Nicole Bahls, Gerald Thomas e Rehtaeh Parsons: as diversas nuances da cultura do estupro

Texto de Liliane Gusmão com colaboração de Deh Capella e Iara Paiva.

Aviso que o texto aborda a violência sexual contra a mulher e que, por relatar casos de duas mulheres brancas, não mencionamos — embora saibamos — que essa violência atinge também outros grupos de mulheres não especificados no texto, como: negras, lésbicas e trans*.

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Rehtaeh Parsons está morta

Texto de Alexandra. Tradução de Liliane Gusmão e Iara Paiva.

Originalmente publicado com o título: Rehtaeh Parsons is dead. No site Feministing.com.

Há um ano e cinco meses, quando tinha 15 anos, Rehtaeh Parsons foi vítima de um estupro coletivo quando foi a casa de um amigo. Quatro de seus colegas de classe a estupraram. Um deles fotografou a agressão e circulou a foto na sua escola e comunidade. Seus colegas de classe viram na foto não a prova de uma agressão e sim a prova de que ela era uma vadia (“slut” em inglês). Quando ela mais precisou do apoio de sua comunidade o que recebeu foi bullying e investidas sexuais. Na última quinta feira à noite (04 de abril) Rehtaeh Parsons enforcou-se no banheiro de sua casa. Três dias depois sua família desligou os aparelhos de suporte a vida no hospital para onde foi levada.

Caminhada Contra o Estupro em São Francisco, EUA (2010). Foto de Steve Rhodes no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Caminhada Contra o Estupro em São Francisco, EUA (2010). Foto de Steve Rhodes no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

Entre a agressão sofrida e sua morte domingo passado, Rehtaeh Parsons lutou contra a raiva e a depressão; ela se mudou se sua cidade natal; fez novos amigos; ela se internou. A Polícia Montada Real levou um ano para investigar o estupro, mas não responsabilizou os rapazes que a agrediram. Nos últimos dias a mídia tem se perguntado como a morte dela poderia ter sido evitada. O jornal The Herald News publicou um artigo entitulado: “Quem é o culpado pela morte de Rehtaeh Parsons?

A verdade é que todos nós somos culpados.

A cultura do estupro não é uma força amorfa que vive fora das pessoas. Ela toma forma e se perpetua em nossas ações. Nós promovemos a cultura do estupro até mesmo nos pequenos gestos — rir de uma piada de estupro, elogios objetificadores, nossa hesitação em convidar um amigo pra sair, nossa disponibilidade para criar desculpas para justificar estupros em nossa sociedade, nossa paralisia frente à crueldade sistêmica, nosso silêncio — e esses momentos aparentemente inofensivos constroem um mundo onde adolescentes de 15 anos são estupradas por seus colegas de classe. Construímos um mundo onde não é chocante quando uma vítima de violência sexual e perseguição comete suicídio.

Apoio para sobreviventes é crucial, e indubitavelmente o bullying  vil do qual Rehtaeh Parsons foi vítima após o estupro levaram-na a tomar esta atitude drástica. Mas a não ser que estejamos resignados com a ideia de que o estupro é inevitável, nós temos que intervir antes da violência acontecer.

Noite passada, quando contei para minha colega de quarto que estava trabalhando neste artigo, ela me disse que queria mesmo era ver uma ação. Ela não queria apenas mais uma crônica apontando o quão terrível o estupro é; ela queria fazer algo a respeito! E ela está certa. Ao invés de continuar no marasmo da injustiça, vamos finalmente acordar da ilusão que ainda temos tempo a perder. A cultura do estupro mata. Rehtaeh Parsons está morta e estamos em estado de emergência.

Organize sua vizinhança ou escola contra a cultura do estupro: faça workshops sobre consenso sexual e recrute participantes a se comprometerem com sua postura contra a violência sexual. Faça marchas e manifestações para que todos entendam que agressores e agressões não são aceitos nem apoiados na sua comunidade. Toda vez que uma publicação mostrar ou promover a cultura do estupro escreva uma carta em resposta. Rejeite o slut-shaming e a culpabilização das vítimas em todas as suas formas. Manifeste-se em alto e bom som. Respeite a autonomia do corpo dos outros. Posicione-se em suas atividades cotidianas para promover a cultura do consenso. Intervenha se voce presenciar uma situação perigosa acontecendo e ensine outros a fazê-lo também. Combata a transmissão da cultura do estupro de uma geração à outra: ensine as crianças a importância do consenso sexual, do respeito aos outros, ensinem-lhes a serem melhores do que somos. Não convide estupradores para suas festas (nem acredito que tenho que dizer isto, mas tenho). Certifique-se que sobreviventes em sua vizinhança tenham locais de acolhimento e justiça para impedir que agressores voltem a violar suas vítimas. Caso um local assim não exista, crie-o. Não tolere discursos que promovam ou banalizem violência sexual; oponha-se mesmo e – principalmente – quando fazê-lo seja considerado rude. Ouça as sobreviventes mesmo quando ninguém mais queira escutá-las.

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Cena do filme 'Laranja Mecânica' (1971).

