Jogos Vorazes é feminista o suficiente?*

*esse texto contém spoilers.

Disseram por aí: Jogos Vorazes é um filme machista. Haviam dito algo parecido sobre a trilogia Millenium, que traz a fodástica heroína Lisbeth Salander. Bom, a primeira coisa que eu pensei ao ler isso é: não é curioso que obras tidas como poderosas por grandes grupos de mulheres sejam questionadas nesses termos? Não é interessante que se exija coerência total quando falamos de livros e filmes que trazem protagonistas femininas fortes? O empoderamento é desautorizado: sorry, girls, try again. Esse personagem/obra/filme não é feminista o suficiente.

(Obviamente, o mesmo não se exije dos personagens masculinos. Eles podem ser fortes, fracos, feministas, machistas, politicamente corretos ou incorretos. Vêm em numerosos tipos e tamanhos. Afinal, eles não têm que provar nada para ninguém. Eles não estão ali para servirem de modelo.)

O que está de errado com esse pensamento? Pra começar, a expectativa. Isso pode ser chocante para feministas e machistas igualmente, eu sei – mas vou dizer: nenhuma obra ou personagem será totalmente isenta de sexismo. Não seria preciso ter que repetir isso, mas vá lá: o machismo é estrutural. É insidioso. Está presente de forma óbvia nas bobagens ditas pelo Rafinha Bastos, mas também, de maneira mais oculta, na forma como cada um de nós vê o mundo. Tanto em Suzanne Collins, a autora de Jogos Vorazes, como no The Last Psychiatrist, o articulista que a acusa disso, no texto citado acima, e que discuto abaixo. Está presente nas pessoas que você ama, nos livros que você mais gosta. Está presente em mim e em você.

Jennifer Lawrence como Katniss, em cena do filme Jogos Vorazes. Sim, ela é fodona

Isso não quer dizer, obviamente, que não se deva criticar obras com protagonistas mulheres. Dá pra fazer, claro. Mas levando em consideração o fato: nenhum livro, filme ou personagem será jamais feminista o suficiente. Primeiro, porque seria tão utópico que soaria falso, uma vez que nenhuma pessoa de verdade é tão coerente assim. Segundo, porque o feminismo é diverso, plural. E nesse sentido, contraditório. Nenhuma personagem jamais conseguirá abarcar essa diversidade. Se a personagem mulher se veste de forma sexy, é fútil; se não, tem visão limitada do que é o feminismo. Nesse ponto, o texto do TLP acerta: para as mulheres, e para as feministas, não tem saída. You can’t win: você nunca ganha o jogo, porque estará sempre sujeita a críticas de todos os lados.

Deixando de lado as incorreções do texto do TLP (a colmeia de abelhas mata apenas uma pessoa, não todas, por exemplo), acho que vale a pena analisar a crítica que ele faz ao livro – e à repercussão que ele teve. (E, sim, é uma crítica: quando ele afirma que nada tem contra o livro, depois de acusá-lo de ser racista e machista e mal escrito, ele está sendo hipócrita. Se um livro ser machista e racista e mal escrito, como ele acredita, não é motivo para criticá-lo, então o que seria?)

Um dos pontos principais do texto é que as mulheres gostam da obra porque no fundo elas se sentem inferiores: elas gostam de Katniss não porque ela tem habilidades especialíssimas, mas porque as pessoas (= os homens) se surpreendem de que ela as teria. Mas que surpresa! Então não estamos na era do pós-feminismo, afinal? Então as mulheres ainda se sentem inferiorizadas, apesar de terem conquistado “tudo”? Então as mulheres consideram fodona uma personagem feminina que consegue impressionar a ala masculina? E, finalmente: a mulherada pirou ao ver uma menina com um arco? Bem, a resposta para tudo isso é: sim. Como já deveria estar óbvio a essa altura, com Marcha das Vadias e movimentos feministas se fortalecendo a cada dia, a igualdade ainda não foi alcançada. Nem em questões concretas, como salários, nem em questões simbólicas, como a representação. Garotas com arcos ainda são uma grande coisa, afinal.

