Flexão de gênero no diploma

Pode parecer uma coisa simples e boba, mas tem peso simbólico. Em 3 de abril deste ano a presidenta Dilma Rousseff sancionou uma lei de autoria da então senadora Serys Slhessarenko, que torna obrigatória a flexão de gênero nos diplomas. Isso significa que as milhares de mulheres desse país que cada vez mais acessam o ensino superior, vão ter no seu diploma  a flexão feita de acordo com seu gênero.

Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

Algumas pessoas argumentaram que trata-se de uma lei boba, que mais uma vez a presidenta se preocupava com assuntos “menos importantes” ao invés de lidar com questões sérias. Não sei que tipo de lógica é essa, como se a aprovação de uma lei impedisse outras de serem aprovadas. Para mim é significativo que algumas universidades ainda insistissem em usar o masculino como termo “neutro” para designar as profissões, mesmo quando a maior parte dxs estudantes se formando eram mulheres.

Não acredito em termos neutros. Acredito numa linguagem que também está estruturada pelas relações de gênero na nossa sociedade e, que em vários exemplos, reflete uma série de machismos. Aos que acreditam que essa é uma posição radical, é só lembrar quantas vezes os homens se incomodam quando são tratados no feminino, mesmo que num determinado contexto eles sejam minoria em relação às mulheres. Não se trata de uma simples regra gramatical.

Na discussão do nosso grupo sobre o assunto, alguém resgatou a seginte citação:

“Não sabemos se atrás da palavra homem se está pretendendo englobar as mulheres. Se for assim, elas ficam invisíveis e se não for assim, ficam excluídas” (FRANCO, Paki Venegas; CERVERA, Julia Pérez. Manual para o uso não sexista da linguagem (pdf). PROTECA, 2006).

 Para não dizerem que isso é blábláblá de feminista, vale a pena resgatar a citação de Paulo Freire, no texto “A pedagogia dos sonhos possíveis”:

 

“É preciso, então, que nós, educadoras – quero dizer aos homens presentes que não duvidem muito da minha virilidade, mas concordem com a minha postura ideológica de rejeição a uma sintaxe machista que pretende convencer as mulheres que dizendo ‘nós, os educadores’ eu esteja incluindo as mulheres. Não estou. E para provar que quando digo ‘nós, os educadores’ estou falando só de homens, porque não entro nessa mentira macha, eu agora disse, de propósito, ‘nós, as educadoras’, para provocar os homens. E espero que eles se sintam incorporados ao ‘educadoras’ no feminino, para ver como é ruim. Quer dizer, não como é ruim ser mulher. Como é ruim a mulher ser envolvida numa mentira, numa ideologia que pretende explicar sintaticamente, como se a sintaxe não tivesse nada a ver com ideologia – uma falsificação.” (FREIRE, Paulo. Pedagogia dos sonhos possíveis, p. 100)

Saramago traduziu esse sentimento de exclusão em duas passagens (que me lembre), em “A Jangada de Pedra”:

“Quando se encontram vestígios humanos antigos, são sempre de homens, o Homem de Cro-Magnon, o Homem de Neanderthal, o Homem de Steinheim, o Homem de Swans combe, o Homem de Pequim, o Homem de Heidelberg, o Homem de Java, naquele tempo não havia mulheres, a Eva ainda não tinha sido criada, depois criada ficou, Você é irónica, Não, sou antropóloga de formação e feminista por irritação”.

No “Conto da Ilha Desconhecida”, também de Saramago, tem um diálogo em que a “mulher da limpeza” diz assim, ao “homem que queria um barco”:

“… o filósofo do rei, quando não tinha que fazer, ia sentar-se ao pé de mim, a ver-me passajar as peúgas dos pajens, e às vezes dava-lhe para filosofar, dizia que todo homem é uma ilha, eu, como aquilo não era comigo, visto que sou mulher, não lhe dava importância” .
A Lei garante que se uma pessoa quiser corrigir a flexão de gênero do seu diploma, ela pode pedir a reemissão. Parece bobo, né? Mas é o tipo de coisa que faz a gente pensar como o machismo está mega incorporado na nossa sociedade, de várias maneiras e, de como a nossa luta ainda tem muito o que avançar para alcançar uma igualdade substantiva.

Autor: Priscilla Brito

Priscilla Brito é brasiliense é escritora e cientista política formada pela UnB. Atualmente mora no Rio e faz mestrado em sociologia e antropologia na UFRJ. Também constrói o projeto colaborativo da Universidade Livre Feminista, de formação feminista online, e apoia o Agora Juntas, proposta de uma casa feminista na cidade do Rio.

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