Transfobia não tem lugar no feminismo I

Texto traduzido por Liliane Gusmão.

Este texto foi escrito por Stavvers e publicado no blog Another Angry Woman em novembro de 2011.

Este é o segundo texto que traduzo sobre o assunto, coincidentemente o outro texto mais recente e com título semelhante foi publicado por mim aqui.  Traduzi esse texto por não suportar o negacionismo de feministas em relação a seu comportamento/discurso transfóbico, por não suportar que um discurso de ódio partindo de feministas seja minimizado ou tolerado, pois quem o propaga “não é a maioria” ou “pois todxs tem direito de se expressar”. O feminismo que me representa não se utiliza de discurso de ódio e não prega segregação ou discriminação de minorias oprimidas. O feminismo que me representa é interseccional e abrange todas as mulheres de todas as classes sociais e etnias, lésbicas ou trans, portadoras de necessidades especiais ou não. O feminismo que me representa as inclui nos seus espaços e discursos, as escuta e refletem sobre suas criticas, pois só assim elas terão voz e deixarão de ser invisíveis. Assim como nenhum outro tipo de preconceito esse também não será aceito. Segue abaixo a tradução.

transfobianaopassara

Eu sou uma mulher cis e é sob esta perspectiva que escrevo este texto. Se eu tiver falado alguma besteira, por causa do meu privilégio cis, por favor ME AVISEM.

Centenas de mulheres tem sido mortas violentamente. Muitas mais vivem com medo da violência e de abusos sexuais e ainda tem um risco maior de se suicidar. Quando isso acontece escutamos: “era um travesti, porra.”

Mesmo assim existem algumas feministas que não ligam à mínima para este grupo em particular. Existem feministas que participam ativamente em oprimir sistematicamente esses grupos. Existem pessoas que se dizem feministas, ainda que tenham um discurso transfóbico repleto de ódio que, numa análise mais detalhada, em nada difere daquele que vem de fora do nosso espaço seguro feminista.

A vasta maioria das feministas aceita amplamente as pessoas trans. Pelo que posso notar, a transfobia de uma pequena, mas barulhenta minoria.

Infelizmente, essa minoria parece bem influente, ainda tem público e consegue espaço para expor suas ideias. Escrevo esse texto depois de perceber que muitas feministas ainda prestam atenção à Julie Bindel, que inundou de preconceitos transfóbicos o jornal dos estudantes de Oxford hoje.

Bindel argumenta que pessoas trans reforçam de essencialismo de gênero quando fazem a cirurgia de ressignificação sexual, ou quando vivem como mulheres mesmo tendo nascido homens (sic), sabotando metaforicamente a noção feminista de que os comportamentos femininos e masculinos são construções sociais. A lógica aqui é espantosa. Aparentemente o gênero é uma construção social que não pode ser mudada. E lá se vai o não binarismo. Ao argumentar que as pessoas devem continuar com o gênero que lhes foi designado ao nascer, Bindel defende o essencialismo de gênero, que o feminismo se propõe combater.

Assim também se manisfesta a feminista transfóbica Sheila Jeffreys quando categoriza resignificação sexual como mutilação e sugere que homens trans são apenas lésbicas querendo ser mais masculinas. Isso é tão somente uma deslegitimação abjeta e odiosa. Esse tipo de argumento retira das pessoas a autonomia sobre seus corpos e identidades de gênero. De acordo com os livros de Jeffreys, aparentemente, a autonomia sobre os corpos é um privilégio restrito a algumas pessoas.

A ‘teoria” que sustenta a transfobia feminista é tão fraca quanto um Argos flat-pack* , o que, para mim, sugere que não há teoria alguma apoiando essa argumentação, há sim uma demonstração de falta de compreensão do que vem a ser interseccionalidade, combinada com uma grande dose de despeito e preconceito. A usuária do twitter @scattermoon recentemente viu-se respondendo aos twitters de Julie Bindel sobre o show  ”My transexual summer”,  apontando que muitos transexuais concordaram que a edição do programa reproduzia o essencialismo de gênero. Isso foi twitado por Bindel, para que horas depos, Bindel lamentar o fato de que havia pouca ou nenhuma condenação do programa por parte da comunidade trans.  Ou Bindel tem uma memória muito curta ou ela estava dissimuladamente forçando um discurso que é perigoso para pessoas trans.

