Série Açougue: Mãos

Texto de Marilia Coutinho.

Na ‘Série Açougue’, estamos examinando cada corte do corpo feminino para entender como sua “feminilidade” foi socialmente construída segundo agendas opressivas às mulheres. Vimos como a bunda, o peito e a barriga femininas são construídas segundo estéticas desumanizadas, ditadas por interesses estranhos às mulheres e, como estas estéticas ferem até mesmo as funções fisiológicas e a diversidade anatômica.

Neste capítulo, em vez de começarmos pela (per)versão feminina do corte em questão, vamos discutir a mão humana em geral. Nesta discussão, vamos percorrer os temas do trabalho, da guerra e agressão, da transformação do mundo, do prazer e o último ítem é surpresa.

As mãos de Marília Coutinho.
As mãos de Marília Coutinho.

A mão, o trabalho e a guerra

Olhe para suas mãos. O que você está fazendo agora? Você pode ter aberto seu computador ou equipamento móvel para recreação, por motivo nenhum, porém, o mais provável, é que ele seja uma ferramenta do seu trabalho. O que quer que você faça com ele depende dos seus dedos e, portanto, da sua mão.

Se você fizer rapidamente uma lista de 10 ocupações, a função da mão do trabalhador nelas será maior ou menor, mas será sempre central. O papel da mão no trabalho é tão fundamental que os primeiros discursos científicos sobre ela, vindos tanto das ciências sociais, da economia e da anatomia, atribuíam a esta relação o papel central na evolução de nossa espécie. O homem teria se humanizado através de uma evolução combinada da anatomia da mão e do neocórtex cerebral mediada pelo trabalho (Engels 1883). O homem era o homo habilis, o homem que trabalha. Os artefatos neolíticos de pedra lascada recuperados em sítios arqueológicos foram interpretados à luz destas teorias (seriam utensílios) e a pegada humana, única entre os primatas, com o polegar em oposição aos dedos, foi descrita vis-à-vis às mesmas.

Os primeiros estudos foram conduzidos por Napier. Este pesquisador procurava explicar um registro fóssil encontrado em 1960, em Olduvai, Tanzania, datado de 1,7 milhão de anos atrás, depois classificado como sendo do gênero Homo. O fóssil justificou a identificação da espécie homo habilis (“homem hábil”) como a primeira de nosso gênero. Napier abriu caminho para o estudo da evolução da mão e pegada humanas. As duas pegadas fundamentais, detalhadas depois em estudos subseqüentes, foram as de precisão e de potência.

Pegada de precisão. Ilustração de iara Coutinho.
Pegada de potência. Ilustração de Iara Coutinho.

Em 2003 , Richard Young reviu os dados paleontológicos e observou uma discrepância fundamental: a pegada humana, bem como o neocortex do homem moderno, precedem a produção dos artefatos de pedra lascada. O trabalho propõe uma interpretação inteiramente diferente sobre a mão e a pegada humana, numa verdadeira substituição paradigmática. A pegada humana teria sido resultado de uma outra linha de pressão evolutiva. Em vez do trabalho, a guerra. Bandos de humanóides desbravando ambientes hostis teriam sofrido pressão seletiva para a sobrevivência dos mais hábeis em lutar, matar e guerrear, não em produzir utensílios.

A partir daí, as pegadas de precisão e potência foram re-interpretadas como pegadas de arremesso e de golpe (“throwing” e “clubbing”). Onde entra o trabalho, então? Como função posterior de uma espécie já selecionada como hábil para matar (caçar, defender e dominar), alterar as relações com seu ambiente e ocupar novos nichos ecológicos.

A transformação do mundo, portanto, deve ser vista como resultado não apenas do trabalho humano, mas também da violência que ele é capaz de exercer. O novo requer a destruição do velho para sua emergência e, o papel da violência na cultura humana não me parece muito controvertido. Toda transformação é violenta e toda ocupação de novos espaços é destrutiva.

Quando, hoje, nos organizamos para combater a injustiça (o exercício de violência socialmente avalizada de grupos mais empoderados sobre os menos empoderados) ou a destruição do meio ambiente (a modificação irracional e injustificada das relações ecológicas em detrimento de todas as espécies, inclusive a nossa e, da degeneração de parâmetros ambientais saudáveis), o que estamos fazendo é negociar o exercício da violência e da destruição segundo os vários interesses em jogo, incluindo a continuidade da História humana no planeta.

