Jogos Vorazes é feminista o suficiente?*

*esse texto contém spoilers.

Disseram por aí: Jogos Vorazes é um filme machista. Haviam dito algo parecido sobre a trilogia Millenium, que traz a fodástica heroína Lisbeth Salander. Bom, a primeira coisa que eu pensei ao ler isso é: não é curioso que obras tidas como poderosas por grandes grupos de mulheres sejam questionadas nesses termos? Não é interessante que se exija coerência total quando falamos de livros e filmes que trazem protagonistas femininas fortes? O empoderamento é desautorizado: sorry, girls, try again. Esse personagem/obra/filme não é feminista o suficiente.

(Obviamente, o mesmo não se exije dos personagens masculinos. Eles podem ser fortes, fracos, feministas, machistas, politicamente corretos ou incorretos. Vêm em numerosos tipos e tamanhos. Afinal, eles não têm que provar nada para ninguém. Eles não estão ali para servirem de modelo.)

O que está de errado com esse pensamento? Pra começar, a expectativa. Isso pode ser chocante para feministas e machistas igualmente, eu sei – mas vou dizer: nenhuma obra ou personagem será totalmente isenta de sexismo. Não seria preciso ter que repetir isso, mas vá lá: o machismo é estrutural. É insidioso. Está presente de forma óbvia nas bobagens ditas pelo Rafinha Bastos, mas também, de maneira mais oculta, na forma como cada um de nós vê o mundo. Tanto em Suzanne Collins, a autora de Jogos Vorazes, como no The Last Psychiatrist, o articulista que a acusa disso, no texto citado acima, e que discuto abaixo. Está presente nas pessoas que você ama, nos livros que você mais gosta. Está presente em mim e em você.

Jennifer Lawrence como Katniss, em cena do filme Jogos Vorazes. Sim, ela é fodona

Isso não quer dizer, obviamente, que não se deva criticar obras com protagonistas mulheres. Dá pra fazer, claro. Mas levando em consideração o fato: nenhum livro, filme ou personagem será jamais feminista o suficiente. Primeiro, porque seria tão utópico que soaria falso, uma vez que nenhuma pessoa de verdade é tão coerente assim. Segundo, porque o feminismo é diverso, plural. E nesse sentido, contraditório. Nenhuma personagem jamais conseguirá abarcar essa diversidade. Se a personagem mulher se veste de forma sexy, é fútil; se não, tem visão limitada do que é o feminismo. Nesse ponto, o texto do TLP acerta: para as mulheres, e para as feministas, não tem saída. You can’t win: você nunca ganha o jogo, porque estará sempre sujeita a críticas de todos os lados.

Deixando de lado as incorreções do texto do TLP (a colmeia de abelhas mata apenas uma pessoa, não todas, por exemplo), acho que vale a pena analisar a crítica que ele faz ao livro – e à repercussão que ele teve. (E, sim, é uma crítica: quando ele afirma que nada tem contra o livro, depois de acusá-lo de ser racista e machista e mal escrito, ele está sendo hipócrita. Se um livro ser machista e racista e mal escrito, como ele acredita, não é motivo para criticá-lo, então o que seria?)

Um dos pontos principais do texto é que as mulheres gostam da obra porque no fundo elas se sentem inferiores: elas gostam de Katniss não porque ela tem habilidades especialíssimas, mas porque as pessoas (= os homens) se surpreendem de que ela as teria. Mas que surpresa! Então não estamos na era do pós-feminismo, afinal? Então as mulheres ainda se sentem inferiorizadas, apesar de terem conquistado “tudo”? Então as mulheres consideram fodona uma personagem feminina que consegue impressionar a ala masculina? E, finalmente: a mulherada pirou ao ver uma menina com um arco? Bem, a resposta para tudo isso é: sim. Como já deveria estar óbvio a essa altura, com Marcha das Vadias e movimentos feministas se fortalecendo a cada dia, a igualdade ainda não foi alcançada. Nem em questões concretas, como salários, nem em questões simbólicas, como a representação. Garotas com arcos ainda são uma grande coisa, afinal.

TLP diz que isso é culpa das mulheres. Que elas continuam a propagar o machismo, e que, mesmo que todos os homens fossem eliminados do planeta, que o machismo ainda existiria. Segundo ele, as próprias feministas de décadas passadas continuam criando mulheres inseguras, que no fundo se sentem inferiorizadas. Bom, em primeiro lugar, a ressalva: o feminismo não atingiu a sociedade inteira. Nem nos Estados Unidos, nem no Brasil, nem em nenhum lugar. Então dizer que TODAS as mulheres de hoje são filhas das feministas de ontem é forçar a barra. Não são nem a maioria. Mas, ainda que isso fosse verdade, e que todas as mulheres de hoje tenham se tornado inseguras por conta das suas mães feministas: o machismo é estrutural. Mais uma vez: o machismo é estrutural. Assim como o racismo, a gente tenta se livrar dele, mas ele continua lá, em algum cantinho (na virulência com que estamos dispostos a desmontar obras como Jogos Vorazes e Millenium, talvez?). O discurso de que são as mulheres que criam filhos machistas é antigo, e reverbera muito bem entre os homens. Mas feminista esperta sabe que o inimigo não é nenhum homem em particular, mas todo o sistema. Que é reproduzido por todos igualmente.

Uma das acusações de TLP é que o livro é racista. Isso porque Thresh salva Katniss, por conta da amizade dela com Rue – Thresh e Rue são os tributos do distrito 11, e têm pele escura. Mas ele deixou de levar em conta um fato: o fato de a própria Katniss não ser branca. Sim, Katniss não é branca, ou pelo menos há grande possibilidade disso. Ela é descrita no livro como tendo “olive skin”. Uma busca no Google pela expressão resulta em imagens de mulheres morenas e de mulheres negras. Nos Estados Unidos, em que existe a política do “one drop of blood” para ser negro, isso é significativo. Collins não descreve a cor da pele de Prim ou da mãe de Katniss; apenas diz que são loiras de olhos claros. Em geral, o racismo opera de uma forma tão insidiosa que pensamos: se uma personagem não tem descrição de cor, é porque é branca. Branco seria o “default”, o padrão. Assim estamos acostumados.

Podemos considerar que Collins faz como todo mundo, e só descreve a cor das personagens quando não são brancas – ela menciona a pele de Rue e Thresh, mas não a de Prim e da mãe de Katnis. E, bem, Collins especificamente descreve Katniss. Como “olive skin”. Ela e Gale têm a pele escura das pessoas que trabalham nas minas. Veja bem, não ser branca não significa que ela seja negra. Em inglês, ela seria uma POC, “person of color”, termo que designa as pessoas não-brancas em geral, não só as negras (não tem a mesma conotação pejorativa que o “pessoa de cor” às vezes assume, em português). Ascendência indígena é uma das possibilidades. Isso, obviamente, mudaria toda a dinâmica da relação de Katniss com Thresh, com Rue.

Pessoas brancas, como provavelmente é o TLP, imaginaram a “olive skin” de Katniss como branca. Pessoas negras, como a autora desse texto, sempre a imaginaram como “person of color”. A questão é, no mínimo, ambígua, e não permite afirmações categóricas de que a autora é racista.

