Juntas contra o antifeminismo: uma leitura crítica do evento ELLA

Texto de Milagros Olivera, Constanza Portnoy e Florencia Goldsman. Publicado originalmente com o título: “Nosotras contra el anti-feminismo: una lectura crítica del evento ELLA” no site Marcha – Una mirada popular de la Argentina y el mundo em 20/05/2015. Tradução de Bia Cardoso e Vanessa Rodrigues para as Blogueiras Feministas.

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Um encontro de mulheres pode ser qualquer coisa, menos antifeminista, não é? Que possibilidades temos nos tempos violentos e feminicidas em que vivemos? Três jornalistas, participantes de uma reunião recente de mulheres na Bolívia, fazem uma análise crítica do evento que reuniu mulheres da América Latina. Com os olhos atentos a posições estereotipadas e preconceituosas convergem em valorizar as lutas das feministas no presente.

II Encontro de Mulheres - ELLA. Cochabamba, Bolivia, 2015. Foto de Constanza Portnoy.
II Encontro de Mulheres – ELLA. Cochabamba, Bolivia, 2015. Foto de Constanza Portnoy.

Levante a mão quem teme as pessoas antirracistas. Levantem também aqueles que sentem medo das pessoas que lutam pela abolição da escravidão em todas as suas formas. É provável que as mãos levantadas sejam poucas, porque as lutas descritas são justas e cada vez menos pessoas assumem publicamente alguns rótulos politicamente incorretos.

Então, por que continuam legitimando o medo em relação a outra luta, igualmente válida, mas que tem as mulheres como protagonistas e centro de ação? Referimo-nos à luta feminista, que levanta a bandeira da igualdade de gênero.

As mulheres que se assumem como feministas se veem expostas a todo tipo de violência verbal e simbólica. São chamadas de “odiadoras de homens”, “amargas” até “feminazis”, numa alusão ao regime nazista, liderado pelo ditador e genocida alemão Adolf Hitler.

Essa última terminologia tem uma carga muito forte. O justificado estigma social que há ao ser identificado como nazista acaba atingindo as feministas, porque muitas pessoas se sentem incomodadas com suas propostas e conseguiram estabelecer no imaginário popular a expressão “feminazi”, que visa desacreditar todas as mulheres insatisfeitas com a naturalização dos papéis de gênero e que estejam dispostas a desafiar, por meio da estética, do discurso, etc., o sistema machista.

“A palavra feminismo continua assustando”

Essa forma de deslegitimar o feminismo tem confrontado algumas feministas ou mulheres que se denominam desta forma. Alexandra Shevchenko, uma das fundadoras do questionado movimento ucraniano FEMEN, disse numa entrevista que, como “na Ucrânia a palavra feminismo continua assustando (…) em 2008, decidimos mudar e deixamos de nos identificar como feministas. Dizemos que nosso movimento é, simplesmente, feminino”.

Renunciar o lugar de onde nos enunciamos é benéfico ou prejudicial? Se as pessoas abolicionistas deixassem de lado o rótulo que as definia como opositores da escravidão — porque em sua época o correto era que existissem escravos e escravagistas — teria sido possível a libertação dos escravos?

A resposta é não, uma luta que internaliza estigmas externos sobre si mesma não está suficientemente sólida para enfrentar um poder tão forte como o poder patriarcal.

No II Encontro de Mulheres ELLA, que aconteceu em Cochabamba, na Bolívia, esse tema não passou despercebido. Não foram poucas as participantes que manifestaram a necessidade de não rotular o encontro como feminista, mas sim, simplesmente, como um espaço “de mulheres”.

Essas alegações trouxeram reflexões acerca do feminismo em que muitas de nós acreditamos. O feminismo nasceu como um movimento impopular, impulsionado por mulheres que em nenhum momento acharam que seriam tratadas como estrelas de rock. É graças a essa digna resistência que foram conquistando alianças, estratégias e vitórias. Não é um partido político que busca ser atraente e inventar propostas inatingíveis para conseguir um militante a mais. O feminismo é nomeado, não camuflado sob um eufemismo desnecessário. O que está oculto é o que causa vergonha e o feminismo é sinônimo de orgulho.