Pronto. Já temos dois dos quatro elementos importantes para refletir sobre a mão. Temos o trabalho e a transformação do mundo. Neste momento convido os leitor@s para um coffee break com um pouco de música. A primeira será certamente desconhecida das mais jovens e talvez de boa parte das mais velhas também. Chama-se “Plegaria de um labrador” (oração de um camponês). A escutei pela primeira vez num quartinho escuro qualquer, numa fita k-7 vinda escondida na mala de alguém que tinha estado na Argentina, aquele lugar onde podia tudo. Vem do tempo da inocência (a minha, pelo menos). A segunda é “Hands that built America” do U-2.

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Embora este não seja um capítulo sobre a revolução latino-americana e nem sobre a construção da America, as duas músicas nos ajudam a refletir sobre seu tema, que é a mão da mulher. Leia os seguintes trechos das letras:

“Levantate y mirate las manos. Para crecer, estrechala a tu Hermano. Tu, que manejas, el curso de los ríos. Tu, que sebraste, el vuelo de tu alma”. (Levante-se e olhe suas mãos. Para crescer, estenda-a a seu irmão. Tu, que modificas o curso dos ríos. Tu, que semeaste, o vôo de sua alma).

“These are the hands that built America (Russian, Sioux, Dutch, Hindu) Oh, oh oh, America (Polish, Irish, German, Italian)” (Estas são as mãos que construiram a America (Russas, Sioux, holandesas, hindús). Oh, oh oh, America (Polonessas, irlandesas, alemãs, italianas).

Como é uma mão tão poderosa assim? Uma mão que muda o curso dos rios, que derruba poderosos, que constrói edifícios imensos e, enfim, faz a História e a Civilização? São mãos fortes e cascudas. É. em oposição a estas mãos que trabalham e transformam o mundo, que comandam e dominam, que a mão feminina é construída como prescrição formolátrica.

A mão feminina: os movimentos

Os movimentos femininos com as mãos são caracterizados pela flexão incompleta das articulações das falanges, ou seja: permitem a verificação de que se trata de uma mão fraca.

[youtube=http://youtu.be/vlwAoKpSI7s]

 

Enquanto o típico gesto masculino com as mãos é o firme fechamento do punho, com flexão completa e isométrica das articulações das falanges (“punho cerrado”), o gesto feminino é o dos movimentos fluidos e contínuos, sem agarre:

“Practice pretty and feminine gestures. Pick up a vase or a flower as if youenjoyed handling it. Don’t GRAB. Learn to use your hands femininely and gracefully.” (Pratique gestos femininos bonitos. Levante um vaso ou uma flor como se os apreciasse. Não AGARRE. Aprenda a usar suas mãos de maneira feminina e graciosa). Referência: How to get beautiful hands.

A habilidade feminina é, em geral, associada a atividades que utilizam as pegadas de dedos (“pinching”). Típicas atividades de habilidade feminina são os artesanatos com fios e contas, por exemplo. Embora, hoje contemos com aparatos tecnológicos que em grande medida substituem o esforço humano, é seguro dizer que a transformação profunda da realidade requer força e agarre. A mão que não agarra não é capaz de utilizar com proficiência uma ferramenta de construção e destruição, como uma enxada, um martelo, uma lança, uma espada, uma britadeira ou mesmo carregar objetos de um lugar até outro.

Assim, as prescrições dominantes quanto aos movimentos da mão feminina restringem sua participação no universo do trabalho, especificamente do trabalho transformador e da transformação do mundo em geral. Talvez, por isso, desde que o vi pela primeira vez, simpatizei com o símbolo internacional do movimento feminista. Até então, o punho cerrado era apenas um símbolo de luta encarnado numa figura masculina. No meio do círculo com cruz, no entanto, significa o punho cerrado da mulher, um punho que pode fechar, exercer força, trabalho, criação e ação transformadora. Alternativamente, temos as figuras de mulheres com o cotovelo fletido, exibindo o bíceps e o punho cerrado, na mesma linha interpretativa.

Mãos e mulheres com cotovelos mostrando o bíceps, símbolos do feminismo internacional.

A mão feminina: a pele

As prescrições quanto à pele feminina denunciam tanto as restrições quanto à participação feminina no universo do trabalho, e da transformação do mundo, quanto a rejeição sexual à mulher idosa. A mão feminina é lisa, macia e sem manchas.

