Mulheres Guerreiras

Texto de Luciana Nepomuceno e Thayz Athayde.semana_8_marco

As amazonas são bem conhecidas no universo cultural-pop ocidental. Figuram na Ilíada, tem papel fundamental no livro ‘O Incêndio de Tróia’ de Marion Zimmer Bradley, são referenciadas nas séries da Mulher Maravilha e Xena. Até em Hércules, animação da Disney, elas dão o ar de sua graça. Na mitologia grega eram uma tribo exclusivamente de mulheres que, em algumas versões, mutilavam um dos seios para melhor manejar os arcos. São parte do nosso imaginário: mulheres guerreiras.

Os gregos não são os únicos a terem mulheres guerreiras em seu repertório cultural. Elekô é o nome de uma sociedade secreta de mulheres africanas que são lideradas por Obá – orixá guerreira que representa as águas revoltas dos rios, controla o barro, aguá parada, lama, lodo e as enchentes. Uma Orixá energética, temida e forte, considerada mais forte que muitos Orixás masculinos, vencendo na luta: Oxalá, Oyá, Oxumarê, Exú e Orumilá. Obá representa as mulheres e concentra funções sociais, políticas, culturais e religiosas.

Aqui no Brasil também temos nossas representantes no folclore: são as Icamiabas ou Iacamiabas (do tupi: i + kama + îaba, significando “peito rachado”). Nossa tribo de mulheres que não aceitavam a presença masculina e constituíam uma sociedade rigorosamente matriarcal e eram boas de briga.

Porém, os exemplos de mulheres que não se inibiam de pegar em armas para sua própria defesa, para defesa de outras mulheres ou para defesa de terras e valores, não se extinguem na mitologia. É na História que encontramos Joana d’Arc, heroína da Guerra dos Cem Anos, comandante do exército francês com aproximadamente 17 anos e que morreu queimada pouco tempo depois. Além de libertar Orleans, Joana comandou o exército e venceu a batalha de Jargeau, a batalha de Meung-sur-Loire e a batalha de Beaugency.

Outra boa de briga era Boudicca, rainha celta que liderou os icenos contra as forças romanas que ocupavam a Grã-Bretanha em 60 ou 61 d.C., durante o reinado do imperador Nero. O marido de Boudicca tinha se tornado aliado do Império mas, com sua morte, os romanos ignoraram o testamento e se apropriaram dos bens do rei dos icenos. Quando houve protestos, os romanos tentaram controlar a situação açoitando a rainha e violando suas filhas. Boudicca reergueu-se unindo e comandando várias tribos contra o domínio romano. Ficou conhecida como uma guerreira feroz, estratégica e fria, exterminando os adversários sem fazer prisioneiros.

E, como o Império Romano não era bom em fazer amizades, também na Síria uma mulher se tornou guerreira e líder para combatê-lo. Zenóbia é reconhecida como portadora de virtudes guerreiras, administrativas e intelectuais, transformando Palmira, sua capital, em uma referência no Oriente Médio e, posteriormente, tendo expandido seu domínio do Nilo ao Eufrates, reinando sobre o Egito. Seu governo durou cerca de cinco anos, até que os romanos se reorganizaram e a venceram em batalha.

Tão corajosas quanto, mas um pouco menos conhecidas, são as vietnamitas Triệu Thị Trinh e as irmãs Trung. Triệu Thị Trinh foi uma guerreira do séc. III que ficou órfã, viveu como escrava até os 20 anos, fugiu para a floresta e organizou um exército com cerca de 1000 guerreiros que libertou uma área do Vietnã do domínio chinês e venceu cerca de 30 batalhões Wu. As irmãs Trung são consideradas heroínas nacionais no Vietnã. No ano 40 d.C., formaram um exército de 80 mil pessoas comandados por 36 mulheres-generais, incluindo, entre as líderes, a mãe delas. Elas conseguiram manter o Vietnã livre do domínio chinês por 3 anos, rechaçando todas as tentativas do exército inimigo de recuperar espaço.

