Rizzoli & Isles, os livros e a série de tv

Eu tenho um sério problema com séries baseadas em livros: sei que são linguagens diferentes, mas depois que leio os livros, geralmente perco a graça com as adaptações.

Foi assim com True Blood. Eu não conhecia os livros, assisti a primeira temporada, comprei os livros todos, não consegui assistir a segunda temporada. Os personagens mudaram, o enredo todo foi alterado, continua um bom seriado? Sim, muitas pessoas que conheço adoram, mas eu ainda não consegui desvincular.

A mesma coisa com Game of Thrones: não conhecia, assisti a primeira temporada, fiquei fã. Comprei os livros, amei (o quarto é meio devagar, e quase não tem os meus personagens favoritos, foi um custo para terminar, mas o quinto, A Dance with Dragons, está me prendendo como nunca. Já a segunda temporada… não consegui assistir.

Então, quando a querida Luciana Nepomuceno me apresentou o primeiro livro da Tess Gerritsen, com a Detetive Jane Rizzoli e a médica-legista Maura Isles, eu fiquei empolgada, li todos os que a Lu já tinha, e comprei em e-book os que ainda não foram lançados no Brasil.

O Cirurgião, de Tess Gerritsen – edição da Editora Record

E pesquisando sobre a autora e seus outros livros, descobri que em 2010 foi lançada a série, produção da TNT. Fiquei ressabiada, mas não resisti, e consegui os episódios. Sim, estou atrasada, desculpem se não é novidade para ninguém…)

Que decepção.

Já no primeiro episódio, vi que mudaram as personagens, até mesmo fisicamente, e que a Jane era alta e bonita, bem padrão de beleza, e a Maura era também uma vítima da moda…

Céus!

Mas como estava sem nada melhor para fazer, insisti.

Que bom que insisti.

Apesar das profundas alterações, que no começo me irritaram muito, no decorrer da série, o fato de serem as duas mulheres as personagens principais é uma mudança bacana em séries policiais, onde, mesmo que existam personagens femininas fortes e interessantes, como a Olivia Benson de Law and Order: SVU, e várias outras, em geral são equipes mistas nas quais nem sempre é dado destaque ao fato de mulheres em carreiras policiais serem constantemente desafiadas (sim, claro, está aí um dos motivos pelos quais a personagem da Jane Rizzoli me tocou muito, não vou negar).

Outro aspecto interessante, dessa vez, mais presente nos livros, é o fato de que, assim como a trilogia Millenium, que focava nos crimes praticados por homens que odiavam as mulheres, vários dos crimes que são investigados nos livros tem uma relação direta com a questão da dominação e do poder, exercido, via de regra, sobre as mulheres.

O primeiro livro fala de um assassino que ressurge na vida de uma médica, Catherine Cordell. Catherine foi a única vítima a escapar de um serial killer que estuprava, arrancava, cirurgicamente, os úteros das vítimas (enquanto estavam vivas…) e somente ao final, aplicava o golpe de “misericórida”, cortando a garganta das vítimas. Catherine consegue escapar e mata o homem que a estuprou. Dois anos depois, em outra cidade, o pesadelo recomeça, quando duas mulheres são mortas da mesma maneira, com o mesmo modus operandi. E Catherine Cordell pode ser a única com as respostas para os crimes.

Nesse livro, que tem o sugestivo título de “O Cirurgião”, somos apresentadas às personagens Jane Rizzoli, a única mulher detetive da Delegacia de Homicídios de Boston, e à médica Maura Isles.

Cena do seriado “Rizzoli & Isles”, produção da TNT – com uma piadinha interna: um dos livros da Tess Gerritsen, sendo lido por um dos serial killers do episódio…

Cada uma delas tem uma história, uma trajetória, que as transforma nas personagens incríveis que são. Esse é um ponto que não gostei do que fizeram na série, a forma como a família Rizzoli foi transformada, de disfuncional e amarga, em um contraponto humorístico e leve. Enquanto nos livros a relação de Jane com os irmãos e o pai é tensa, e a mãe sempre desdenha da profissão da filha, desejando, antes de qualquer coisa, que ela se case, e os irmãos são machões típicos e cretinos, na série um dos irmãos é transformado em um policial novato, que idolatra a irmã e tenta seguir seus passos, se tornando um detetive da Homicídios. Na verdade, a presença constante da mãe de Jane vale a pena, especialmente, por ser interpretada pela Lorraine Braco, de quem eu gosto bastante, e traz uma certa leveza.