Sigamos. Para o TLP,  Jogos Vorazes é um conto de fadas, e Katniss  é desprovida de agência. Nada mudou desde Cinderela, diz ele. Bem, não vejo nada de errado com contos de fadas. Mas o caso aqui é se Jogos Vorazes é um, tão maquiado por sangue e mortes que as feministas não perceberam. Eu acho que não. Sim, Katniss recebe muita ajuda de outros personagens. Sim, o livro tem alguns deus ex machina. Mas veja: o uso de deus ex machina atesta apenas contra a habilidade literária da autora. Criar uma saída que ninguém imaginava, uma espécie de milagre, é um recurso ruim de narrativa. Mas será que isso invalida a obra? Katniss se oferece no lugar da irmã, acerta a maçã nos testes de habilidades antes dos Jogos, é inteligente o suficiente para se manter viva. Além disso, ela pesa as consequências de seus atos o tempo todo: de que forma irão repercutir nas pessoas que conhece. Isso é ser desprovida de agência? É o mesmo que dormir 100 anos e esperar ser resgatada pelo príncipe encantado?

Ah, mas o que é agência? É planejar friamente assassinatos? Existe uma visão clássica, que perpassa toda a nossa sociedade, que divide o mundo em duas tendências: os impulsos ativos, construtores, proativos, agressivos, competitivos. E os impulsos passivos, receptivos, acolhedores, colaborativos. Essa primeira tendência tem sido associada ao masculino: aquilo que é ativo, que conquista. A segunda tendência tem sido associada ao feminino. Essas associações não são exatamente arbitrárias, mas históricas. Tem sido assim há muito tempo; mas não precisaria ser, em todos os mundos possíveis. Bom. A nossa sociedade, por razões que não é preciso explicar, valoriza essa primeira tendência. O mundo do trabalho, por exemplo, é competitivo. Para participar dele, as mulheres precisaram se ajustar – e, ao fazerem isso, foram acusadas de “se masculinizarem”, de virarem homens de saias etc. Obviamente que não há nada de inerentemente masculino em ser competitivo ou agressivo, mas, como essas características eram território dos homens, as mulheres foram consideradas intrusas ao entrar nele. E foram julgadas por isso. (Aí se diz que Margaret Thatcher, por exemplo, não governou como uma mulher. Como se houvesse uma forma feminina de governar. Mas isso é outra história.)

Bom, mas e o que isso tem a ver com Jogos Vorazes? A questão é que o conceito de agência descrito pelo TLP tem a ver com esse primeiro impulso. Katniss não mata o suficiente. Não é agressiva o suficiente. Não joga segundo as regras que os protagonistas maculinos de histórias violentas têm usado há muito tempo. Em primeiro lugar: não é bem assim. Katniss mata, e planeja matar. Em sua terra natal, ela caça friamente para alimentar a família, e maneja o arco tão bem que acerta as presas no meio dos olhos, para não estragar a carne. Mas vamos admitir por um momento que Katniss não mata o tanto que seria esperado de alguém na posição dela. A primeira coisa que consigo pensar é que isso é uma decisão inteligente. Ela é pequena, não recebeu tanto treinamento quanto os Tributos Carreiristas (que usam várias outras armas além do arco), está sozinha. Seria bastante estúpido ela sair perseguindo diretamente oponentes maiores, mais fortes, mais preparados, armados até os dentes. Para vencê-los, Katniss conta com estratégia, com inteligência. Deixa que eles se matem uns aos outros e vai sobrevivendo. O objetivo dos Jogos Vorazes não é matar: é sobreviver. Ela não precisa matar todos os oponentes um a um para ser considerada badass, fodona.

As mina pira no arco da Katniss; cena do filme Jogos Vorazes

Sim, Katniss tem muita sorte. As pessoas aparecem para salvá-la muitas vezes. Mas isso também é consequência de ela agir conforme o segundo impulso (o “feminino”, colaborativo): ela canta para Rue e desafia a Capital ao enfeitar seu corpo. Isso pode não ser agência conforme o impulso ativo, “masculino”, da competição, de sair matando. Mas simbolicamente é forte o suficiente para desagradar à Capital. O ato também salva Katniss, pois Thresh, do mesmo distrito de Rue, poupa sua vida. A colaboração pode não ser uma estratégia muito máscula, mas ainda assim é ação, e pode significar rebeldia quando fora do contexto (e fazer amigos numa arena em que o objetivo é matar-se uns aos outros pode ser considerado fora de contexto).

Da mesma forma, quando Katniss desafia a Capital ao propor que ela e Peeta se matem com as amoras, ela está desafiando as regras. Nos Jogos Vorazes, é preciso haver um vencedor. Se ambos se matarem, isso é uma afronta: vida e morte são prerrogativas do Estado, do poder. Você deve morrer quando eles disserem para morrer, e nem um minuto antes ou depois disso. O suicídio é um desacato e uma desobediência. Antes dos jogos, os tributos são protegidos o tempo todo para que não se matem; há até mesmo campos de força para impedi-los de se jogar do terraço do Centro de Treinamento. A morte deve ocorrer apenas na arena, nos termos ditados pela Capital. Esse é o poder deles. Matá-los, se assim os aprouver. Ou mantê-los vivos, se assim preferirem.

Katniss faz, então, muitas escolhas, tem bastante agência. O segundo e o terceiro livros mostram, porém, que o buraco é mais embaixo. Mesmo os rebeldes, que lutam por uma causa nobre, podem estar se aproveitando dela. Mas ela se torna consciente disso. De fato, boa parte dos livros é dedicada à sua aparência, a suas roupas, a como ela aparece em frente às câmeras. Mas essa descrição não é uma chancela a isso, e sim uma crítica. Como é comum às distopias (e o livro, se não chega a ser uma, tem elementos distópicos fortes), Jogos Vorazes se refere à nossa sociedade: uma sociedade que valoriza demais as aparências, o espetáculo, o entretenimento. Esse é um dos temas principais da trilogia: não bastam os Jogos Vorazes existirem, eles precisam ser transmitidos como reality show para todo o país. E as pessoas devem fingir se divertir assistindo aos seus jovens e crianças se trucidarem. O livro é auto-referente no sentido que diverte ao descrever a violência, mas critica isso ao mesmo tempo.

A trilogia chega a ser niilista, quando, ao final, não mostra solução: os rebeldes vencem, mas nada garante que isso será melhor que o regime anterior. Tudo foi em vão: as mortes, as lutas. Nesse sentido, pode-se até dizer que Katniss é roubada de agência, pois seus atos, no esquema maior das coisas, não puderam impedir nada disso. Mas nesse caso ela não está sozinha em sua limitação: todos os personagens estão. Peeta, Gale, Haymitch. Nenhum deles tem o controle nas mãos. E no fim das contas, Katniss pode mais que todos eles, interfere mais que todos eles. Ela não é toda-poderosa onipotente – o que seria de fato estranho, considerando que talvez a ideia do livro seja criticar sistemas políticos complexos. Mas ela faz o que pode dentro das possibilidades dela. O nome disso é contingência. E surpresa, todos nós somos assim. A gente faz o que dá pra fazer, o que tiver pra hoje. A gente ouve a Valeska dizendo que “a buceta é o poder” e comemora, porque, mesmo Valeska não sendo feminista, isso é empoderador para muitas mulheres e quem somos nós para julgar de onde as pessoas tiram força, né. De ideal a realidade não tem nada. (O fato de várias pessoas não celebrarem a música da Valeska não muda o argumento, pois a ideia é justamente que o empoderamento é algo pessoal e sujeito à contingência).

