A novela do beijo gay também é a novela das mulheres sem redenção

Texto de Bia Cardoso.

‘Amor à Vida’ teve em seu último capítulo o tão esperado beijo gay na telinha do plim plim. Se em 2005, na novela América, o beijo chegou a ser filmado mas foi vetado, dessa vez a torcida era grande. Félix e Niko tornaram-se o principal casal da novela e a maioria dos telespectadores torcia por um final feliz no estilo margarina para os dois.

Já aconteceram outros beijos entre homens em programas da Rede Globo como ‘A Grande Família’ e ‘Tapas e Beijos’. Também já ocorreram beijos entre gays, lésbicas ou bissexuais em outras emissoras, na ficção ou em reality shows. Porém, a novela das 8 (atualmente, das 9) é uma instituição cultural brasileira que tem seu peso nesses momentos. Com todo o poder que a Rede Globo tem como meio de comunicação no Brasil, ‘Amor à Vida’ tem grandes chances de ser lembrada como a novela do beijo gay.

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Porém, mais do que isso, ‘Amor à Vida’ foi a novela em que os vilões foram perdoados, enquanto as vilãs receberam as mais diferentes punições, sem redenção. Fora todas as personagens femininas que morreram, contraíram doenças ou sofreram todo tipo de preconceito e bullying. Basta dar uma olhada na trama de algumas personagens:

Paloma e Bruno, o casal margarina original

Paloma, a mocinha da novela, viaja para o Peru, abandona os pais e se entrega ao amor de Ninho. Engravida, volta para a casa dos pais, tem seu parto no banheiro de um bar. Félix (seu irmão), rouba sua filha e a joga numa caçamba. Paloma é socorrida e passa dez anos sem saber onde a filha estava. Em sua trajetória, também é presa por porte de drogas infiltradas em sua mala, internada numa clínica psiquiátrica com métodos medievais, separada inúmeras vezes de seu amado por armações e no final de tudo ainda encara uma gravidez de risco para dar a Bruno o maior presente que um homem pode ganhar (segundo o texto da novela), um filho.

Bruno, o mocinho da novela, perdeu a primeira esposa Luana no parto (no primeiro capítulo da novela uma mulher já morreu), desesperado, encontra um bebê numa caçamba de lixo próxima ao hospital e junto com a médica obstetra e sua mãe, auxiliar de enfermagem, forja documentos para registrar a criança em seu nome. Sempre foi representado como um ótimo pai. Quando seu crime é descoberto, todos ficam ao seu lado e ele sofre muito porque nesse caminho se apaixonou pela mãe biológica da menina, Paloma. Bruno é representado como alguém íntegro, que não se comove com suborno e luta pelo caminho da justiça e da verdade.

Ninho viveu um relacionamento bumerangue com Paloma, para depois virar um pai dedicado, para depois virar sequestrador da própria filha, para depois virar artista plástico renomado, para depois virar cúmplice da principal vilã da novela, Aline. No fim, quase morre esfaqueado pela amante e termina preso, mas a filha o perdoa por tudo e diz que quer vê-lo sempre.

César, Pilar e Aline: vinganças e consequências

César, o patriarca da família Khoury, é um médico renomado, homofóbico e conservador. Sempre rejeitou o filho Félix por ser gay. Manipulou todos que queria e nunca quis perder seus poderes ou seus bens. Passa a novela inteira destradando as pessoas e mostrando seu poder. Perto do fim, fica cego ao ser envenenado por Aline, tenta matá-la com uma faca para lavar sua honra ao saber que ela o trai, mas acaba numa cadeira de rodas por conta de um AVC. É levado para a casa da ex-esposa Pilar para receber cuidados e ao saber que ela se casou novamente a xinga de piranha inúmeras vezes. No fim, vai morar com o filho Félix numa casa na praia, reconhece o amor que o filho tem por ele e se reconcilia.

Pilar, é a esposa de César. No início, tem uma relação difícil com Paloma, que não é sua filha biológica e super protege Félix. No decorrer da trama, descobre que foi traída pelo marido com a secretária Aline e com a nora Edith. Dá uma surra em cada uma delas. No fim, parece que é uma das poucas personagens femininas que tem redenção ao ser perdoada pela família por ter provocado o acidente que vitimou a mãe de Aline. Porém, exprime várias vezes que ela é a grande culpada pelo sofrimento de seu ex-marido, mesmo cuidando dele e de seu filho mais novo é chamada de piranha diversas vezes.

Aline planeja há muito tempo uma vingança contra César e a família Khoury. Por causa de um acidente automobilístico, sua mãe morreu e sua tia Mariah, que a criou, ficou com sequelas impedindo de continuar a carreira de bailarina. Aline acredita que o acidente foi causado por César. Aline passa a novela inteira fazendo armações maquiavélicas que incluem destruir a família Khoury, deixar César cego e roubar todo seu dinheiro. No final, é presa, mas morre eletrocutada numa tentativa de fugir da cadeia. Foi chamada de piranha inúmeras vezes por vários personagens da novela.