A pele é o maior órgão do homem. Sendo nossa espécie uma das únicas entre os vertebrados sem uma proteção externa por pelagem ou couraça, nossa pele tem adaptações interessantes a esta nova condição “pelada”. Uma delas é a queratinização adaptativa ou calejamento. Trata-se de uma acumulação de células, chamadas queratinócitos, totalmente diferenciadas. Estas células morrem e permanecem como uma proteção impermeável e mecanicamente resistente para a área sob ação abrasiva ou de impacto crônico.

Assim, a calosidade na mão é uma marca adaptativa de seu uso contínuo para alguma tarefa física. “Estar calejado” é uma metáfora para ser experiente em algo. Ora, a mão feminina prescrita pela formolatria é a mão de alguém inteiramente inexperiente no que se refere a qualquer atividade de intervenção física no mundo: é uma mão lisa, sem marcas, macia e, portanto, sem uso.

A mão feminina é também uma mão jovem. A prescrição de que a mulher deve dar especial atenção à mão pelo fato de ser ela o verdadeiro indicador da idade revela que para a manutenção do “status” feminino é importante resistir a todo custo ao envelhecimento. A mão idosa não é uma mão feminina: é uma mão asexuada.

A mão feminina: as unhas e o sexo

As unhas são um capítulo especial na prescrição formolátrica da mão feminina. A decoração das unhas através de tintas coloridas (esmaltes), pedrinhas ou outros ornamentos tem uma longa história e entra no multi-facetado reino da ornamentação corporal. Tem algo de lúdico, algo de marca social, algo de artístico e algo que diz respeito a misteriosa atração aparentemente inata pelo belo e pelo ornamento, construídos social e contextualmente como forem. Ornamenta-se unhas por todos esses motivos.

E a unha longa? A unha longa e ornamentada é uma outra história. A partir de um certo comprimento, a unha compromete os movimentos da mão. Primeiro, impedem um fechamento firme e completo do punho. Segundo, são impecilho para a manipulação de diversas ferramentas. No entanto, as unhas longas impedem o emprego da mão da mulher em outra esfera de intervenção: o sexo. Uma unha excessivamente longa é um impecilho não somente para a masturbação como para o sexo entre mulheres.

A maior fonte de prescrição de unhas longas, curiosamente, é a indústria pornográfica mainstream. Tendo em mente que esta indústria é fortemente heteronormativa, tentem lembrar de imagens fotográficas ou filmes pornográficos com mulheres e unhas longas. Alguém realmente se convence de que a manipulação sexual feminina com unhas longas é eficiente? É claro que não! Mas, como tudo na indústria pornográfica mainstream, esse é mais um teatro para a estimulação erótica masculina. Não importa, se é ou não realista, que as duas moças estejam conseguindo confortavelmente enfiar o dedo na vagina uma da outra com unhas imensas. Importa que o espectador compre esta (e outras) mentiras e se estimule com ela.

Exemplos de unhas grandes.

O problema é que a prescrição de unhas longas não fica restrita às atrizes de filme pornô. Como tudo desta indústria, através do sistema formolátrico, ela “vaza” para a sociedade em forma de prescrição. Ainda que não consigam administrar unhas pornográficas na prática, as mulheres tentam, porque mais este ítem foi acrescentado ao menu de prescrições do ideal de beleza feminina.

Eu e minhas mãos

Tenho uma coleção com mais de 40 esmaltes, de diferentes cores. Vários tons de azul, verde, laranja, roxo e tantas outras que vou achando interessantes. Se tivesse tempo, trocaria de cor duas vezes por semana. Olho para minhas mãos e parecem colarezinhos de contas coloridas. Basta um algodão com acetona e apaga-se uma cor para substiuí-la por outra. Acho muito divertido.

Desde o primeiro capítulo da ‘Série Açougue’, sempre insisti que existe um belo. No entanto, o belo ideologicamente prescrito pela indústria da beleza não apenas impede a construção do próprio belo, num diálogo com quem quer que a pessoa escolha como interlocutor, como introduz obstáculos a manifestações corporais espontâneas, necessárias e cinesiologicamente saudáveis.

Foi assim com a bunda, com o peito, com a barriga e, não é diferente com a mão. A prescrição formolátrica para a mão feminina é um obstáculo ao seu exercício para o trabalho, para a transformação do mundo e para o sexo.

