Law & Order: Special Victims Unit – Uma série que retrata a violência contra a mulher

Texto de Tâmara Freire e Maysa Luz.

Antes do início de cada episódio, Law and Order – Special Victims Unit se explica: “No sistema de justiça criminal, os crimes sexuais são considerados especialmente hediondos. Na cidade de Nova York, os policiais que investigam esses crimes são membros de uma unidade de elite chamada Unidades de Vítimas Especiais. Estas são suas histórias.” E haja história viu, já que a série está atualmente na sua 13ª temporada, sem perder o fôlego.

Por vezes, L&O: SVU se baseia em fatos reais que viraram manchetes nos jornais. E isso talvez seja o mais estarrecedor: os casos mostrados por mais sórdidos que pareçam, não são apenas fruto de um mente criativa, eles acontecem na vida real. Se não exatamente da forma mostrada, mas sim de formas semelhantes e até mais cruéis. O homem que sequestra a menina e a mantém em cativeiro como escrava sexual por anos? Check. Grupos que pregam que o sexo entre adultos e crianças deve ser permitido, desde que com o consentimento da criança (!)? Check. O patrão poderoso que assedia e engravida a empregada? Check. O treinador responsável pela ascensão de uma porção de atletas mas que, na verdade, molestava os alunos? Check. Minorias sendo assassinadas e jornais se preocupando mais com a manchete do que com as pessoas? Check e check.

E claro, todas as violências “banais” que a gente, infelizmente, está carec@ de ouvir. A mulher agredida e desacreditada, que acaba morrendo nas mãos do perseguidor. As crianças estupradas por seus pais ou padrastos. A menina molestada que se recusa a denunciar por vergonha ou medo. Os terapeutas e outros profissionais de áreas afins que se aproveitam da fragilidade dos pacientes para agredi-los sexual e emocionalmente. A mãe que vê a filha ser molestada e ignora por medo do marido e por ser ela própria também uma agredida.

Série da Tv Americana: Law and Order – Special Victims Unit / NBC

As vítimas especiais da série não são apenas mulheres, mas não é difícil concluir que a grande maioria delas são mulheres ou meninas. Porque, bom, é assim em qualquer lugar do mundo. Isso faz de L&O: SVU a única série que nós conhecemos, pelo menos, focada na violência contra a mulher e, o melhor, que não escorrega nas estereotipagens, no machismo e na abordagem preconceituosa e agressiva que afasta tantas vítimas das delegacias e deixa tantos agressores impunes.

Em um dos episódios, alguém insinua que a vítima teria facilitado o estupro, até pedido por ele, por causa das roupas ousadas que usava. E quantas vezes não ouvimos isso no nosso dia a dia? Quantas vítimas, ao invés de serem acolhidas, são julgadas pelas pessoas e também por policiais despreparados? A resposta da detetive sempre linda Olivia Benson – interpretada por Mariska Hargitay – não poderia ter sido melhor: mesmo que a mulher andasse nua, isso não não justificaria o estupro. Porque nada o justifica.

As promotoras da série Law and Order – Special Victims Unit

Um dos episódios mais memoráveis, Witness (Testemunha), da 11ª temporada, mostra uma jovem que chega à delegacia para denunciar o estupro que sofreu na escadaria de seu prédio. O fato de ela patologicamente tentar chamar a atenção das pessoas e não saber dar detalhes da agressão sofrida, além de dificultar o trabalho da polícia, faz com que o departamento comece a desacreditar de sua história. Ainda assim, as investigações continuam e os policiais descobrem que a jovem era vigiada por um vizinho e conseguem descobrir que há uma testemunha do estupro: uma mulher negra que teria batido no estuprador, possibilitando que a vítima fugisse.

A cereja do bolo é que essa tal testemunha trata-se de uma mulher nascida no Congo, que sofreu estupros coletivos, foi obrigada a casar-se com um de seus estupradores, viu a filha de cinco anos ser estuprada e morrer em decorrência da agressão e finalmente conseguiu fugir para os Estados Unidos, para se livrar da guerra civil. Com muito custo ela aceita testemunhar no julgamento e ouve o advogado do estuprador alegar que ela era uma terrorista, afinal de contas foi casada com um, e que ela confundiu uma relação consensual com um estupro e, “estava vendo estupro em todo o lugar.”

A resposta da testemunha foi que sim, ela estava vendo estupro em todo lugar, afinal de contas, ela mesmo fora estuprada diversas vezes, assim como todas as outras mulheres de sua comunidade, incluindo aí crianças e sua própria filha e por isso mesmo ela sabia muito bem diferenciar uma relação sexual de um estupro. Quando o homem foi condenado, a testemunha olhou incrédula e revelou que jamais pensou que veria um homem ser condenado por estupro. E não é do que muitas pessoas ainda têm dúvida?

Por muitas vezes, Law and Order pode nos fazer mergulhar em grande amargura: não é possível ver tantas barbaridades, saber que elas acontecem – ora, uma em cada três mulheres do mundo já foi espancada, estuprada ou sofreu algum tipo de abuso – e não sentir uma grande tristeza ao imaginar a dor pela qual essas vítimas passam. Mas a série traz esperança ao mostrar que os crimes sexuais – que afetam em escala muito maior as mulheres – podem ser combatidos, quando há estrutura e vontade.

Elenco da 11° temporada de Law and Order – Special Victims Unit

SVU também deixa um recado importante: ainda que as vítimas não sejam todas mulheres, os agressores, salvo raras exceções, são todos homens. Longe de nós querer promover um embate que coloque homens e mulheres em lados opostos, demonizando a ala masculina, mas as estatísticas não dão outros resultados e a série, sendo baseada em situação reais, não pode retratar algo diferente. Obviamente, não é o cromossomo Y que traz o gene do estupro e da agressão, o que nos leva ao ponto de que há algo muito errado na nossa sociedade patriarcal, para permitir que tantos homens agridam, estuprem e matem tantas mulheres. Até quando o cerne da questão – o machismo – vai continuar sendo esfumaçado pelas peculiaridades de cada caso?