Cena da novela 'Amor à Vida' (2013) em que Pilar (Susana Vieira) descobre que Edith (Barbara Paz) teve um relacionamento com seu marido enquanto era garota de programa.
Cena da novela ‘Amor à Vida’ (2013) em que Pilar (Susana Vieira) descobre que Edith (Barbara Paz) teve um relacionamento com seu marido enquanto era garota de programa. Imagem: Rede Globo.

Outros personagens: quem se deu bem e quem se deu mal?

Félix, que começa a novela como o grande vilão, jogando a sobrinha bebê numa caçamba e planejando assassinatos por meio de acidentes contra desafetos, tem uma reviravolta no meio da trama e ganha sua redenção ao ficar pobre e encontrar uma pessoa que lhe dê carinho, Márcia. Além disso, começa um flerte com Niko, o personagem gay bonzinho. No fim, termina feliz constituindo uma família com Niko e recebendo o perdão e carinho do pai.

Thales e Leila planejaram dois golpes do baú contra Nicole e Natasha. Nicole morre doente no altar ao saber que seu amado Thales queria enganá-la. Thales passa o resto da novela atormentado pelo espírito de Nicole para descobrir no fim que se apaixonou por Natasha. Leila morre queimada num incêndio na mansão que tanto desejava. Natasha, primeiramente desmascara Thales em seu segundo golpe do baú, para depois reconhecer que o ama e terminam se casando.

Inaiá, a única personagem negra com uma trama, é enfermeira e se envolve com vários funcionários do hospital San Magno. Como prêmio por ser promíscua, descobre que é soropositiva. Segue uma cena em que todos os homens com que já teve um relacionamento recebem o resultado de seus exames para o vírus HIV. Inaiá é expulsa do apartamento em que mora com o namorado, sendo chamada de “xícara suja”, mas encontra um novo amor.

Perséfone é gorda e sobre bullying durante toda a novela, até mesmo de pessoas que se dizem seus amigos. Além disso, é virgem e durante meses faz as maiores maluquices para perder a virgindade. Em determinado momento da trama, casa-se com o que acredita ser seu príncipe, mas o bullying continua. No fim, encontra um novo amor.

Glauce, a obstetra que forjou os documentos do nascimento de Paulinha por amor a Bruno, foi responsável pela morte de Luana (ex-mulher de Bruno) e de Elenice, enfermeira que descobre uma de suas tramóias. Morre num acidente de carro, cheio de pirotecnia, depois que seus crimes são descobertos.

Alejandra, traficante que se fingia de amiga de Paloma, morre ao transportar drogas em sua barriga. Mariah, tia de Aline, morre com uma tesourada após declarar-se contra o plano de vingança da sobrinha. Silvia, advogada, teve cancêr de mama. Vivian, funcionária do hospital, é alcoólatra.

Amarilys, provavelmente a vilã mais odiada da novela, arma um plano para ser barriga solidária de um casal gay, Niko e Eron, com o intuito de separá-los e depois ficar com o bebê. Niko luta na justiça, consegue comprovar que o bebê é seu filho e tem um final feliz com Félix. Eron ajuda Amarillys em várias partes de seu plano para ficar com o bebê, no final diz que foi manipulado por ela e termina o relacionamento, tentando reatar com Niko. No fim, encontra um novo amor. Amarillys é desmascarada por Niko em mais uma tentativa de ser barriga solidária de um casal gay e termina a novela escurraçada e sozinha.

Sofrimento sempre é pouco para as mulheres

As vilãs são um clássico das telenovelas brasileiras. Porém, acredito que nunca houve uma novela como essa, em que todos os vilões são perdoados pelo que fizeram e tem a chance de um final feliz. Atualmente, é comum que personagens não sejam apenas bons ou apenas maus, mostrando diferentes nuances, o que gera até mesmo a simpatia do telespectador pelos vilões. Porém, para as mulheres de ‘Amor Á Vida’ a morte e a doença parecem ser o destino da maioria. E, mesmo as que encontram um novo amor, fazem isso a custa de muitas cenas de humilhação e preconceito.

‘Amor à Vida’ acaba sendo uma novela em que não há personagens femininas fortes, autônomas e seguras de si, que possam ser um exemplo para jovens mulheres que buscam modelos de representatividade. Talvez, existam apenas duas personagens femininas bondosas: Bernarda, a idosa e Linda, a autista.

Mesmo as personagens que tem um final feliz, representado em grande parte pelo conjunto tradicional de marido + casamento + filhos, tem uma trajetória de muito sofrimento, enquanto aos homens como Atílio, o personagem bígamo, é reservado um tom de humor. Fora que todos os homens, geralmente com cargos profissionais poderosos, são retratados como pessoas facilmente manipuláveis.

Afinal, se todas as mulheres devem ser punidas por desejarem poder, dinheiro, serem egoístas ou terem um comportamento sexual considerado inadequado, enquanto os homens são perdoados por essas mesmas questões, ainda não saímos das fogueiras das bruxas. Em ‘Amor à Vida’ somos as maiores culpadas por salgar a Santa Ceia.

Autor: Bia Cardoso

Uma feminista lambateira tropical.

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