Cada uma dessas mulheres, para ser quem foram, tiveram que romper com o discurso “mulher não faz isso”, “mulher não é assim”, “isso não é coisa de mulher”. Cada uma delas deu de ombros para a dicotomia homem/mulher e declararam, via ações, que o combate é um território a ser ocupado por homens e mulheres conforme seu desejo e necessidade. Para ser quem foram, guerreiras e líderes, cada uma delas ignorou o papel que as “mulheres de verdade” deviam exercer. Para serem quem foram e serem lembradas, elas se recusaram a resumir-se no que era definido como “feminino”. Porque enquanto ouvimos e acatamos a ladainha de um tipo ideal de feminilidade – o que quer que ela abarque, da antiga definição de dona de casa à de mulher liberada e independente – ainda somos subjugadas e enquadradas.

Todas as vezes que nos limitamos ou nos limitam com a expressão (explícita ou não): “isso não é feminino”, estão convocando um padrão de mulher que opera mantendo o status quo, na qual a mulher será construída pela descrição do que é ser mulher, não apenas nomeando, mas constituindo o que é ser mulher. Isso se torna mais visível quando voltam essa afirmativa para as lutas feministas, criando um manual do que as feministas devem fazer para que sejam autorizadas a militar. Para isso, devem militar totalmente vestidas, se ousarem mostrar seus corpos que eles sejam magros, depilados e padronizados. Além disso, exige-se que sejam menos ríspidas, barulhentas, agressivas ou qualquer dos termos que pululam no discurso domesticador, inclusive o infame “feminazi”.

“Porque, olha, quer reinvindicar seus direitos, tudo bem, mas faça isso com jeitinho e educação como militante Fulana ou Beltrana”. É o discurso cínico que, fingindo valorizar um tipo de luta, visa enfraquecer as reinvindicações desautorizando quem as apresenta.

A militância não prescinde do diálogo, da gentileza, da prática pedagógica. Mas isso não quer dizer que cada militante não o exerça na medida de sua história e possibilidade. Não se milita com mais ou menos “educação” porque se é mulher. Milita-se da forma A ou B conforme a relação com a realidade e embates cotidianos forjam as posturas e discursos. A militância não é um lugar exclusivamente para homens ou que demanda comportamentos masculinos, mas um espaço que deve abranger todas as formas de reivindicações por direitos das minorias.

Não temos que ser delicadas por sermos mulher. Não temos que falar baixo por sermos mulher. Não temos que ser doces, suaves, mansas, pacientes e tolerantes. Não temos que. Escolhemos. Optamos. Agimos. Fazemos acontecer. Porque ser mulher não tem forma. Feminista não tem padrão. Guerreira não tem modelo.

[+] Podem me chamar de barraqueira, não vou contemporizar por Niara de Oliveira.

[+] Um olhar a partir do portal das mulheres.

Luciana Nepomuceno

Considero importantíssimo saber rir de mim mesma. Sou crédula. E cínica. Pode? Em algum momento decidi que ser eu mesma era muito mais gostoso que ser um eu que eu poderia querer ser. Em relação ao amor, por exemplo, sou ridícula. Capaz de desenhar corações entrelaçados em guardanapos e guardar como se fossem tesouros inestimáveis. E capaz de seguir adiante sem lamentar se simplesmente assim o decidir. Eu já não tenho pejo de listar meus encantos como não me aborrece o elenco de defeitos. As duas sequências são enormes. Gosto do repetir dos dias. Sou grata pelas pequenas coisas. E pelas grandes, claro, como respirar. E café. E coca-cola. E beijo na boca. E o Flamengo.

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Sobre: Luciana Nepomuceno

Considero importantíssimo saber rir de mim mesma. Sou crédula. E cínica. Pode? Em algum momento decidi que ser eu mesma era muito mais gostoso que ser um eu que eu poderia querer ser. Em relação ao amor, por exemplo, sou ridícula. Capaz de desenhar corações entrelaçados em guardanapos e guardar como se fossem tesouros inestimáveis. E capaz de seguir adiante sem lamentar se simplesmente assim o decidir. Eu já não tenho pejo de listar meus encantos como não me aborrece o elenco de defeitos. As duas sequências são enormes. Gosto do repetir dos dias. Sou grata pelas pequenas coisas. E pelas grandes, claro, como respirar. E café. E coca-cola. E beijo na boca. E o Flamengo.

