Por onde passa a compreensão da transexualidade?

No dia 29 de Janeiro, o Brasil celebra o Dia da Visibilidade Trans; é um dia para falar sobre a transexualidade, debater, comentar, discutir, perguntar, observar e responder. Bom, deveria ser para isso, né?! Ás vezes, serve como o dia em que precisamos lembrar os assassinatos, a discriminação, a violência, o preconceito. Talvez, seja bom lembrar-se disso também, lembrar para não permitir que continue acontecendo.

Quando alguém pensa em transexuais, tenho sempre a impressão de que pensam naquele clichê totalmente estigmatizado: uma mulher, que, na verdade, enxergam como um homem erroneamente vestido, parado em uma esquina, com um batom vermelho borrado e esperando o próximo cliente. Prostituição existe, existe mesmo, ninguém está negando isso; existe também entre homens e mulheres cujo sexo biológico não difere da identidade de gênero. O problema é a associação automática entre os dois fatos, parece não habitar no imaginário coletivo a possibilidade de uma pessoa transexual ser médica, advogada, eletricista, engenheira. E por que não?

"Eu te desafio a me amar", por Marina Bártholo

Há uma razão de ser assim, uma razão para este pensamento distorcido. De fato, a realidade concreta que se nos apresenta costuma ser dura demais para permitir que as pessoas transexuais cheguem a estas profissões. É muito difícil permanecer na escola, por exemplo, quando aquilo que você é torna-se alvo de piada e motivo do riso alheio. A falta de apoio familiar para lidar com a situação também é corriqueira. A saída possível acaba sendo mesmo abandonar os estudos. Não é questão de buscar o caminho mais fácil, deixo claro, é só encontrar um caminho que seja suportável.

Percebo que um dos maiores entraves para a compreensão da transexualidade passa pelas sensações e sentimentos. Como alguém pode achar que está no corpo errado? O seu corpo é aquilo que você verdadeiramente é, é a matéria que dá concretude a sua existência. Alegar que seu corpo não é seu corpo soa mesmo como maluquice. Mas é, acontece. Para mim, é só uma caixa, uma caixa que não dá significado à minha existência. O corpo que habito não é meu corpo; o corpo que habito é a minha prisão.

Deve ser mesmo difícil entender isto. Mas faz sentido, faz muito sentido. E não falo só de genitália, de seios. É o corpo, é o conjunto, é o ser. Talvez, eu não saiba mesmo explicar. Tudo que sei é sentir. E sinto todo dia; o tempo todo. Dói, mas a gente segue tentando ser aquilo que realmente é.

No caso dos homens transexuais, parece-me que a desinformação é ainda maior. Muitas pessoas nem sabem a respeito da nossa existência; nem sequer da possibilidade de nossa existência. Reconheço que, politicamente, ainda estamos muito desorganizados, ainda não nos apropriamos dos espaços. Entendo também que isso se dá como um processo; não é tarefa fácil colocar a cara no mundo e se mostrar desta forma, mostrar-se a partir de sua maior “fraqueza”. Contudo, não adianta esperar que algo aconteça, que as políticas públicas caiam do céu e que a tolerância um dia se desnude. “Nada vem de graça, nem o pão nem a cachaça”.

Os desafios ainda são muitos, acho que ninguém duvida disso. Um bom começo pode ser este post. Fazer as pessoas saberem que existimos, que somos muitos, que podemos ser um dos seus vizinhos. Não somos pervertidos, doentes, nem malucos. Somos pessoas: fazemos compras, cozinhamos, vamos ao cinema. Temos algumas dificuldades, mas isso todos têm; faz parte.

Espero, sinceramente, que, neste dia 29, alguma pessoa transexual possa ser vista com outros olhos. Olhos de amizade, não de acusação. Pagamos um preço muito alto na luta para sermos quem somos, mas nada é tão caro quanto fingir ser alguém que não se é.

Autor: Marcelo Caetano

Pretensamente revolucionário; tecnologicamente homem. Feminista por contingência; amigo por questão de sobrevivência.

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