Só engravida quem quer?

Texto coletivo das Blogueiras Feministas.

Essa é talvez a frase que mais ouvimos em qualquer debate sobre a legalização do aborto: “Não precisa legalizar o aborto, hoje em dia só engravida quem quer”. Com suas variações: “Com tanta informação e tantos métodos anticoncepcionais é um absurdo que alguém engravide sem querer hoje em dia”. Até chegar no extremo: “se não quer engravidar, não faça sexo!”.

Aí está o grande problema em relação a legalização do aborto: o sexo por prazer. Na legislação atual, o aborto é permitido em casos de violência sexual, risco de vida para a gestante e diagnóstico de feto anencéfalo. A maioria das pessoas é favorável ao aborto nesses três casos justamente porque não envolve discutir a liberdade sexual. Falamos sobre isso anteriormente, no texto: Aborto e o controle social dos corpos.

Então, se é tão difícil assim engravidar sem querer, por que tantas mulheres ainda se veem nessa situação? Por que até médicas ginecologistas engravidam sem querer? A realidade é sempre bem mais complexa do que os rápidos julgamentos sociais.

No Brasil, 46% dos nascimentos no País não são desejados ou são planejados para mais tarde, segundo dados da última Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde da Criança e da Mulher (PNDS), feita em 2006. No levantamento anterior, feito em 1996, o percentual era de 48%. O avanço muito pequeno, segundo os próprios pesquisadores, mostra problemas no acesso aos métodos contraceptivos, mau uso ou falhas na tecnologia de disponível.

Antes de encher a boca para falar que só engravida quem quer, que tal pensar nos inúmeros fatores envolvidos na contracepção?

Grávida na Marcha das Vadias de Cuiabá/MT em 2012. Foto de Pollyana Araújo/G1.
Grávida na Marcha das Vadias de Cuiabá/MT em 2012. Foto de Pollyana Araújo/G1.

Desinformação e vergonha de falar abertamente sobre sexo

Existe MUITA desinformação sobre contracepção, doenças sexualmente transmissíveis e qualquer assunto ligado a sexualidade. Por mais que “sexo” seja uma palavra gritada diariamente na mídia, as mensagens não são informativas.

A maioria das escolas não tem educação sexual no currículo. Em grande parte porque grupos conservadores barram esse tipo de conteúdo, com medo de que as crianças sejam “estimuladas” a fazer sexo antes da hora. Mal sabem que as crianças desde muito cedo expressam sua sexualidade, sentem prazer com seus corpos e seria ótimo que não fossem reprimidas. Nas aulas de biologia, quando o assunto é abordado, geralmente é tratado como algo terrível que só dissemina doenças sexualmente transmissíveis.

Quanto mais se falar abertamente sobre um assunto menos tabus haverão. Consequentemente, menos pessoas terão vergonha, temor ou receio de falar sobre o assunto. A única visão que a maioria das pessoas tem do que seja sexo é a imagem da penetração. Há inúmeras possibilidades do que seja uma relação sexual, mas acredita-se que o prazer sexual passa obrigatoriamente por essa imagem.

A disseminação de informação, que é responsabilidade do Estado, muitas vezes é negligenciada. Por mais que exista distribuição de métodos contraceptivos como camisinha masculina, anticoncepcionais hormonais e pílula do dia seguinte em unidades de saúde públicas, isso não quer dizer que não existam problemas na distribuição e até mesmo escassez, especialmente em regiões mais afastadas dos principais centros urbanos.

O acesso a esses recursos é intermediado por profissionais e instituições que algumas vezes podem ter crenças ou seguir dogmas contrários ao seu uso, especialmente no caso da pilula do dia seguinte, o que afeta o acesso a alternativas de contracepção em diversas comunidades. Consultas com ginecologistas na rede pública e até mesmo nos planos de saúde privados demoram para serem marcadas e muitas vezes as pessoas não tiram todas as dúvidas que tem por vergonha de perguntar.

Além disso, há uma cultura na sociedade em que as pessoas preferem ignorar o fato de que adolescentes fazem sexo. Esse tipo de situação desestimula uma conversa franca sobre métodos contraceptivos e gera cada vez mais desinformação.

Nenhum método anticoncepcional é infalível e seu uso sempre depende do acesso

De cada cem mulheres que tomam a pílula em um ano, três engravidam. Todos os métodos anticoncepcionais, sem exceção, possuem algum nível de possibilidade de ineficiência mesmo com o uso correto. Nem mesmo a laqueadura garante 100% de proteção.

Recentemente, o jornal The New York Times, publicou gráficos mostrando que “quanto maior o tempo de utilização de um método contraceptivo, maior a probabilidade de uma gravidez indesejada — da mesma maneira que qualquer pequeno risco, ocorrendo repetidamente, cresce em probabilidade. Isto é verdade para todos os métodos contraceptivos, mesmo no caso altamente improvável que eles sejam usados ​​perfeitamente, todas as vezes”.

Portanto, não é incomum conhecermos inúmeros casos de mulheres que usavam anticoncepcionais hormonais ou dispositivos como o DIU (Dispositivo intrauterino) e engravidaram. Cada pessoa tem um corpo e processos biológicos diferentes. Nem todos os medicamentos reagem da mesma forma com todas as pessoas. Além disso, se há falta de informação, é provável que uma grande parcela não saiba usar o método corretamente, já que essa informação não é de conhecimento geral.

Outros medicamentos como antibióticos, anticonvulsivantes e antidepressivos podem agir cortando o efeito da pílula. Essas informações muitas vezes não são repassadas pelo profissional de saúde e nem constam na bula, pois há poucas pesquisas em relação a isso quando se lança um medicamento. Consumo excessivo de bebidas alcoólicas, vômitos e diarreias também podem afetar a absorção do contraceptivo hormonal.