27 Comentários para: “Mulheres Guerreiras

  1. Post lindo! Aprendi demais com vocês. Agradeço especialmente pelo cuidado em não se limitar a referências eurocêntricas.

    • Iara, fico (e aposto que a Thayz também) muito contente que você gostou. Quando começamos a pensar no texto as referências que me vieram imediatamente (não me envergonho de confessar) foram as Amazonas e as Valquírias. Daí eu espoletei: será possível que só tem mulher valente e boa de briga de um tipo e lugar? Claro que não. Aposto que se tivesse mais tempo pra pesquisa anda teria achado mais referências interessantes na Ásia e na África, aliás do Egito tinha uma outra pra falar mas as referências que encontramos eram vagas e o post já estava longo, fica pra próxima ;-)

  2. Esta postagem me ensinou algumas coisas novas sobre história que como ex acadêmico fico feliz em aprender.
    Também me remete a um debate no meio do RPG (jogo) medieval que vem ocorrendo a algum tempo mas que ainda esta manha foi citado pela Editora Jambo e por blogueir@s. Cito com certa vergonha o “bikine mail” que nos causa vergonha ter sido presente na história do RPG e temos tentado expurgar a todo custo. Certamente se mais fãs de literatura fantástica medieval lessem este seu artigo seriam menos frequentes os absurdos como o que citei ocorrerem nas mesas de RPG.
    Felizmente os blogueiros e a editora compartilham deste sentimento de que machismo, racismo e homofobia não são mais toleráveis no RPG.

  3. Adorei!
    As Amazonas aparecem em Hércules da Disney? Não me lembro… Acho que elas podem até ser citadas, mas não lembro de elas aparecendo. As divindades que aparecem durante todo o filme são as musas (deusas das artes).
    Ai ai… Adoro tanto Xena! Em Xena aparecem as Amazonas, a Boudicca e as deusas gregas fodonas, como a Aphrodite e a Athena. Na mitologia grega tem várias deusas poderosas, apesar de ter ainda papéis de gêneros (como a mulher traída de Zesu, vingativa e protetora do lar Hera, e como o deus supremo ter sido sempre homem).
    Eu também curto as Valquírias. E tem a história da Mulan (não sei o que é real, só vi o filme da Disney hehe).
    Sabe o que eu fico imaginando… O tanto de mulheres guerreiras, inventoras e sei lá mais o quê que a gente não conhece simplesmente porque foram apagadas da história. É triste, né?
    Adorei o post!
    Beijos!

  4. “Curiosamente” pouco se fala dessas mulheres guerreiras, das líderes de Estado ou de revolucoes. Eu acredito que muito mais mulheres morreram com a espada na mao do que nos é contado. Percebo também que aquelas poucas que constam na história tem sua importância diminuida ou sao apenas lembradas como a “amante do fulano”, a “mae do ciclano”.
    Sempre me pergunto quantas guerreiras, quantas estrategistas, cientistas, artistas nao foram sumariamente apagadas da história para nao nos dar “mal” exemplo!

    Ah… só pra lembrar da nossa Ana Maria de Jesus Ribeiro, a heroína de dois mundos mais conhecida como Anita Garibaldi. Ela, como todas as outras guerreiras quebrou todos os paradigmas da nossa sociedade extremamente machista, lutou na guerra dos Farrapos, largou o marido, fugiu com um estrangeiro e lutou pela unificacao da Italia!

