Mulheres: corpos sempre disponíveis

Texto de Luciana Nepomuceno.

O machismo não é só aquele cara que proíbe a namorada de sair de saia curta. Não é só a piada de que mulher não sabe dirigir. O machismo não é só chamar um homem de mulherzinha quando quer ofender. O machismo não é só. O machismo é uma lógica de organização do pensamento. Quando se diz que o machismo é estrutural é pra dizer que ele vai além de atos intencionais grosseiramente detectáveis de segregação por gênero, mas que ele opera de forma complexa e imiscuída em atos que são tomados como naturais e aceitáveis.

Um exemplo claro, para mim, é a naturalidade com que se avalia, julga e se emite juízo de valor sobre o corpo das mulheres. Os corpos das mulheres são públicos para serem tocados, narrados, rotulados. Seja o corpo desprezado, ridicularizado, marginalizado, os corpos gordos, deficientes, velhos; seja o corpo-troféu, magros, malhados, cirurgicamente tratados, duramente conseguidos, incensados na mídia. Os corpos das mulheres estão aí para serem questionados. De uma forma ou de outra, essa mulher está sempre errada.

Os corpos das mulheres trans*, permanentemente vigiados, condenados ao se ajustarem de forma insuficiente ao ideal feminino, rotulados como “falsos” ou condenados por se ajustarem demasiado e colaborarem para sustentar esse padrão. Os corpos das mulheres negras, reduzidos ao seu grau de exotismo. Os corpos das mulheres que, aparentemente seguindo o “correto”, como malhar, o exacerbam a seu gosto e fogem do esperado. Ah, mas esses corpos nem parecem de mulher. Ué, se o corpo é dela e ela é mulher, logo seu corpo é “de mulher”. Mas os corpos das mulheres devem estar sempre disponíveis para emitirmos nossa opinião sobre eles, reivindica o senso comum.

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Vez ou outra um certo fenômeno se repete, seja deflagrado por uma matéria (como no recente caso da revista Marie Claire) ou por fotografias aleatórias (como na época do Oscar e toda a discussão sobre a magreza da Angelina Jolie). Ao se depararem com estes conteúdos uma parte significativa da minha TL se coloca de maneira enfática contra os padrões, contra o modelo do corpo glorificado pela mídia, contra a ênfase na magreza excessiva… e eu com eles (é só ler esse texto, por exemplo).

Acho válido criticar a cultura em que esse padrão de corpo perfeito é consolidado e consumido. Acho válido criticar as narrativas de um único tipo de corpo aceitável. Mas rapidamente as falas vão mudando de direção e deixam de configurar-se como um questionamento do modelo para um questionamento daquele corpo. Da existência e beleza daquele corpo. — Ah, é magra demais, que horror. — Com certeza não tem gosto de viver, quem não tem prazer em comer não tem prazer em trepar. — Prefiro uma mulher gostosa, com carnes no lugar certo. — Deus me livre, dá pra ver as costelas todas. Irônica e previsivelmente não faltam os argumentos repetidamente usados contra os corpos gordos: ah, mas nem é saudável! Um deslizamento das falas que acabam por conduzir a um discurso que ofende, minimiza, tira a pessoa do lugar de sujeito e a coloca no de objeto sem autonomia, tornando-a carne no açougue.

E ainda há o agravante da banalização do adoecimento subjetivo. Diz-se: ah, deve estar anoréxica, irresponsavelmente culpando e responsabilizando a mulher por uma condição subjetiva que não é, por definição, voluntária ou consciente. Sequer se procura separar, na fala, a anorexia como sintoma e a anorexia nervosa. No mesmo balaio e de forma inconsequente acusa-se e rotula-se a mulher de “anoréxica”, como se adoecer subjetivamente fosse menos digno, fosse falta de “força de vontade”, fosse “desejo de aparecer”.

