Sobre teorias transmisóginas

Texto de Éris Grimm.

Quando uma mina trans não está toda trabalhada na feminilidade, dizem que ela “é lida como um homem”, chamam de invasão uma pessoa tão masculinizada querer se passar por mulher.

Quando a mesma mina trans se constitui a um ponto que é lida enquanto mulher, lhe acusam de “reforçar estereótipos de gênero”.

Sinais de gênero em banheiros. Foto de mxmstryo no Flickr em CC, alguns direitos reservados.
Sinais de gênero em banheiros. Foto de mxmstryo no Flickr em CC, alguns direitos reservados.

A teorização transmisógina funciona através desse jogo de cartas marcadas: estabelecendo regras para a definição de “mulheridade”, nas quais apenas as mulheres cisgêneras conseguem se encaixar. E, cavucam tudo o que puderem na história de uma mulher trans para provar que ela tem “manchas” de masculinidade que impediriam integralmente sua presença dentro dos espaços para mulheres.

A consciência transfeminista começa quando percebemos que este jogo de cartas marcadas está construído para nos fazer perder. E que o problema não está em nós que não sabemos jogá-lo. O problema está nas próprias regras desse jogo. Desde aí, situa-se a insistência radical do Transfeminismo em respeitar, de forma irredutível, a auto-enunciação de nossas identidades.

A questão da auto-enunciação se coloca fora de responder a pergunta sobre o que nos faz “sermos mulheres”, “sermos homens”, “sermos agêneras” ou etc. Não nos interessa jogar esse papel — que as teorizações transmisóginas o fazem — de sermos “arqueólogos” da identidade alheia.

Não funcionamos por meio uma lógica salvacionista, que acredita encontrar nas origens do “ser” as promessas da Revolução. E, seja talvez por causa dessa lógica que todas as teorizações transmisóginas carreguem algo de dogmático, de religioso, acreditando-se “profetas” mal-compreendidas sobre um novo mundo que está por vir, vociferando contra as vozes enganadoras e dissimuladas dos demônios que tentam dissuadir do caminho para a “verdadeira transformação”.

Não nos interessa o que leva alguém a “ser” mulher. Buscar o “Ser” da mulheridade implica sempre uma escolha, uma definição, que coloca a vivência de apenas um determinado grupo de pessoas como “Verdade” sobre aquela experiência e, descarta outras versões dissidentes dessa identidade como: “falsas”, “delirantes”, “mentirosas”.

Interessa-nos que, a partir do momento em que determinada pessoa toma a consciência de “ser mulher”, isso implica revisarmos e questionarmos os critérios normativos construídos acerca da mulheridade, para que esta pessoa possa ser incluída.

A teorização transmisógina implica num exercício constante de colocar catracas, fronteiras: “até aqui, você não pode se dizer mulher. A partir daqui, você pode”.

A resistência transfeminista existe para construir outras formas, outros sentidos de mulheridade, que façam sentido a todas que se identificam com esse espectro, independente da origem, independente do que lhes faz “ser”.

Não existe como construir uma resistência real ao patriarcado enquanto mantivermos teorizações transmisóginas sobre como mulheres podem ou devem ser. Há que se desmontar esse jogo. Há que se desmontar estas regras.

Como disse Audre Lorde: “As ferramentas do mestre nunca desmontarão a casa do mestre”.

Autora

Éris Grimm é graduada em Gêmeos, com mestrado em Aquário, doutoranda em Peixes, pelo Programa de Sobrevivência ao Saturno em Escorpião. Lésbixa trrransmutante, pornoterrorista em potencial. Aprendiz de dançarina e massoterapia na escola da auto-gestão. Esse texto foi originalmente publicado em seu perfil no Facebook no dia 16/05/2015.

Autor: Autoras Convidadas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. A gente continua essa história do Feminismo nas ruas e na rede.