O amor na luta contra o preconceito

Texto escrito por Karen Polaz e J. Oliveira

Escrevemos este post tendo em vista um duplo pano de fundo. Por um lado, hoje se comemora o Dia do Orgulho LGBT. Por outro, lamentamos mais um caso de homofobia e violência, ocorrido no último domingo, quando dois irmãos foram agredidos enquanto caminhavam abraçados. Um deles não resistiu aos graves ferimentos e acabou falecendo.

A partir disso, o objetivo do post de hoje é tecer algumas reflexões sobre o amor LGBT e sobre a importância do amor na luta contra o preconceito. Ao mesmo tempo, também queremos falar com você que, consciente ou inconscientemente, promove a lesbo-, homo- e a transfobia dentre seu convívio social. Em particular, desejamos chegar até aqueles que o fazem de propósito, que desqualificam e humilham um mundaréu de gente que não se enquadra na caixinha hétero/cissexual.

Não dispomos de um total controle por quem deixamos ou não de nos apaixonar. A paixão e o amor são complicados, porque se aproximam devagarinho e, de repente, vêm de uma vez só, fazendo a gente perceber como uma ou mais pessoas exercem um fascínio sobre nós, uma espécie de poder. Com tanto estímulo jorrando por todas as partes do corpo, é quase impossível ficar indiferente. Não tem jeito, o amor chega sem pedir e, muitas vezes, vem para ficar. E se esparrama.

Esse é um mecanismo que ocorre independente de nossa orientação sexual, se somos héteros, bi ou homossexuais, às vezes, até quando já estamos comprometidxs. E acontece, também, independente da vontade alheia. Portanto, se você acha que espancar seu/sua filhx adolescente consiste em um caminho eficiente para que elx deixe de se sentir atraídx por pessoas do mesmo sexo ou que deixe de se identificar com outro sexo que não seja aquele pré-determinado, esqueça, você está agindo muito errado. Ele/ela vai acabar se tornando uma pessoa amarguradx, enrustidx, cheix de pequenos infernos psicológicos, com possíveis problemas sociais e continuará sendo… quem elx é.

Avisamos aos navegantes que é assim. Ponto.

Se a orientação das pessoas não vai mudar segundo a sua vontade, religião, credo ou valores, por que insistir nisso? Por que não aceitar, simplesmente, amar e deixar amar? Como impor qualquer tipo de religião ou regras jurídicas ao amor? Por que a sua forma de amar vale mais que a dos outros? Por que julgar o afeto dos outros a partir do que você considera “normal” e do que você pratica?

Talvez a pergunta a se fazer seja: quem você pensa que é para achar que pode impedir que os outros amem?

Parada do Orgulho LGBT São Paulo 2012. Foto de Nacho Doce/Reuters.

Você não deve saber, mas tente imaginar o quão doloroso é estar em público, ao lado de alguém que se ama, mas, ao mesmo tempo, encontrar um abismo de distância por causa da discriminação. Não poder abraçar, beijar, sorrir pertinho um do outro, dar as mãos, buscar carinho… Tem que fingir que nada está acontecendo para não levantar “suspeitas”, com medo dos olhares repreendedores, do receio iminente da violência. E quanto mais educamos crianças para não conviverem com essas demonstrações de afeto em público, o estranhamento ao vermos namoradxs que não se enquadram no padrão hétero/cissexual continua sendo reproduzido, a sensação de que está “errado”, de que não é “normal” continua ali, viva. Mistificamos o que nos é genuinamente familiar, o amor.

Olhem esses exemplos do que as pessoas que não são hétero/cissexuais devem fazer, todos os dias, para fingir ter uma orientação sexual que não a delas, para não correr o risco de serem discriminadas ou sofrerem violência:

– não demonstrar afeto em público de qualquer tipo;

– evitar olhar qualquer tipo de pessoa com interesse;

– nunca dizer o gênero dx(s) ex e/ou atual(is);

– não fazer comentários que demonstrem sua orientação sexual, seja comentando sobre uma pessoa considerada bonita, usando gírias específicas, falando de lugares exclusivos etc;

– evitar possíveis gestos e “trejeitos” que apontem sua orientação sexual.