Um vídeo muito bonito do TED mostra a escritora nigeriana Chimamanda Adicie falando do perigo da história única, e da necessidade de termos múltiplas histórias e versões e vozes. Ela falava da África. Ora, a história das mulheres não chega a ser uma história única. Os arquétipos e personas (= estereótipos) variam: tem a mãe amorosa, a femme fatale, a deusa inatingível. Elas podem ser a causa de todos os males ou serem irrepreensíveis. Mas a quantidade de narrativas disponíveis para as mulheres ainda é muito menor que as de narrativas disponíveis para os homens. Sim, temos mulheres senadoras, presidentas, cientistas. Sim, temos mulheres fortes. Sim, temos protagonistas em histórias para adolescentes. Mas ainda não é nem de longe o suficiente para que erradiquemos internamente a ideia de que certos feitos não são para nós, como mostra o documentário Miss Representation. Para que deixemos de pensar que é uma grande coisa a gente conseguir se destacar e falar de igual para igual. A maioria dos filmes e obras que assistimos não passa no Bechdel Test, um critério simples: ter duas personagens femininas que conversam entre si sobre algo que não seja um homem. Então né, quando uma heroína foge disso a gente comemora, celebra. É uma representação a mais, uma história a mais pra gente contar, um modelo novo pra escolher. Ainda que esse modelo não seja perfeito – e qual é? Assistimos Harry Potter e não questionamos se ele é provido ou desprovido de agência (embora a série seja coalhada de deus ex machina), se ele é um bom modelo para nossos jovens, pois temos quantidade suficiente de personagens masculinos de todos os tamanhos e formatos para saber que Harry Potter não representa todos os homens. Mas Katniss representa algo para as mulheres, assim como Lisbeth Salander. A questão transcende a obra em si: tem a ver com o que essas obras e personagens representam para as mulheres, nesse ponto da história. Que isso também nos seja tirado, por problemas de narrativa, por não serem feministas o suficiente, não é justo e nem honesto.

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Debater sobre esse tema deu uma vontade danada nas minas de escrever sobre as suas heroínas preferidas, em filmes, livros, quadrinhos e videogames. Vai ter até blogagem coletiva no fim do mês. Fiquem atent@s.

Jeanne Callegari

Jornalista, ciclista, poeta saindo do armário.

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32 thoughts on “Jogos Vorazes é feminista o suficiente?*

  1. Jeanne, duas questões me vieram, lendo seu post.

    A primeira: o que me parece o grande ponto do texto do TLP (pelo menos o original, não li a tradução do Alex) não é “desconstruir” Jogos Vorazes. O foco do texto, novamente, pelo que entendi, e levando em conta que o meu olhar talvez seja enviesado porque sou leitora do TLP, é desconstruir o próprio modo de pensar da sociedade ocidental, inclusive o feminismo.

    O fato de que o próprio TLP admite que não conhece em profundidade as obras me parece uma boa pista de que ele não está falando dos livros e dos filmes. Ele está falando de como a sociedade vê esses livros e filmes.

    A crítica dele é que o feminismo deveria ser um movimento subversivo. Deveria criticar a organização da sociedade no seu mais profundo e mais básico. Porém, aceita como “feministas” livros, filmes e discursos que, se analisados com cuidado, não representam nenhuma grande ameaça ao status quo. Para mim, a frase chave do texto é: “She is a feminist, but she does not see that Katniss is allowed to exist precisely because she isn’t a threat to men but women can think she is.” Uma obra se tornaria parte da cultura de massa e faria tanto sucesso comercial, se realmente fosse uma ameaça à ordem instituída?

    O que quero dizer é: será que é produtivo discutir com o texto do TLP interpretando-o ponto a ponto com trechos da obra, ao invés de discutir com aquilo que é a ideia central do texto, i.e., de que talvez o próprio feminismo, em muitos aspectos, tenha passado a fazer parte do status quo, ao invés de ameaçá-lo? Será que não seria o nosso papel desconfiar imediatamente de algo que já venha comercializado como “feminista”?

    E a segunda questão: considerando que a identidade do Alone, que é o “nom de plumme” do Last Psychiatrist, está sempre em debate, e até hoje ninguém conseguiu descobrir exatamente quem está por trás do blog, que elementos te permitem afirmar com tanta certeza de que se trata de uma pessoa branca?

    • Deborah! :)

      Vamos lá:

      1) Eu acho que, de modo geral, pode ser que o TLP tente questionar mesmo o modo de pensar da sociedade ocidental. Mas nesse caso específico, ele mistura isso com uma crítica ao livro e ao filme, sim. O título do post dele é: “Jogos Vorazes é um filme machista, e ninguém percebeu”. Então tem duas questões aí: o fato de o filme/livro ser machista; e o fato de ninguém ter percebido.

      Mas eu acho que não dá pra falar da segunda sem falar da primeira, sabe? Porque, se o livro é machista, então aí a gente pode debater: por que ninguém percebeu? Mas, se o livro NÃO é machista, ou o é apenas na medida em que é produto de uma sociedade machista, não há o que perceber, manja? Então, pra poder debater a forma como as feministas receberam o filme, é preciso sim avaliar a obra. Por isso que eu escrevi o texto, dialogando com as questões que ele propõe: porque eu acho que a obra não é machista da forma como ele descreve, e portanto não vejo problema na forma com que foi recebido.

      A obra tem problemas, vários. Como muitas outras têm. Mas acho que, ao se tomar por base o texto dele, tem-se a impressão de que as feministas são umas loucas ao achar graça no livro, e não é bem assim, né. Tem muitos elementos interessantes, que são novos em uma literatura de massa, best-seller, voltada para um público feminino.

      O TLP mistura a análise da obra com a análise do público. Em sua análise do público, acho que ele acerta, para poder errar na conclusão: sim, as mulheres gostaram de Katniss por ela ter um arco, e por ter impressionado os homens; ela é fodona também por essas coisas. O ponto que a gente sempre tenta defender é: ainda não há igualdade. A representação ainda é muito desigual. Então sim, a gente comemora isso, ué. Numa sociedade igualitária, a leitura do livro seria outra. Mas hoje, nesse momento histórico, as coisas não estão ainda tão bem para a gente não prestar atenção em uma menina com um arco.

      Não sei o quanto o livro representa uma ameaça ao status quo. De fato, qualquer movimento pode ser cooptado e transformado em algo vendável (se até o punk virou fashion, no passado…). Mas aí é uma questão de adequação à proposta, né. Estamos falando aqui de um livro, voltado para um mercado adolescente (não cabe aqui questionar a categoria “adolescente”: ela existe, como nicho de mercado, nesse momento da história, e é daí que a gente parte), então é óbvio que tem limitações. Me surpreende que não tenha mais limitações, até. Não considero que por pensar isso eu tenha me tornado parte do status quo. Mas vamos ver, né. De repente o feminismo vira hype, como as bicicletas se tornaram, por exemplo. Não vejo por que isso seria ruim, mas enfim…

      2) Faltou um “provavelmente” ali quando digo que TLP é branco – imagino isso porque ele não considera a possibilidade de Katniss ser uma person of color, e que se essa questão importasse pra ele, ele teria mencionado. mas de fato, não há dados, é uma suposição (o texto dele está cheio de suposições também, aliás…). Eu poderia tirar a menção a ele do texto, mas aí nossa conversa perde o sentido. :) Por isso, apenas acrescente o “provavelmente”, que está aberto ao debate, evidente. Eu mesma me incluo na questão: achava que Katniss era morena bronzeada, apenas. Depois que fui pesquisar para ver o ponto de vista dos negros e negras para o filme.

