A Chave de Sarah

Durante a Segunda Guerra Mundial, a França foi ocupada pelos nazistas em 1940. Com a rendição francesa, o país foi separado em duas zonas, uma ocupada pelos alemães e a zona livre de Vichy, governada por franceses leais e submissos ao governo alemão. Paris encontrava-se dentro dessa zona livre, fazendo parte de um Estado-Fantoche francês de 1940 a 1944. Em junho de 1942, aconteceu o episódio conhecido como: Le Rafle du Vel’ d’Hiv. O maior aprisionamento em massa de judeus realizado na França durante a Segunda Guerra Mundial.

Vel’ d’Hiv é a abreviação para Velódrome d’Hiver, um velódromo indoor onde cerca de 12.884 judeus, na maioria mulheres e crianças, foram trancafiados, sendo depois transferidos para o campo de deportação de Drancy, próximo a Paris. Para logo depois serem deportados para Auschwitz, de onde a maioria nunca mais voltou.

Capa do livro "A Chave de Sarah".

De acordo com os registros, chegando em Auschwitz, homens e mulheres eram levados para trabalhar, enquanto as crianças eram levadas diretamente para as câmaras de gás. Não há grandes registros dessa ação (e para os franceses o assunto costuma ser tabu), porque não foi uma ação organizada pelos nazistas alemães, mas pela própria polícia francesa. Além da grande maioria das crianças presas serem cidadãos franceses. Esse é o ponto de partida para “A Chave de Sarah”, livro que conta duas histórias. A de Sarah Starzynski, uma criança levada para o Vel’ d’Hiv  em 1942. E a de Julia Jarmond, uma jornalista americana radicada em Paris.

Julia tem pouco mais de quarenta anos e está casada há mais de quinze anos com Bertrand, um francês muito charmoso e egocêntrico, com quem tem uma filha pré-adolescente, Zoe. Ela trabalha numa revista e foi incumbida de fazer uma reportagem sobre o episódio do Velodróme de Hiver, por conta dos sessenta anos do evento. Durante sua pesquisa acaba descobrindo que diversas famílias francesas se aproveitaram da prisão das famílias judias para conseguirem apartamentos desocupados por bons preços. Praticamente todos sabiam a quem pertenciam aqueles apartamentos, mas muitos argumentam que em tempos de Guerra nenhuma atitude pode ser analisada de forma isolada. Julia acaba descobrindo que a família de seu marido ocupou o apartamento dos Starzynski e isso desenterra diversos segredos.

Não é todo dia que vemos um best-seller ter como protagonista uma mulher de quarenta anos com um pano de fundo histórico e atual. Também é positivo o fato da autora ser uma mulher. Tatiana de Rosnay, publicou seu primeiro livro em 1992.

Há um filme baseado no livro. Como sempre o livro é melhor, por ser mais detalhado. A melhor parte do filme é dar vida a história de Sarah, a cena em que mulheres e crianças são separadas no campo de deportação é absurdamente dolorosa, assim como é difícil passar pelas cenas da concentração no velódromo. Milhares de mulheres, homens e crianças sem água, comida, camas ou banheiros. Trancafiados no centro de Paris com os moradores vendo toda movimentação dos ônibus, os gritos e o desespero.

A leitura é leve e rápida, apesar do tema pesado. A vida pessoal de Julia é tema de boa parte do livro. Ela descobre-se grávida aos 40 anos, em um casamento que parece esgotado e morando numa cidade que nunca a acolheu de verdade, para os familiares franceses ela sempre foi vista como la américane. As histórias de Julia e Sarah são contadas concomitantemente, um capítulo para Julia e o próximo é sobre Sarah, até que as duas se juntam num ponto em que só Julia poderá nos contar mais sobre Sarah.

Referência: A Chave de Sarah de Tatiana de Rosnay. Tradução de Paulo Andrade Lemos. Editora Suma.

Autor: Bia Cardoso

Uma feminista lambateira tropical.

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