E do que mais a mão participa? Muitas coisas. A mão faz arte, processa alimentos (“cozinha”), a mesma mão que agride e mata, que limita o outro e protege a si, também manifesta amor e oferece apoio. Para finalizar, quero apresentar as minhas mãos. As minhas mãos são mãos que trabalham, que transformam o mundo e que me dão prazer. São mãos que fazem uma quarta coisa: viabilizam transcendência.

Aqui está a transcendência. Ela acontece neste espaço entre eu e a barra. A barra carregada com ferro, ferro vindo das profundezas do útero da Terra para as minhas.

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Autora

Marilia Coutinho. Foto: arquivo pessoal.

Marília Coutinho é atleta profissional de levantamento de peso, bióloga, bioquímica, doutora em sociologia da ciência e atua em ciências do esporte. Seu site: http://www.mariliacoutinho.com/

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 Outros textos da Série Açougue

[+] Bunda [+] Peitos [+] Barriga [+] Pés

Autor: Autoras Convidadas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. A gente continua essa história do Feminismo nas ruas e na rede.

33 pensamentos em “Série Açougue: Mãos”

  1. Esse texto me lembrou muito, mas muito o documentário Ilha das Flores, especialmente esse trecho: “Os seres humanos são animais mamíferos, bípedes, que se distinguem dos outros mamíferos, como a baleia, ou bípedes, como a galinha principalmente por duas aracterísticas: o telencéfalo altamente desenvolvido e o polegar opositor. O telencéfalo altamente desenvolvido permite aos seres humanos armazenar informações, relacioná-las, processá-las e entendê-las. O polegar opositor permite aos seres humanos o movimento de pinça dos dedos o que, por sua vez, permite a manipulação de precisão. O telencéfalo altamente desenvolvido somado a capacidade de fazer o movimento de pinça com os dedos deu ao ser humano a possibilidade de realizar um sem número de melhoramentos em seu planeta, entre eles, plantar tomates.” Parabéns, Marília por mais uma excelente reflexão!

    1. Pois é, Xênia, a parte mais divertida desta tese em biologia evolutiva, independente da pressão seletiva que proporcionou o efeito (se a belicosidade e agressividade da espécie ou o trabalho, e acredito que a evidência favorece a primeira), é que o desenvolvimento atípico do telencéfalo para primatas superiores nos homens se deve à demanda por dar conta da complexidade motora deste aparato digital! Os demais primatas não têm o polegar opositor e, portanto, do ponto de vista cognitivo, o processamento de informação e produção de comandos motores é muito mais simplificado.
      Então é possível que estejamos aqui nos enrolando em conceitos por conta de um cérebro que se complexificou às custas de uma mudança anatômica que, como todas as demais, é totalmente fortuita.
      Do crlh, né? 🙂

  2. larguei mão de pintar as unhas porque trabalhava em um laboratório e em determinado ponto percebi que além de tornar difícil a manipulação de ferramentas, o esmalte impedia que eu visse se as unhas continuavam sujas. anti-higiênico. tentaram argumentar: “usa um transparente”: NÃO. passa um tempo sem usar esse negócio, e vc percebe q até o suor nas mãos é diferente. a unha deixa de ser amarelada.
    mantê-las curtas, quem mostrou foi uma professora de piano. aos 14 anos, ela me mostrou: não dá pra vc tocar com unhas fazendo “tectectectec”. lembrando até a idéia de que mulheres não podem ser boas músicas (MUITO comum no rock) – unhas longas.
    unhas longas, sapato de salto e vestido são coisas incrivelmente impráticas; a mulher tem q decidir se é um ser humano ou um manequim

    1. Ah… pensei na mesma coisa que você, Uma!!!
      Quando li o texto veio uma imagem cômica (se não fosse trágica) de uma mulher usando espartilho, salto alto e unhas enormes!!! Agora é só colocar na estante, do lado da TV e pronto – está aí o perfeito enfeite!!! O espartilho pouco aparece hoje em dia, mas os outros dois parecem uma praga! Não consigo imaginar meu cotidiano usando salto alto/fino e unhas ultrapassando a margem dos dedos.
      Tempos atrás, uma moça entrou comigo no elevador e ela usava aquelas unhas postiças enormes. Ela mal conseguia segurar o celular – achei bizarro que ela ficava com as mãos espalmadas para usar a tela touchscreen.
      Acho que todo mundo tem que ter a liberdade e o direito de fazer o que quiser – mas p***me*** que coisa que “atravanca o pogresso” a tal das unhas compridas!!!

