Mulheres e TI: Cátia Kitahara, a moça da Comunidade WordPress Brasil

A internet foi feita por homens, entretanto, só evolui porque conta com a presença das mulheres 2.0, que povoam a superfície com conteúdo relevante. Nos bastidores da rede há uma incontestável diferença de número entre os gêneros. Existem mais homens construindo a Internet do que mulheres. Inconformada com isso, procurei valorizar as mulheres que eu conheço que atuam nessa area, e decidi começar com desenvolvedoras que também são designers.

Meu modo de fazer isso é publicar uma série de entrevistas com algumas das mulheres mais competentes que eu tenho notícia por aqui. A inauguração vai à carater: conversei com Cátia Kitahara, a desenvolvedora e designer que fundou a comunidade WordPress Brasil. Cátia está no mercado de Tecnologia há onze anos.

Cátia Kitahara

Você considera o ambiente de trabalho machista? Se sim, em que tipo de ação esse machismo se revela?

Sim, considero. Sou a única mulher na empresa onde trabalho, o ambiente é predominantemente masculino, acho que não tem como não ser machista, apesar de ser um grupo acima da média do homem brasileiro. Os meninos são mais conscientizados sobre a questão da mulher, mas ainda assim, no geral o comportamento deles é bastante machista. Ainda predomina aquele comportamento do machinho mimado, filhinho da mamãe que precisa de “cuidados”, que leva a roupa prá mãe lavar, aquela necessidade de impor a masculinidade através de uma exibição ostensiva da própria sexualidade, ou seja, secar a bunda de cada mulher bonita que vê passar na rua, carregar a Playboy ou a Trip (que aliás eu repudio mais ainda que a Playboy) pro banheiro (inclusive no trabalho), achar natural e curtir muito ter meninas lindas nos balcões dos eventos (mulher também vende software, aliás, o que mulher não vende, né?), fazer piadas com clientes gostosas (temos que pegar esse job porque a mina é gostosa), por aí vai. O feijão com arroz de qualquer homem “que se preze”.
E na verdade, não sou a única mulher, não, tem também a moça da limpeza! O que revela mais um bocado de machismo. No começo do ano mudamos nossa empresa para um sobradão, no bairro de Perdizes. P@enei meses até que finalmente contratamos ela. Digo penei, porque eu como mulher fui criadadando extremo valor à manutenção da limpeza e da ordem do ambiente doméstico, enquanto os meninos, apesar de lavarem uma louça, fazer uma limpezinha aqui e acolá, consideram essa tarefa a última da lista de prioridades e estão acostumadíssimos que alguém faça isso para eles. A casa parecia uma república estudantil e o ambiente era bastante tenso para mim. Tive que ouvir com um sorriso amarelo no rosto a piadinha: “nem parece que tem uma mulher trabalhando aqui”. Está claro que o nosso objetivo é desenvolver software e que precisávamos contratar alguém especialmente para isso, mas não justifica esse comportamento machista. Para piorar tínhamos uma diarista, que era a única pessoa não registrada na empresa! E ainda houve quem questionasse a necessidade da gente contratar alguém de verdade.

Quando você decidiu trabalhar com esse mercado, tinha consciência do ambiente machista que o envolvia? Como foi para você enfrentar isso? Já pensou em desistir?

Não tinha, eu comecei fazendo uma pós e o grupo de alunos era bastante heterogêneo. Depois também trabalhei muito tempo como frila e não sentia tanto isso. Comecei a perceber mesmo quando me envolvi na comunidade do WordPress e só tinha eu de mulher. O que eu noto, é que não há resistência às mulheres, somos aceitas. O difícil é a convivência, aguentar essas coisas que eu relatei no dia-a-dia. Acho que nesse meio mais “culto” e “bem educado” fica mais difícil a gente se impor porque é um machismo maquiado, e os homens não se consideram machistas. Eles acham que feminismo é coisa de mulher chata, que não dá ou que é lésbica. Eles acham que qualquer reclamação minha é “coisa da minha cabeça”. Um ambiente desequilibrado assim é muito ruim. Sinto muita falta de ter outras mulheres para me apoiar e prá desabafar. Admito que podem ter coisas da minha cabeça, mas não dá prá se ter uma avaliação neutra num ambiente desequilibrado e sendo minoria. Para piorar, quando tivemos essa conversa na empresa onde trabalho, tive que ouvir o comentário disfarçado de piada: “Essa mina vai ter que ser muito gostosa!” É difícil os meninos compreenderem como isso é ofensivo e sem graça. Eu sei que eu mesma não estou isenta de ser preconceituosa, também caio na armadilha das piadinhas “inofensivas”. Não gosto de ser politicamente correta, não gosto de vigilantismo, de censura, mas acho que temos que ter bom senso, ou viramos um idiota, como o Rafinha Bastos.

Já pensei em desistir, também por outras razões, mas com certeza o machismo é uma delas.

Você é a fundadora da comunidade Brasileira de WordPress. Sabemos que a maioria das pessoas que contribuem com Software Livre no Brasil são homens. Como você lida com isso?

