Para vermos além da ponta do iceberg

Como a maioria das pessoas que passam por aqui sabem eu gosto de falar do protagonismo das mulheres nas lutas sociais. Mulheres em marcha, greves, ocupações, confrontando o estado, o machismo e o capitalismo. E desde o começo do ano tenho acompanhado um pouco mais do fantástico mundo sindical, muito por essa vontade que tenho de compreender o que é o mundo do trabalho e a classe trabalhadora, é por este motivo que acompanho movimento popular e agora acompanho de longe e com os olhos brilhando o movimento sindical.

Grafite feito em Coimbra. Imagem de Alberto Mesquita.

Durante estas novas andanças políticas e militantes acabei por me confrontar com uma realidade difícil, o fato inexorável do machismo e o racismo serem tão arraigados na construção da nossa sociedade que saem da boca até de camaradas de luta alguns senso comuns reificantes que dá vontade de sentar no meio fio e chorar de desgosto. Mas tenho aprendido algo também neste novo mundo, o que adaptar (não quer dizer recuar o discurso) a realidade das pessoas para poder dialogar e comunicar é fundamental.

Falo isso por que a máxima de que feminismo está diretamente relacionado a misandria e ao sexismo é muito presente no senso comum militante, as vezes criando até mesmo tabus para o debate necessário sobre o combate ao machismo e ao racismo em nossa sociedade concomitante a construção de uma mudança social profunda (ao meu ver a Revolução Socialista). Muito bem, feminismo não é misandria, porém parte de uma análise de realidade social construídas através dos séculos: o homem ocupa o espaço público e a mulher ocupa o espaço privado, desdobrando assim na própria divisão sexual do trabalho.

Normalmente acabamos por ignorar que a divisão sexual do trabalho e a divisão social do trabalho são engrenagens de um mesmo sistema e acabam por funcionar de forma coesa. É por este motivo que para mim um homem da classe trabalhadora e de esquerda é também meu companheiro, mesmo partilhando muitas vezes do senso comum machista da sociedade.

O fato de homens e mulheres serem alvo de exploração e expropriação não quer dizer que sejam iguais em sua opressão. Na verdade se formos observar atentamente por onde começam os ataques aos direitos da classe trabalhadora constataremos que começam pelos postos de trabalho femininos.

A grande participação política das brasileiras tem-se dado nos movimentos sociais: associações de mães, movimento contra a carestia, luta por creches, movimento feminino pela anistia etc. Convém lembrar que o espaço de luta destes movimentos não é o da política institucional. Isto é, estes movimentos ocorrem fora do espaço parlamentar, fora do espaço dos partidos políticos. Trata-se de lutas travadas em torno de certas reivindicações que seus militantes esperam ver atendidas pelo poder municipal, estadual ou federal; ou ainda pelo empresário privado. (SAFIOTTI, Heleieth. O poder do macho, 1991. pág 48)

A questão é que durante décadas as nossas pautas foram secundarizadas junto ao espectro político, vistas como a cereja do bolo e isto foi incorporado ao senso comum inclusive da esquerda brasileira e de seus militantes homens. Até por que continua arraigada ao senso comum que o trabalho reprodutivo não é trabalho.

Talvez de todas as nossas tarefas esta seja uma das mais árduas, a de disputarmos a consciência dos camaradas homens. Pois não é raro nos depararmos com caso de machismo nos espaços de militância e ouvirmos o quanto tais ações são naturais entre homens e mulheres, desconstruir o senso comum, politizar e colocar o debate feminista e antirracista como um dos eixos basilares de um programa de mudança social profunda do país é um grande caminho das pedras. Até por que para avançar nesta tarefa é importante romper com uma arcaica concepção de que mulher só debate assuntos de mulher, ora, se somos maioria da classe trabalhadora então todos os assuntos são assuntos de mulher e necessitam ter o recorte de gênero. Pior, se a maioria da classe é mulher negra então os debates necessariamente precisam localizar estas duas categorias sociais também.

Digo isso por que parte por exemplo da campanha deste ano da “Marcha das Vadias do DF” tenta cumprir parte desta tarefa, incorporando os homens aos debates feministas, colocando que esta luta também é deles, pois só haverá emancipação real na sociedade quando houver a destruição da opressão de classe, gênero e raça. Égua! É tão difícil de compreender isso e colocar em prática?

Por fim, depende de nós disputar os homens também para o combate a uma sociedade patriarcal e machista, pois concretamente quando a água bate na bunda dos homens é por que já nos afogou há bastante tempo. Agora a questão é: Quais mecanismos nós feministas desenvolvemos para disputar a consciência dos homens para que eles compreendam que nossas pautas não são a cereja do bolo, mas parte importante da massa deste bolo?

Eu gostaria muito de ter respostas prontas para este “o que fazer?”, mas não tenho, tenho reflexões, preocupações, erros e alguns acertos ao debater com meus companheiros de luta. Porém uma certeza eu tenho, não é fingindo não existir machismo e racismo entre a esquerda que iremos avançar na luta da classe trabalhadora, talvez ao jogar a contradição dessa sociedade no colo dos nossos camaradas algo comece a mudar.

Sabe como é, mais fácil mudar e disputar a consciência de alguém que já se pretende a questionar e mudar o mundo do que de alguém que pretende conservar as coisas como estão.

Autor: Luka Franca

Paraense radicada em São Paulo, jornalista, mãe, feminista, socialista e do PSOL, ou, 1- a versão feminista de Rob Fleming e/ou do Menino Maluquinho; 2- roquenrou-meio-nonsense; 3- menina-mulher-mãe da pele preta; 4- olhos de comer fotografia; 5- passional e chorona

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