      Enfim, acho que é isso… Por que dialogar com a obra, se o TLP nem vai tomar conhecimento de nada disso, enfim (e eu até gosto de alguns textos dele, não se trata disso)? Por que acho que, a essa altura, as mulheres já se apropriaram da obra. Isso ninguém poderia obrigar, prever… O capitalismo não controla o que as pessoas fazem com as personagens que têm à disposição. E eu acho que esse empoderamento que as mulheres e garotas encontram na Katniss não deve ser menosprezado, sabe?

      Beijo!

  2. Vou deixar de lado a história dos livros e do filme e comentar um certo detalhe que me chama a atenção, essa “onipresença machista” (todo mundo é machista), e como ela se assemelha a outras coisas que vemos por aí. Você parte do pressuposto que todo mundo é machista e reinterpreta as ações daquela pessoa segundo esse viés: “ele fez isso porque é machista”, etc. Acho isso um tanto quanto perigoso.

    Você diz que o feminismo é plural, e se o feminismo é plural existem muitas formas de ver a mesma pessoa julgando apenas por esse mérito. Se não há nem um consenso sobre o que é ser feminista, por que há a ideia aparentemente indiscutível de que todo mundo é machista? De acordo com o quê, com quem?

    Veja como isso parece religioso. Imagine, por exemplo, que um colunista inimigo do movimento poderia mui facilmente escrever um texto comparando esse “machismo inerente” ao pecado original, e as feministas aos clérigos benignos que, do alto de sua sapiência, estariam dispostas a apontar os defeitos dos fiéis, esses machistas. Os padres também se dizem pecadores, mas gostam muito mais de falar dos pecados dos outros, não é mesmo? Eu sei muito bem que não é essa a sua intenção e não é essa a ideia que você quer transmitir (até porque me envolvo bastante com a causa), mas mesmo assim o paralelo me parece pertinente.

    Quando você parte do pressuposto de que todo mundo é machista, também pode reinterpretar ações que tinham intenções diferentes como machismo. Passa a ser uma verdade infalível que pode explicar tudo. O machismo está lá, só bastaria procurar. Bom, não acho que pré julgamento seja algo útil em qualquer aspecto. Na minha modesta opinião, os atos devem ser julgados por seus efeitos e intenções – e as pessoas pelos seus atos, e não por uma ideia pré concebida que teoricamente se aplica a todos os seres do planeta. Você mostrou muito bem, por exemplo, muitos exemplos de como o machismo pode se manifestar dentro das duas trilogias que comentou. Aliás, gostei muito do texto com exceção desse pequeno aparte.

    Veja bem: eu não disse que eu, pessoalmente, não seja nem um pouco machista. De fato, devo ser em muitos aspectos. E acredito, também, no valor de se policiar por atitudes e pensamentos injustos. Mas esse é um problema meu com a minha consciência, com as coisas que penso ou leio.

    • André, eu disse que o machismo é estrutural. Na nossa sociedade, hoje, nesse momento. O que eu quero dizer é que não dá pra afirmar que ninguém seja totalmente isento de machismo, porque a gente vive nessa estrutura. Daí que, uma obra escrita nos tempos de hoje, inevitavelmente cometerá algum deslize que possa ser chamado de machista, porque a gente nem tem noção de como isso opera, muitas vezes. E aí erra, sem perceber.

      Isso pode ser superado um dia, claro. É pra isso que eu luto, se não nem estava aqui…

      Não acho que eu esteja procurando uma explicação fácil, e também não entendi a comparação com a religião. Se digo que até mesmo eu ou você podemos ser machistas, não estou apontando o dedo pra ninguém. Também não estou naturalizando o machismo como inevitável: apenas pontuando que, nesse momento histórico, ele faz parte das estruturas.

  3. Tava com preguiça de ler os livros até ler o texto. Jeanne, você mandou muito bem na análise do texto (que eu li, apesar de não ter lido os livros) – e é incrível como qualquer personagem forte na cultura pop sempre é desautorizada como não sendo o suficiente. E não só feminista, mas não sendo o suficientemente “coerente”, como se “coerência” fosse atributo fundamental para um grande personagem. Afinal, Raskolnikóv, Arturo Bandini e Julien Sorel estão aí explodindo coerência pelos poros, né?

    • Rê! Então, o livro não é perfeito, tem falhas etc. Afinal, é um best-seller, feito para um nicho específico. Ninguém é obrigado a gostar, rs. Mas o teor da crítica do TLP eu achei pesado, porque acaba questionando o empoderamento que as pessoas possam tirar desse livro. E isso é foda, sabe, porque quem é ele pra dizer quem as pessoas consideram um modelo forte para se inspirar?

      E coerência por coerência, de fato, ninguém anda exigindo isso dos personagens masculinos. O personagem feminino acaba tendo que levantar uma bandeira, ser um modelo, e isso é complicado.

  4. Gostei bastante do texto, mesmo não tendo visto o filme (nem li os livros) ainda. Já li outras críticas ao filme e, sim, qualquer obra que mostre a mulher de um modo menos pior será aplaudida, ou pelo menos comentada, como é o caso, pelas feministas. E eu acho isso importantíssimo. Temos que apoiar e criticar, mesmo não sendo nosso “ideal de perfeição”.

    Agora, falar que “nenhuma obra ou personagem será totalmente isenta de sexismo” é MUITO pessimismo pra mim. O fato do machismo estar em todas as obras de hoje não faz com que sempre esteja. E mesmo entendendo que o feminismo é plural e que obras completamente feministas serão questionadas por outras feministas (mas que pensam diferente), não faz com que todas essas obras sejam machistas – algumas sim, outras não (baseado é claro, no que EU penso como feminismo).
    Mas como você citou: “Se a personagem mulher se veste de forma sexy, é fútil; se não, tem visão limitada do que é o feminismo”; Ter visão limitada do que é feminismo, não faz dela machista, faz? Ela só pensa diferente do que eu penso. Se as críticas às (futuras) obras feministas fossem assim, você as englobaria na teoria de que “nenhuma obra ou personagem será totalmente isenta de sexismo”?

    Não sei se a sua linha de raciocínio é a mesma que a minha, mas eu acredito que só uma mudança completa da sociedade faria com que o feminismo fosse uma realidade vivida e, acreditando nessa mudança, só aponto o machismo como uma coisa passada e atual, nunca futura.

    • Pamela, eu ando meio pessimista mesmo, rs.

      Mas então, não acho que o machismo existirá para sempre em todas as obras de arte e entretenimento. Eu luto para que isso mude! Mas acho que hoje, no atual momento histórico, o machismo ainda está tão arraigado que é muito difícil qualquer pessoa escrever uma obra que não tenha pelo menos algum eco machista, em algum lugar. Por mais que a gente tente, afinal, somos influenciados pelo meio e todo mundo dá uma escorregada em algum momento. Em um livro totalmente não-machista, as pessoas descritas seriam tão diferentes da vida real que a gente não se reconheceria nelas. Não que toda obra precise receber o rótulo de machista ou sexista, pelo contrário. Esse eco não seria suficiente para classificar uma obra dessa maneira, porque justamente isso é algo que atualmente é comum a praticamente tudo. E, como eu disse, uma obra que não é sexista para mim, pode ser para outra pessoa, com outra visão de feminismo, donde se conclui que o selo de 100% coerência feminista seria muito difícil de atingir, mesmo…

      Espero que no futuro, isso mude, de fato.