Os personagens principais estão todos relacionados em algum aspecto aos crimes que investigam: tem a policial que é filha de um estupro, o detetive cuja filha está exposta a muitas situações de risco devido ao vicio por drogas, o capitão e a promotora alcólatras, a outra promotora que literalmente leva os sobreviventes de violência para casa. Talvez o principal atrativo do seriado seja exatamente esse. Imaginar que, um dia, o tratamento às vítimas de violências sexuais possa ser respeitoso, como afinal, todos merecemos.

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Maysa Luz é mulher, mãe, esposa, filha, nora, cunhada, neta, tia, amiga, irmã, cozinheira, leitora, carona, scrapper, navegadora. Escreve no blog Cento e Uma.

Autor: Tâmara Freire

Blogueira, feminista, jornalista e mãe. Gosta de filmes, livros, séries, café, campari, Almodóvar, Caetano, Clarice e conversa de bar. E também de internet e do vermelho nos seus cabelos e no dos outros. Gosta do vermelho em tudo, na verdade.

11 pensamentos em “Law & Order: Special Victims Unit – Uma série que retrata a violência contra a mulher”

  1. Eu adoro esta série pois trata com seriedade os crimes contra vitimas especiais. Adorei o post.

  2. é bom ver que aina tem coisa boa na tv, tomara que essa serie dure bastante e que de ideia pra outras que também pautem essa “realidade inconveniente”

  3. Bom a maior parte das vitimas de agressão e abuso e outras coisas horríveis são mulheres. Porém o machismo também afeta os homens.
    Desde que eu resolvi abrir a boca sobre o abuso que sofri na infância conheci outras pessoas que passaram pelo mesmo , e talvez pelo meio em que estou inserida ( a maior parte das pessoas que convivo são homens) , descobri alguns amigos e conhecidos que também tinham sofrido abuso.
    Para nós mulheres é uma pressão terrível para não se fazer a denúncia e para os homens ocorre o mesmo.
    Todo mundo acaba sofrendo do mesmo geito, mas penso que existem bem menos homens que resolvem falar sobre isso que mulheres.
    Coisas que espero que ninguém precise passar.

  4. Além de achar a série fantástica, uma curiosidade sobre a atriz principal, Mariska Hargitay que interpreta a Olivia, é que depois de três anos de série ela fundou a Joyful Heart Foundation (http://www.joyfulheartfoundation.org/) com a missão de ajudar mulheres e crianças vítimas de abuso. Mariska se tornou uma batalhadora contra os crimes sexuais, e hoje seu maior trabalho é na JHF.

  5. Amei o post.
    Meu sonho era ter uma equipe como a de Olivia, Eliott, Munch e Tutuola.
    vários dos atores de SVU se tornaram ativistas no combate à violência contra a mulher, militam pelas vítimas de crimes sexuais.
    A série é fantástica, muito bem pesquisada, e o episódio narrado, Witness, é um dos mais densos. Depois dele, a atriz que faz a promotora Alex Cabot até sai por um tempo, e o gancho é que ela vai ser promotora na ONU, para combater crimes sexuais contra a humanidade, o estupro usado como arma de guerra.
    Foi lindo, e triste.
    SVU é sempre assim. lindo e triste. Mas oferece a possibilidade de redenção, sem a qual, ao menos eu, não posso viver.
    Grande estreia, pessoal.

  6. Para mim SVU é uma série fantástica no sentido de que ela nos alerta para o estupro, algo que acontece com bem mais frequência do que se imagina. A série tem um aspecto didático pois ensina a mulher como se defender e sobretudo, não ter medo de denunciar. Todo o elenco é fantástico e Mariska Hargitay, que além de lindíssima é talentosíssima, fez de sua Olívia Benson um verdadeiro ícone. Não perco nenhum episódio e apesar de ter lamentado a saída do Cris Melloni, tenho o dever de reconhecer que sem ele essa temporada está excelente.

  7. Adoro a série. E ela tem vários momentos memoráveis. Como em um episódio onde mulheres são estupradas no metrô e o chefe de segurança diz que não tem câmeras e pessoas o suficente pra segurar tudo. Que ele não pode impedir sempre que alguém seja “apalpada” ( ok, não lembro o exato termo, mas era algo assim) Então a detetive fala que : “Não é apalpada (aqui ela cita várias outras expressões usadas como eufemismo nessa situação), isso é estupro, es-tu-pro.”
    Algo que acontece muito, quererem diminuir o que a vítima sofreu. Como se fosse algo que ela deveria estar acostumada.
    Os personagens são muito bem constrídos e com um roteiro bem inteligente. Mesmo sendo um tema difícil de certa forma me sinto aliviada em ver um produto do entreterimento tratando das mulheres com respeito.

  8. A série é ótima como entretenimento, no entanto a rotina de nossas delegacias, juizados e varas criminais desilude qualquer um quanto às questões afetas à violência doméstica e a cada dia mais me convenço de que judicialização, normatização são mero engodo e que garantia real para as vítimas está em dar sobrenome à Maria da Penha: Maria da Penha Rossi, Maria da Penha Smith & Wesson, Maria da Penha Imbel, Mª da Penha Taurus. A poucas ditas “loucas” que sei que assim procederam e tinham estofo para tal nunca mais tiveram problemas. Quiçá assim tivesse procedido a vítima mais recente da violência doméstica, uma Procuradora Federal, ainda pudesse ela ver seus filhos crescer.

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