    • Anita aqui de minha terra (sou nativo de RS mas moro na serra catarinense por 20 de meus 25 anos) e também de outros mundos e outras guerras é um exemplo da cultura aqui da serra, de um povo guerreiro. Temos outros bons exemplos, como Maria Rosa, líder na Guerra do Contestado entre 1912 e 1915 que liderou os 6000 caboclos restantes na etapa final da revolução. Pena ela ter sido morta em batalha e por décadas ser tratada apenas como uma criminosa…

      • Fran e Sonado, obrigada por contribuírem com as lembranças de Anita e Maria Rosa. Também tenho meu quinhão de mulher arretada, a nordestina Bárbara de Alencar, considerada por muitos a primeira presa política do Brasil. Ela participou da Revolução Pernambucana de 1817 e da Confederação do Equador.

      • Ah… Maria Rosa!!! Obrigada…hehehe”!!! Eu lembrei da história dela, mas nao lembrava do nome!!!

  5. Parabéns, excelente postagem.

    Muito bom ler isso. “Feminista não tem padrão.”
    Na verdade, creio que ninguém deveria ter padrão.

    Texto muito equilibrado e com ótimas referências.
    Inclusive me lembrou duas mulheres, minha filha, uma garotinha que vive reclamando da professora de Ed. Física, que pega no pé pra ela ser mais feminina e jogar vôlei com as outras meninas. E a outra foi a primeira faraó mulher, Hatshepsut.

    Segue link: http://arqueologiaegipcia.com.br/2011/07/28/um-vislumbre-da-farao-mulher-hatshepsut/

    Grande abraço!

    • Cristina,

      obrigada pelo elogio ao post. E veja que beleza as voltas que a vida dá. Se você ler minha resposta ao comentário da Iara (o primeiro do post) eu falo que tínhamos mais uma guerreira pra abordar – uma egípcia – mas as referências que eu tinha encontrado eram vagas. Aí você tem um link justamente falando dela. ;-)

      E é tão triste saber que nossas crianças sofrem diariamente com a demanda de que se enquadrem em um modelo, não é ?

  6. Muito interessante essa compilação. Ainda mais considerando que o assunto sempre me fascinou e sempre estudei sobre ele, e ainda assim fui surpreendido por referências orientais que eu não conhecia.

    Para contribuir, acrescento que a idéia de que as amazonas “mutilavam o seio para melhor manejar o arco” não passa de um incrível mito baseado em grosseiro erro de tradução, ao pensar-se que o termo derivaria de seu homônimo grego “a+mazos” quando na verdade o termo vem do persa, com significado simplesmente de “guerreiras”!

    Ademais, pode-se pesquisar a respeito de mulheres arqueiras, que aliás são muitas, e notar que mesmo mulheres de seios grandes não tem problemas em manejar o arco.

    Seria interessante também comentar algo sobre as africanas “Amazonas de Daomé”. http://pt.wikipedia.org/wiki/Ahosi , ainda que elas não possam representar exatamente uma ruptura com uma ordem patriarcal.

    Mas é preciso também um certo cuidado com a leitura que pode ser feita das mulheres guerreiras, pois pode passar a idéia de que o caminho da emancipação feminina necessariamente passa pelo uso da violência, quando a bandeira progressista principal deveria ser antes a neutralização da violência, e não sua apropriação pelo feminismo.

    A contrapartida, por outro lado, deveria ser um aprofundamento no reverso, os homens que abdicando da violência, realizaram grandes feitos, como os santos, mártires e outros ícones da paz.

    Outra questão é o modo como as mulheres guerreiras muitas vezem atendem a um fetiche masculino, haja visto sua larga presença nos videogames, com improváveis misturas de extremo desempenho físico, mas ao mesmo tempo beleza típica incompatível. Note que as mulheres guerreiras sempre são representadas como belas.

    Por enquanto fico por aqui. Embora haja outros trechos do textos que me soem problemáticos.

    Mesmo assim parabenizo o post.

    Marcus Valerio XR
    xr.pro.br

    • Olá, Marcus, que legal que você gostou do texto e que bom que contribuímos com as referrências orientais. Se quiser mais elementos, tem no blog da Denise:http://sindromedeestocolmo.com/2008/03/as_mulheres_gue/

      Quanto à questão da mutilação no seio, bom saber a origem da confusão. Como colocamos no texto, estávamos falando das Amazonas mitológicas já que são elas que povoam o imaginário e são representadas na cultura muitas vezes de forma equivocada, mas mantendo essa característica essencial da capacidade de luta e independência.