No decorrer da série, Jane e Maura, apesar de muito diferentes, vão aprendendo a se conhecer, e desenvolvem uma amizade forte, que sobrevive a todo tipo de prova, inclusive quando o depoimento de Maura, como legista, manda para a cadeia um policial que matou um homem (um cop killer, um homem que havia matado um policial). Maura é repudiada por todo agente da lei de Boston, por ter violado o código da corporação…

Ambas tem amores e decepções amorosas, tem vidas completas, Jane forma uma família, com outro agente da lei. Maura tem uma paixão proibida, e ambas se apoiam e se suportam, criando um vínculo mais forte que muitas famílias e casamento. Essa amizade entre mulheres é um aspecto muito bacana da obra, e foi muito reforçada na série. Esse foi um aspecto positivo e que traz muita leveza a um tema que é denso.

Depois do Cirurgião, no segundo livro a dupla enfrenta, cada uma com suas habilidades, um copiador, na obra intitulada “O Aprendiz”, e traduzido para o Brasil com o título “O Dominador”. De novo, as vítimas são mulheres, que antes de serem mortas, são estupradas. A autora deixa claro qual o papel do sexo forçado nesse contexto: não é sobre amor, é sobre posse. Sobre poder e humilhação.

Em “Desaparecidas”, o quinto livro da série, já lançado no Brasil, o tema é o tráfico de pessoas, para fins de exploração sexual. É muito tenso e muito triste.

O “Clube Mefisto”, sexto livro, também já lançado no Brasil, trata de um serial killer que acredita ser a encarnação do Mal. E de um grupo de pessoas, o tal “Clube Mefisto”, que acredita que vários crimes não são comentidos por seres humanos, mas por anjos caídos ou demônios, e vive buscando meios de encontra-los e eliminá-los.

O, digamos, líder, de tal organização é o milionário Antoine Sansone, um excêntrico com contatos em várias esferas, e que tem uma queda pela Dra. Maura.

NoNovamente, um homem que odeia as mulheres e não se contenta em mata-las, mas em tranforma-las em souvenires, é o alvo da investigação de “Reliquias” (The Keepsake).

Voltando ao seriado: está na terceira temporada, e foi renovado para a quarta. Isso é motivo de comemoração, porque apesar de Olivias e Bones por aí, cada dia mais, o enfoque é diferente.

Bem, é isso aí!

Espero que vocês gostem, e recomendo muito os livros.

Acabei de ler o último, lançado no final de agosto nos EUA, e sem previsão de lançamento no Brasil. É o “Last to die”, e temos uma alteração no estilo. Não é o meu favorito, mas é bom, para quem gosta de suspense policial.

Os livros até agora lançados (alguns deles, já que existem alguns outros nos quais não aparecem as duas personagens) são lançados no Brasil pela Editora Record.

1 O Cirugião (The Surgeon – 2001)
2 The Apprentice (O Dominador – 2002)
3 The Sinner (O Pecador – 2003)
4 Body Double (Dublê de Cortpo – 2004)
5 Vanish (Desaparecidas – 2005)
6 The Mephisto Club (O Clube Mefisto – 2006)
7 The Keepsake (Relíquias – 2008)
8 Ice Cold (2010) – ainda não lançado em português
9 The Silent Girl (2011) – ainda não lançado em português

10 Last to Die (2012) – Ainda não lançado em português

O seriado é transmitido no canal pago TNT.

 

 

 

Autor: Renata Lima

Mulher em um mundo masculino. Delegada de Polícia. Tuiteira, blogueira, leitora compulsiva. Feminista, libertária, de esquerda. Contradição? Não. Liberdade.

Os comentários estão desativados.