Nicole Bahls, Gerald Thomas e Rehtaeh Parsons: as diversas nuances da cultura do estupro

Texto de Liliane Gusmão com colaboração de Deh Capella e Iara Paiva.

Aviso que o texto aborda a violência sexual contra a mulher e que, por relatar casos de duas mulheres brancas, não mencionamos — embora saibamos — que essa violência atinge também outros grupos de mulheres não especificados no texto, como: negras, lésbicas e trans*.

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Rehtaeh Parsons está morta

Texto de Alexandra. Tradução de Liliane Gusmão e Iara Paiva.

Originalmente publicado com o título: Rehtaeh Parsons is dead. No site Feministing.com.

Há um ano e cinco meses, quando tinha 15 anos, Rehtaeh Parsons foi vítima de um estupro coletivo quando foi a casa de um amigo. Quatro de seus colegas de classe a estupraram. Um deles fotografou a agressão e circulou a foto na sua escola e comunidade. Seus colegas de classe viram na foto não a prova de uma agressão e sim a prova de que ela era uma vadia (“slut” em inglês). Quando ela mais precisou do apoio de sua comunidade o que recebeu foi bullying e investidas sexuais. Na última quinta feira à noite (04 de abril) Rehtaeh Parsons enforcou-se no banheiro de sua casa. Três dias depois sua família desligou os aparelhos de suporte a vida no hospital para onde foi levada.

Caminhada Contra o Estupro em São Francisco, EUA (2010). Foto de Steve Rhodes no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Caminhada Contra o Estupro em São Francisco, EUA (2010). Foto de Steve Rhodes no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Entre a agressão sofrida e sua morte domingo passado, Rehtaeh Parsons lutou contra a raiva e a depressão; ela se mudou se sua cidade natal; fez novos amigos; ela se internou. A Polícia Montada Real levou um ano para investigar o estupro, mas não responsabilizou os rapazes que a agrediram. Nos últimos dias a mídia tem se perguntado como a morte dela poderia ter sido evitada. O jornal The Herald News publicou um artigo entitulado: “Quem é o culpado pela morte de Rehtaeh Parsons?

A verdade é que todos nós somos culpados.

A cultura do estupro não é uma força amorfa que vive fora das pessoas. Ela toma forma e se perpetua em nossas ações. Nós promovemos a cultura do estupro até mesmo nos pequenos gestos — rir de uma piada de estupro, elogios objetificadores, nossa hesitação em convidar um amigo pra sair, nossa disponibilidade para criar desculpas para justificar estupros em nossa sociedade, nossa paralisia frente à crueldade sistêmica, nosso silêncio — e esses momentos aparentemente inofensivos constroem um mundo onde adolescentes de 15 anos são estupradas por seus colegas de classe. Construímos um mundo onde não é chocante quando uma vítima de violência sexual e perseguição comete suicídio.

Apoio para sobreviventes é crucial, e indubitavelmente o bullying  vil do qual Rehtaeh Parsons foi vítima após o estupro levaram-na a tomar esta atitude drástica. Mas a não ser que estejamos resignados com a ideia de que o estupro é inevitável, nós temos que intervir antes da violência acontecer.

Noite passada, quando contei para minha colega de quarto que estava trabalhando neste artigo, ela me disse que queria mesmo era ver uma ação. Ela não queria apenas mais uma crônica apontando o quão terrível o estupro é; ela queria fazer algo a respeito! E ela está certa. Ao invés de continuar no marasmo da injustiça, vamos finalmente acordar da ilusão que ainda temos tempo a perder. A cultura do estupro mata. Rehtaeh Parsons está morta e estamos em estado de emergência.

Organize sua vizinhança ou escola contra a cultura do estupro: faça workshops sobre consenso sexual e recrute participantes a se comprometerem com sua postura contra a violência sexual. Faça marchas e manifestações para que todos entendam que agressores e agressões não são aceitos nem apoiados na sua comunidade. Toda vez que uma publicação mostrar ou promover a cultura do estupro escreva uma carta em resposta. Rejeite o slut-shaming e a culpabilização das vítimas em todas as suas formas. Manifeste-se em alto e bom som. Respeite a autonomia do corpo dos outros. Posicione-se em suas atividades cotidianas para promover a cultura do consenso. Intervenha se voce presenciar uma situação perigosa acontecendo e ensine outros a fazê-lo também. Combata a transmissão da cultura do estupro de uma geração à outra: ensine as crianças a importância do consenso sexual, do respeito aos outros, ensinem-lhes a serem melhores do que somos. Não convide estupradores para suas festas (nem acredito que tenho que dizer isto, mas tenho). Certifique-se que sobreviventes em sua vizinhança tenham locais de acolhimento e justiça para impedir que agressores voltem a violar suas vítimas. Caso um local assim não exista, crie-o. Não tolere discursos que promovam ou banalizem violência sexual; oponha-se mesmo e – principalmente – quando fazê-lo seja considerado rude. Ouça as sobreviventes mesmo quando ninguém mais queira escutá-las.