      Por fim, só queria dizer pra você que minha bandeira mais valiosa é a da gentileza. Minha utopia. É por isso que fico tranquila pra dizer que o texto não trata de convocar a violência para a militância feminista mas de indicar que a cobrança de comportamentos meigos, mansos, dóceis como essencialmente femininos é uma das maneiras de manter o status quo e invisibilizar a luta feminista. Aliás, tá lá no texto: A militância não prescinde do diálogo, da gentileza, da prática pedagógica. Mas isso não quer dizer que cada militante não o exerça na medida de sua história e possibilidade.

      No mais, eu penso que há uma inversão no seu discurso. Porque não são as mulheres guerreiras que atendem a um fetiche masculino. Zenóbia, Joana ou Boudicca não lutaram para se tornarem atraentes, né? É o perfil padronizado de beleza que incorpa os fetiches mencionados que tende a retratar a mulher que luta como dentro de determinado padrão.

      Gostei muito da interlocução, fique a vontade para apresentar todos os problemas encontrados, até porque nem eu nem Thayz somos estudiosas de História e gostamos de aprender.

      • Prezada Luciana…

        Obrigado pela resposta.

        Quanto a questão do fetiche, não me referi as guerreiras históricas, mas sim ao modo como a “mulher guerreira” é esteticamente retratada, em especial na indústria do entretenimento. Xena e Gabriele (por sinal fui um fã do seriado, assim como de Buffy – Vampire Slayer), são só um exemplo.

        Não que eu seja contra essa estética representativa, até porque ela ao menos pode levar ao interesse pelo assunto, mas sua força pode ser sentida pelo fato de que jamais um filme, por exemplo, retrataria uma dessas mulheres históricas sem utilizar atrizes lindas.

        Em suma, pode-se remover os estereótipos sociais, comportamentais, éticos etc, com relativa facilidade. Difícil mesmo é remover o estético! Até as lutadoras de MMA que mais fazem sucesso o fazem mais pela beleza do que pelo seu desempenho nas lutas.

        O feminismo conseguiu inúmeras vitórias históricas a nível social e cultural, mas no simbólico deixou muito a desejar. Derrubou-se muitas barreiras, mas como diria Naomi Wolf em seu início de carreira, a Ditadura da Beleza continua no poder.

        Marcus Valerio XR
        xr.pro.br

  7. Que texto delícia meninas!!!! Uma surpresa boa abrir o blog e encontrar essa publicação justo hoje! Eu tive uma discussão com um ex-companheiro de trabalho que eu admirava e considerava um rapaz inteligente, exatamente por conta dele achar (e apregoar!) que mulher tem que ser isso e aquilo e satisfazer o olhar masculino e o ideal absurdo e opressivo de feminidade pra poder ser “uma mulher que presta”. Como ele publicou essas coisas num blog em forma de “receitinhas” eu me senti na possibilidade de contestar, e aí me surpreendi, porque a selvageria machista disfarçada de academicismo pra cima de mim foi grande. E digo “disfarçada de academicismo” porque ele é doutor de uma universidade importante e não economizou na hora de esfregar títulos e papers publicados em revistas internacionais na minha cara pra tentar, sem argumentar nada, justificar o injustificável, ou seja, as violências de gênero das mais boçais expressas em cada frase do tal blog. E como não poderia faltar, tudo recheado de ofensas e reprimendas, porque ao contestar com sinceridade e contundência eu estava sendo “grosseira” e fugindo da receitinha de “mulher nobre” que ele publicou. Mal sabe ele que dizer isso pra mulheres feministas é um grande elogio!!! hahahahaha. Mas enfim, parabéns pelo post delícia!! Eu como ando ultimamente descobrindo minha latinoamericanidade, sugeriria também umas mulheres guerreiras arretadas latinoamericanas: a Malinche, e por quê não guerreiras ainda vivas, como Estela de Carloto e Hebe de Bonafini. Beijos no coração!!!