Cena do filme ‘Laranja Mecânica’ (1971).

A cultura do estupro e suas nuances

No texto acima, a autora fala sobre a cultura do estupro, como ela se perpetua e se reproduz. Decidi traduzir esse texto depois de ver a reportagem do site EGO sobre a ultrajante violência que o direitor de teatro, Gerald Thomas, impôs à Nicole Bahls, repórter do programa Pânico.

Os textos da Nádia Lapa, da Deh Capella e da Lola expuseram muito bem o quanto o comportamento de Gerald Thomas foi violento, ofensivo e degradante.

Quero ressaltar também que além da responsabilidade das pessoas presentes no local, que presenciaram o ataque e não interviram, há responsabilidade social dos grupos midiáticos que usaram as imagens da situação vexatória pela qual Nicole passou: nessas reportagens a violência é apagada ou é anunciada como uma brincadeira. E são justamente essas interpretações, juntamente com a culpabilização das vítimas, que moldam essa cultura do estupro.

As imagens usadas na reportagem do site EGO são chocantes. E, apesar da cena ter sido presenciada por diversas pessoas, num local público, incluindo o repórter e a equipe de filmagem que acompanhavam Nicole, não houve interferência de ninguém. Não houve questionamento do agressor, nem no local, nem pela mídia que difundiu as imagens do ataque. É justamente nessas omissões que a essa cultura cruel e violenta se baseia.

Os únicos questionamentos que surgiram tiveram como protagonista a vítima. Foi questionada a sua maneira de vestir, a violência foi justificada como parte do trabalho que executa — como se ao expor seu corpo, estivesse implícito que ela deveria acatar qualquer investida a ele. A ausência de uma reação violenta de sua parte contra o agressor também se configurou como desculpa para a agressão que sofreu. Nessa outra face da cultura do estupro a mulher é o seu próprio algoz: ao não reagir a seu agressor, ao estar vestida com roupas curtas, ela é apontada como culpada pela violência que sofre.

Não. Não é. A culpa não é dela, é do agressor. E, dessa cultura que nos paralisa e faz que pareça natural que uma pessoa tenha a prerrogativa para agir negando a autonomia e o respeito à integridade e à dignidade de outra.

A culpa é do agressor porque ele se achou no direito de invadir a intimidade dela sem seu consentimento. A culpa também é de todos nós quando não nos posicionamos contra esse tipo de comportamento e nos apressamos em achar desculpas para comportamentos desrespeitosos, violentos e agressivos. A culpa é de todos nós quando acatamos as justificativas (tão comuns!) de uso da violência como “brincadeira”, quando seguimos em frente e a violência se perpetua às custas, é claro, das vítimas, que sofrem a violência propriamente dita e têm seu sofrimento e sua humilhação ignorados e transformados em piada ou minimizados.

No seu blog (que não linkamos propositalmente, pois achamos que ele já foi excessivamente divulgado para quantidade de absurdos que defende), Gerald Thomas argumenta que seu ataque foi uma resposta a uma postura do programa, famoso por abordagens repentinas e violentas. O absurdo dessa afirmação é tão grande que é impossível analisá-la em poucas palavras. Me parece sintomático que ele tenha escolhido para questionar a postura do programa a sua representante mais vulnerável, a mulher; apesar de haver relatos de que ele teria tentado abrir o zíper da calça de outro integrante da equipe de entrevistadores houve farta divulgação apenas do ataque a Nicole e, inclusive matérias mencionando o fato de que ela havia exposto sua calcinha no mesmo evento, já que usava vestido curto.

Cena do filme 'Laranja Mecânica' (1971).

Cena do filme ‘Laranja Mecânica’ (1971).

É interessante também ressaltar que ele usa como justificativa para seu ataque as roupas da Nicole. Acho que a postura do programa deve ser vastamente questionada, mas por que não dirigir sua violência ou, como ele quis dizer, sua brincadeira a quem realmente tem o poder para modificá-lo, ou seja, a empresa que o veicula? Seria muito mais produtivo, não seria uma agressão e sim o exercício pleno de cidadania e uma contribuição para uma modificação na qualidade dos programas de televisão.

 A cultura do estupro está nos seguidos ataques à integridade, à liberdade, à autonomia; transparece no riso, no julgamento impiedoso, na humilhação, na desqualificação das vítimas e mesmo em seu apagamento.

Esse traço nefasto de podridão de uma sociedade não se restringe a ataques veiculados pela imprensa: acontece diariamente perto de todos nós. Nós temos o poder e o dever de trabalhar para que ele deixe de existir. Não deixe passar, não deixe para depois. Conscientize as pessoas que conhece, não deixe de se queixar, de se revoltar. Façamos barulho! Não vamos nos deixar vencer pela banalização da cultura do estupro.