      1. E não é mesmo um “astravanca” o progresso?

        Sobre o espartilho, fiquei rindo aqui: foi peça do meu texto sobre a barriga. Se juntar tudo, dá uma espécie de armadura, um exoesqueleto anti-funcional!

    2. Obrigada pelo seu comentário! Embora entenda que a autora tenha que ter um foco, senti falta de um comentário sobre a mão na arte – música, pintura… Sou musicista e esse é um tema muito lindo pra mim – há muitos estudos sobre a posição funcional da mão para o manejo de um instrumento musical, é muito bonito entender como funciona, tensão e relaxamento, refletir sobre os movimentos que transformam silêncio em arte…

      Lembro de uma amiga artista plástica falando sobre como deixou de fazer as unhas por causa do trabalho com as tintas, que sentia falta… Eu olhava pras mãos dela e achava lindas, lindas, mãos que traduzem ideias de uma maneira tão bonita…

      Lindo texto, Marilia! Estou adorando a série! Gratidão!

  3. Adorei o texto. Nunca tinha pensado no carater sexista de ter unhas longas. Esmalte eu gosto. As vezes mudo de cor 3 vezes na semana, as vezes passo 6 meses sem pintar. Acho que se for uma forma de expressão, ta valendo. Se for uma imposição, sou contra.

    Realmente muito interessante essa historia de unhas longas e sexo, movimentos ditos femininos e a imposição de uma mão se experiencia , ops, digo, sem calos!

    Parabéns pelo texto. Claro que peito, bunda, barriga é mais facil ver o carater sexista, mas mãos realmente foi uma surpresa! Obrigada =)

    (Agora vestido é desconfortável? Se for pra fazer escalada, sentar no parque para o picnic, é verdade. Se for para ir trabalhar, dar uma volta no shopping, só tem vantagem, eu acho)

    1. Alinka, a questão da mão no sexo eu tinha pela metade. Foi uma amiga gay que me deu a ficha completa. Olhei para ela e disse: “XXX!!! Muito obrigada! Você acabou de fechar meu argumento!”

      Eu também não tinha pensado em como a unha longa é um nonsense completo quando se pensa em sexo entre mulheres. Já tinha me ocorrido que é bem complicado se masturbar com unhonas (é meio como tentar digitar ).

  4. mas será que é mesmo um problema uma mulher ser como quiser ser? pensem só em toda a indústria da moda. é criada para agradar as mulheres porque na verdade até para os homens certas roupas e acessórios são pouco interessantes. então, acho válido se uma mulher quiser ser over, usar saltos muito altos e coloridos e extravagantes. porque não? acho que o problema começa no cerceamento da liberdade. se uma mulher faz algo para se enquadrar num formato, num gosto, numa norma, no agrado do outro, aí vejo um problema. do contrário, ok. afinal, até levantar peso é uma opção. até desenvolver novas habilidades, força, dentre outras características pouco usuais socialmente até hoje. vale a transcendência e vontade individual, identidade.

    1. Oi Rose,

      Será que você leu o texto? Às vezes me deparo com um comentário assim, meio sem pé nem cabeça, aperto a pessoa e descubro que ela ficou de bode com o título e “não leu e não gostou”, saca? Porque não é possível esse comentário se você tiver lido.

      A série Açougue é toda PRECISAMENTE a respeito da mulher “ser como quiser ser” (citando você), e não como a PRESCRIÇÃO FORMOLÁTRICA DA INDÚSTRIA DA BELEZA comanda. Evidentemente você entende que se ela segue uma prescrição externa, ela não é “como quer ser”, e sim como uma instância ideológica assim determinou, correto? Não estou falando grego, está me acompanhando até aqui?

      Prosseguindo: usar maquiagem, colocar prótese (leia a série seios) ou fazer qualquer outra modificação corporal é de lei, desde que seja produto do desejo da mulher, numa construção necessariamente coletiva (imperativo antropológico), mas em diálogo com os interlocutores de SUA escolha, e não impostos pela formolatria.

      Que tal ler novamente o texto e, aproveitando, os anteriores?

  5. Êêê bichona bruta! Eu teria quebrado ao meio… em ao menos dois lugares. Talvez meus braços soltassem do corpo, também.