TLP diz que isso é culpa das mulheres. Que elas continuam a propagar o machismo, e que, mesmo que todos os homens fossem eliminados do planeta, que o machismo ainda existiria. Segundo ele, as próprias feministas de décadas passadas continuam criando mulheres inseguras, que no fundo se sentem inferiorizadas. Bom, em primeiro lugar, a ressalva: o feminismo não atingiu a sociedade inteira. Nem nos Estados Unidos, nem no Brasil, nem em nenhum lugar. Então dizer que TODAS as mulheres de hoje são filhas das feministas de ontem é forçar a barra. Não são nem a maioria. Mas, ainda que isso fosse verdade, e que todas as mulheres de hoje tenham se tornado inseguras por conta das suas mães feministas: o machismo é estrutural. Mais uma vez: o machismo é estrutural. Assim como o racismo, a gente tenta se livrar dele, mas ele continua lá, em algum cantinho (na virulência com que estamos dispostos a desmontar obras como Jogos Vorazes e Millenium, talvez?). O discurso de que são as mulheres que criam filhos machistas é antigo, e reverbera muito bem entre os homens. Mas feminista esperta sabe que o inimigo não é nenhum homem em particular, mas todo o sistema. Que é reproduzido por todos igualmente.

Uma das acusações de TLP é que o livro é racista. Isso porque Thresh salva Katniss, por conta da amizade dela com Rue – Thresh e Rue são os tributos do distrito 11, e têm pele escura. Mas ele deixou de levar em conta um fato: o fato de a própria Katniss não ser branca. Sim, Katniss não é branca, ou pelo menos há grande possibilidade disso. Ela é descrita no livro como tendo “olive skin”. Uma busca no Google pela expressão resulta em imagens de mulheres morenas e de mulheres negras. Nos Estados Unidos, em que existe a política do “one drop of blood” para ser negro, isso é significativo. Collins não descreve a cor da pele de Prim ou da mãe de Katniss; apenas diz que são loiras de olhos claros. Em geral, o racismo opera de uma forma tão insidiosa que pensamos: se uma personagem não tem descrição de cor, é porque é branca. Branco seria o “default”, o padrão. Assim estamos acostumados.

Podemos considerar que Collins faz como todo mundo, e só descreve a cor das personagens quando não são brancas – ela menciona a pele de Rue e Thresh, mas não a de Prim e da mãe de Katnis. E, bem, Collins especificamente descreve Katniss. Como “olive skin”. Ela e Gale têm a pele escura das pessoas que trabalham nas minas. Veja bem, não ser branca não significa que ela seja negra. Em inglês, ela seria uma POC, “person of color”, termo que designa as pessoas não-brancas em geral, não só as negras (não tem a mesma conotação pejorativa que o “pessoa de cor” às vezes assume, em português). Ascendência indígena é uma das possibilidades. Isso, obviamente, mudaria toda a dinâmica da relação de Katniss com Thresh, com Rue.

Pessoas brancas, como provavelmente é o TLP, imaginaram a “olive skin” de Katniss como branca. Pessoas negras, como a autora desse texto, sempre a imaginaram como “person of color”. A questão é, no mínimo, ambígua, e não permite afirmações categóricas de que a autora é racista.

Sigamos. Para o TLP,  Jogos Vorazes é um conto de fadas, e Katniss  é desprovida de agência. Nada mudou desde Cinderela, diz ele. Bem, não vejo nada de errado com contos de fadas. Mas o caso aqui é se Jogos Vorazes é um, tão maquiado por sangue e mortes que as feministas não perceberam. Eu acho que não. Sim, Katniss recebe muita ajuda de outros personagens. Sim, o livro tem alguns deus ex machina. Mas veja: o uso de deus ex machina atesta apenas contra a habilidade literária da autora. Criar uma saída que ninguém imaginava, uma espécie de milagre, é um recurso ruim de narrativa. Mas será que isso invalida a obra? Katniss se oferece no lugar da irmã, acerta a maçã nos testes de habilidades antes dos Jogos, é inteligente o suficiente para se manter viva. Além disso, ela pesa as consequências de seus atos o tempo todo: de que forma irão repercutir nas pessoas que conhece. Isso é ser desprovida de agência? É o mesmo que dormir 100 anos e esperar ser resgatada pelo príncipe encantado?