      • Entendo. É que eu sou muito otimista haha.

        Você falou que a gente não se reconheceria numa obra totalmente não-machista, e isso é muito verdade. Acho que as obras mais feministas devem fazer exatamente o contrário, mostrar o que há de mais machista, já que essas atrocidades existem, e matam tanta gente; mas, claro, como forma de crítica.

        E esse selo de coerência realmente não deve acontecer, feliz ou infelizmente, não sei.

  5. Que viagem esse texto do TLP. Por favor, comparar a Katniss com a Bela Adormecida?

    COncordo que a sociedade é machista sim, então so o fato de termos uma personagem que seja boa em caçar( ao invés de limpar a casa da madrasta), não se vista de forma de sexy (vide mulher gato e afins), não pense somente em arranjar um marido ( quase toooodas as personagens femininas), e que as mulheres tenham posição de destaque (presidente, comandante de batalhão, lider da reveolução) jà faz com que o livro quebre alguns paradigmas.

    Achei podre o texto do TLP até porque ele repete varias vezes ter lido o livro e depois fala “o narrador onisciente mostra ao publico que tem um vespeiro magico acima de Katniss”. Erro besta, a narração do livro é em primeira pessoa, sendo a propria Katniss a narradora. Achei esse texto do cara tão forçado que dà a impressão que ele so quer falar algo que todo mundo vai discordar, assim ele tem certeza de estar na boca do povo.

    • Sim, Alinka, essa é uma das imprecisões do texto do TLP. Acho que a cena da colmeia poderia ter sido melhor construída, mas confundir o narrador onisciente com a narração em primeira pessoa já é suficiente pra bagunçar o argumento, né?

  6. Acho que críticas como essas do TLP em relação ao possível machismo na obra não colaboram em nada, só deixa as mulheres em um beco sem saída.
    A protagonista não faz como o Rambo, mata todo um país sozinha, das formas mais absurdas e inviáveis possíveis. E daí? Quem criou o padrão de herói como o Rambo foi a nossa sociedade. Você precisa criar uma heroína seguindo o mesmo padrão, só que sendo mulher, pra ser considerada feminista?
    Claro que não.
    Por outro lado, se ela fosse uma versão mulher de alguém como o Rambo não faltariam críticas, talvez do mesmo autor, de que é uma simples cópia dos homens e que portanto é machismo, porque coloca os modelos masculinos como únicos e melhores.
    Acho que na realidade o que incomoda é ver uma mulher fora dos papéis nos quais foram acostumados a ver.

  7. Eu tendo a concordar com o comentário da Déborah Leão…

    Não sei bem porque, mas a sensação que passa com o texto da Jeanne Callegari é de que estamos assistindo a um debate que no fundo trás a velha guerra dos sexos, o TLP como homem, branco e portando machista e o Blogueiras Feministas e a própria Jeanne como feminista defendendo a forma como o TLP as ataca.

    Também acho que dizer que não viu os filmes ou não leu os livros, não invalida a opinião que tenha a expressar sobre o que está acontecendo em termos de recepção de público e em termos de apropriação feminina e até mesmo feminista. O texto do TLP foca nisto, sem elaborar de fato nenhum descolamento um do outro. Cair nesse debate ponto a ponto do filme pra desqualificar o argumento é tão bobo quando dizer que o TLP é branco e consequentemente um homem machista. Será que o fato de ter sido traduzido pelo Alex Castro editor do PDH também invalida?

    Sobre contingência eu até que era favorável a observação, mas quando havia lido como se tratasse de uma ação de reapropriação de elementos que circundam pessoas. Quando falamos nisto, estamos falando em táticas de Certeau e em reapropriação, mas acredito que agir dentro de uma contingência é apenas responder a uma ação, ou seja reagir, instintivamente, mecanicamente e automaticamente, não é uma ação elaborada do sujeito que planeja, reapropria e responde de forma diversa.

    Sabe, eu juro que esperava algo mais elaborado em resposta ao TLP, porque não se trata de invalidar a opinião de um homem machista e branco, não é isto, se trata de construir um questionamento que vai muito além disto. Se trata de sujeitos conscientes de si e do que são, do que acham legitimo. Sujeitos que para além da necessidade em se colocarem em lugares de definidos de gênero, possam ter a capacidade de dentro de si executarem estas escolhas. E esta não é uma questão só feminista, é uma questão de todos.

    Aceitar que qualquer tipo de empoderamento feminino é válido é muito incoerente e não é este o caso, pq não é uma questão de modelo feminista perfeito, caso vcs tenham entendido isto, que o TLP esta falando sobre modelos feministas incoerentes e invalidando-os por serem menos correspondentes ao ideal e que o TLP, na forma de homem, machista e branco está dizendo as mulheres que aquele modelo por menos ideal que seja é muito errado, olha… Soa como se o fato do TLP ter questionado este empoderamento fosse suficiente para as feministas correrem lá e produzirem todo tipo de argumento que o desqualifique, dai que faz tanto sentido a Jeanne o chamar de branco.

    Engraçado que isso soa tão dentro da própria questão que o TLP aponta, a velha paranóia feminista em bater de frente com elementos anti-feministas que são mais complexos do que parece e colocar as mulheres em questões que são verdadeiras armadilhas. “O que faz disso uma situação impossível para as mulheres é que essa escolha não é sobre “o que fazer” mas sobre quem ela é”.

    Outra coisa, muito tosca é dizer que a a heroína dentro da narrativa do livro elabora uma crítica a sociedade de consumo e de vaidade ao colocá-la tão voltada a descrição de roupas e modos de apresentar-se, embora eu não esteja tão segura disto, mas como em um livro que trás a figura da mulher empoderada segurando um arco, tb trás uma crítica ao modo como ela se porta?

    • Vanessa,

      não se trata de uma guerra dos sexos. O TLP poderia ser mulher, e eu ainda assim discordaria dos argumentos usados, porque passam uma ideia errada do que é a obra. Aliás, nada tenho contra ele; inclusive, gosto de alguns dos textos que escreve, gosto de sua verve. Mas nesse caso, acho que ele errou. É possível criticar Jogos Vorazes, e a própria recepção ao livro, de forma bem mais interessante, como faz a Anita do Feminist Frequency: http://www.youtube.com/watch?v=C8428XSejp0

      Eu acho a crítica do TLP problemática porque mistura crítica do livro, e crítica à recepção do livro. Como eu disse para a Débora, não dá pra analisar a segunda sem avaliar a primeira, porque é preciso falar da obra pra dizer se as pessoas estão tendo uma reação exagerada/inadequada. Como dizer se as pessoas estão fazendo muito barulho por nada sem avaliar a causa do barulho?

      Por que escolhi fazer uma resposta ponto a ponto? Não porque ele é homem machista e possivelmente branco, obviamente. Mas porque eu acho que tem coisas nessa discussão que podem ser válidas para outros casos. Como eu disse no texto, não é a primeira vez que usa-se argumentos virulentos e exagerados para questionar as heroínas consideradas empoderadoras por várias mulheres. Sempre tem alguém olhando com lupa para as nossas heroínas, buscando uma coerência total, sabe? Dezenas de filmes com protagonistas adolescentes homens saem todo ano, e tenho certeza que o TLP não gasta a mesma energia para detoná-los. Tanto haveria para dizer sobre os problemas de deus ex machina em Percy Jackson, Harry Potter, a maioria dos filmes de super-heróis…

      Eu não acho que tudo que se intitula feminista é válido, né. Mas nesse caso, achei que sim (se bem que nem sei se o rótulo “feminista” foi colado no livro pela autora, ou depois, pelas pessoas que leram). É a minha opinião, ninguém é obrigado a concordar, rs. E como eu disse: empoderamento é algo pessoal, a gente tem que respeitar o fato de muitas mulheres acharem a obra empoderadora, mesmo que pessoalmente não nos atraia. Acho que comparar Katniss com Bela Adormecida um exagero, e nesse sentido, acho que vale a pena responder, sim.