Liliane Gusmão

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31 Comentários para: “Nicole Bahls, Gerald Thomas e Rehtaeh Parsons: as diversas nuances da cultura do estupro

  1. Infelizmente, não acontece só com pessoas famosas.

    Uma colega teve uma foto de biquíni alterada no Photoshop (dando a entender que ele estava nua) distribuída na faculdade por um outro aluno da sala. Isso, somado a todas as provocações e comentários sexuais que ela tinha que ouvir toda vez que entrava na sala (éramos só quatro mulheres, em uma turma de quase trinta alunos), fez com que ela o processasse. E o comentário que mais se fez é que era só uma brincadeira, que ela estava exagerando, que ela não tem senso de humor…

    • Dri,
      Certamente não só as mulheres famosas que sofrem esse tipo de assédio. Qualquer uma de nós pode ser a próxima vítima. Por isso é tão importante denunciar e mostrar que esse comportamentos abusivos e agressivos não são tolerados. Que bom que sua amiga tomou a iniciativa de não se calar. Usar o corpo e imagens alheios sem consentimento para fazer qualquer tipo de ação nunca deve ser entendido como piada. Parabéns para sua amiga que não se deixou intimidar.

  2. O que mais me chateia nesse caso é que ela não quis agir, não quis denunciar, aceitou a humilhação e a culpa que a mídia e a sociedade impõe às vítimias. Ela poderia fazer uma grande diferença nessa situação se prestasse queixa, se buscasse justiça, mas não quer, por dinheiro ou por qualquer outro motivo deprimente.

    • Olá June,
      Tem muita coisa que me chateia também nesse caso. Mas eu pergunto como podemos saber que ela está sendo pressionada a não denunciar. Ela estava numa situação muito vulnerável, fazendo a sua primeira entrevista num novo emprego. Isso também tem que ser levado em conta. Ela é uma também é conhecida do público assim com Gerald Thomas, mas no contexto do episódio ela era uma repórter entrevistando um intelectual. É preciso term também isso em mente.

      • Liliane, eu pensei nisso, que talvez a emissora tenha pressionado Nicole a não prestar queixa, por exemplo. Realmente não sabemos os motivos dela, nem se ela vai mudar de ideia.
        O que fica por agora é que as declarações dela (“não foi nada grosseiro, foi uma brincadeira, faz parte do meu papel”) só alimentam a cultura do estupro, mesmo que ela não tenha consciência disso. É triste que vejamos uma vítima alimentando o ciclo assim, e esse canalha ficando impune e serelepe por aí. É triste que haja qualquer motivo impedindo ela de denunciar e fazer justiça.

        • Não só isso. No dia do fato ela declarou no Twitter que tinha ficado triste (imagino que triste tenha sido um eufemismo para ter ido às lágrimas depois de ser violentada para todo mundo ver) e depois virou “uma brincadeira”.

  3. Achei um equivøcø misturar as cøisas… tratar a histøria da estudante misturadø cøm Nicøle e Gerald é uma tremenda falta de respeitø a Rehtaeh, e tem mais, precisamøs estudar as cøisas… a pølícia esta aí a Nicøle pøde denunciar…

    • Adriane,
      Sinto muito que voce tenha entendido ser equivocado tratar os dois episódios no mesmo texto. Eu em nenhum momento do texto pretendi fazê-lo.Também não vou hierarquizá-las. Mesmo sabendo que a história da Rehtaeh tem um final trágico, mas como não possa saber como vai terminar esse epísódio com A Nicole não tem o menor sentido fazer isso. Até por que são dois casos bem diferentes em contexto e países diversos.
      O que pretendi foi mostrar que são duas faces de uma mesma moeda. O que fiz foi tentar mostrar como esses episódios são baseados no mesmo fator ou seja, a cultura do estupro. A autora do texto sobre a Rehtaeh assim também percebe. E veja que nos dois casos mesmo a Rehtaeh denunciando seus agressores, ela teve o mesmo tratamento que foi dispensado a Nicole neste episódio aqui. As duas foram consideradas culpadas pela violência sofrida, as duas foram entendidas como provocadoras da violência da qual foram vítimas.

  4. Cada um apresenta eu pøntø de vista, infelizmente a Nicøle e øutras møças vivem cøm esse estigma que elas mesmø ø alimentam, achø realmente que nãø dá cøløcar as duas histørias nø mesmø lugar, já li um tantø de cøisas escritø pør feministas falandø mal das meninas que fazem esses prøgramas de tv, cøntei søbre ø pânicø cøløcar na pørta dø cimena super herøis cøm pênis gigantes, cønstrangindø pais e filhøs… ficø extremamente chøcada cøm tødøs øs casøs de agressãø física e emøciønal cøntra as mulheres (neste casø a cøisa é mais embaixø), e sei que existe um cømbinatøriø, e estamøs sendø usadøs, tantø pela Nicøle quantø pelø prøgrama em que ela trabalha, já ø Gerald nunca øuvi dizer que ele é estupradør øu cøisa parecida… de qualquer førma, ele se denømina ø artista um tubarãø… esta engølindø e vai ser picøtadø até tirarem seus dentes, pele, gørdura, barbatanas, e tudø que puderem… ele rí, e até espera um prøcessø a mais já que se puderem ø enførcam… mas vejaa bem vale a pena pedir pra ela falar… vale a pena escutar, já que estamøs vivøs…