    Gostei do açougue de hoje, é engraçado como essa parte do corpo, que quase passa despercebida, é alvo de ideais tão deturpados. E que foram internalizados pela sociedade.

    1. Muito louco, né, Rosana? Cada parte do corpo da gente é tão carregada simbolicamente que até assusta desconstruir. A próxima parte é o pé!

      Quebra não! 🙂 Todo mundo pode fazer um levantamento terra. Esse aí, meu, mais difícil, já que é produto de um amor tão profundo que não há palavras que expressem. Aí a gente se transcende, aí a gente faz realmente ARTE.

  6. Ah Marília você me deixa até ansiosa com esta série açougue, me divirto demais mesmo. Mas falando sobre os seios são uma parte que as vezes não vem do jeito que gente quer.
    Já vi uma menina absurdamente desesperada que tinha uma deformação porque ela queria operar para se parecer com a mãe e as primas e como feminista ela se sentia muito rebaixada em apelar para a cirurgia cosmética.

    1. Pois é, mas aí é uma espécie de espelho perverso, não é não? Ela negar a si mesma o recurso da cirurgia para fazer uma transformação corporal desejada POR QUE qualquer modificação “é do mal” é uma das coisas que a gente precisa evitar. Nada é “do mal” – só é do mal fazer pela motivação extrínceca proporcionada pela formolatria, não parece?

  7. Marilia,

    Estou adorando essa série de textos! E é incrível como tem gente que não compreende a diferença entre querer pintar a unha e ser obrigada a isso. Já vi mulher ser tomada como desleixada porque, simplesmente, foi para uma entrevista de emprego sem pintar as unhas. E isso é muito grave! Criticar isso é muito diferente de criticar quem usa unha pintada – a ideia é que todo mundo possa se expressar livremente, sem ideias preconcebidas.

    Abraços!

  8. Oi Marília!! Muito legal… pena que acaba logo mais a série. Espero que venha logo outras…
    Fiquei pensando que as mãos (e os cabelos tb. Serão os cabelos o próximo capítulo da série Açougue?!) são frequentemente as partes do corpo que mais rápido incorporam a história das pessoas.
    Minha sobrinha estuda em um colégio religioso onde as adolescentes não podem usar maquiagem e esmaltes. A primeira coisa que ela faz qdo chega na sexta feira em casa é passar esmalte colorido e com muito brilho. Ela diz que assim ela sente que o fim de semana começou, e que ela pode ser “ela mesma”.
    Já minha avó, lavadeira e passadeira de roupa para “casas de família” há mais de 50 anos, tem as unhas carcomidas pelo sabão e a cândida. Passou os últimos 15 anos encerrada em casa mesmo nos fins de semana, pois desde então sempre teve algum familiar acamado de quem cuidava. Nós netas gostávamos de fazer-lhe as unhas nos fins de semana. Sempre com cores suaves, porque segundo ela seu tempo “já passou”, e não fica bem usar cores vibrantes. Aos cinco minutos de unhas recém feitas ela ia fazer café pra alguma nova visita que chegava, ou pôr a roupa pra “coarar” no sol e nosso trabalho de manicure ia pro saco. Hoje tenho certeza de que, pra ela, não era o resultado final que importa, mesmo porque ela não tem porquê eludir seus 50 anos de esfregação – atividade profissional que ela exerce com muito orgulho. No entanto, essa 1h que durava nosso serviço de manicure era o único momento da semana em que ela permanecia sentada aos nossos cuidados.

    1. Quase chorei com seu comentário, Brunela. Nem sei como agradecer. Peço licença para talvez incorporar seu relato (com os devidos créditos) no livro que meu irmão e eu nos preparamos para fazer com esta série. São duas histórias de uma profundidade e simplicidade sem limite.

