Do outro lado da marcha

Rubia é aluna do curso de pedagogia e nos enviou um conto de ficção, que produziu em uma das disciplinas, sobre a Marcha das Vadias para publicarmos. 

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Texto de Rubia Camilo* – rubica.camilo@yahoo.com.br

Rubia Camilo

Sábado diferente aquele, além de estar quente sem uma nuvem sequer no céu, a rotina do dia foi interrompido por uma grande multidão que se reunia ao centro. A maioria na concentração correspondia a mulheres, pareciam existir centenas delas, vestidas das mais diferentes formas, variações de vadias, versões religiosas, meio santas, meio putas, de minissaias, fazendo top less, também existiam em quantidade bem menor homens solidários a causa.

Umas carregavam cartazes, outras espalhavam panfletos, tinham também aquelas que gritavam ao microfone palavras que eu não conseguia compreender por estar tão longe daquele estardalhaço de sujeitos e vozes.

Estava tudo muito confuso, me lembrei daquelas farras de carnaval, ou melhor, daquelas “muvucas” que passam na televisão referentes ao carnaval de Salvador sabe?! Era até possível ver ao longo do aglomerado uma percussão de baldes, latas, surdos e apitos que se misturavam aos sons saídos do microfone, tomando as pistas do centro, invadindo ruas após ruas e atrapalhando todo o trânsito.

Fiquei algum tempo parada tentando ler o que uma moça, bem novinha até, tinha escrito no corpo com batom, acho que era algo do tipo SOU LIVRE, ou, O CORPO É MEU! Mas, pelos pulos que ela dava no meio da multidão e o suor que saía do seu corpo, deu pra entender porque estava tão difícil de ler. Percebi que tinham outras com o corpo escrito, mais essas estavam longe do ponto de ônibus, fiquei com medo de chegar perto para espiar os escritos e acabar por ser arrastada pelo movimento e resolvi deixar de lado os corpos daquelas moças seminuas.

Marcha das Vadias Belo Horizonte 2012. Foto de Priscila Musa no facebook.

Fiquei certo tempo lamentando ter passado pelo centro, talvez tivesse sido melhor ir andando até o outro ponto, porém, o fato de eu estar cansada e estar cercada de pessoas que não conseguiriam pegar seus ônibus sem que antes aquela manifestação acabasse, me fez dar maior atenção a “muvuca” de carnaval, consegui enxergar do outro lado da rua, um amontoado de cinegrafistas e fotógrafos que tinham como objetivo registrar aquela confusão.

Um rapaz bem jovem disse ao meu lado que aquela “muvuca” era um movimento de mulheres, que devido à quantidade de cinegrafistas, fotógrafos e manifestantes deveria ser algo importante e que acabaria por entrar pra história e memória da cidade.

Pensei o quanto aquilo tudo era uma bobagem, corpos pintados, mulheres gritando, cartazes ao vento não mudariam a minha vida, além disso, eu tinha um marido a quem cuidar e como dona de casa era responsável por realizar certas atividades diárias e aquele atraso todo me faria chegar bem mais tarde do que o de costume em casa. Senti raiva, tanta raiva daquelas mulheres, que quando os ônibus e carros parados falavam mal e buzinavam desesperadamente implorando para que aquilo tudo acabasse eu disparava a soltar palavrões e rir das buzinadas que elas levavam. Pensei até que se tivessem ovos eu tacaria nelas, a como eu queria ter ovos!

Sentei no chão da calçada, exausta daquela confusão toda, minha cabeça só pensava em meu marido, ele era bravo sabe! Não gostava que eu me atrasasse nem com o café da manhã dele, nem muito menos em acordar as crianças, imagina agora com aquele atraso todo causado por uma marcha de mulheres atoas! Acho que elas deveriam ser presas, por causa de tamanha desordem, se não respeitavam o trânsito e os horários dos outros não mereciam respeito, deveriam mesmo ser presas, como eu queria ligar para polícia, no entanto, nem precisei gastar meus créditos, quando fui pegar o celular na bolsa percebi ao longo que eles também acompanhavam a manifestação, porém, os policiais estavam mais pertos do que eu e, além disso, estavam como dizia meu avó “armados até os dentes”.

