Mulheres, eleições no Brasil e no Quebec.

No Quebec, em março deste ano os estudantes universitários e dos Cegeps (Escolas Técnicas Profissionalizantes) entraram em greve contra o aumento das taxas de escolaridade. O aumento imposto pelo governo era de 10% em 2012 e com a perspectiva de aumentos anuais a partir deste ano. A taxa de escolaridade do Quebec é a mais baixa dentro do Canadá e muitos críticos dos estudantes usavam este argumento para dizer que os estudantes eram uns arruaceiros e preguiçosos que não queriam estudar e se aproveitavam de qualquer coisa para não arcar com suas responsabilidades.

Enfim a greve continuou os estudantes não cederam o movimento deles começou a ter apoio de vários setores da sociedade: idosos, artistas, trabalhadores, feministas, políticos de oposição. O movimento da greve estudantil cresceu muito, havia demostrações diariamente e a população começou a se conscientizar de que quem perde com o aumento das taxas de escolaridade é a sociedade. Quem hoje não tem filhos ou tem filhos pequenos vai ter futuro que pagar essa taxa para ter acesso ao ensino superior ou profissionalizante. Não só os adolescentes e jovens são os prejudicados pelo aumento das taxas: trabalhadores que querem mudar de carreira, imigrantes que chegam ao milhares anualmente no Quebec também sofreriam com esse aumento abusivo. E enquanto o povo paga mais caro pela educação Empresas de vários setores se instalam pelo Quebec com isenção de impostos.

O governo representado por Jean Charest primeiro ministro do Quebec recusou-se a negociar com os

estudantes e tentou com uma mão de ferro sufocar o movimento. Desde março até o último dia 4 de setembro o que se viu no Quebec foi o embrutecimento da polícia contra manifestantes e a adoção de uma lei que proibia a assembleia popular e os protestos de rua. Esse panorama ditatorial mobilizou a população descontente e forçou o governo a pedir as eleições gerais. Estas aconteceram no dia 4 de setembro e delas saiu vitoriosa Pauline Marois a primeira mulher a ocupar o cargo de primeira ministra no Quebec.

Militantes do Quebec Solidário – Parada Gay 2011

O Quebec é uma província governada por um primeiro ministro e possui uma Assembleia Nacional composta de 125 parlamentares que representam cada um de seus 125 distritos eleitorais. Além de eleger a primeira mulher para o cargo executivo, os eleitores do Quebec ainda elegeram a primeira feminista para ocupar uma cadeira na Assembléia Nacional. Françoise David líder do partido Quebec Solidário o único no Quebec que possui igualdade no número de candidatos e candidatas, o único que inclui nas suas propostas uma agenda feminista.

Quebec Solidário um partido que dialoga estreitamente com a FFQ (Federação das mulheres do Quebec) que é a organização que surgiu depois da Marcha do pão e das rosas que originou a Marcha Mundial da Mulheres.

Os resultados das eleições no Quebec me deixaram exultante. Infelizmente o resultado das eleições no Brasil não me deixaram tão feliz como as daqui.

Como feminista identifico no Brasil, que além da falta de representatividade de mulheres, negrxs e ativistas LGBT há também um apagamento do discurso feminista nas campanhas até mesmo por mulheres feministas. Campanhas que sejam inclusivas para as minorias em representatividade são difíceis de serem encontradas na maioria dos Partidos, são desencorajadas e não tem apoio nem mesmo dentro de seus partidos. Para avançar em direção a uma sociedade igualitária é preciso que entendamos que é preciso se priorizar os investimentos em ações que vão beneficiar a população.

No meu entendimento, um projeto de sociedade igualitária teria que priorizar os investimentos em transportes em comum, a humanização da cidade ao abrir-se espaços prioritários e seguros para pedestres e ciclistas, se comprometer com as pautas de movimentos sociais. Incluir nas suas campanhas as pautas feministas, LGBT, luta pelos Direitos  Humanos, a pauta do movimento negro.

A pauta feminista que está diretamente ligada ao executivo municipal é o aumento da oferta de vagas em creches e o atendimento digno e e acessível aos casos de abortos previstos em lei. Aparelhar e ampliar a rede de saúde municipal, é o investimento em escolas públicas para o aumento de vagas que estas escolas tenham capacitação e meios de inclusão do alunado com necessidades especias.

Aparelhar a cidade para pessoas com dificuldades motoras, pessoas necessidades específicas como os cegos, os cadeirantes, os idosos que tem dificuldade em ter acesso necessitam de uma cidade que os inclua e os facilite a mobilidade. Pensar calçadas e transporte público acessíveis a esta parte da população que é continuamente segregada e que tem suas necessidades invisibilizadas. É pensar na coleta de lixo nas soluções de reciclagem.

O machismo no Brasil é tão grande que nos movimentos sociais e na maioria dos partidos de esquerda a invisibilidade de candidaturas de mulheres e de mulheres feministas é o maior e mais claro sintoma que entre direita e esquerda, no que tange os direitos das minorias, não há grande diferença. Alguns partidos de esquerda tem em suas fileiras feministas que lutam por cotas de gênero dentre as candidaturas. Mas ainda assim o discurso feminista é algo que não se faz presente na grande maioria das candidaturas das mulheres. Os direitos dos cidadãos LGBT os interesses da comunidade negra são recorrentemente ignorados.

A presidente da União Nacional dos Estudantes, Lúcia Stumpf, discursa durante as eleições da nova diretoria da entidade, no 51º Congresso da UNE (Conune)

Então as eleições para os cargos legislativos municipais acabaram. Em algumas cidades ainda vai haver o segundo turno para eleição dxs prefeitxs. Vale se perguntar o que há de feminista nas propostas dessxs candidatxs? O que há nessas propostas que dê às mulheres mais acesso aos direitos que a constituição já prevê, mas que na realidade ainda não estão disponíveis para toda a população sem distinção de classe, de gênero, de cor, de orientação sexual ou identidade de gênero.

Autor: Liliane Gusmão

Feminista, sim eu sou!

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