    • Adorei as dicas, baby, quem sabe rende um Mulheres Guerreiras 2. E a luta cotidiana é tal como você descreveu, cheia de golpes baixos. Mas resistimos \o/

  8. Sem problema nenhum querer estar junto a nós em uma guerra. Mas saiba que esse lugar esta longe de carregar essa glória toda. E o que um guerreiro mais pensa em meio a um confronto é como ele sente falta de casa e de tudo que sua mãe representa. Lá é um abismo escuro ,cheio de horror e fatalidade. O lugar de vocês é onde vocês escolherem , mas cuidado.
    O mundo exclusivamente masculino é um lugar sujo e traiçoeiro. Onde a moral cai por terra e o que prevalece é só a lei do poder. Um lugar de pura tortura e sofrimento.É um lugar onde a gloria do vitorioso é o terror do derrotado.
    O homem tem q se iniciar nesse lugar. Ele tem a escolha de não se meter la. Mas Deus sabe que só um homem inicia um homem nesse lugar.
    Sinto muito pelo que alguns homem fazem com as mulheres q sao donas da paz e de tantos sentimentos bons. E me sinto triste pela curiosidade de vocês em ir para esse lugar. Vocês podem ir . Ninguém vai mais impedir. Mas q pena.

    • Não me parece que o texto trate disto.

      Não é um tipo de “apologia ao pegar em armas feminino”, mas apenas uma demonstração de que as mulheres podem, aliás sempre puderam, romper com seus papéis tradicionais de forma radical, embora sempre tenha sido muito difícil.

      Por isso mesmo que antes eu comentei para que se tome cuidado com as leituras que podem ser feitas das mulheres guerreiras, para que não se confunda a emancipação feminina com a idéia de que as mulheres devem abraçar papéis que melhor seria se fossem abandonados por todos.

      Marcus Valerio XR
      xr.pro.br

    • André,

      Quando alguém me fala de um mundo “exclusivamente masculino” como um dado naturalizado eu logo desconfio que não pensamos nem parecido. Para mim não existe essência masculina ou feminina, assim não existem comportamentos exclusivos. Para além disso, o texto não trata de ir à guerra, mas de que as mulheres militem como lhes aprouver.

      • Cara Luciana…

        É a hora de discordarmos.

        Eu acredito que existe sim uma Natureza Feminina e uma Masculina, para não usar o termo “essência”. Eu uso antes “Força”, como pode ser visto em http://xr.pro.br/EXERIANA/CAOS-01.html

        O problema não é acreditar nessa “essência”, mas sim pensar que elas se traduzem automaticasmente em Mulher e Homem. Ambos os sexos comportam as duas naturezas, assim como o Yin e o Yang, e o desenvolvimento ideal de alguém pressupõe o equilíbrio entre as mesmas.

        Por isso sempre vi como um bom sinal quando mulheres ultrapassam os esteriótipos de gênero e desenvolver mais seu lado masculino, bem como o contrário, embora nada haja de errado também em querer ser mais um que outro. Lembrando que isso nada tem a ver com a orientação sexual.

        O que as culturas fazem é basicamente assumir uma natureza que é apenas predominante ou probabilística, e radicalizá-la, totalizando-a e forçando essa falsa igualdade entre Mulher e Feminino e Homem e Masculino.

        O dano ocorre porque se alguém se sente à vontade em seu papel de gênero, ótimo, mas e aqueles que não o fizerem? O verdadeiro mal é o dano causado ao indivíduo que se sente mais à vontade com aspecto complementar ao seu sexo físico.

        Mas observe que nada disso faria o menor sentido se não estivéssemos pressupondo implícitamente que existe uma natureza à qual ela quer se direcionar.

        Em suma. O problema não é haver “essências” masculina e feminina, mas achar que homens e mulheres, respectivamente, se reduzem a cada uma delas, e que a tais deveriam estar eternamente presos.

