Nudez Feminina

O corpo feminino é um assunto meio espinhoso de se falar, ainda mais quando falamos do corpo feminino nu e exposto. Na história da arte podemos ver o quanto é complicada a relação do nu feminino com a sociedade.

Vênus de Urbino, 1538 do Pintor veneziano Ticiano - Wikimedia Commons, em CC.

No Renascimento, mulher nua em alguma pintura só se tivesse um motivo, um tema “superior”, a apenas mostrar um belo corpo feminino nu. Pinturas com temas do período Clássico da Grécia eram comuns para retratar mulheres nuas. Depois, o Academicismo trouxe a pintura de nu com o propósito de estudo anatômico, mantendo ainda um tema para o nu na arte.

Essa obrigação de um tema para retratar o corpo nu (não só o feminino) durou até o Impressionismo, onde as pinturas Olympia (nome da prostituta retratada pelo artista) e Le déjeuner sur l’herbe (em português, O almoço sobre a relva ou O piquenique no bosque), ambas do pintor Manet, do ano de 1863. Essas pinturas foram chocantes para a época, ao mostrar mulheres nuas sem nenhum tema além do simples nu.

Nu na Arte Contemporânea, mais liberdade para falar da sexualidade feminina. Étant Donnès (1946-1966) escultura do artista Marcel Duchamp - Wikimedia Commons, em CC.

Outra coisa que sabemos é que mulheres que posavam para pinturas de nu, nessa época, eram na sua maioria, prostitutas. Afinal, a nudez não era coisa de mulheres de família. Foi também no Século XIX que começamos a ver alguns artistas retratarem modelos que não fossem mais prostitutas. Auguste Rodin retratou inúmeras amantes dele, uma delas, Camille Claudel, uma artista promissora e bem mais liberal que a maioria das mulheres de sua época. Ainda assim, mulheres que posavam para artistas, independente de quem fosse, eram vistas como prostitutas. Podemos notar o preconceito com mulheres artistas ou modelos vivas no filme Camille Claudel, em várias passagens ela sofre preconceito por ser amante de Rodin, como se o trabalho dela fosse medido não por sua genialidade e sim por fazer sexo com um homem mais velho e casado. Ela e qualquer outra modelo  de Rodin, eram vistas como prostitutas por inúmeros auxiliares do escultor. Camille Claudel foi esquecida como escultora por muito tempo.

Na contemporaneidade, o nu começou a ser tratado de forma mais comum na arte. Tão comum a ponto de lotar museus de arte em todo o mundo. A obra contemporânea com nu que mais me apaixona é o Étant Donnès de Marcel Duchamp, sempre visto como um artista que não sabia trabalhar com imagens realistas, deixou como obra póstuma um belo exemplar de nu feminino. Uma obra curiosa, no mínimo, uma pintura tridimensional, onde o expectador é um voyeur, que assiste do buraquinho de uma porta, um momento íntimo de uma mulher. Ao que parece, seria um momento pós sexo, o ângulo é bem revelador e explícito.

O nu no Impressionismo fez uma revolução na Arte. Pintar Olympia, uma prostituta, sem temática específica. Olympia do pintor Manet - Wikimedia Commons, em CC.

Chegando em um momento muito mais próximo dos dias de hoje, o nu volta a ser assunto, mas em um protesto de artistas e ativistas feministas. As mulheres do Guerrilla Girls perguntam “Do women have to be naked to get into the Met. Museum?” (Mulheres precisam ficar nuas para entrarmos no Met. Museum?). Questionando porque encontramos mais quadros de nus femininos que quadros assinados por mulheres artistas dentro dos museus.

Bem, fiz esse mapa histórico para falar de como é vista a nudez feminina hoje em dia. Somos bombardeados por inúmeras imagens de mulheres nuas, mas na maioria das vezes com uma conotação muito objetificada. O que transforma uma revista com mulheres nuas em poses sensuais em algo machista? Acho que essa pergunta me assombra há muito tempo. Antes eu via a revista como um problema. Agora, tento encontrar qual é o problema, se é a revista, se é a procura por essas revistas ou se é esse tipo de revista ser comercializada apenas para homens (revistas de homens nus são para o público gay, na sua maioria).

Tradução: "Mulheres precisam estar nuas para entrar no Museu Met? Menos de 3% dos artistas nas salas de arte moderna são mulheres, mas 83% dos corpos nus são femininos". Guerrilla Girls, foto de Hanako Hiro no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Acredito que continuamos a viver em um mundo onde a nudez feminina é algo sujo, impuro e errado. Seja por medo de ser julgada como vadia ou por medo de enfrentar o seu próprio corpo, temos sempre medo de que nos comparem com as mulheres ditas como beleza universal pela mídia. Mulher bonita não tem celulite, mulher bonita não tem pneuzinho, mulher bonita não tem peito caído. Mas nem toda mulher bonita é mulher direita, afinal, qual mulher direita apareceria nua em uma revista? Mulher direita no máximo mostra seu corpo nu ao seu marido.

Hoje em dia vejo uma necessidade de desmistificar o nu, a mostrar que mulher “perfeita” não existe, o padrão midiático é uma mentira alimentada pela edição de foto e vídeo, que tira estria, celulite, barriga, cicatriz, tatuagem e a realidade de uma mulher. Quantas mulheres têm medo de se olhar no espelho graças a isso? Eu já tive medo de me encarar no espelho, eu já detestei tirar fotografias, eu já me senti feia por não ser como as mulheres que aparecem nas revistas e na televisão.

Também precisamos tirar esse resquício de preconceito em relação a mulheres que não têm pudor, que tem vontade e coragem de se mostrar como são, de expor seus corpos. Seja em revistas masculinas, na televisão, em fotografias artísticas ou pinturas. O corpo nos pertence e o nosso caráter não é medido pelo tamanho de nossas roupas ou porque fomos fotografadas sem roupa, com biquíni ou com lingerie.

Quando eu comecei a perder o medo de ser fotografada. Morning por João Miranda - Acervo pessoal

O nu feminino em uma obra de arte, para muitos é aceitável, mas se não for artístico é ruim por quê? Todo nu não é igual? Alguns nem assim aceitam a nudez feminina, olham para a(s) mulher(es) que não têm esse tipo de pudor como olhavam para as modelos dos pintores de séculos atrás. Continuamos acreditando que certos tipos de nudez são aceitáveis e outros não, continuamos acreditando que podemos julgar mulheres porque posaram sem roupa, no final das contas, não mudamos muito não é?

Autor: Sara Joker

Artista visual, quadrinista, atriz e cantora. Formada em licenciatura e bacharelado em Artes Visuais, pós graduada em Psicanálise. Nerd de humanas, adora RPG, quadrinhos, filmes cabeça, rock e livros. Se interessa por questões relacionadas as lutas pelos direitos das mulheres, negros e LGBTTs.

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