Ah, mas o que é agência? É planejar friamente assassinatos? Existe uma visão clássica, que perpassa toda a nossa sociedade, que divide o mundo em duas tendências: os impulsos ativos, construtores, proativos, agressivos, competitivos. E os impulsos passivos, receptivos, acolhedores, colaborativos. Essa primeira tendência tem sido associada ao masculino: aquilo que é ativo, que conquista. A segunda tendência tem sido associada ao feminino. Essas associações não são exatamente arbitrárias, mas históricas. Tem sido assim há muito tempo; mas não precisaria ser, em todos os mundos possíveis. Bom. A nossa sociedade, por razões que não é preciso explicar, valoriza essa primeira tendência. O mundo do trabalho, por exemplo, é competitivo. Para participar dele, as mulheres precisaram se ajustar – e, ao fazerem isso, foram acusadas de “se masculinizarem”, de virarem homens de saias etc. Obviamente que não há nada de inerentemente masculino em ser competitivo ou agressivo, mas, como essas características eram território dos homens, as mulheres foram consideradas intrusas ao entrar nele. E foram julgadas por isso. (Aí se diz que Margaret Thatcher, por exemplo, não governou como uma mulher. Como se houvesse uma forma feminina de governar. Mas isso é outra história.)

Bom, mas e o que isso tem a ver com Jogos Vorazes? A questão é que o conceito de agência descrito pelo TLP tem a ver com esse primeiro impulso. Katniss não mata o suficiente. Não é agressiva o suficiente. Não joga segundo as regras que os protagonistas maculinos de histórias violentas têm usado há muito tempo. Em primeiro lugar: não é bem assim. Katniss mata, e planeja matar. Em sua terra natal, ela caça friamente para alimentar a família, e maneja o arco tão bem que acerta as presas no meio dos olhos, para não estragar a carne. Mas vamos admitir por um momento que Katniss não mata o tanto que seria esperado de alguém na posição dela. A primeira coisa que consigo pensar é que isso é uma decisão inteligente. Ela é pequena, não recebeu tanto treinamento quanto os Tributos Carreiristas (que usam várias outras armas além do arco), está sozinha. Seria bastante estúpido ela sair perseguindo diretamente oponentes maiores, mais fortes, mais preparados, armados até os dentes. Para vencê-los, Katniss conta com estratégia, com inteligência. Deixa que eles se matem uns aos outros e vai sobrevivendo. O objetivo dos Jogos Vorazes não é matar: é sobreviver. Ela não precisa matar todos os oponentes um a um para ser considerada badass, fodona.

As mina pira no arco da Katniss; cena do filme Jogos Vorazes

Sim, Katniss tem muita sorte. As pessoas aparecem para salvá-la muitas vezes. Mas isso também é consequência de ela agir conforme o segundo impulso (o “feminino”, colaborativo): ela canta para Rue e desafia a Capital ao enfeitar seu corpo. Isso pode não ser agência conforme o impulso ativo, “masculino”, da competição, de sair matando. Mas simbolicamente é forte o suficiente para desagradar à Capital. O ato também salva Katniss, pois Thresh, do mesmo distrito de Rue, poupa sua vida. A colaboração pode não ser uma estratégia muito máscula, mas ainda assim é ação, e pode significar rebeldia quando fora do contexto (e fazer amigos numa arena em que o objetivo é matar-se uns aos outros pode ser considerado fora de contexto).

Da mesma forma, quando Katniss desafia a Capital ao propor que ela e Peeta se matem com as amoras, ela está desafiando as regras. Nos Jogos Vorazes, é preciso haver um vencedor. Se ambos se matarem, isso é uma afronta: vida e morte são prerrogativas do Estado, do poder. Você deve morrer quando eles disserem para morrer, e nem um minuto antes ou depois disso. O suicídio é um desacato e uma desobediência. Antes dos jogos, os tributos são protegidos o tempo todo para que não se matem; há até mesmo campos de força para impedi-los de se jogar do terraço do Centro de Treinamento. A morte deve ocorrer apenas na arena, nos termos ditados pela Capital. Esse é o poder deles. Matá-los, se assim os aprouver. Ou mantê-los vivos, se assim preferirem.