    2. ah! e a série não vai acabar tão logo! Ainda tem pés (com as deformações no oriente, os saltos altos e tantas outras questões), os braços (aqueles que não devem ter tanta força para ser femininos), as pernas (muito símbolo em cima) e aí não sei mais por onde continuo. Boa ideia o cabelo, alguém me sugeriu pescoço (esse que não pode envelhecer porque mulher só retem a feminilidade legítima se jovem), sobre o qual penso nos inúmeros pescoços cortados ou asfixiados de grandes mulheres. Mas ainda não sei

  9. Marília, um beijo em vc e em suas mãos, sem equipará-la às donzelas medievais mas parabenizando você pela esportista fantástica, escritora inteligentíssima e lutadora que é 😉

    Acho o máximo seus vídeos esportivos. Não sei, é muito louco, porque sou praticante de ioga e estou treinando agora para trilhas de longa duração – mas acho que vários pontos do que você fala têm tudo a ver com temas que me dizem respeito; me fascina a concentração que vocês têm, o “endurance” (acho que não sei dizer isso em português) e a pegada que o esporte de vocês transmite, de pessoas que tomam o poder de si e realmente se dedicam a traçar uma trajetória muito particular de desafiar limites, definir seu “lugar no espaço” e sua relação com o corpo e os movimentos.

    Eu pago muito pau pros seus vídeos, acho um barato, vejo TODOS, torço para que tenham auspícios nas competições e confesso que me deu vontade de experimentar, porque às vezes sinto uma necessidade imensa de fazer MUITO esforço e nenhum tipo de exercício que eu já tenha feito, mesmo com treinamento pesado, me satisfaz essa gana que vem de dentro… (enfim, mas esse não é o tópico aqui :P).

    Sobre o tema do seu post, uma coisa que me ocorreu um dia, voltando da manicure, foi justamente: “Por que temos unhas, do ponto de vista evolutivo?” Com certeza é pra arranhar/unhar/ferir/brigar, antes desse exercício estético. Também adoro esmaltes, mas essa reflexão foi para mim mais um passo de empoderamento do meu corpo e das minhas possibilidades. Porque por mais que eu tenha pensado que um urso ou um leão possa ter garras, eu nunca tinha me visto como um ser que é capaz de brigar e lutar fisicamente.

    Acho que devemos, SEMPRE que possível, rs rs rs,, nos abstermos de praticar a violência, como um ato consciente. Mas isso não quer dizer que precisemos negar nossa força – não só emocional e simbólica, como física. Conhecer a própria força, se tornar quem você quer ser constantemente, e usar a força de maneira correta para transformar situações e contextos são uma forma de agência, empoderamento pessoal e transformação de padrões externos opressores e limitadores.

    1. Puxa, Mariana, muito obrigada! Fico feliz mesmo de participar destes diálogos seus com sua força e as violências variadas!
      Posso estar enganada, mas acho que a identificação vem pelo “flow” do atleta, que é um estado só descrito antes como experiência mística. Tenho escrito e falado sobre isso. É isso? Só os estudiosos das técnicas meditavas é que entendem de fato quando eu digo que a busca pelo “levantamento perfeito”, pela dissolução total das fronteiras do eu com o entorno, vale uma vida. Vale qualquer coisa.
      Violência tem uma relação doida, indireta e por vezes paradoxal com a força. A pesquisa que eu citei mostra muito mais um enorme desenvolvimento da pegada PRECISA do que forte para o exercício da violência, tal pegada subordinada a um sistema inédito (evolutivamente) de processamento de informação.
      Eu costumo dizer que a aquisição e domínio da própria força trazem autonomia e paz interior. Portanto, são o caminho para que não se exerça poder sobre o outro, e não o contrário. Infelizmente, tem um bocado de gente forte por aí me contradizendo…

      1. Marília, nunca li seus comentários sobre o flow do atleta, mas certamente vou ler. Pela sua descrição, eu acho que, sim, as práticas meditativas e iogues a têm tudo a ver com esse estado. Sou praticante dedicada de meditação zen budista. Enxergo uma grande convergência de princípios – da busca pela prática correta, pela expressão máxima da postura perfeita- com o que vocês fazem no powerlifting, e acho sensacional. Justamente por isso eu acho mais foda (ainda) a prática de vocês, porque é APARENTEMENTE uma parada totalmente divergente do meu universo, e, NA PRÁTICA, observo uma grande sinergia <3 Eu acho que o lance da violência é justamente o mal uso da força, ou a identificação da força com a expressão do poder sobre @ outr@. Os budistas falam em ação correta, intenção correta, força correta… rs rs rs. Evidente que não existe mudança sem ruptura, mas não necessariamente esse tipo de coisa significa o uso da violência de fato? Eu, como você, já vivi alguns/muitos maus bocados, diagnosticados pela psiquiatria medicamentosa e histérica como doenças que devem ser tratadas com: sedativos e porcarias médicas (que te isolam mais ainda de sentir seu corpo e te transformam numa ameba que não consegue levantar uma caneta sem babar… sério que nunca experimentei maior dissociação corporal do que quando tomei remédios psiquiátricos). Se isso não é violência, não sei o que mais poderia ser! Minha "cura" (não da condição em si, mas da forma de relação com ela) veio somente quando me reapropriei da minha força física, por meio de trabalhos corporais, esportes e ioga – isso traz uma autonomia, uma paz sublime e uma revolução pessoal.
        Ainda tenho um caminho a trilhar, e é isso que representa para mim o treino/a prática- o processo em si conta tanto ou mais do que o resultado final… Essas pessoas que acham que esportes de força, artes marciais, e lutas são expressões de violência são doutrinadas por uma visão totalizante de ciência e corpo que são parte de um discurso de poder; juro que não consigo entender geral achar "certo" você passar o dia inteiro com a bunda na cadeira na frente de um computador, reprimindo todas as suas pulsões corporais, e julgar aberrante você explorar essas possibilidades saudáveis de movimento.

