cara uma vez, ele ir atrás no trabalho dela, ela dispensá-lo de novo, e ele ainda assim agarrá-la, não é legal. Nunca, jamais, em tempo algum. Porque o que fica claro é que a palavra dela não é importante. Ele decidiu que ela precisa de homem. E é exatamente essa a lógica do estuprador. Ou do homem que “insiste” com a ex para voltar e passa a persegui-la no trabalho, na faculdade, na porta da casa da mãe. Ele ignora a opinião dela. Toda mulher quer ter um homem atrás dela – então porque não ele?

Talvez você não saiba. Nem precise saber. Reconhecer a existência da violência de gênero, insistir no seu combate e defender sua eliminação não dependem disso. Ninguém precisava saber. Mas enquanto nós soubermos, você só precisa ouvir e compreender que não há sentido em privar de direitos quem quer que seja, apenas por ser mulher.

Assim como na maioria dos casos de organismos responsáveis pelo atendimento a mulheres em situação de violência não tem profissionais capacitados para nos atender isso acontece também no metrô e CPTM, pois não tem em sua capacitação uma formação do que é a violência machista e o como atender e acolher mulheres vítimas deste tipo de violência, isso não é algo recorrente apenas nos casos de abusos e estupros recorrentes nos transportes públicos, mas a falta de investimento e capacitação de profissionais para atender e acolher mulheres em situação de qualquer violência machista é uma máxima em nosso país.

Existem inúmeros outros casos no Brasil de jovens mulheres violentadas e mortas por companheiros ou ex-companheiros. Estes são alguns dos mais notórios. A expressão “crime passional” é utilizada muitas vezes para caracterizá-los. Porém, não existe crime passional. O amor, o ciúme ou a rejeição não são os motivadores desses crimes. O que há é machismo, sentimento de posse e a violência de uma sociedade patriarcal. A violência contra a mulher é real, não é fruto de um relacionamento fracassado, 87% dos agressores de mulheres são ex ou atuais companheiros. O caso de todas as mulheres citadas aqui não são casos isolados.

Segue uma coletânea de artigos, pesquisas e relatórios que ajuda a entender melhor a complexa e mutlifacetada questão da violência contra a mulher.

Uma mulher em trabalho de parto é uma mulher em sua máxima função biológica. Seu neocortex, tão admirado pela sociedade, precisa se desligar para que ela possa parir. E diante de uma mulher nestas condições, incitando o imaginário da sexualidade humana, a violência corre a torto e a direita.

Na base da violência física, a violência de origem ideológica, que opera atraves de AIE’s que por sua vez utilizam-se de discursos para regular e fazer a manutenção da ideologia. Dessa forma temos então discursos violentos machistas promovendo a manutenção do patriarcado. Todo discurso é por si mesmo violento porque não existe igualdade entre os sujeitos do discurso, por exemplo entre um locutor e um interlocutor sempre um discurso exercerá uma função de dominação sob o outro, e nunca haverá neutralidade, mas sempre relação de subordinação.

Obviamente deveria haver maior articulação entre Direito e Psicologia e Ciências sociais. E é inadmissível que, hoje, o tema da violência de gênero não seja incluído nos cursos de Direito. Um dos resultados dessa lacuna na grade é que muitos estudantes, por mais bem intencionados que sejam, acabam se decepcionando com mulheres agredidas que não abandonam seus maridos. É comum um advogado perguntar a uma vítima de violência doméstica: “A senhora aqui de novo?”.

Era de lei: todo domingo, ali pelas 7h da manhã, começava o desespero. E era sempre a mesma cena (ou melhor, os mesmos sons): o marido chegava bêbado e batia no portão para a mulher abrir. Ela, apavorada e sabendo o que a esperava, gritava que não ia abrir. As crianças já choravam. Ele pulava o portão e aí começava o terror.

Você sofreu violência no parto? Tanto normal, quanto uma cesárea desnecessária? Relate sua experiência nesta blogagem coletiva.  Te falaram que você tinha que estar depilada? – Me falaram, mandei pastar.  Te falaram que a anestesia ia ser linda e só fazer bem? – Minha filha nasceu desmaiada por causa do efeito da anestesia, provavelmente.

Você valida a violência contra a mulher – contra qualquer pessoa – a cada momento que você percebe os sinais e não se manifesta contra ela.  A cada vez que você percebe um desrespeito – quando alguém chama uma pessoa de vadia, de puta, de piranha, e você não manifesta para o desrespeitador que este comportamento é inaceitável.

*Imagem do destaque: Ações do Governo da Bahia no combate à violencia contra mulher. Na foto: Delegacia de Atendimento a Mulher de Periperi. Imagem de: Ronaldo Silva/AGECOM no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

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13 Comentários para: “Blogagem Coletiva: Fim da Violência Contra a Mulher

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  4. Pessoal!
    Nunca vi uma blogagem coletiva com tantas participações!! E tantas BOAS participações. Não tem como a pessoa sair daqui sem achar que o feminismo é necessário.

    Beijos e parabéns para todas e todos.

    Amanda

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