Venda este feminismo com Coca-Cola

Para destacar alguns debates sem sucesso da reunião, entre uma infinidade de mesas valiosas e oficinas espontâneas que agregaram conteúdo ao evento (além da grande recepção e logística fornecida pelo projeto Martadero), nos interessa analisar certos lemas expressos por algumas participantes que várias vezes tiveram a oportunidade de utilizar o microfone.

Não o faremos apenas para criticar, mas também para transcender, para fortalecer conteúdos e reflexões sobre as lutas. Porque as feministas continuam sendo censuradas e precisamos fazer uma catarse das sensações que foram geradas.

Ficamos impressionadas com a posição de uma das companheiras do coletivo brasileiro Fora do Eixo em uma das plenárias finais. Sua proposta se baseava na premissa de que “o feminismo tem de gerar desejo”, porque na sua análise(1) a política é reduzida a uma “guerra de memes” e, parafraseando, nesse contexto: “o feminismo não chamaria a atenção de novas militantes”. Essa sentença nos pareceu uma frase marqueteira e infeliz. Baseada em uma presunção de que o feminismo de algumas participantes é “chato” ou “vazio de novas representações para atrair as novas gerações”.

Agora, pensemos: desejo? Queremos permanecer sendo objetos e geradoras de desejo? Existe alguma coisa na luta pelo aborto legal, seguro e gratuito que possa se relacionar com o marketing do desejo? De que maneira o desejo publicitário pode aparecer nos pedidos de aplicação das leis de feminicídio? Tédio para quem? Pouco sedutoras em que aspectos (queremos ser o FEMEN?)?

Também nos perguntamos se essas vozes representativas do evento ELLA gastaram tempo analisando os trabalhos, as propostas ou as mensagens criativas e inovadoras que nós, feministas, fazemos aos montes em sites, páginas, tweets e intervenções por todo mundo.

Nas entrelinhas desses clichês, que ainda ocupam um valioso encontro de mulheres, há uma intenção política maniqueísta. Especialmente por sermos mulheres temos a obrigação de estar informadas sobre as lutas urgentes para garantir a autonomia de nossas vidas e corpos, e sem atacar as outras pessoas.

Queremos mudar as regras do jogo e visibilizar quem nós somos. Não precisamos ter a necessidade de seduzir para sermos amadas por ninguém. Somos pobres, ricas, classe média, magras, estrábicas, surdas, deficientes, negras, bruxas, tortas, héteros, indígenas, bi, cis, trans, intersexos, jovens, velhas, meninas/os e muito mais. Sem intenção de adicionar apenas pelo fato de ser mais. Tentando mudar as cartas num jogo já viciado.

II Encontro de Mulheres - ELLA. Cochabamba, Bolivia, 2015. Foto de Constanza Portnoy.
II Encontro de Mulheres – ELLA. Cochabamba, Bolivia, 2015. Foto de Constanza Portnoy.

As dívidas começam pela casa

Diz um anúncio publicitário sobre o evento: “A diversidade de ser mulher em nossa América Latina mostrou-se no Encontro Latinoamericano de Mulheres. 21 países estiveram representados na reunião que aconteceu em Cochabamba, na Bolívia” e “O II encontro de mulheres – ELLA expressa seu poder e influência como parte da homenagem às realizações das Heroínas de Coronilla(2)”.

Então, basta começar a fazer algumas perguntas simples para que estes pequenos panfletos marqueteiros e desprovidos de conteúdo comecem a se fragmentar. Onde estavam as mulheres da comunidade onde ocorreu o evento? Onde estavam as herdeiras das heroínas de Coronilla? De que integração, diversidade e intercâmbio reais estamos falando se não conseguirmos estabelecer uma verdadeira ponte de comunicação com as mulheres da comunidade?

Estabelecemos algumas linhas de ações como respostas para essas questões. Antes de iniciar o relato, é necessário evidenciar que se nós, como mulheres, somos convocadas por sermos fortes, independentes e ativistas, é impossível querer que, pelo menos algumas de nós, fiquemos conformadas e comportadas repetindo discursos caducos dentro e atrás de microfones em salões isolados.