Difícil, né? Porém, difícil mesmo é para aqueles que necessitam conviver com essas regrinhas sendo marteladas no corpo inteiro, durante todos os dias da vida.

Por isso, estamos pedindo que o amor seja levado a sério na luta contra o preconceito. Para tanto, temos que tentar ocupar cada vez mais espaços que acolham os trans*, lésbicas, gays e bissexuais, criando um ambiente confortável para que todas e todos sejam aquilo que querem ser. Além disso, o apoio da família e dxs amigxs é imprescindível, a fim de promover um clima de autoconfiança e segurança para que o amor, em suas mais variadas formas, possa acontecer como deve ser: livre.

Vamos fortalecer a causa do casamento civil igualitário — os mesmos direitos com os mesmos nomes —, porque amar não é exclusividade de apenas um tipo de orientação sexual.

Como prometido, abaixo transcrevemos os depoimentos que xs leitorxs nos enviaram para a publicação no Dia dxs Namoradxs. Repare se há alguma diferença significativa, com exceção do preconceito, entre um tradicional casal homem-mulher hétero/cissexual e os casos abaixo. Diga se é diferente. Discorra em quais manifestações o amor é outro que não aquele sentimento genuíno de se querer bem, de desejar estar junto.

Porque nós não enxergamos diferença alguma.

Depoimento enviado pela leitora Helen de Castro:

Em 2010, eu estava trabalhando no Rio, vivia conectada na internet para manter contato com os amigos de BH e gerir meu Grupo Lésbico que até então estava no Orkut (migramos para o Facebook agora). Vi o perfil de uma tal de Marilia Martinez, perfil este que não dava pra ver nem a foto direito. Daí resolvi deixar um recado pra ela que dizia assim: OI. Ela respondeu o OI e eu, mais que depressa, falei que estaria na próxima semana em BH e que podíamos nos encontrar se ela quisesse e, por incrível que pareça, ela aceitou, isso em menos de meia hora de conversa.

Uma semana estava eu em BH, me encontrando com ela, baixinha e vestindo-se feito um menininho lindo. Achei ela tão bonita, só que eu parecia ser muito mais velha, além de ser bem mais alta. Nós duas concluímos que um romance entre nós não daria certo, portanto seríamos grandes amigas e nos empenhamos para isso.

Saíamos muito com a turma de amigos e, apesar de sempre deixarmos claro para nós e para os outros que éramos apenas amigas, toda vez que nos víamos sempre ficávamos juntas.

Certo dia na mesa de bar, eu anunciei que iria namorar, ela e todos os meus amigos duvidaram, fizeram até uma aposta, só que, para desafiá-los, na semana seguinte eu já estava namorando, mas nunca deixei de me encontrar com Marilia, e quando ela percebeu que meu namoro era sério, começou a se comportar de maneira diferente, me dando mais atenção, me ligando mais, me chamando para sair…

Daí num belo dia ela me ligou, dizendo que me amava e que queria que eu terminasse meu namoro. À essa altura, já estava perdidamente apaixonada por ela e terminei meu namoro com a outra garota e comecei a namorar a dona do meu coração.

Agora fazemos planos para nos casar.

A Marilia e a Helen, de blusa branca. Foto do arquivo pessoal

Depoimento enviado pela autora J. Oliveira:

Essa história não é atual, mas ainda é minha maior história de amor.

Eu e ele éramos amigos desde a 6ª série, em determinado momento não havia só amizade entre nós, ficamos algumas vezes e, meio na loucura, resolvemos namorar. Esse namoro durou menos de um ano.

A pressão sobre o relacionamento era grande, pois tínhamos apenas 16 anos. A responsabilidade era pesada demais pra gente, estudávamos juntos, trabalhávamos juntos e não havia espaço nem tempo para muita intimidade, éramos vigiados e controlados o tempo todo. Terminamos, mas continuamos amigos e nos gostando muito.