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Cena do filme 'Laranja Mecânica' (1971).
Cena do filme ‘Laranja Mecânica’ (1971).

A cultura do estupro e suas nuances

No texto acima, a autora fala sobre a cultura do estupro, como ela se perpetua e se reproduz. Decidi traduzir esse texto depois de ver a reportagem do site EGO sobre a ultrajante violência que o direitor de teatro, Gerald Thomas, impôs à Nicole Bahls, repórter do programa Pânico.

Os textos da Nádia Lapa, da Deh Capella e da Lola expuseram muito bem o quanto o comportamento de Gerald Thomas foi violento, ofensivo e degradante.

Quero ressaltar também que além da responsabilidade das pessoas presentes no local, que presenciaram o ataque e não interviram, há responsabilidade social dos grupos midiáticos que usaram as imagens da situação vexatória pela qual Nicole passou: nessas reportagens a violência é apagada ou é anunciada como uma brincadeira. E são justamente essas interpretações, juntamente com a culpabilização das vítimas, que moldam essa cultura do estupro.

As imagens usadas na reportagem do site EGO são chocantes. E, apesar da cena ter sido presenciada por diversas pessoas, num local público, incluindo o repórter e a equipe de filmagem que acompanhavam Nicole, não houve interferência de ninguém. Não houve questionamento do agressor, nem no local, nem pela mídia que difundiu as imagens do ataque. É justamente nessas omissões que a essa cultura cruel e violenta se baseia.

Os únicos questionamentos que surgiram tiveram como protagonista a vítima. Foi questionada a sua maneira de vestir, a violência foi justificada como parte do trabalho que executa — como se ao expor seu corpo, estivesse implícito que ela deveria acatar qualquer investida a ele. A ausência de uma reação violenta de sua parte contra o agressor também se configurou como desculpa para a agressão que sofreu. Nessa outra face da cultura do estupro a mulher é o seu próprio algoz: ao não reagir a seu agressor, ao estar vestida com roupas curtas, ela é apontada como culpada pela violência que sofre.

Não. Não é. A culpa não é dela, é do agressor. E, dessa cultura que nos paralisa e faz que pareça natural que uma pessoa tenha a prerrogativa para agir negando a autonomia e o respeito à integridade e à dignidade de outra.

A culpa é do agressor porque ele se achou no direito de invadir a intimidade dela sem seu consentimento. A culpa também é de todos nós quando não nos posicionamos contra esse tipo de comportamento e nos apressamos em achar desculpas para comportamentos desrespeitosos, violentos e agressivos. A culpa é de todos nós quando acatamos as justificativas (tão comuns!) de uso da violência como “brincadeira”, quando seguimos em frente e a violência se perpetua às custas, é claro, das vítimas, que sofrem a violência propriamente dita e têm seu sofrimento e sua humilhação ignorados e transformados em piada ou minimizados.

No seu blog (que não linkamos propositalmente, pois achamos que ele já foi excessivamente divulgado para quantidade de absurdos que defende), Gerald Thomas argumenta que seu ataque foi uma resposta a uma postura do programa, famoso por abordagens repentinas e violentas. O absurdo dessa afirmação é tão grande que é impossível analisá-la em poucas palavras. Me parece sintomático que ele tenha escolhido para questionar a postura do programa a sua representante mais vulnerável, a mulher; apesar de haver relatos de que ele teria tentado abrir o zíper da calça de outro integrante da equipe de entrevistadores houve farta divulgação apenas do ataque a Nicole e, inclusive matérias mencionando o fato de que ela havia exposto sua calcinha no mesmo evento, já que usava vestido curto.

Cena do filme 'Laranja Mecânica' (1971).
Cena do filme ‘Laranja Mecânica’ (1971).

É interessante também ressaltar que ele usa como justificativa para seu ataque as roupas da Nicole. Acho que a postura do programa deve ser vastamente questionada, mas por que não dirigir sua violência ou, como ele quis dizer, sua brincadeira a quem realmente tem o poder para modificá-lo, ou seja, a empresa que o veicula? Seria muito mais produtivo, não seria uma agressão e sim o exercício pleno de cidadania e uma contribuição para uma modificação na qualidade dos programas de televisão.

 A cultura do estupro está nos seguidos ataques à integridade, à liberdade, à autonomia; transparece no riso, no julgamento impiedoso, na humilhação, na desqualificação das vítimas e mesmo em seu apagamento.

Esse traço nefasto de podridão de uma sociedade não se restringe a ataques veiculados pela imprensa: acontece diariamente perto de todos nós. Nós temos o poder e o dever de trabalhar para que ele deixe de existir. Não deixe passar, não deixe para depois. Conscientize as pessoas que conhece, não deixe de se queixar, de se revoltar. Façamos barulho! Não vamos nos deixar vencer pela banalização da cultura do estupro.

Autor: Liliane Gusmão

Feminista, sim eu sou!

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