Por que, nós, mulheres?

Texto de Ana Nery Correia Lima.

Por que, nós, mulheres que somos, que fomos e seremos, construtoras, produtoras e produzidas pela sociedade, por nós mesmas, pela subjetividade, pelo que chamamos de inconsciente, por que nos fizeram assim? Por que nos pintaram assim?

As Duas Fridas (1939). Quadro de Frida Khalo.
As Duas Fridas (1939). Quadro de Frida Khalo.

Nas histórias, nas estórias, nas práticas do dia-a-dia, por que continuamos, reproduzimo-nos dessa forma? Por que nos perpetuamos do mesmo modo que nos ensinaram?

Sim, quebramos os paradigmas e construímos outros, fazemo-nos e refazemo-nos a cada dia, mas o outono — aquele das folhas secas que caem das árvores para que ela se renove — não é capaz de tirar de nós a opressão, as limitações, os medos que ainda pairam na construção de nós mesmas.

Por favor! Garçom… Devolva essa bebida que me ofertam diariamente. Essa dose de medo de ficar sozinha. Essa dose forte, sem gelo, dupla e seca de um ideal de amor, de complemento, da necessidade de uma metade para ser/estar feliz…

Devolva! Eu não quero aceitar mais essa dose que me ofereceram desde sempre e, que aos poucos, me fizeram assim.

É por que somos feitas sentimentais? É por que dizem que somos frágeis, doces? É pelo “espírito maternal” que nos tentam empurrar goela abaixo?

É por que dizem os outros, aí fora, aí pelos quatro cantos, que ficar só é feio, é ruim?

É pelo capitalismo, que impõe a fórmula da felicidade, na individualidade, no consumo das coisas e das pessoas? É pelos livros de autoajuda que em poucos dias se tornam best sellers e nos ensinam como amar melhor, a enriquecer em casal, como seduzir, como conquistar a pessoa amada?

É pela mídia que diz que posso ser tudo ao mesmo tempo, mãe, mulher, sedutora, profissional perfeita e ainda ter um amor de sucesso, das capas de revista?

É pela opressão, pela minha própria cobrança interna?

Não, não somos vítimas! Podemos transformar, ressignificar, relativizar… Mas como dói…

Por favor, garçom… Devolva essa dose que me foi imposta, essa dose de amor romântico que me foi empurrada durante todos os esses anos e que me fez acreditar que a completude existe.

Não aceitemos mais essa dose!!!

Por que nos subjugamos, nos subestimamos por um ideal de amor ou de relação que não nos leva em conta, nem nos prioriza? A imposição de um ideal que é nosso por vezes oprime o outro e nessa “disputa” que envolve poder, tentamos convencer ao outro de que a nossa forma deve prevalecer. Acabamos por vezes aceitando certas condições nas relações pra manter um ideal que é só nosso, que nem sempre é compartilhado.

Por que acreditar num padrão de amor? Não devemos, não podemos acreditar que só no outro a felicidade repousa. A completude é incompleta, se faz e refaz todos os dias. Estar completo/a é poder se (re)construir todos os dias nesse movimento de encher-se e esvaziar…

“Bom encontrar alguém”… Encontrar? Talvez a ideia de “encontrar” evoca a busca ou então a sorte; ou ainda a certeza de que deve haver alguém, que ainda falta encontrar essa pessoa… Vamos fazendo escolhas, de acordo com necessidades do momento (o momento que pode ser curto ou durar muitos anos). Submetemo-nos (tanto homens como mulheres) a algumas coisas em nome dessas necessidades; temos por vezes uma necessidade maior de não nos submetermos; às vezes por um tempo pode não haver submissão alguma, só convergência de ideias e afinidades; e por aí vai.

“Não existe ninguém que caiba no nosso sonho”, como diria Cazuza. Nunca vamos encontrar “a pessoa”, mas nos deparamos com certa frequência com pessoas com quem formaríamos boas parcerias, com quem estaríamos dispostos a ceder em troca de algo também importante, e que, com o tempo fazem dessa parceria, talvez um sentido rico para nossas vidas…

No entanto, esse processo não pode ser a maior busca diária da nossa vida e se for, desde que uma escolha consciente, que não seja para comportar moldes fechados, prontos e estabelecidos.

Todo dia é dia de se reinventar…

A nós, que dizem e que dizemos, ser mulheres, um brinde, com nossa própria dose…

Ana Nery Correia Lima
Ana Nery Correia Lima

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Ana Nery, 31 anos, andarilha, cearense que mora em São Luís do Maranhão. Militante do Movimento Negro e do Movimento de Mulheres; Graduada em Ciências Sociais e mestranda também em Ciências Sociais.

Autor: Autoras Convidadas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. A gente continua essa história do Feminismo nas ruas e na rede.

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