        1. Isso mesmo Mariana: é só pensar na origem das Artes Marciais, ao mesmo tempo monásticas e guerreiras. Sobre o que escrevi sobre flow, tem vários artigos nos blogs e um capítulo no meu livro. Manda um e-mail para mim e eu tento achar os links. Ou google “marilia coutinho” + “flow” ou “the solitary game” ou “why do I lift”.

  10. Muito interessante essa série!! Alguém falou do cabelo, e me lembrei também dos pelos (e aí vem toda a questão da depilação em várias partes do corpo com base na ideia de que a mulher tem que ser “lisinha”, além de toda uma associação que muita gente faz entre higiene e não ter pelos).
    Fico refletindo muito sobre questões relacionadas à formolatria, como vc chama, e confesso que as coisas ainda são um pouco confusas pra mim. Ao mesmo tempo que tenho uma crítica contra os padrões “empurrados”, gosto de me sentir bonita (não que isso seja errado, mas o que questiono é até que ponto tento me enquadrar nesses padrões e quais são as minhas justificativas). Afinal, muitos movimentos que tentam ir contra essa corrente acabam se encaixando em outros padrões (vide o padrão das campanhas dove, em que as mulheres acima do peso devem ainda ter cintura e uma pele lisinha).

    Não sei se um dia vou chegar a um consenso comigo mesma, mas acho que o caminho é justamente refletir – e trocar ideias – continuamente.

    1. Cris, eu acho que todas as pessoas querem se sentir belas. Creio que todo o questionamento que eu e tantas outras fazemos é sobre a construção do belo. E, veja, nunca propus uma abordagem ingênua de “construção autônoma do belo”: isso não existe. Ela sempre será uma construção social. No entanto, se consciente, é possível ao construtor escolher com mais poder seus interlocutores. Quando eu coloco vários piercings no meu corpo, faço tatoos, pinto as unhas ou o cabelo, estou construindo o MEU belo em diálogo com inúmeros atores sociais da minha escolha. Se conseguimos ficara imunes ao peso avassalador da formolatria? Não acredito… não mesmo. Ninguém (eu não, com certeza, mas luto até a morte 🙂 )

  11. Bom ler uma opinião assim, Marília. Eu nunca tive paciência para arrumar as unhas e sempre me senti um tanto ‘deficiente’ por causa disso, mas estou cada vez mais me livrando desse sentimento.
    Grande abraço

    1. Asa, eu acho um saco comprar roupa. Nada serve direito em mim, não acho nada interessante, por mim andaria pelada ou de regata e short o dia inteiro, que é como me sinto ao mesmo tempo bem e linda. Unha já tenho saco. Cada pessoa tem uma relação com essas construções…

  12. Obrigada pela resposta, Marília, pois me deu elementos pra pensar com mais clareza sobre essa questão. De fato, é absolutamente impossível nos isolarmos das construções sociais. Ao mesmo tempo, quando temos um pouco mais de noção do contexto por trás da inúmeras alternativas de modificações corporais e ornamentos, bem como das nossas próprias motivações, podemos fazer escolhas com maior consciência.
    O engraçado é que essas escolhas afetam os outros e, assim, a própria realidade (talvez por isso mesmo certas opções estéticas chegam a nos incomodar tanto, por mais que tentemos lutar contra isso tb!).

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