Primeira linha de ação: perguntamos ao comitê organizador o motivo pelo qual as mulheres de Villa Coronilla não estavam presentes. A resposta foi que elas foram informadas pela internet, mas decidiram não participar. Uma resposta simples e pouco comprometida com o que pretendia ser um espaço vivo, gerador e articulador de múltiplos encontros. Por outro lado, vemos filtrado nessa resposta um discurso acultural, globalizante e com tintas patriarcais que perde de vista o contexto sociocultural. Basta dar um passeio pela comunidade e conversar com as pessoas locais para entender que a lógica ali é o boca-a-boca e convites impressos em folhetos debaixo da porta das casas. Portanto, se havia orçamento para passagens aéreas, acomodações em hotéis e refeições para mais de 250 mulheres representantes de Nossa América, será que não restou nada para imprimir folhetos?

Por sua vez, esta situação nos leva a seguinte conclusão: nem tudo o que reluz em redes sociais é sinônimo de realização, convocação e realidade. Vemos como a lógica da mídia ativista de ocupar virtualmente redes concentradas, majoritariamente o Facebook, se converteu em um ato de violência simbólica e discursiva, que acaba marginalizando o direito de participação das pessoas locais.

Segunda linha de ação, consequência direta da primeira: estabelecer um contradiscurso diante da fugacidade da imagem e da cobertura colaborativa imediata, invasiva e acultural que o evento se propôs usando a justificativa de incluir as mulheres que não puderam assistir (sabendo que, a três metros do evento, as mulheres do bairro não estavam participando). Em uma reunião, planejamos com a Organizadora territorial de base, Maria Eugenia Rios, incluir as mulheres de Villa Coronilla por meio de um projeto fotográfico, artístico e comunitário.

A dinâmica

Não apenas foram feitas fotografias partindo de uma proposta respeitosa que considerou seus tempos e a vontade de participar, como também elas foram convidadas a expressarem suas opiniões, gerando um diálogo aberto e reflexivo sobre suas posições como mulheres, um espaço onde puderam falar sobre o que o feminismo significava para elas, que significava ser mulher e como viviam sua essência feminina. Como homenagem, foi organizada uma exposição com essas fotos, por meio de uma intervenção artística, com o objetivo de mostrar sua relevância dentro da comunidade.

Chamou nossa atenção o fato de que a cobertura oficial do evento, “Facción” — “Ella” não fez qualquer menção dessa experiência tão significativa. Mais uma razão para seguirmos questionando: a que público são dirigidos estes eventos, o que se espera apreender e que resultados queremos alcançar?

Para concluir, durante o transcorrer do evento, ecoaram constantemente duas palavras: “dívidas pendentes”. Pois bem, as dívidas pendentes rompem pela casa e, durante quatro dias, nossa casa foi Villa Coronilla. Talvez, tenhamos nos esquecido desse pequeno grande detalhe e acreditamos estar dentro de um computador gigante conectado a uma rede virtual. Infelizmente, se não nos reconhecermos nas pessoas reais, nada do que for discutido conseguirá ser colocado em prática, nem partirá de uma base íntegra que gere e promova mudanças igualitárias para nós, AS MULHERES.

A velha política segue se disfarçando de nova, quer devorar o feminismo como um biscoito e nos deixar de fora. Portanto: levante a mão quem ainda acredita na cidadania verdadeira e em uma vida livre de violência para todas as pessoas. E que se una ao feminismo.

Referências

(1) O preconceito foi reforçado por uma companheira que conduziu o encontro e que ao final das plenárias observou que o nome do evento nunca vai mudar para “feminista”, porque “o termo feminismo afasta as pessoas”. (Estamos esperando a divulgação das gravações das plenárias finais, porque dessa forma poderemos citar o comentário textualmente e relacioná-lo a este relato).

(2) As Heroínas de Coronilla faz referência a um evento ocorrido durante a Guerra da Independência da Bolívia em 1812, na cidade de Cochabamba. O general Jose Manuel de Goyeneche atacou a cidade e foram principalmente as mulheres que fizeram barricadas no topo da colina de San Sebastian, lugar conhecido como La Coronilla, e derrotaram o exército real.

Autor: Blogueiras Feministas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. Somos feministas. A gente continua essa história do feminismo, nas ruas e na rede.