Algum tempo depois, conheci ela, começamos a trabalhar juntas, mas tínhamos graves problemas de comunicação. Ela era muito tímida e, para conseguir me aproximar, comecei a conversar pela internet. Nossas conversas foram ficando cada vez mais frequentes e mais íntimas, acabamos nos apaixonando, mas mais uma vez era muito difícil levar relacionamento tão cedo e, dessa vez, tinha um fator a mais: o medo do preconceito. Logo, também terminamos.

Nós três acabamos indo estudar na mesma faculdade. Neste meio tempo, conhecemos outras pessoas e a nós mesmos um pouco melhor, nos relacionamos com outras pessoas, tomamos rumos diferentes, mas não conseguíamos nos distanciar muito. A amizade era grande e o amor também.

Quando eu e ele, em certo momento, nos vimos minimamente emancipados, concordamos que não havia mais algo que nos impedisse de estar juntos.

Voltamos. Mas algo tinha mudado, aliás, muitas coisas tinham mudado. Eu ainda gostava demais dos dois e descobri que relacionamentos monogâmicos não me serviam, me sentia sufocada pela ideia de que só poderia gostar de UMA pessoa por vez, amar UMA pessoa por vez. Cada pessoa me completava de uma forma, um amor não excluía o outro, um desejo não excluía o outro, assim como as amizades.

Conversamos e decidimos: teríamos um relacionamento aberto. Mas mais que isso, amávamos os três e não conseguíamos nos envolver uns com os outros com distanciamento. Tivemos um relacionamento poliamoroso. Nesse meio tempo, outras pessoas também passaram por nossas vidas e nos permitimos viver esses amores ao máximo.
Esse foi o tempo mais feliz da minha vida.

Claro que, assim como em qualquer relacionamento, tivemos alguns conflitos também, em alguns momentos cada um se sentia um pouco de lado, ou tinha ciúmes, ou fazia manha. Por fim, por outros motivos difíceis de elencar, acabamos todos terminando. Mas uma certeza eu tenho: foi eterno enquanto durou.

Depoimento enviado pelo leitor Bruno De Castro Silva:   

Conheci o Rê no dia 17 de junho de 2003. Eu estava no quarto ano de graduação em Dança. Tinha acabado de me decepcionar com um carinha que eu estava ficando e uma amiga me convidou para ir ao recital de lançamento do livro da professora de danças brasileiras Inaicyra Falcão. Sabe quando você não tem ânimo ou vontade, mas algo lhe diz: “Vai”? Fui… Na época, o Rê fazia cursinho para prestar Cênicas e o professor dele de teatro indicou o recital como algo legal de se ver. Era uma terça-feira, nem fria, nem quente; amena. Vi um rapaz grande de camiseta branca e jeans preto, de costas. Ele estava acompanhado de uma moça. Quando ele se virou, dei de cara com um par de olhos verdes e felinos, contrastando com a pele morena! Eu, na minha timidez, nada fiz além de tentar um e outro olhar nos olhos. O tempo parou, e a gente se via conectado um ao outro enquanto as pessoas riam, comiam e conversavam. Percebi que ele tinha que ir embora! Uma força maior fez-me segui-lo até a porta e, sem saber que seria assim, por muito tempo ele começou a falar e eu a ouvir e esboçar algumas pequenas respostas. Ele me deu o telefone da casa dele. Assim que cheguei em casa, dei um basta na minha decepção amorosa anterior e deixei me entregar na incerteza deliciosa de quem está apaixonado… Nunca achei que fosse namorar, casar, firmar um relacionamento sério. Mas sempre precisei amar, estar apaixonado. Os sentimentos que movem os artistas!!! No domingo, dia 17 de junho, comemoramos 9 anos de união instavelmente estável, pois brigas, incertezas, egos, vontades existem, sim, é claro. E nada é perfeito! Mas cada vez que estamos em nossa casa, que os meus olhos cruzam com aquelas janelas verdes, novamente me apaixono… E, pra mim, nem a morte nos separa…

O Rê, dos “olhos verdes”, e o Bruno. Foto do arquivo pessoal

Autor: Karen Polaz

Pense em uma pessoa distraída.

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