      Obviamente que não tenho nenhum problema com Alex Castro; gosto muito dos textos dele. Eu mesma já escrevi para o PdH algumas vezes.

      Ah, e sobre a sua última questão: a crítica do livro é à sociedade do espetáculo; não é escolha de Katniss vestir-se, arrumar-se, ela preferiria não fazer isso (bom, ela poderia se recusar, mas aí ela enfrentaria consequências: como a morte dos membros de sua família, por exemplo. Daí ela faz uma escolha na contingência: usa as roupas que não usaria normalmente, atua na arena para ganhar a atenção dos espectadores, mas porque são essas as formas de proteger as pessoas que ama e sobreviver. Acho sensato). Quando ela pode escolher, ela se veste com as roupas de caçadora, com botas, tranças e jaqueta.

      • Jeanne,

        O TLP não está centrado no que a obra é ou deixa de ser, embora tenha dimensão de seus pontos centrais que estruturam a repercussão feminista com o filme, e nestes pontos suas críticas são completas. Perceber a obra fechada, a obra pela obra não dá conta das formas como estão sendo endereçadas e reapropriadas. E este sim é o foco do tlp, extraído do Jezebel e fazendo uso do filme. Você diz que “Eu acho a crítica do TLP problemática porque mistura crítica do livro, e crítica à recepção do livro” mas como dar conta do significado de uma obra fora de seus contextos, e você mesmo reconhece isso ao dar como válida o, embora tímido e dentro de uma contingência, empoderamento feminino, afinal, este empoderamento é isolado dentro da obra, ou tem significado fora disto?

        É possivel sim analisar estas recepções e repropriações tirando o foco da obra, mas NÃO a isolando, e como dizer que uma reação é inapropriada/inadequada se o controle de recepção não é definido pelo endereçamento da obra, mesmo que o autor tenha tido esta ou aquela intenção? Não retiro a validade do que pontuas, mas estás centrado demais na obra e atribuindo valor demasiado a isto ao mesmo tempo que acusas o tlp ter feito o mesmo, ter focado na recepção do livro.

        Muitos dos pontos que você levantou são muito importantes e não estão sendo descreditados aqui, mas é que estes pontos não estão relacionados ao que o tlp chama atenção. É leviano demais vc atribuir que o tlp está criticando um empoderamento falho [contraposo a um verdadeio e eficiente] e que ele e nestes argumentos dita as pessoas, e neste caso as mulheres, o que é um empoderamento real e verdadeiro, o tpl NÃO está fazendo isto.

        Este Último ponto [da distopia] mostra como pelo fato de que eu não ter lido o livro nem ter visto o filme, nem tudo consigo alcançar, o que torna o meu comentário incompleto em certo ponto, mas não invalidado, porque a questão é muito maior, muito.

        Você acaba pontuando com a sua critica que todo empoderamento embora mais ou menos ideal (aliás, o que estamos chamando de ideal aqui? e o TLP atribue algo como sendo ideal? acho que não) consegue alcançar um certo número de mulhers e dar-lhes símbolos que funcionam para a elevação de seu status quo, você diz que por mais que seja tímido, seja uma bobagem para muitos, é eficiente para uma garotinha e que portanto é válido. O que o TLP diz é que isto é uma enganação e NÃO que exista um empoderamento real e eficiente que as pessoas não estão sabendo reconhecer e que é ele que vai dizer o que funciona ou não [sorry, girls, try again]. Ou seja, você quando diz que todos ecoam sexismo, vc não está errada, mas isto é uma forma de dizer que o TLP ecoou um pouco a mais seu lado machista ao atacar a obra, as feministas e as mulheres e esta é a sua deixa para criticá-lo.

        A questão é que você entendeu tudo errado. O que o TLP está criticando é muito mais a forma como o discurso feminista aceitou a fantasia e a usou para empoderar uma imagem, um simbolo, um produto que é uma enganação, e esse debate vai muito além da obra, de homens, e de mulheres e até mesmo da recepção do filme, tudo é um gancho para questões que atravessam as nossas vidas todos os dias como por exemplo se usar maquiagem me faz menos ou mais feminista. Quando você fala em contingência, você apenas está dizendo que a protagonista age com elementos que estão em seu entorno (que a estimulam) e não que ela está reapropriando e elaborando respostas diversas aquilo que se espera, ou seja, tomando consciencia de si a agindo enquanto sujeito pleno de escolha.

        Existe um outro debate que é muito mais interessante do que este, o TLP acaba por demais acreditando na autonômia do indivíduo, o sujeito que elabora escolhas conscientes dentro de um universo de posibilidades, olha, eu tenho minhas dúvidas sinceras em relação a isto (porque também acredito na reapropriação de demandas). se o debate fosse neste sentido, seria muito mais produtivo. Sei lá

        • Vanessa, com todo respeito, eu acho que quem entendeu errado foi você. Isso não é a respeito do TLP. Eu não tou nem aí pro TLP. Eu o usei como exemplo de algo que considero maior – essa espécie de má-vontade com as protagonistas femininas que as mulheres acham empoderadoras. Eu cito o caso da Lisbeth, por exemplo. É a mesma coisa. Se pontuo o texto dele, é porque esse é o caso que estamos discutindo, pra mostrar que os argumentos dele são falhos e ele está de má vontade.

          Você diz: “O que o TLP está criticando é muito mais a forma como o discurso feminista aceitou a fantasia e a usou para empoderar uma imagem, um simbolo, um produto que é uma enganação…”

          Então, mas eu acho que essa crítica dele não procede. Você está comprando a tese dele de que essa obra é uma enganação. Mas você não leu o livro, certo? Então em que está baseando sua opinião? No argumento de autoridade? Por que ele é o TLP, um cara que costuma escrever bons textos e é conhecido na rede, então ele deve estar certo? Só há um jeito de saber se a crítica dele procede – na sua opinião, claro – e essa maneira é lendo os livros. Eu, por exemplo, acho que o produto não é uma enganação. Eu e todas as meninas que lemos os livros, vimos o filme e debatemos sobre o tema exaustivamente na lista das BF. Isso não é um argumento de autoridade, veja: afinal, nós não somos conhecidas, não somos ninguém. Mas temos mais dados para analisar a questão, pelo menos. E na nossa modesta e humilde opinião, o produto não é uma enganação. E por isso eu escrevi esse texto, para a elaboração do qual contei com o debate, e a opinião, de várias mulheres.

          Olha, você é livre para escrever um texto mais interessante e produtivo, se quiser. Mas entenda que julgar o produto como uma enganação, sem lê-lo, é que é desonesto.

          Eu gostaria muito de saber o que de tão interessante as pessoas viram nesse texto do TLP (você e o Alex Castro que, apesar de não ter sido o tradutor, foi quem bancou o texto e publicou em seu blog). Juro que não entendo, honestamente, o que há de bacana no texto. Você e Alex não leram o livro; seria por isso, talvez, que uma crítica que erra a mão pareceu interessante? O que você achou de tão bom no texto dele, sério?