    • Vou responder primeiro está frase sua:”infelizmente a Nicøle e øutras møças vivem cøm esse estigma que elas mesmø ø alimentam”
      Ficou implícito para mim, nessa sua frase, que pelo tipo de trabalho que elas fazem, a Nicole e outras moças, estariam mais expostas do que, outras mulheres, a sofrerem agressões. Eu não concordo com esse raciocínio. Se entendemos que um tipo de trabalho diminui o direito de alguém à dignidade e a integridade de seus corpos tem algo muito errado aí. Para mim essa lógica que vc usa pode muito bem ter sido a mesma das pessoas que perseguiram e fizeram bullying contra a Rehtaen Parsons. “Ela se colocou nunca situação de risco ela foi na casa dos agressores ela tava buscando isso. Ela mereceu. Ela queria.” Para mim essa é a mesma lógica do caso da Nicole a grande diferença é que a Nicole é adulta estava num local público e exercendo um trabalho tirando isso os dois casos são extremamente similares.
      Quando aos rumores que isso tudo foi um combinado. Bem ai tudo fica ainda mais feio e nojento mas não menos violento. Achar que uma encenação dessas pode ser uma brincadeira é tão inaceitável quanto o fato de alguém achar que o que Gerald Thomas fez poderia ser entendido como ele mesmo tentou explicar que seria uma brincadeira. Não é brincadeira, nem se for encenação deixa de ser grave. Pois seria a encenação de um ato violento, com a intenção de ser entendido como uma brincadeira. Em nenhum contexto isso deve ser entendido como uma brincadeira. Em todo caso foi um episódio lamentável.

  5. desculpe nãø søu de intrømeter em pøntø de vista… me retirø cøm tødø respeitø! Adriane

  6. Olá Liliane, seu texto me inspira… Há alguns anos atrás, fui a um restaurante com minha grande amiga de infância. Nós duas hoje não moramos na mesma cidade, não temos amigos em comum, mas sempre mantivemos nossa amizade, verdadeira e fiel. Na mesa estavam o namorado dela, um amigo do namorado, a irmã dela com o marido. Levei um amigo meu.
    O amigo do namorado dela fez um comentário na mesa quando o assunto violência/estupro surgiu na mesa. “Mas tem umas mulheres tbm que provocam, né? Andam com uma faixa no lugar da saia, subindo morro de favela, dps reclama. Tá pedindo, né?” E todo mundo na mesa, menos eu, minha amiga e o amigo que levei junto, dizendo é é é… e riam.
    Aquilo me fez ferver o sangue. Na hora comecei a argumentar, como assim? A mulher tem o direito de usar o que ela quiser! (não sem antes chamar o autor do comentário de “escroto”. Chamei mesmo, não resisti). E daí foi um show de horror porque descobri que a maioria das pessoas naquela mesa, achava mesmo que mulher que usa roupa curta é sem vergonha, tá pedindo pra ser estuprada. vagabunda… Não conseguia conceber como alguém pode achar que um ser humano pede por uma violência dessas… Provavelmente nunca conversaram com uma vítima de estupro… Fiquei indignada e pedi para o garçon trazer a conta. Não ia ficar ouvindo esses absurdos. “Entao, vcs aí com esses iphones, num país como o Brasil, estão pedindo para serem roubados tbm, né?” Eu disse… sem saber o que mais dizer…
    Fui embora. Arrasada. Sem acreditar que minha melhor amiga de infância estava rodeada por pessoas que diziam esses absurdos! A irmã dela era a que mais dava razão ao cara!
    Depois, todo tipo de pensamento me veio… deveria ter ficado calada, não dá para discutir com essas pessoas… Nossa amizade continua, mas é claro, mudou. O marido dela, amigo do cara, mudou totalmente comigo por ter chamado o amiguinho dele de “escroto”. Mas no fundo, sei que disse o que disse porq a maior violência seria comigo mesma e com todas as mulheres que já sofreram qualquer tipo de abuso, se ficasse calada, conivente.
    Agradeço seu post. Me fez lembrar que não devemos nos calar jamais!

    • Daniela
      Obrigada pelo seu comentário e pela história compartilhada.
      É isso mesmo, não podemos nos calar nem nos omitir frente a discursos como esse que voce relatou. Fico feliz que vc tenha tido a coragem de se posicionar. Que tenhamos sempre!