Katniss faz, então, muitas escolhas, tem bastante agência. O segundo e o terceiro livros mostram, porém, que o buraco é mais embaixo. Mesmo os rebeldes, que lutam por uma causa nobre, podem estar se aproveitando dela. Mas ela se torna consciente disso. De fato, boa parte dos livros é dedicada à sua aparência, a suas roupas, a como ela aparece em frente às câmeras. Mas essa descrição não é uma chancela a isso, e sim uma crítica. Como é comum às distopias (e o livro, se não chega a ser uma, tem elementos distópicos fortes), Jogos Vorazes se refere à nossa sociedade: uma sociedade que valoriza demais as aparências, o espetáculo, o entretenimento. Esse é um dos temas principais da trilogia: não bastam os Jogos Vorazes existirem, eles precisam ser transmitidos como reality show para todo o país. E as pessoas devem fingir se divertir assistindo aos seus jovens e crianças se trucidarem. O livro é auto-referente no sentido que diverte ao descrever a violência, mas critica isso ao mesmo tempo.

A trilogia chega a ser niilista, quando, ao final, não mostra solução: os rebeldes vencem, mas nada garante que isso será melhor que o regime anterior. Tudo foi em vão: as mortes, as lutas. Nesse sentido, pode-se até dizer que Katniss é roubada de agência, pois seus atos, no esquema maior das coisas, não puderam impedir nada disso. Mas nesse caso ela não está sozinha em sua limitação: todos os personagens estão. Peeta, Gale, Haymitch. Nenhum deles tem o controle nas mãos. E no fim das contas, Katniss pode mais que todos eles, interfere mais que todos eles. Ela não é toda-poderosa onipotente – o que seria de fato estranho, considerando que talvez a ideia do livro seja criticar sistemas políticos complexos. Mas ela faz o que pode dentro das possibilidades dela. O nome disso é contingência. E surpresa, todos nós somos assim. A gente faz o que dá pra fazer, o que tiver pra hoje. A gente ouve a Valeska dizendo que “a buceta é o poder” e comemora, porque, mesmo Valeska não sendo feminista, isso é empoderador para muitas mulheres e quem somos nós para julgar de onde as pessoas tiram força, né. De ideal a realidade não tem nada. (O fato de várias pessoas não celebrarem a música da Valeska não muda o argumento, pois a ideia é justamente que o empoderamento é algo pessoal e sujeito à contingência).

Um vídeo muito bonito do TED mostra a escritora nigeriana Chimamanda Adicie falando do perigo da história única, e da necessidade de termos múltiplas histórias e versões e vozes. Ela falava da África. Ora, a história das mulheres não chega a ser uma história única. Os arquétipos e personas (= estereótipos) variam: tem a mãe amorosa, a femme fatale, a deusa inatingível. Elas podem ser a causa de todos os males ou serem irrepreensíveis. Mas a quantidade de narrativas disponíveis para as mulheres ainda é muito menor que as de narrativas disponíveis para os homens. Sim, temos mulheres senadoras, presidentas, cientistas. Sim, temos mulheres fortes. Sim, temos protagonistas em histórias para adolescentes. Mas ainda não é nem de longe o suficiente para que erradiquemos internamente a ideia de que certos feitos não são para nós, como mostra o documentário Miss Representation. Para que deixemos de pensar que é uma grande coisa a gente conseguir se destacar e falar de igual para igual. A maioria dos filmes e obras que assistimos não passa no Bechdel Test, um critério simples: ter duas personagens femininas que conversam entre si sobre algo que não seja um homem. Então né, quando uma heroína foge disso a gente comemora, celebra. É uma representação a mais, uma história a mais pra gente contar, um modelo novo pra escolher. Ainda que esse modelo não seja perfeito – e qual é? Assistimos Harry Potter e não questionamos se ele é provido ou desprovido de agência (embora a série seja coalhada de deus ex machina), se ele é um bom modelo para nossos jovens, pois temos quantidade suficiente de personagens masculinos de todos os tamanhos e formatos para saber que Harry Potter não representa todos os homens. Mas Katniss representa algo para as mulheres, assim como Lisbeth Salander. A questão transcende a obra em si: tem a ver com o que essas obras e personagens representam para as mulheres, nesse ponto da história. Que isso também nos seja tirado, por problemas de narrativa, por não serem feministas o suficiente, não é justo e nem honesto.

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Debater sobre esse tema deu uma vontade danada nas minas de escrever sobre as suas heroínas preferidas, em filmes, livros, quadrinhos e videogames. Vai ter até blogagem coletiva no fim do mês. Fiquem atent@s.

Autor: Jeanne Callegari

Jornalista, ciclista, poeta saindo do armário.

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