Para acabar com o dogma feminista e o pensamento único

Texto de Rachel Chagnon. Publicado originalmente com o título: “Pour en finir avec le dogme féministe et la pensée unique” no site Le Huffington Post Québec em 30/04/2015. Tradução de Liliane Gusmão para as Blogueiras Feministas.

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A partir de Elisabeth Badinter com seu livro ‘Rumo Equivocado’ (Fausse Route, 2003) passando pelas reações irrefletidas a Beyoncé, ícone pop, se autodeterminar feminista ou ainda as críticas à campanha ‘HeForShe’ lançada pela atriz Emma Watson, há uma ascensão da retidão feminista. Percebe-se o surgimento de um discurso no qual o “bom” o feminismo pode ser claramente identificado e o feminismo “ruim” expressamente julgado, parecem alegremente seguir o seu caminho nas redes sociais e veículos de comunicação de massa. Vimos, recentemente, mais uma vez em ação num post publicado no Huffington Post Québec, que criticava a iniciativa de uma marcha feminista não-mista, assim como nas reações a este artigo de opinião.

De onde vem essa necessidade urgente de dar ao feminismo uma voz que seria a única e verdadeira? Seria uma certa nostalgia de um tempo mais simples quando as questões feministas pareciam mais unificadas? Tanto quanto nos parece fácil o consenso em torno do direito ao voto ou o direito à maternidade livremente escolhida, quando o assunto é a diversificação as questões parecem se desencontrar. Ser feminista significa que se deve reconhecer necessariamente todas as reivindicações? Condenar aquelas que não tiveram o bom gosto de nos incluir em suas demandas? E são tantas demandas!

"Muito rápido. Muito furioso".  Integrantes do Femen fazem manifestação em frente à embaixada da Arábia Saudita em Berlim. O protesto é contra lei que proíbe mulheres de dirigir no país do Oriente Médio.  Outubro/2013. Foto de Markus Schreiber/AP.
“Muito rápido. Muito furioso”. Integrantes do Femen fazem manifestação em frente à embaixada da Arábia Saudita em Berlim. O protesto é contra lei que proíbe mulheres de dirigir no país do Oriente Médio. Outubro/2013. Foto de Markus Schreiber/AP.

Vivemos em um mundo onde a  luta contra as desigualdades se complica e se refina. Não há uma resposta simples à discriminação e às necessidades de algumas, enquanto alguns não necessariamente correspondem às aspirações de outros. Diante dessa complexidade que as vezes dói, é tentador responder com ataques gratuitos que só provocam o outro e, implicitamente, os convidam a rejeitar qualquer discussão. É uma escolha infeliz, ineficiente, refletindo muito mais uma incapacidade de lidar com a diversidade de que um desejo de iniciar um diálogo. Infelizes e ineficazes porque as feministas já sofrem com muitas críticas e seria bom, de vez em quando, praticar esta abertura ao diálogo que nós pedimos, e com razão, aos nossos detratores.

Temos de aprender a lidar com a variedade de feminismos. É normal e saudável que sejam debatidos, mesmo amargamente, as condições e os posicionamentos que permitirão  — é nossa esperança comum — o surgimento de uma sociedade verdadeiramente igualitária e inclusiva. Que discutamos as ações mais eficazes para alcançar nossos objetivos ou que critiquemos as iniciativas que julguemos menos bem sucedidas, o nosso objetivo deve ser aprimorar nossos esforços coletivos para torná-los mais promissores. O feminismo é, em primeiro lugar, uma proposta revolucionária que exige uma mudança radical no mundo ao nosso redor. Foi multiplicando ações e variando abordagens que a luta feminista conseguiu manter-se eficaz. Portanto, não devemos temer a complexidade, mas acolhê-la pelo que ela é: a prova de que estamos em marcha e o mundo está mudando, em parte graças a nós …

Autora

Rachel Chagnon é professor universitária e diretora do Instituto de Pesquisas e Estudos Feministas. Twitter: @r_chagnon.

Autor: Blogueiras Feministas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. Somos feministas. A gente continua essa história do feminismo, nas ruas e na rede.