  7. Quando fiz uma cadeira de psiquiatria lembro-me de ter ficar horrorizado com um dado num dos livros. De acordo com uma pesquisa feita entre universitários americanos 1/3 deles estuprariam uma mulher se tivessem certeza de que não seriam punidos. Dado o baixo índice de denúncia e condenação para esse tipo de crime, não é preciso muito pensar para saber que esse 1/3 (provavelmente mais ainda) cometerá estupro se tiver a oportunidade. Essa cultura de “ninguém mandou ir sozinha naquele lugar” ou “com essa roupa queria mesmo ser estuprada” é revoltante. É simplesmente ultrajante ver que muitas das pessoas que falam isso são mulheres, justo quem mais deveria se solidarizar. Como homem sinto-me enojado de pertencer ao mesmo sexo de quem faz, e se não faz pensa, isso. Talvez o mais revoltante nesse caso em particular tenha sido justamente a publicidade. O programa decidiu colocar no ar (é gravado), o repórter ficou como nada estivesse acontecendo, decidiu explorar o fato e o diretor do programa tratou tudo apenas como “brincadeira”. E mais: é preciso lembrar que não são casos isolados. Houve o caso da Amanda Todd que também se matou depois de mostrar os seios e as fotos serem divulgadas na internet, o da garota em Joaçaba que foi estuprada numa festa, o de Santa Catarina em que a menina foi dopada e estuprada e um dos garotos era filho de um delegado e o outro do sócio da RBS, o da irlandesa estuprada num ônibus, o da turista estuprada numa van com o marido, o da indiana também estuprada num ônibus. Enfim, isso num rápido exame de memória. Não é uma vez ou outra, são repetidas vezes. O lugar dessas pessoas não é num palco de teatro, numa universidade, na convivência com a sociedade, é na cadeia. Estupro não é como outro crime qualquer: você não pode estuprar culposamente, não há justificativa. Simples assim. Sempre me embrulha o estômago ler sobre isso. E embora eu ache às vezes há, de fato, alguns exageros nos movimentos sociais, nada poderia ser mais concreto do que isso: uma mulher sofreu constrangimento sexual em rede nacional. Não há inferências para serem feitas, especulações teóricas, exercícios de abstração. Mais claro do que isso? Não consigo ser. Quem sabe os corpos mortos das mulheres vítimas de abusos dos mais diversos? É, talvez assim não seja só uma “brincadeira”.

    P.S.: Desculpe-me a autora o tom áspero do comentário, mas não consigo não ficar assim quando se trata desse assunto.

    • B.,
      Entendi que seu tom áspero no cometário é contra a situação e não contra mim então tá tudo bem.
      É bom ver que ainda há quem se indigne com esse tipo de situação. Bem minha indignação foi tanta que traduzi um texto e escrevei outro para mostrar como essa cultura é perniciosa, vastamente espalhada para não dizer epidêmica. E que todos somos vítimas dela. Eu concordo com voce é ultrajante, ver a facilidade com a qual a vítima se transforma em culpada aos olhos dessa sociedade doente.

  8. Entendo toda a revolta existente no que representou a polêmica do Panico, adoro a Lola e sempre acompanho o blogueiras feministas, mas senti um tom de precipitação quanto ao ocorrido. Mais ainda nas redes sociais. Sabendo que o tal do Gerald é um diretor de teatro provocador e sexualizado, que a Nicole e os outros tb foram assediados, n seria interessante esperar um pouco mais do que fotos para entender o contexto de onde surgiu a polêmica?! Acabei de assistir o episodio que saiu na tv, e vi uma serie de pontos pertinentes a esta discussão. Claro que a band vai fazer o possível para passar a melhor imagem sobre ocorrido, e nem quero defender o Gerald quanto aos comentarios machistas que ele deu, mas, gostaria de saber quais são os pontos de vista de quem foi mais a fundo sobre esta polêmica…
    O que vi da produção do programa é durante o episodio da tv é que o objetivo da matéria ja era colocar a Nicole em situação constrangedora (o Panico gosta disto, mas gosta mais ainda quando é pra humilhar as panicats), todos os artistas que foram entrevistados por ela perceberam esta intenção, alguns participaram e o Gerald deu o foco das provocações dele para quem o programa estava colocando em foco, a Nicole. O Panico na Band é machista, objetifica a mulher, agride de varias formas e ainda alimenta esta cultura de objetificação, dando margem para a cultura de estupro. teríamos muito pano pra manga se o foco for o Panico na band, mas e o Diretor teatral com temáticas sexuais? Seria realmente honesto descontextualizar a bagagem que vem com ele? Este contato, esta invasão corporal, esta provocação, não tinham um contexto além da temática do estupro?
    Espero que n esteja sendo mal interpretado, pq de forma alguma estou tentando culpabilizar a Nicole Bahls ou desconsiderar estas demandas que possuímos quanto a cultura de estupro. O que quero é enxergar o que realmente deve ser combatido.

    • “A cultura do estupro não é uma força amorfa que vive fora das pessoas. Ela toma forma e se perpetua em nossas ações. Nós promovemos a cultura do estupro até mesmo nos pequenos gestos — rir de uma piada de estupro, elogios objetificadores, nossa hesitação em convidar um amigo pra sair, nossa disponibilidade para criar desculpas para justificar estupros em nossa sociedade, nossa paralisia frente à crueldade sistêmica, nosso silêncio — e esses momentos aparentemente inofensivos constroem um mundo onde adolescentes de 15 anos são estupradas por seus colegas de classe.”
      “A culpa não é dela, é do agressor. E, dessa cultura que nos paralisa e faz que pareça natural que uma pessoa tenha a prerrogativa para agir negando a autonomia e o respeito à integridade e à dignidade de outra.”