        • Vanessa na boa, quando um crítico inventa uma passagem no livro pra fazer caber a análise dele, ele está sendo um mau crítico. E pelo que vi não só no texto da Jeanne, como em outros, ele descreve erroneamente não só uma, mas diversas passagens. Sério, não consigo entender como alguém dá crédito a um crítico que sequer se dá ao trabalho de descrever com precisão aquilo que ele está querendo criticar. Estou achando é que você concorda com a ideologia dele, que é bem explícita: “meninas, se vocês querem um personagem realmente feministas, precisa comer muito arroz com feijão, vocês preciam matar não sei quantos leões, vocês precisam agir dessa e daquela forma, etc.etc., etc.” – e bem, do meu ponto de vista, não existe isso de ser verdadeiramente feminista. Existe estimular outras histórias sobre as mulheres em que elas não sejam as “princesinhas” de sempre, esperando “o princípe” de sempre, e me parece que esta história faz esse exercício. Tendo a concordar com a Jeanne.

  8. desculpa a pobreza de comentário, mas só tem um emoticon pra isso:

    <3

  9. Olha Vanessa, acho não ter assisitido o filme e não ter lido o livro invalida sim o direito de opinar. Por exemplo, na minha percepção toda essa parte de roupas é sim uma critica a sociedade, pois dentro do contexto do livro, ela não tem escolha de se arrumar ou não. Katniss é forçada a se arrumar, sempre em nome de uma causa maior. Sempre a arrumam, maquiam, fazem suas unhas para…. morrer na arena! ou para liderar a revolução; Esse é o lado “tele realidade” do livro que mostra que uma boa parte de tudo (até de viver ou morrer) depende da aparência.

    E o TLP não questionou se jogos vorazesé ou não feminista, ele comparou Katniss com a Bela Adormecida, logo, acabam todos os questionamentos e vira uma afirmação. E por que não podemos ficar felizes de por uma vez ter uma protagonista mulher, que lidera alguma coisa? Por que temos que questionar o tempo todo a perfeição do modelo? Acho que isso é uma coisa horrivel . Estamos sempre cobrando perfeição das mulheres. Seja como mãe, como esposa, como trabalhadora, ou como modelo de feminismo. Agora, so porque a Katniss não é perfeita (nossa, que surpresa! ninguém é!) não quer dizer que ela seja desqualificada. Sempre isso, 8 ou 80. Santa ou puta. Machista ou feminista. Não é assim. Acho que qualquer avanço, memso que pequeno (estamos discutindo por causa de um filme, oh my godness!) jà representa uma pequena vitoria. E acho que se uma menina de 10 anos preferir caçar do que esperar o principe vir salva-la, e pensar que ela pode liderar uma rebelião, jà é uma pequena vitoria. E não acho justo falaram que o filme ‘nao é feminista o sufuciente’ como se TUDO precisasse sempre ser 100%.

    • Alinka, o comentário não é invalidado por não ter lido a obra ou ter visto o filme, mas é sim incompleto e em certos pontos iremos escorregar, por exemplo, acredito que o ponto que a Jeanne pontuou da roupa é sim uma crítica a sociedade (e tal eu não havia entendido mesmo) ao ver isto dentro da coisa da distopia. Mas a questão é o texto está as voltas com pontos que atravessam a obra, e que são importantes, mas não é aquilo que o tlp pontua em sua crítica. Os pontos que ele levanta são os que passam pela obra e o ajudam a formar um argumento.

      Se existem dezenas de mulheres que ficam felizes com a protagonista, massa! Só que a questão não é sobre perfeição de modelos Alinka, o tlp não está falando nisso e este é um ponto que a Jeanne puxou. Por isto que eu acredito que a leitura do texto foi tão equivocada, porque não se trata de através de uma critica a uma recepção feminista do filme no Jezebel, ditar o que é ou não um empoderamento verdadeiro e eficaz, trata-se de questionar o uso da um elemento simbólico que é uma enganação. Agir por contingência é apenas reagir a estímulos que circundam pessoas e não elaborar respostas diversas e conscientes.

      • Vanessa, ainda que o ponto do texto do TLP seja “questionar o uso da um elemento simbólico que é uma enganação”. Mas é esse exatamente o ponto: eu discordo de que seja uma enganação! Portanto, pra desmontar essa ideia de que é uma enganação ou não, eu preciso analisar os pontos que ele levanta no texto dele como argumentos nessa tese (de que o produto é uma enganação). E acho que não é, e acho que as razões por que ele acha que é estão equivocadas, e é por isso que eu dialogo com elas ponto a ponto. Se você acha que ele está certo, pode pontuar de que forma você acha que isso ocorre.

  10. eu acredito que os personagens masculinos de filmes de ação e aventura são muitas vezes uma criatura psicopata, irreal, nada interessante que a gente já se acostumou e acha que é um ideal de masculinidade, de herói sei lá do que. Mostrar uma personagem feminina com as mesmas características seria repetir essa bobagem, esse modelo ruim de pessoa, ou seja, para mim isso não traria nada muito interessante pra o feminismo, seria só uma cópia de algo ruim. Melhor repensar nossos heróis e heroínas e fazer uma katniss, uma lisbeth ou qualquer outra coisa mais inteligente. E gostei muito do final de katniss, quando ela mostra uma consciência aguçada ao perceber que o que ajudou a construir não era nada muito diferente do que tinha antes.

  11. Mas Vanessa, todxs nos precisamos de simbolos. Imaginem que os negros em novelas so façam papel de empregados. Agora imagine pela primeira vez, um negro no papel de galã. Não é por causa dessa novela que todos os negros vão ser tratados de forma igualitària, mas é uma forma de colocar um negro em posição de destaque e de dizer que “se ele pode, outro negro também pode”. Eu sei, você sabe e minha tia Joana também sabe que não é esse papel na novela que vai mudar a condição do negro, mas é um começo. Temos que começar por algum lugar. E acho que a Katniss muda sim da Branca de Neve ou Cinderela, e isso é um começo.

    E sinceramente, e dai que Katniss reage por contigencia? Pelo menos ela reage. Talvez o mundo fosse um lugar melhor onde as mulheres fossem estimuladas a serem mais impulsivas, e agirem mais por contigencia, porque quando a Katniss està em perigo, ela “por contigencia” atira uma flecha no inimigo, e nos mulhres? “por contigencia” reagimos a velhos babões que nos falam coisas nojentas no metrô? E reagir a essas agressões não seria o mais normal? Mas não fazemos nada, pois fomos ensinadas e nos mantermos recatadas, a controlar nossos impulsos, diferente da personagem de Hunger Games Voltando ao assunto, eu não entendo, de coração, nao entendo porque para a personagem ser feminista ela tem que pensar muito antes de agir e estar consciente de seus atos. Ah, eu sei. Porque ela é mulher e exigem sempre perfeição dela. Se fosse o Harry Potter jogando um feitiço “por contigencia” no Voldemort ninguém estava falando nada. Agora eu quero saber porque quando é uma personagem feminina, ela tem que ser tão refletida e pensante. Qual o problema das meninas terem um simbolo feminista ue “age por contigencia”?