        Marcus Valerio XR
        xr.pro.br

        • Ah, com certeza discordamos. A ideia de essência é extremamente circular: homens são mais assim porque tem mais essência masculina e essência masculina é descrita assim porque verificou-se (cof, cof) que homens agem mais assim. OU, senão, remetem à similitudes com comportamentos animais e assim, naturalmente, o masculinoé de tal jeito e o feminino é de outro. Somos humanos e potencialmente prontos para muitas coisas. As experiências, o lugar, a época, o discurso sobre nós e nossa interação com tudo isso nos diz quem somos e nos faz ao mesmo tempo em que dizemos e fazemos. De qualquer forma, mesmo onde discordamos, os efeitos se aproximam.

          (respondendo meio na correria, mas estou gostando do papo).

          • Cara Luciana…

            Seria circular se o conceito de Feminino e Masculino fosse definido pelo que Mulheres e Homens fazem. Mas não se trata disso minha abordagem do tema. Trata-se de uma visão metafísica que ainda que abstraia tais princípios por meio de uma cosmo visão abrangente, as reduz a forças primordias que movem todo o universo, inclusive a psique humana.

            Tanto que algumas de minhas concepções a respeito de tal natureza inicialmente são contra tradicionais. Por exemplo: Há muito afirmo que a Feminilidade Essencial nada tem de passiva e muito menos de submissa. Idéia que já me rendeu tremenda hostilidade intelectual em grupos filosóficos e místicos dos quais já participei, alguns fortemente androcêntricos.

            Mas em grupos feministas também não costumo ter boa aceitação, visto que evidentemente rejeito a noção de Construção Puramente Social do Gênero, que é um dogma intocável na maior parte das tradições feministas pós Primeira Onda.

            Se tal “Modelo Padrão nas Ciências Sociais” também não for circular, peca ao menos pela falta de fundamento discernível: “O feminino seria assim por que a cultura assim o doutrina; mas a cultura assim o doutrina porquê? ” Ou se nega por completo toda a evidente conexão humana com a natureza evolutiva, como se a cultura encarnasse como um Espírito Santo sobre a espécie humana.

            Mas não sei se é uma boa idéia discutir isso aqui. A simples menção a alguma das características dessa abordagem soa praticamente como um insulto num ambiente feminista, mesmo quando a intenção é absolutamente contrária ao que costuma ser interpretado.

            Como exemplo, uma das feministas mais interessantes que li recentemente chama-se Griet Vandermassen, uma belga que escreveu um livro sobre Psicologia Evolutiva Feminista, com resultados surpreendentes. Sua abordem em si é puramente comprometida com os objetivos emancipatórios do feminismo, mas seu método evidentamente é nada ortodoxo, embora implacavelmente eficiente.

            De nada adiantou. Ela sofreu uma hostilidade tão grande que praticamente desistiu de abordar o assunto.

            Amigavelmente

            Marcus Valerio XR
            xr.pro.br

            • Estou de acordo com o Marcus em algumas de suas ideias. Fica muito complicado rever o mundo sem tem em mente que os pólos existem sim. Mas que pouco dependem de gênero aos quais se expressam. Isso é verificado empiricamente.
              Acho que tb seria hostilizado por que não consigo fugir dos polos. Dos generos é muito fácil. Mas dos polos é difícil.
              Me expressei mal quando deferi ” exclusivamente”. Mas o polo masculino é evidente . É o polo da vez nas ultimas décadas . É lindo expressa-lo. Ter na mão a razão e a espada que divide é quase que pré requisito. É um fazendo guerra com o outro. Sem tolerância. Que já é o polo oposto . Da uniao e não da separação. É só dar uma volta nas nossas cidades e ver qual dos dois lobos é o mais alimentado.
              Como eu escrevo mal fica complicado falar dessas coisas por aqui.
              Mas enfim.

    • André,

      Como a Luciana já colocou, não existe um mundo exclusivamente masculino ou feminino, é justamente contra esses binarismos que estamos lutando contra. A grande questão do texto é falar que mulheres podem sim ser fortes, ir para luta e viver nesse mundo que você diz ser “exclusivamente masculino”. Não estamos incitando a violência com esse post, mas homenageando mulheres que conseguiram ir além de esteriótipos femininos que foram e ainda são impostos.