      Vinícius,
      Selecionei estes dois trechos do post para poder responder teu comentário. Por que eu acho que as partes grifadas no texto acima dão conta da sua linha de raciocínio.
      Há algum tempo atrás um entrevistado (não lembro qual e não tô com tempo de procurar agora) achou por bem se opor à postura do programa Pânico dando um soco na cara do repórter essa manifestação não foi entendida como uma brincadeira ou uma oposição a postura do programa, por que esse ato foi entendido por todos como ele é: um ato de violência contra uma pessoa.
      Em que mundo um ato de violência contra uma pessoa é minimizado por ser feito com a intenção de criticar a postura de um programa? Eu te respondo: num mundo onde a violência contra mulher é uma coisa aceitável, num mundo que cultiva a cultura do estupro. Mas vou te contar uma novidade. Isso não é aceitável. Impor uma violência a outra pessoa não é aceitável, nem que esta pessoa seja uma mulher, nem que esta pessoa seja negra, nem que esta pessoa seja transsexual ou travesti, nem que esta pessoa seja não heterossexual, nem que esta pessoa seja pobre, nem que esta pessoa seja uma criança, nem mesmo se a pessoa não for uma pessoa mas sim um animal. Impor violência a outo não é aceitável.
      A simples existência do seu comentário deixa bem claro, para mim, que não houve precipitação alguma na reação das páginas feministas. O que Gerald Thomas fez foi uma agressão, foi um ato violento, não há contexto, ou “bagagem cultural” que retire desse ato o peso que ele tem. Constranger uma pessoa não é agredir uma pessoa. E o seu comentário é também uma prova de que temos que escrever muito mais textos e fazer inclusive outras ações além de escrever, para que esta cultura seja revertida.

  9. Vøltø aø seu bløg, para dizer que: Quandø menciønei estigma, nãø falava da rOupa, søu mødelø vivø e trabalhø sem røupas, eu trabalhø pelada, quase tødøs øs dias… quandø falø dø estigma, é da relaçãø que cada um tem cøm aquilø que se é! e cøntinuø dizendø que øs casøs e cømparaçøes, levam aø ødiø, e quandø há ødiø difícilmente sømøs capazes de ver a verdade. A verdade nem eu sei, mas a busca é grande, quam sabe um dia pøderemøs ver e entender melhør a situaçãø criada pelas vítimas… ø Gerald que virøu agressør e a møça que føi estigmatizada… afinal quem ganha cøm issø?

    • “Vøltø aø seu bløg, para dizer que: Quandø menciønei estigma, nãø falava da rOupa, søu mødelø vivø e trabalhø sem røupas, eu trabalhø pelada, quase tødøs øs dias… quandø falø dø estigma, é da relaçãø que cada um tem cøm aquilø que se é!”

      Adriane,
      Destaquei o essa parte do seu comentário, pois realmente não estou entendendo o que vc quer dizer. “quando falo de estigma, é o estigma é da relação que cada um tem com aquilo que se é!
      O que é que vc quer dizer com isso que Nicole tem que aguentar agressões e ofensas por que trabalha/trabalhou como panicat, é isso?
      E por isso eu não deveria ter colocado ela e Rehtaeh no mesmo texto e estabelecido um link entre os motivos pelos quais as duas mulheres foram agredidas, é isso?
      Se é isso eu não concordo com o que vc está dizendo. Por que acredito realmente que a cultura do estupro atinge negativamente todas as mulheres. E quando nos calamos frente a qualquer tipo de violência contra mulher estamos sendo omissos e deixando que essa cultura se espalhe e legitime a violência contra mulher.

  10. já cansada… nãø achø que ela, nem eu devemøs aguentar nada… pelø amør de Deus nãø cøløque palavras na minha bøca… esperø que vøcê entenda, na nrmatividade, minha prøfissãø nãø é nørmal e vezes øu øutra eu precisø me cølcar, para a minha família, filhø, e nesta luta cøløcø (ø que se é) eu søu mødelø vivø, trabalhø cøm meu cørpø… é sø issø… nãø achø nada, nãø querø que møça, eu øu qualquer um seja hømem øu mulher, minha questã aqui era apenas de misturar as bølas (assuntøs) vøcê jea sente raiva de mim… dá pra ver pelø jeit que se refere a minha pessøa… infelizmente a raiva nøs leva a cegueira. me desculpe pr argumentar.

    • Adriane,
      Sinto muito que voce tenha entendido meu último comentário como expressão de raiva.
      Minha intenção era realmente entender o que vc quer dizer. Continuo sem entender o por que da distinção entre as duas mulheres. Por que esses assuntos não poderiam ser misturados no mesmo texto. O que fiz no texto foi tentar mostrar que eles são conectados, não por que eu queira, mas sim pela cultura da nossa sociedade. A minha responsabilidade estar apenas na abordagem dos dois casos no mesmo texto. A minha responsabilidade repousa no fato de ter mostrado dois episódios violentos e suas consequências similares que a mesma cultura cruel impôs à mulheres diferentes.

    • Adriane, eu só queria pontuar que a sua comunicação está muito confusa. Para você, qual a diferença assim tão substancial entre Nicole e Rehteh?