A pílula do dia seguinte é um contraceptivo de emergência. Não deve ser usada como método contraceptivo regular e não é abortiva. O ideal é que o tempo para tomá-la não ultrapasse 72 horas (3 dias) após a relação sexual. Nas primeiras 24 horas a eficácia pode ser de 88%, mas a medida que o tempo passa, essa eficácia diminui. Também não é recomendado usá-la mais de uma vez por mês, porque perde a eficácia, aumentando o risco de gravidez.

Métodos baseados nos ciclos menstruais da mulher, como a Tabelinha e o Método do Muco Cervical (método de Billings), exigem ciclos menstruais regulares e tem pouca eficácia. Métodos de barreira como a camisinha (masculina ou feminina) e o diafragma exigem a colocação correta. Porém, no caso da camisinha masculina, nem todos os modelos se adaptam aos diferentes tamanhos de pênis o que aumenta as chances de rasgos ou furos.

Para realizar uma laqueadura ou uma vasectomia no SUS é preciso ter 25 anos ou no minimo 2 filhos, segundo a lei n° 9.263/1996. Se a pessoa for casada, a esterilização depende do consentimento expresso de ambos os cônjuges. É vedada a esterilização cirúrgica durante os períodos de parto ou aborto, exceto nos casos de comprovada necessidade, por cesarianas sucessivas anteriores. No caso da vasectomia, a pessoa não fica estéril de imediato leva em média 3 meses ou cerca de 20 ejaculações.

Além disso, para ter acesso a uma ampla gama de contraceptivos é preciso ter dinheiro. As pílulas anticoncepcionais mais modernas e com menos efeitos colaterais custam caro, em média de R$35 a R$70 e não são distribuídas na rede pública de saúde. O DIU é fornecido na rede pública, mas pouco divulgado e com poucos profissionais que realizam a colocação. Na rede privada sua colocação pode custar em média de R$400 a R$600.

Nem todo mundo se adapta aos métodos contraceptivos mais comuns

Há pessoas que tem alergia a látex e só podem usar camisinhas de poliuretano, que são mais caras e mais difíceis de serem encontradas. Além de não terem tantas opções de tamanhos, formatos e sabores. 

Os métodos anticoncepcionais hormonais estão ficando cada vez mais populares, mas grande parte das mulheres que os utilizam sentem diversos efeitos colaterais como: dores de cabeça, dores nas mamas, inchaço, varizes, náuseas, redução do desejo sexual, etc.

Anticoncepcionais hormonais também aumentam os riscos de doenças circulatórias e cardiovasculares como: trombose venosa e AVC. Hábitos de vida, condições de saúde e histórico familiar de doenças são determinantes e muitas vezes há contraindicação para fumantes, obesas, pessoas com histórico de trombose, embolia pulmonar, infarto, hipertensão arterial grave, diabetes, histórico de acidente vascular cerebral, enxaqueca, doenças do fígado ou pâncreas, tumores e sangramento vaginal não diagnosticado. Durante a amamentação alguns dos anticoncepcionais também não são indicados, pois podem afetar a produção de leite.

O machismo ainda permeia grande parte dos relacionamentos

Primeiro, temos o problema que a responsabilidade da contracepção fica em grande parte nas mãos da mulher. Assim como a culpa pela gravidez indesejada.

A camisinha masculina é o método contraceptivo mais barato e prático, mas vemos ainda inúmeros homens que resistem a usá-la ou que propõe as parceiras um método anticoncepcional feminino para pararem de usá-la, especialmente em relacionamentos longos.

Já existe a camisinha feminina a venda no mercado. Porém, ela custa bem mais caro que a masculina e não há muitas campanhas para que se torne conhecida. A forma mais segura de se prevenir uma gravidez é utilizar métodos combinados, mas além de nada ser garantido, a prevenção plena não é acessível a todas as pessoas.

Além disso, muita gente ainda tem vergonha de adquirir métodos contraceptivos. Nas grandes cidades isso não é tão comum. Porém, nas cidades do interior, em que só tem uma farmácia e o dono conhece sua família, como comprar uma pílula do dia seguinte, por exemplo?

Na maioria das pesquisas, a religião, a idade e a classe socioeconômica estão relacionadas ao maior ou mais adequado conhecimento dos métodos contraceptivos. Geralmente não há desconhecimento da existência, mas falta de acesso e desinformação sobre como deve ser utilizado.

A proposta da legalização do aborto não visa apresentar o aborto como uma solução mágica para esses problemas, mas sim garantir o direito das pessoas decidirem sobre seus corpos o fim do tema como um tabu. Qualquer proposta séria de legalização do aborto, como a Plataforma Para Legalização do Aborto no Brasil, tem como uma de suas principais metas garantir e expandir o acesso ao planejamento familiar e a métodos contraceptivos, porque isso faz parte dos direitos reprodutivos e sexuais.

As mulheres engravidam por diversas razões e o que não queremos é condená-las a uma gravidez compulsória. Da mesma maneira que devemos garantir todos os direitos a quem decide ser mãe ou pai como: pré-natal, atendimento humanizado no parto, creches e benefícios trabalhistas. Também devemos respeitar e garantir atendimento a quem decide interromper uma gravidez porque não se sente preparada no momento para assumir essa responsabilidade.

+ Sobre o assunto:

[+] FAQ do Aborto Legal.

Autor: Blogueiras Feministas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. Somos feministas. A gente continua essa história do feminismo, nas ruas e na rede.