Feminismo: formação, informação e experiência

Texto de Talita Rodrigues da Silva.

Esses dias, estava lendo um texto do Jorge Larrosa Bondía, intitulado “Notas sobre a experiência e o saber da experiência”, em que o autor critica, dentre outros aspectos, o empobrecimento das experiências em nossa atual sociedade. Segundo ele, contamos com excesso de informação. Por exemplo, podemos saber sobre variados temas, mas tal saber é “pasteurizado”, bem como as opiniões advindas desse conhecimento altamente disponível, mas deficitário. Afirma:

 [...] O sujeito moderno é um sujeito informado que, além disso, opina. É alguém que tem uma opinião supostamente pessoal e supostamente própria e, às vezes, supostamente crítica sobre tudo o que se passa, sobre tudo aquilo de que tem informação. Para nós, a opinião, como a informação, converteu-se em um imperativo. Em nossa arrogância, passamos a vida opinando sobre qualquer coisa sobre que nos sentimos informados. E se alguém não tem opinião, se não tem uma posição própria sobre o que se passa, se não tem um julgamento preparado sobre qualquer coisa que se lhe apresente, sente-se em falso, como se lhe faltasse algo essencial. E pensa que tem de ter uma opinião. Depois da informação, vem a opinião. No entanto, a obsessão pela opinião, também anula nossas possibilidades de experiência, também faz com que nada aconteça. (p. 22)

Bondía - Bienal

Divulgação da participação de Bondía, na 29ª Bienal (2010)

Ao longo desta leitura, torna-se claro que o autor supervaloriza as experiências e os saberes decorrentes delas. Sua crítica é pertinente, ao entendermos que a informação a que temos acesso e, mesmo as opiniões decorrentes dela, não surgem aprioristicamente. Toda informação e toda opinião está inebriada em culturas e revela as ideologias dominantes. O papel dessas ideologias dominantes é fazer com que processos culturais soem ao senso comum como naturais. Uma vez que isso tenha se estabelecido, a maquinaria ideológica atua como fator de manutenção das diferenças sociais. E mais, age como um catalisador desses processos. Dentre os traços, que passam por massificação e replicação esvaziada de observação prática, o gênero pode ser destacado.

Julia Lopes de Almeida.

Julia Lopes de Almeida: reconheça sua produção

Costumamos dizer que feminismo é a desconstrução sistemática dos padrões pré-estabelecidos, uma vez que implica romper com a ideologia dominante e deslocar o foco de “homem” para “humanidade”, inclusive em termos linguísticos (usos inclusivos). Assumir-se feminista, portanto, demanda formação, pois raramente conseguiremos nos despir dessa carga de opressão sem buscarmos visões alternativas, seja recorrendo a autoras clássicas, personalidades que discutem gênero sob viés mais próximo do academicista, ou em contato com militantes.

Além da familiarização com conteúdos já disponíveis, a tarefa de construir o feminismo, a partir da desconstrução ideológica do machismo, implica um olhar crítico. Retomando o texto do Bondía, é mister dar sentido histórico-social às visões apresentadas pelas informações pré-concebidas. Desse modo, entenderemos por que são inadmissíveis feminismos que não sejam interseccionais, logo que atuem como agentes de exclusão de algumas mulheres, como as trans*. Evitar levar adiante discursos desse tipo e mitigá-los paulatinamente, por exemplo, é um bom exercício feminista.

Também cabe a nós, entendermos que, mesmo a produção científica já “estabelecida” no cânone pode e deve ser questionada e problematizada, pois a produção deste saber também responde ao modo esvaziado como conhecimentos são produzidos e repassados em nossa atual sociedade. Isso faz muito mais sentido, se levarmos em consideração o simples fato de que, por séculos, mulheres foram excluídas como agentes do saber científico. Em decorrência, ainda hoje, deparamo-nos com pesquisas cujo objetivo é provar um lugar-comum replicado pela ideologia machista. Saber problematizar por que algumas perguntas ainda são feitas na academia também é uma experiência feminista.