Além de discurso de ódio disfarçado de teorias mentirosas existe um outro tipo preocupante de discurso partindo de algumas feministas. Há alguns meses a pseudo-feminista Caitilin Moran casualmente usou a expressão “traveco pré-operado”. Esta não foi a primeira vez que Moran usou esta linguagem ofensiva. Ela tem uma história em lançar palavras como “retardado” para conseguir riso fácil. Quando apontada o seu uso de linguagem opressiva Moran decidiu bloquear seus críticos, tão desesperada que estava em continuar fazendo uso dessas palavras vis.

O comportamento questionável dessas feministas transfóbicas influentes só piora. O assunto espinhoso de convidar mulheres trans para espaços exclusivos de mulheres, volta e meia, mostra sua cara feia, quando a única resposta possível é: “claro que em um espaço exclusivo de mulheres, mulheres trans são bem-vindas”. Algumas vezes isso se manifesta como um bullying muito perigoso, como blogs feministas expondo identidades civis de mulheres trans . Dado a realidade ameaçadora que muitas mulheres trans enfrentam, eu não posso acreditar que algumas feministas exponham deliberadamente outrxs feministas a situações de risco.

Transfobia não tem lugar no feminismo. Absolutamente nenhum lugar. A pessoa pode enfeitar o discurso preconceituoso de tanta teoria quanto desejar, pode tapar os ouvidos e negar que fez um discurso transfóbico, a pessoa pode até mesmo torcer a verdade em mentiras, mas se a pessoa for transfóbica ela não tem lugar no feminismo.

Por muito tempo, nós demos espaço para aquelas que que ativamente destratam grupos oprimidos, pessoas que são parte ativa da luta feminista. Já chega! Não precisamos de Bindels e Morans. Elas não são parte da nossa luta, elas são demonstrações do problema que temos que enfrentar.

Não temos tempo que lhes dar atenção. Não devemos fazê-lo.

*referencia a um tipo de armário ou comoda cujas partes das gavetas são tão fracas que facilmente se quebram no transporte e montagem do móvel.

Liliane Gusmão

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5 thoughts on “Transfobia não tem lugar no feminismo I

  1. É lamentável que pessoas as quais se dizem lutar contra a opressão assumam o discurso do opressor. Muita boa a reflexão contida no texto. Acredito que todas as pessoas que se identificam com o gênero feminino devam estar alinhadas com a defesa da causa.

  2. O triste de tudo isso é ver a reprodução de tudo aquilo que nossa luta aponta no “outro” – aquele outro que representa o patriarcado de livrinho – em nós mesmos, ou em nossa suposta tribo, grupo, coletivo ou sei lá o que. A Letícia Lanz, amiga transgênera, apontou isso entre elas, transgêneras, que também têm seus embates permeados de sub-textos preconceituosos.

    O horror de tudo isso é a surdez seletiva para o sofrimento e emoção do “outro”, essa condenação à condição de eterno estranho, eterno sem-alma, eterno inimigo. Eu tenho uma irmã transgênera e um amigo transgênero. Esse amigo quase morreu na mesa de uma das cirurgias porque não se sabia que ele era alérgico a um dos anestésicos. Saiu da operação e me disse: “nunca me senti tão feliz – estou quase chegando lá, juntando meu corpo com o que eu sempre fui”.

    Duro, né? Duro ver essencialismo biologicista nas fronteiras do feminismo… Duro ver condenação de transformação corporal e todas estas normatividades criadas de moralismos escondidos.

    Excelente texto. Muito obrigada.

  3. Grata pela tradução, Lili!

    O feminismo tem que ser livre de todos os preconceitos. Abraços!