“Mãe solteira”, um bicho que morde

Na semana passada, o Alex Castro publicou um texto sobre paternidade que, na verdade, evidenciava a fácil paternidade tão comum dos pais que não convivem com seus filhos no dia a dia. Evidenciou muito mais: a falta de noção de muitos pais que insistiam nos comentários a repetir o mesmo comportamento denunciado no texto: “eu sim dou a minha contribuição: fico com meus filhos todos os sábados ímpares do mês”. E ainda alguns indignados com a grave acusação feita de que “não cuidavam” de seus filhos.

Foi interessante verificar como certas pessoas assumem como um insulto gravíssimo ao seu caráter quando mesmo a falta mais óbvia lhes é apontada. Pelos motivos que sejam, um pai que não está presente no dia a dia do filho, obviamente sai ileso das mais cansativas tarefas referentes à criação desse. Se os motivos que obriguem essa separação se justificam, lá é outra conversa. Se o pai faz isso por  comodismo ou por necessidade, somente analisando cada caso em particular será possível saber. Antes de mais nada, um esclarecimento:  disse “pai” e “mãe”, porque me referencio ao texto em questão, que trata dessa composição familiar cissexual e heterossexual.

Mas, o que me traz aqui motivada pelo texto (genial) referenciado acima, na verdade, são as lembranças e as vivências. O que fará desse texto algo altamente confessional, vocês me perdoem de véspera. Como “mãe solteira”, é de se imaginar que eu encare uma porção delas, ao ler um texto assim. Na verdade, o que me traz aqui é o outro lado sobre qual o texto fala, mas não se finca: a mãe. Ou eu. Ou sobre essa letra escarlate marcada no meu peito, que faz com todo mundo tipifique para o resto da vida “mãe solteira”, quando apenas um “mãe” bastaria.

Esta sou eu, este é o Miguel Luiz. Nós dois vamos muito bem, obrigada. Arquivo pessoal.

Pois saibam vocês que até hoje há quem faça cara de pena logo depois de perguntar se o pai do meu filho não quis ficar comigo. E por quê.

Saibam vocês que até hoje, há quem dê uma piscadinha marota, e pergunte jocosamente, se aquele deslize que me levou à gravidez foi um deslize mesmo, e não uma ação proposital.

Saibam vocês que até hoje, há quem denuncie que eu, na verdade, estou namorando apenas para garantir que algum “trouxa” me ajude a criar o meu filho.

Ou saibam vocês que, na verdade, há quem diga que, para mim, ele não precisa nem criar, basta ajudar a bancar.

Saibam vocês que, até hoje, me perguntam aqui ou ali, se agora eu estou me prevenindo corretamente.

E saibam também, que há quem alerte o meu namorado, a respeito da “imensa facilidade” que eu tenho de engravidar. Sabe como é, né. É sempre bom ficar de olho, pra que essa desgraça que é me engravidar não aconteça com ele também.

E vocês devem saber que existem, claro, aqueles que mesmo me conhecendo há um minuto, oferecem os mais sabidos conselhos, quando descobrem que sou uma “mãe sem pai”.

E há, claro, os que não querem dar conselho algum, apenas apontar que qualquer coisa que eu faça está errada.

Pois bem, meus queridos, se a sua condição não basta para que você experimente os dedos apontados do machismo, experimente ser “mãe solteira”. É o modo mais rápido de você se transformar numa caçadora de homem, ou de dinheiro, que não tem controle algum sobre a própria sexualidade, e que anda por todos os cantos precisando desesperadamente de ajuda para criar o rebento. Então, uma dica para os pais/comentaristas inconformados do texto do Alex. Eu não sou “pai solteiro” para entender essa realidade, mas desconfio que até nisso, a posição de vocês seja algo mais agradável.

Autor: Tâmara Freire

Blogueira, feminista, jornalista e mãe. Gosta de filmes, livros, séries, café, campari, Almodóvar, Caetano, Clarice e conversa de bar. E também de internet e do vermelho nos seus cabelos e no dos outros. Gosta do vermelho em tudo, na verdade.

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