      Pois bem, Liliane não misturou assuntos, ela apenas levantou um fato bastante corriqueiro na nossa sociedade: alguns homens acham que podem bolinar mulheres. E SEMPRE encontram motivos para fazê-lo. A sociedade está sempre pronta pra oferecer algum motivo. E o ponto da Lili é muito claro – que a gente não deve aceitar nenhum motivo para “respaldar” esse tipo de violência. Nicole Bahls não é menos mulher que Rehtaeh Parsons. Ambas são vítimas do mesmíssimo problema. A diferença mora na forma como cada uma delas reagiu ao mesmo problema… Abraços!

  11. Pingback: Gerald Thomas contribuindo para manter a cultura do estupro

  12. Ola..
    Achei interessante o texto, é completamente a realidade que vivemos, concordo que as vezes cooperamos para certas atitudes, contudo, referente a Nicole, acho que apesar de estar sendo a vítima no caso, nao concordando com a atitude de Gerald Thomas, acho que as mulheres em si hoje em dia, deveriam se dar ao respeito, por mais que façamos oque devemos fazer, correr atras de direitos.. induzir uma briga por respeito, certas coisas nao mudam, como desejos tambem nao, há aqueles que se contenham. E sempre existiram infelismente os “doentes”, cabe a nós atitudes de protestar sim, porém se dar respeito ao proprio corpo, vestir se de tal forma que nao indusa um doente a querer tomar tal atitude devastadora. A sociedade vive assim, sempre viveu e nao acho que vá mudar agora, pode melhorar sim, porém as pessoas vivem de aparencias, tudo é motivo para certos olhares ou coisas além.. as vezes sem perceber julgamos outras pessoas oque dirá individuos que nao ficam apenas no julgamento.
    Artigo muito bem abordado, espero que tenha entendido meu ponto de vista

    Abraço…

    • Angel,
      Obrigada por seu comentário e pelos elogios ao texto.
      Mas tenho que dizer que discordo de vc. Mulheres não tem que obedecer a um código de vestimenta para merecer respeito. Pessoas merecem respeito independente da sua vestimenta, independente do tipo de trabalho que exercem, independente da cor de sua pele, da sua identidade de gênero ou orientação sexual. Pessoas merecem respeito, ponto. Não tem nenhuma ressalva.
      Homens que agridem mulheres não são monstros que não se controlam diante do desejo sexual ativado por partes do corpo à mostra. Isso é sobre o poder de oprimir sem ser questionado, sobre o poder de dispor do corpo alheio. E isso é machismo puro, na sua forma mais perversa. |E eu discordo que as coisas vão ser sempre assim. Inclusive eu luto muito para que essa cultura mude.

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  14. Essa discussão poderia ter ido muito mais longe falando do papel depreciativo que é destinado às mulheres naquele programa machista – e que, infelizmente, é endossado pelas participantes. Mas, ao invés disso, se limitou (como muitos outros artigos) a fazer uma troca de acusações, pegando o idiota do Gerald como bode expiatório e aproveitando para fazer uma caça às bruxas a quem simplesmente apresenta um novo ponto de vista sobre o ocorrido.

    A análise do caso não pode ser dissociada do contexto e do programa televisivo que explora o corpo feminino como objeto e ao qual, infelizmente, a Nicole está associada.

    Ela não pode ser comparada a uma garota que vai à uma festa vestida sensualmente, ou a uma mulher andando de biquíni numa praia deserta. Ela é uma FUNCIONÁRIA, ainda que secundária, de uma instituição que assegura a normalidade do comportamento machista.
    Provavelmente os apresentadores do pânico mantem uma espécie de limite ético entre eles, mas como um transeunte identifica isso de fora?

    Nesse caso, não acho que ela tenha sido vítima apenas do Gerald. Foi vítima do trabalho ao qual se submeteu, do público que vê ali um programa humorístico e, principalmente, dela mesma – que optou deliberadamente ocupar tal posição.

