Até que ponto compartilhar vídeos virais torna a violência algo banal?

Texto de Bia Pagliarini.

Ontem a noite pensei mais sobre o caso do vídeo da mãe que agride o filho. O negócio é bem mais complexo do que uma olhada mais inocente nesse vídeo poderia supor. Diz respeito a uma situação complexa, por envolver inúmeras situações distintas — com suas devidas especificidades, assim como a nossa própria forma ainda imatura de lidar com fatos (exposição) da internet.

Então, acho que a gente teria que repensar uma outra questão, que é a própria exposição na internet. Seria muito diferente o fato da punição ter acontecido sem ter sido filmada e se tornado viral. A gente tem que se lembrar que a internet é um espaço super hostil, cheia de gente maluca pronta pra poder arruinar e infernizar a sua vida. As três pessoas vão estar expostas a esse tipo de violência, a mãe e os dois adolescentes.

Percebam que o próprio fato que motivou a punição da mãe se dar justamente por causa da exposição de um video na internet… e essa própria punição virar um vídeo! A gente não pode achar que o que vemos na internet se dá como se estivéssemos assistindo um fato escondido através de uma fechadura, e isso por si só não tendo nenhum impacto. Se trata de outra materialidade: são videos expostos em domínio público que são visualizados em massa. Há apenas impactos negativos para todas as pessoas expostas.

Eu acho que num caso como esse, é preciso tomar as providências legais. Eu realmente não acho que a justiça burguesa seja o ideal. Mas também não é ideal o comportamento que temos ao ver um vídeo de uma mãe batendo no filho com um chinelo como evidência de que se trata de justiça. Se a gente toma que qualquer forma de violência ou “justiça com as próprias mãos” como algo a priori justo ou justificável, não sei até que ponto isso nos separa dos justiceiros que amarraram aquele jovem negro ~suspeito~ num poste.

Acho que a internet e esses vídeos virais nos colocam sem perceber numa posição de justiceiros e juízes, e isso é bem perigoso. Nós somos muito facilmente convencidos na internet de uma realidade como justa ou verdadeira com parcas informações, sem a menor necessidade de comprovar os fatos que são apresentados como meros dados a priori. Não é a toa que a internet é um viralizador de informações falsas, os hoax. Em se tratando de males menores, acredito que devemos tratar a questão com suas devidas incumbências: como um caso de polícia, não como tribunal-espetáculo online.

Pode ser compreensível uma mãe punir o filho naquelas condições. No entanto, algo pode ser compreensível mas não ser justificável ou justo. É compreensível uma mulher estuprada desejar a morte de seu estuprador. Mas isso não é justificável, tampouco viável politicamente.

Eu concluo que não há nada de feminista a se tirar de um vídeo viral de uma mãe agredindo seu filho com chineladas. Isso porque: 1) não é através de chineladas que vamos combater o machismo, 2) não podemos naturalizar qualquer forma de punição violenta — mesmo que pareça uma “inocente” chinelada — como uma forma de justiça, mesmo que seja em resposta a um ato que consideramos hediondo. Não podemos esquecer que crianças e adolescentes se encontram em situações extremamente abusivas dentro de suas próprias famílias. Até que ponto o compartilhamento ingênuo desse vídeo não torna este tipo de violência algo banal?

[+] Após vídeo de chineladas em filho ‘viralizar’ na web, mãe se arrepende.

[+] Após viralizar na web, mãe que bateu no filho teve que apagar perfis.

Autora

Bia Pagliarini é estudante de letras, interessada na relação entre discurso e gênero. Transfeminista, revoltada contra o cistema. Esse texto foi publicado em seu perfil pessoal do Facebook em 05/03/2015.

Autor: Autoras Convidadas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. A gente continua essa história do Feminismo nas ruas e na rede.