  12. Achei super procedente seu texto, Jeanne.
    Concordo com tudo que vc disse… E, acho que a questão está exatamente quando vc diz que o machismo é estrutural “(…)de maneira mais oculta, na forma como cada um de nós vê o mundo. ”
    Já estamos tão acostumados com certos cometários, atitudes, que nem percebemos o machismo ali “dentro”. É, preciso sim/, que alguém dê o grito, que alguém mostre uma outra forma de ver, de pensar, de dar significado e levantar polêmicas… Só assim podemos “sair” do “coletivamente aceito”, do “padrão” e tentar mudar conceitos ultrapassados…
    Textos assim precisam chegar nos adolescentes…

  13. Jeanne, o argumento de autoridade perpassa o meu e o seu argumento menos ou mais coerente, não importa, você aponta um fórum feminista e eu aponto leituras e teorias de que uso em relação a isto. Se formos por este lado o debate não se resolve porque cairíamos em acusações de uso de tal e tal coisa, como por exemplo você me dizer que eu estou comprando uma tese do TLP, eu posso dizer que você está comprando a tese de um discurso feminista enganado, cooptado, permitido, enquadrado. Isso não resolve nada.

    E sim você se importa com o TLP, afinal este debate é um desenrolar de um problema posto no TLP. Você tem razão em dizer que o debate é bem maior, mas o debate está enviesado por aquilo que o TLP apontou, e se quisermos elaborar um debate coerente é preciso voltar aos textos, a obra enquanto recepção, porque são as referências do debate e isso não nos impede de ampliarmos as questões, mas para desqualificá-lo é preciso quebrar seu argumento principal. Seu texto [para mim] seria muito mais coerente se tivesse direcionado a debater sobre a obra em si, mas você chama suas referências, e o TLP está lá, você pode o acusar de tudo menos de não ter sido o fundador de um debate, este que eu e você estamos. Você não pode negar essa referência.

    Olha eu não li e nem vou ler os livros porque não me interessa imediatamente, assim como vejo que este debate meu e seu não está fundado na obra em si, mas no TLP, assim como não acredito na demanda de que eu preciso ir aos livros para elaborar argumentos sobre algo onde a partir do TLP o debate é construído (aqui neste ponto que estamos, seu texto neste blog). Mas sim, meu argumento é incompleto, eu jamais poderei discutir pontos da narrativa e concepção de obra, mas eu posso sim falar sobre como um discurso feminista aceita símbolos esvaziados de agência e de como isto é uma enganação.

    Você fala que é preciso pontuar onde a obra se constitui uma enganação e isto está relacionado ao texto do TLP quando ele afima que a protagonista é desprovida de agência. Você no seu texto apenas atribui agência a esta protagonista (enquanto que o TLP diz que não há), procura enxergar em suas ações contigências que qualificam a obra (mas olha só, eu não desqualifico a obra, acho que nem o TLP). Seu argumento é o de defesa da obra, e de aceitação da contingência e não de questionamento da aceitação de um símbolo esvaziado de agência por parte de um discurso feminista. Ah e outra coisa, esta agência não é de forma alguma uma força de ação de se constitui de forma masculina, ela é capacidade de reelaborar uma demanda e responder de forma diversa.

    E, na boa, caso alguém tenha entendido meu argumento como sendo o de crítica a um feminismo falho e pouco eficiente não me admira vocês terem entendido que o TLP desqualifica obras femininas e feministas apenas por uma má-vontade. Não se trata de dizer o que é mais ou menos eficiente, se trata de um debate sobre a aceitação de uma enganação que não atinge em nada o status quo, este sim que deveria ser o eixo do debate.

    Enfim, fico por aqui meninas.

    • Vanessa, acho que vamos ter que concordar em discordar, rs.

      Agradeço muito a sua participação, sério. Mas de fato chegamos no ponto de discórdia: a partir do texto do TLP, você deduz que Jogos Vorazes é uma enganação que não atinge o status quo. Eu e algumas outras pessoas discordamos. Quer dizer, mais ou menos: não sei até que ponto a obra atinge de fato o status quo, mas também não sei o quanto isso é fundamental, ou mesmo possível, sabe? Eu acho que aqui trata-se de modificar o status quo da representação, e nesse sentido eu acho que sim, a obra contribui, pois amplia os modelos de feminino retratados na mídia mainstream. Precisamos de mais role models para as garotas, e, apesar de falhas e pontos fracos na trilogia, a Katniss é mais interessante do que quase tudo que vemos por aí. Mas concordo que a obra em si não vai acabar com o machismo no mundo, mesmo. Então acho que, como mais um tijolinho na construção de uma representação mais diversa das mulheres, a obra contribui, sim; mas como obra que, sozinha, detona uma revolução, não. Mas será que alguma obra conseguiria fazer isso sozinha? Não sei. Me parece que esse não é o ponto mais importante da discussão.

      No momento não me sinto preparada para fazer o debate nos moldes que você propõe, porque não sinto que é a questão mais importante para mim. Mas se você quiser começar um papo por aí, acho que seria bem legal. Ainda acho, porém, que para debater a aceitação de um produto, é preciso dar uma olhada mais atenta ao produto em si, não só à recepção dele.

      O mais curioso disso tudo é que eu mesma tenho várias ressalvas a Jogos Vorazes – principalmente estéticas. Ia até escrever sobre elas, mas a discussão levantada pelo TLP acabou atropelando. Eu tenho vários problemas com a forma que Suzanne Collins conduz a trilogia, mas o personagem da Katniss acho que é um dos pontos em que ela acerta. Ela é um símbolo e um modelo poderoso, a meu ver.

      Beijo

    • Sei que você disse que fica por aqui, mas eu realmente queria entender como você pode concordar com o TLP que fala que Katniss é uma enganação se você não leu o livro nem viu o filme. Você acredita porque o TLP fala, é isso? Simples assim? Você vai falar que é mais abrangente, mas veja que você jà tinha feito sua ideia sobre a Katniss passar horas se arrumando, mas você não sabia que era contra a vontade dela. Então, como pode ter certeza que o não TLP passou outras ideias erradas? (Alias, como alguém aqui ja falou, ele inventa algumas coisas que simplesmente não são verdade.)

    • Mariana,

      desculpe se não ficou claro. TLP é a sigla para “The Last Psychiatrist”, o codinome do colunista que escreveu o artigo sobre Jogos Vorazes que eu analisei nesse texto. Aqui o site dele: http://thelastpsychiatrist.com/

  14. Vi o texto no Greader e, nossa, gostei muito, muito mesmo. Por isso decidi vir comentar e dar parabéns à autora.
    Quando falamos em representações do feminino na cultura de massas não podemos esquecer que elas são perpassadas pelos critérios de produção de uma indústria estruturalmente machista. Particularmente, aprecio a crítica que analisa a forma como esses modelos se transformam e/ou são apropriados e resignificados pelo público, muitas vezes se deslocando de seu pretexto inicial e tomando formas e proporções imprevistas (tornam-se modelos poderosos, como vc afirma). Não vejo como imaginar representações culturais (num mundo machista) isentas de qualquer problemática. Também não vejo como as mulheres, invisibilizadas no setor de produção cultural e estereotipadas à exaustão nos produtos culturais de larga circulação, não comemorarem propostas que destoam ou desfocam esses estereotipos. Acho muito mais relevante discutí-los e enteder o porquê de serem bem recepcionados, que dinamitá-los porque, oh, ainda não alcançaram o apogeu de um feminismo ‘puro’ (se é que isso existe). Enfim, gostei demais. Como pesquisadora, gostaria de uma menção às referências bibliográficas visitadas. (Por curiosidade pelas fontes, lógico que entendo que não é requisito para um texto num blog).