Como falei antes, eu sou aceita, e no geral sou bastante respeitada. O difícil são esses machismos do dia-a-dia.

Nesse contexto do Software Livre, já sofreu reprovação de outras mulheres por escolher uma profissão que tem maioria masculina no meio?

Não, nunca. Acho que tem muita mulher que nem sabe direito o que eu faço 🙂

Você daria alguma recomendação para mulheres que querem contribuir com o Software Livre e trabalhar com desenvolvimento de Softwares com relação ao machismo no ambiente de trabalho?

Putz, não tenho recomendação, porque eu mesma fico perdida e de repente tenho um piti por uma bobeira, depois de tantos sapos engolidos. O que eu acho é que a gente precisa se aproximar e compartilhar nossas experiências prá poder identificar a gravidade da coisa e ter meios para combater essa situação. Eu queria muito que os meninos com quem eu trabalho, e de quem eu gosto muito apesar disso tudo, ouvissem a opinião de outras mulheres a respeito de todos esses casos que eu relatei e percebessem como é muito chata essa situação e como eu perco as esperanças de um dia a gente atingir a igualdade de direitos.

Atualmente, Cátia trabalha na empresa Hacklab como webdesigner, onde participou dos seguintes projetos: Núcleo Oikos, Página 22, Para Saber, Modo Bulb, Felipe Russo, Linha do Tempo da Cultura Digital, PNC – Plano Nacional de Cultura. O Hacklab é uma empresa de desenvolvimento de software e webdesign, especializada em WordPress, que suporta software livre, procurando publicar e distribuir as soluções desenvolvidas sempre que possível.

A foto do destaque é do Matt – unlucky in cards.

Autor: Yaso

Se eu não tivesse que trabalhar, seria designer.

6 pensamentos em “Mulheres e TI: Cátia Kitahara, a moça da Comunidade WordPress Brasil”

  1. Dá-lhe, Yaso!!! Cátia é um mulherão, que merece ser ouvida, sempre.
    Ponto pras Blogueiras Feministas.
    Ponto pra todas nós.
    Conscientizar estes homens (que, sim, são bacanas) das grandes bobagens que falam a torto e a direito é algo urgente. Até porque estes mesmos homens tendem mais ao feminismo do que suspeitam 😀 (sim, eu sou otimista)

  2. Bacana mesmo! Trazer depoimentos de mulheres que convivem com o machismo em profissões que costumavam ser ocupadas por homens é bem interessante.

  3. Meu marido trabalha numa empresa de conselho em informatica.E realmente,mulheres são raras.Qdo ele contrata uma,chegando em casa ele diz:Contratei uma mulher hj pra ocupar tal posto.Mas ele não é machista,ainda bem.Seria dificil(ou impossivel)pra mim dividir a mesma cama com um machista.Ele diz que na empresa,às vezes rola um comentario ou outro,mas que é raro.Como por exemplo:A garota que vc contratou è bonitinha?A maioria é jovem e tem um espirito mais aberto.O que facilita a mudança de comportamento. Coragem,Catia!!!

  4. É sempre muito legal ver entrevistas de pessoas que conhecemos, esta então da Cátia, bastante sincera sobre a questão do machismo foi muito legal.

    Culturalmente, os homens são educados para serem machistas, por mais que tentemos ser diferentes ou achamos que não somos, no fundo somos. Da mesma forma como há muitas mulheres que são educadas para alimentar o chauvinismo masculino.

    Eu prefiro acreditar nas diferenças individuais, independente de sexo. Apesar de ser nítido a superioridade feminima ou masculina (de forma genérica) em determinados campos; da última vez que comentei isto disseram que isto é machismo, se é assim, então sou… um pouco, mas sou.

    De qualquer forma, adorei esta entrevista da Cátia Kitahara!

  5. “Não gosto de ser politicamente correta, não gosto de vigilantismo, de censura, mas acho que temos que ter bom senso, ou viramos um idiota, como o Rafinha Bastos.”

    É justamente afalta destes é que criam os Rafinhas Bastos da vida…tudo isso aí existe para as demais minorias,tentem publicar um material nazista ou racista para verem o que acontece.Mas em termos de machismo,vale tudo,e nós mesmas criticamos mecanismos que são ao nosso favor!

    O que eu tenho notado também é que muitas vezes nunca se cogitia uma punição para os praticantes de machismo.A gente sempre fica naquela de “discurso verbal”,”coincientização,tentar entender”…como se o machismo fosse algo insento de violência e como se muitos homens se arrependessem do que fazem!Nós temos índices alarmantes de violência contra mulher,exploração sexual…e estas coisas apoarentemente “menores” são aponmte para outras coisas mais.Me chamou muito a atenção da parte em que ela fala:”eles dizem que é coisa da minha cabeça”.Quantas vítimas de violência doméstica não escutam/escutaram tal frase? E por que ela os cham de “meninos”? Infantilizar os homens também os desrenponsabiliza pelos seus atos machistas.
    Tirando iso,parabéns pelo texto.

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