Fiquei um bom tempo olhando os panfletos ao chão, neles havia os dizeres: MARCHA DAS VADIAS: NEM PUTA, NEM SANTA, SOU LIVRE! Minha raiva só aumentou, não conseguia acreditar que devido a minha preguiça em ir andando até o outro ponto eu estava há tempos parada esperando uma marcha de VADIAS passar, na mesma hora levantei, comecei a caminhar em direção ao outro ponto e as vozes que antigamente pareciam confusas agora já se tornavam mais claras, os escritos nos corpos das moças eram mais perceptíveis e os cartazes pareciam ainda mais coloridos.

Marcha das Vadias Belo Horizonte 2012. Foto de Priscila Musa no facebook.

Quando eu ia atravessar a avenida, uma moça que passou perto de mim no momento em que eu ainda estava sentada pensando em meu marido pegou o microfone, ela parecia bem jovem até, acho que é estudante! Resolvi prestar atenção nela;

– Um caminhar tranquilo e seguro é esse que fazemos juntas hoje, de quem sabe de seus direitos e segue em frente para vê-lo sair das páginas da lei, aprisionada, imobilizada pelo preconceito. Sociedade machista, complacente com a violência da mulher. Utilizamos apitos para acordá-la. Cartazes para lembrá-la. Provocações à mente, ao comportamento vigente. Nada pode ser como antes. Não podemos deixar que essa sociedade extermine nossos sonhos, que nos prive de nossa liberdade sexual, queremos e lutamos por direitos iguais. Estamos hoje aqui, vadias, santas, trabalhadoras, estudantes, feministas e acima de tudo mulheres para protestar por aquelas que já foram mortas por seus maridos e namorados, viemos reivindicar por aquelas que são violentadas diariamente em nossa cidade, por aquelas que sofrem preconceitos no trabalho e dentro de casa. Não estamos aqui atoa! Desculpem-me vocês trabalhadores que estão a horas esperando seus ônibus para voltarem para casa, mas não vamos parar de marchar até que nós mulheres sejamos verdadeiramente livres! Lutamos por direitos e pelo fim do sofrimento causado pelo machismo e pela violência sexual, verbal e física na qual passamos. O sentimento de perca de tempo que alguns de vocês devem estar sentido por estarem aí esperando não chega aos pés do sentimento de uma mulher violentada há anos por seu companheiro. O que é a impaciência de vocês em comparação a “paciência” de mulheres violentadas que não denunciam seus maridos!

Era demais pra mim já, sábado diferente, marcha estranha e mulheres unidas, nunca havia visto algo parecido, aquela mocinha bem mais jovem que eu me despertou o interesse, sinto na pele o sofrimento que é ser espancada por um marido machista, sofri pela impaciência do ônibus, mas sofro muito mais pela paciência em não denunciar meu marido, sei o que é sofrer por ser mulher, sei o que é desejar ter direitos.

Queria poder participar, procurei um cartaz ao chão para levantar representando o tanto que concordava com aquelas palavras, vi um perto de um aglomerado de adolescentes que também marchavam, fui pra rua, pro meio delas, buscar o meu símbolo de devoção à marcha, de perto tudo era realmente mais colorido e consegui enxergar ainda no corpo de uma adolescente os escritos A NOSSA LUTA É TODO DIA, A AMÉRICA LATINA VAI VIRAR FEMINISTA!

Peguei o cartaz, no entanto, avistei meu ônibus virando a esquina, tive a impressão de ver minha cunhada nele, recuei, larguei minha devoção no chão, subi no passeio novamente e caminhei em direção ao ponto, olhei para trás, pensei naquela moça e o quanto essa história de que quem tem mais idade é mais sábio porque é mais experiente é balela.

Eu, 56 anos, negra, moradora de periferia mesmo sendo velha e experiente não tive coragem de participar, bem diferente daquela mocinha jovem e também negra, entrei no ônibus, paguei ao trocador a passagem e me despedi delas com um último olhar, fiquei um tempo pensativa, mas acho que fiz certo, tenho um marido machista e violento mais com ele tenho filhos e família.

* Rubia é aluna da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), do curso de Pedagogia e feminista. Participou da Marcha das Vadias de Belo Horizonte, que aconteceu no dia 26 de maio de 2012.

Autor: Autoras Convidadas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. A gente continua essa história do Feminismo nas ruas e na rede.

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