A crítica que era pautada no equívoco e na crueldade de se ter e reafirmar um padrão de beleza, torna-se um julgamento de que é equivocado ter aquele padrão apresentado – e aí está implicado que, se fosse algum outro padrão, seria aceitável. Se ela fosse “gostosa”, ah, estaria tudo okay. Mas não estaria. Como uma cobra engolindo o rabo, a lógica machista circular se impõe. A mesma cultura machista que faz ser aceitável alguém dizer que determinado corpo feminino é perfeito (logo os outros são imperfeitos) — como se fez na matéria da Marie Claire — é a lógica que legitima que todo mundo se sinta livre para falar e apontar os defeitos dos corpos femininos alheios.

Não é com escrutínio sobre o corpo (magro) da outra mulher que construímos uma sociedade onde os padrões de beleza e aceitação não sejam excludentes. E sim, eu sei, que aquela mulher se beneficia de ter o corpo “aceitável”. Mas não interessa o corpo de uma mulher. Interessa a cultura que dita modelos sobre este corpo. Porque uma das formas de opressão é justamente calar as mulheres e falar delas, no lugar delas, falar por elas. O problema não é, não deve ser, que uma mulher, essa ou aquela, se submeta a emagrecer ou seja, por metabolismo, magra. O problema não é, não deve ser, o julgamento e condenação da mulher – que, aliás, na sociedade machista já está, sempre, entre a cruz e a espada, se submete aos padrões ou se a eles se recusa.

Que o conteúdo da matéria da Marie Claire – que não é um evento isolado no incensamento da super magreza como padrão desejável – é condenável, não se discute aqui. O que eu questiono é o caminho que escolhemos para tratar do assunto (e o como, a estratégia e sua lógica implícita sempre são importantes pra mim). O que eu discuto é a facilidade com que, arbitrariamente, se emite juízo de valor e escalonamento de mérito, como se os corpos femininos fossem sempre para a apreciação de terceiros. O que eu discuto é que seja completamente legítimo e aceitável desmontar uma narrativa de imperfeição dos corpos femininos usando, para isso, justamente o mesmo recurso, apenas invertendo ou modificando o padrão. O que eu discuto é a condenação individual no lugar da crítica macro.

PS¹.: Ah, mas você vê machismo em tudo, se fosse falando mal o corpo masculino, podia?

Eu digo: vamos olhar na cultura. Vamos ver as revistas voltadas para as mulheres e seu imperativo: esteja bem para o homem! As revistas voltadas para os homens e sua condescendência: oi, tá gostando? Vamos ouvir o que se diz dos pêlos (ah, os barbudões!), do envelhecimento (homem grisalho é sexy!), da barriga (barriga em homem é caráter) e por aí vai. Vamos pensar na situação Fátima Bernardes X William Bonner, por exemplo. Vamos lembrar do Faustão ou do Jô Soares apresentando um programa dominical e pensar em quantas mulheres gordas tem aparecido na mídia e em que posição. Vamos lembrar do caso do Pierce Brosnan e sua esposa, na matéria que glorifica seu charme envelhecido e questiona como ele pode permanecer casado com aquela mulher que engordou e envelheceu. Vamos conversar sobre isso e pensar em falsas simetrias.

Mas, depois disso tudo pensado, eu digo: se fosse um corpo masculino a ser avaliado, rotulado, minimizado e humilhado não seria machismo, mas seria muito, muito cruel (como é cruel, além de machista, o que se fez na TL com o corpo da moça na revista).

PS².: Recomendo demais esse texto aqui da Isabela Casalotti: Autoestima, Feminismo e contradições de cada dia.

Autor: Luciana Nepomuceno

Considero importantíssimo saber rir de mim mesma. Sou crédula. E cínica. Pode? Gosto do repetir dos dias. Sou grata pelas pequenas coisas. E pelas grandes, claro, como respirar. E café. E coca-cola. E beijo na boca. E o Flamengo.

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