Mulher Mundo

Arte de Agatha Katzensprung

Por fim, e não menos importante, constitui-se como preponderante para a vivência cotidiana das práticas feministas informar-se sobre os produtos do machismo, fazer frente às manifestações culturais de efeito mais subjetivo e, também, às mais objetivas presentes nesta ideologia, que prega a superioridade do homem em relação à mulher.

Assim, o percurso que leva à experiência feminista é necessariamente perpassado por investimento em formação, busca cotidiana de informação e, como pilar, a experiência que é promovida pela desconstrução cotidiana e infindável dos saberes machistas, solidificados por nossa atual sociedade. A tarefa é longa e árdua, mas possível para todxs nós e, sobretudo, essencial para a constituição de um mundo com vivências mais igualitárias. Por isso, habemus feminismo.

Talita R da Silva

Linguista apaixonada/inebriada/devotada. Viciada em literaturas e debates filosóficos/antropológicos/sociológicos. Aprecia acompanhar e opinar em debates da esfera política. E, claro, feminista em processo eterno de aprendizagem!

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Sobre: Talita R da Silva

Linguista apaixonada/inebriada/devotada. Viciada em literaturas e debates filosóficos/antropológicos/sociológicos. Aprecia acompanhar e opinar em debates da esfera política. E, claro, feminista em processo eterno de aprendizagem!

5 Comentários para: “Feminismo: formação, informação e experiência

  1. Achei muito boa a crítica sobre o uso da informação, principalmente da informação científica. Acho que um dos marcos fundamentais do Feminismo Acadêmico é romper com um paradigma científico patriarcal tal como criticaram feministas da segunda e da terceira onda. Mas, a ciência é feita em campos sociais, onde, para dialogar, as pesquisadoras acabam recorrendo a ferramentas do paradigma patriarcal. Então acho que é um movimento paradoxal, de avanços e retrocessos.

    Infelizmente, é comum a gente ver o uso inadequado da informação científica – sem contextualização histórica, sem clareza sobre os limites de determinadas abordagens e pesquisas. A Teoria Queer, por exemplo, trouxe uma renovação interessante pra o Feminismo como um todo, mas não pode ser usada de forma totalizante, que determine a ideia de grupos sociais supostamente homogeneos, como vemos as vezes no uso de expressões como “o movimento queer”. Há quem critique, por exemplo, que determinar o genero como performance é uma nova forma de essencializa-lo. E aí, eu vejo que, por mais renovações que a academia produza, trarão consigo tb contradições.

    • Concordo bastante com seus apontamentos, Carolina.
      Sempre encontraremos pontos de conflito nas produções em curso, e, felizmente, isso é previsto dentro da engenharia das ciências. Mas o que temos de reforçar é a importância de que a figura do pesquisador (uso no masculino proposital) seja mais plural. Se eu, como pesquisadora, falo de um lugar social de mulher ou de negra ou de trans*, trago uma demanda e uma experiência, que poderão postular perguntas diferenciadas. E nisso, acho que está o ganho que herdamos dos feminismos, por mais plurais que sejam; e da sociedade, enquanto transmissora, modificadora e formuladora de produtos científicos. De repente, essa percepção dialoga muito com a discussão de um antropólogo estadunidense bastante reconhecido, o Clifford Geertz, quando ele diz que o homem é produto e produtor da cultura. Assim, permitir que os produtores do nicho acadêmico sejam menos homogêneos, também significa permitir uma ciência mais heterogênea desde seus pontos de partida.

      Muito obrigada pela leitura atenta e pelo comentário, Carolina. :)
      Beijo.

  2. Obrigada você pelo texto Talita! Adorei! E vc tem toda razão, é fundamental, como pesquisadoras, ocuparmos a academia e termos consciência das nossas limitações – e dos nossos privilégios sociais – defendendo sempre a pluralidade. Feminismo é isso também! Bjs

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