    • Marianna,
      A Deborah, que me ajudou a escrever esse post, já fez uma crítica muito boa a esse programa aqui: http://blogueirasfeministas.com/2012/04/desrespeito-disfarcado-de-diversao/
      Nesse post escolhi abordar esse tema por que acho que ele é muito importante, escolha minha pro meu post. E pelo conteúdo do seu comentário é um tema que ainda tem que ser tratado muitas e muitas vezes especialmente por causa da última frase do seu comentário. Seu comentário está repleto de afirmações que eu achei super problrmáticas eu vou colar elas aqui e depois comentar:
      “Essa discussão poderia ter ido muito mais longe falando do papel depreciativo que é destinado às mulheres naquele programa machista – e que, infelizmente, é endossado pelas participantes.”
      Não só as participantes do programa endossam o programa. A sociedade inteira concorda com isso, do contrario esse formato de programa não existiria pois não haveria audiência. Depreciativo não é o papel que as mulheres tem no programa mas sim o tratamento dispensado a elas pelos participantes e idealizadores do programa. Esse ponto, para mim, é o mais importante.
      “Mas, ao invés disso, se limitou (como muitos outros artigos) a fazer uma troca de acusações, pegando o idiota do Gerald como bode expiatório e aproveitando para fazer uma caça às bruxas a quem simplesmente apresenta um novo ponto de vista sobre o ocorrido.” Nem eu nem ninguém pegou o Gerald Thomas de bode expiatório. Ele agiu agressivamente contra uma pessoa, e eu e outras pessoas apontamos a agressão. A agressão existiu. É agressão tocar no genital de outra pessoa sem o consentimento da mesma. Isso além de ser uma falta de respeito incomensurável está previsto como crime no código penal brasileiro.
      “A análise do caso não pode ser dissociada do contexto e do programa televisivo que explora o corpo feminino como objeto e ao qual, infelizmente, a Nicole está associada.”
      A analise do caso não foi dissociada do contexto, o caso é que ninguém deve ser molestada ou agredido fisicamente pela roupa que veste ou pelo trabalho que executa. Simples assim, mesmo que a Nicole estivesse nua ninguém tem o direito de tocá-la sem a devida permissão. Ao inferir que por ela ter sido Panicat ela sofreu o assedio e a agressão que sofreu, voce está culpando a vítima pela violência que ela sofreu e isso se dá tão somente por causa da cultura do estupro em que vivemos.
      “Ela não pode ser comparada a uma garota que vai à uma festa vestida sensualmente, ou a uma mulher andando de biquíni numa praia deserta. Ela é uma FUNCIONÁRIA, ainda que secundária, de uma instituição que assegura a normalidade do comportamento machista.” Dessa sua afirmação eu devo entender que: se uma mulher é prostituta ela pode ser abusada sexualmente, afinal ela trabalha usando seu corpo corpo objeto sexual? Que se a mulher é submissa a seu marido, não trabalha fora de casa, depende dele financeiramente ela merece ser sexualmente abusada, ou agredida pelo marido pois ela reproduz e assegura a moralidade machista da sociedade? Veja o quanto a sua afirmação é complicada.
      Nenhuma mulher tem que preencher nenhum pré-requisito para ser respeitada. Mulheres merecem respeito, pois existem e são seres humanos e portanto merecem respeito. Sempre e em qualquer ocasião as mulheres merecem ser respeitadas, estejam nuas ou vestidas, sejam casadas ou solteiras, sejam pretas ou indígenas ou de qualquer outra etnia, sejam lésbicas ou trans, estejam acompanhadas ou sozinhas, de dia ou de noite sóbrias, tenham ou não não qualquer deficiencia física ou mental, estejam bêbadas, dormindo ou chapadas, na rua ou dentro de casa, na escola, na universidade, na feira, na fila do banco, na parada de ônibus, pouco importa onde estejam e em qualquer tempo. Sempre. O que há de tão difícil em entender que vítimas são Vítimas, e não as culpadas, Jamais as culpadas.
      “Foi vítima do trabalho ao qual se submeteu, do público que vê ali um programa humorístico e, principalmente, dela mesma – que optou deliberadamente ocupar tal posição.” A culpa segundo vc é Principalmente dela mesma, e eu te pergunto o que há de novo nessa sua perspectiva? A Nicole ao trabalhar como panicat, ao trabalhar para um programa de humor que espalha misoginia e machismo pela sociedade foi a culpada pela violência que sofreu, afinal ela escolheu se submeter a esse tipo de trabalho. Veja como sua afirmação é a mesma que desde sempre faz perdurar as relações de violência contra a mulher no Brasil e no mundo inteiro. ‘Ela não larga esse marido deve gostar de apanhar’ é o mesmo raciocínio só a frase e o contexto social mudam.

      • Li o artigo e entendi o seu ponto de vista.
        E não acho que uma dona de casa ou prostituta merecem violência pela posição que ocupam, só penso que a escolha profissional das panicats pode ser ainda mais prejudicial pelo vínculo publicitário, gerando uma espécie de educação às avessas…

        • A sua argumentação, para mim, só prova o que eu estou dizendo. A sociedade que vivemos produz essa noção muito esquisita, cruel e injusta que mulheres precisam cumprir requisitos para serem respeitadas, para poderem ser consideradas vítimas de uma agressão sexual. No momento que voce afirma que a escolha profissional da mulher no contexto social em que ela esta inserida dá margem a ela ser mais propensa a sofrer violência o que vc tá me dizendo é que o corpo da mulher é regulado de acordo com seus comportamentos. E eu to dizendo a vc que a luta feminista é contra esse tipo de pensamento. O nome dessa educação as avessas que vc mencionou é cultura do estupro. A Nicole não pode reclamar que foi agredida por que ela, ao escolher sua profissão ou seu emprego, se colocou numa posição em que está propensa a sofrer mais violência. A culpa em última instancia é dela que escolheu ser panicat. Isso é que está errado. Ela merece respeito não importa o contexto. O respeito ao corpo, à autonomia e às escolhas de mulheres não devem se modificar segundo os contextos sociais, profissionais, ou de qualquer outro tipo. O respeito não deve está condicionado à nada além do fato da mulher existir.