Tornando a Ciência da Computação mais convidativa: um olhar sobre o que tem funcionado

Texto de Claire Cain Miller. Publicado originalmente com o título: ‘Making Computer Science More Inviting: A Look at What Works’ no blog TheUpshot do jornal The New York Times em 21/05/2015. Tradução de Bia Cardoso para as Blogueiras Feministas.

Uma aula introdutória de Ciência da Computação aguçou a curiosidade de Sonja Khan o suficiente para que ela se formasse na área e buscasse uma pós-graduação. Foto de David Ryder/New York Times.
Uma aula introdutória de Ciência da Computação aguçou a curiosidade de Sonja Khan o suficiente para que ela se formasse na área e buscasse uma pós-graduação. Foto de David Ryder/New York Times.

Quando Sonja Khan começou a faculdade, ela nunca pensou em estudar ciência da computação. Porém, quando ouviu de amigos que as aulas iniciais eram boas, ela decidiu dar uma chance — e acabou se especializando na área.

Quatro anos mais tarde, ela acaba de se formar em ciência da computação, está em busca de um mestrado e vai fazer um estágio de verão no Facebook.

“Eu não sabia nada sobre essa área antes; eu nunca tinha pensado em estudá-la”, disse ela. “Eu me inscrevi nas aulas muito mais para fazer algo extravagante e acabei gostando muito”.

A história da jovem Khan parece um sonho para as universidades e empresas de tecnologia — onde, em geral, apenas 15% dos diplomados em ciências da computação e técnicos são mulheres. A indústria tem sido pressionada para recrutar mais mulheres. Porém, a difícil questão é como encorajar mais mulheres a seguirem esse caminho, como fez Khan.

Algumas faculdades têm feito progressos significativos, incluindo a Universidade de Washington, onde Khan é estudante. Seus métodos oferecem lições para outras faculdades e empresas que esperam aumentar o número de mulheres em suas áreas onde elas permanecem sub-representadas.

Por trás dos bastidores de muitos dos esforços destas faculdades há uma organização chamada National Center for Women & Information Technology (Centro Nacional para Mulheres e Informação Tecnológica). Essa organização oferece consultoria às instituições sobre como alterarem seus programas educacionais para recrutar e reter mulheres na área. Recentemente, o Centro concedeu a Universidade de Washington seu primeiro prêmio, patrocinado pelo Google, para as faculdades que obtiveram sucesso nesse esforço. O Centro espera dar esse prêmio anualmente.

Ano passado, 30% das pessoas formadas como bacharel em ciência da computação na Universidade de Washington eram mulheres. Ed Lazowska, responsável pela área de ciência da computação e engenharia na universidade, disse que essa conquista “não é suficiente”. Ainda assim, é o dobro da média nacional e está acima dos 20% de formandos em 2010 e dos 15% em 2005.

A universidade fez três grandes ações para diversificar sua base de alunos, segundo Lazowska. A primeira foi fazer com que as jovens mulheres se interessem por ciência da computação no início do curso, através da capacitação de professores do ensino fundamental e médio e informação para alunos sobre computação por meio de workshops e visitas de campo. Essas ações têm grandes efeitos, especialmente nas instituições educacionais do Estado que recebem alunos do ensino médio de escolas nas proximidades.

Ainda assim, como no caso de Khan, muitos estudantes, especialmente as garotas, não tem acesso a essas informações antes de chegar à faculdade.

É por isso que a universidade decidiu fazer mudanças em seus cursos introdutórios há alguns anos atrás. O objetivo era tornar a ciência da computação mais acessível e convidativa para uma ampla gama de pessoas, disse Lazowska. Os cursos mostraram as alunas que elas podem ter sucesso por meio do trabalho duro e que não é necessário nenhum conhecimento obscuro ou um dom inato.

O novo programa inclui reuniões de pequenos grupos com membros do corpo docente, aulas de programação de software que se conectam à filosofia ou biologia e uma ênfase em aplicações no mundo real. Quarenta porcento dos professores assistentes são mulheres e há um seminário sobre as mulheres na computação.

A Universidade de Washington também tenta estimular um sentimento de comunidade entre as mulheres que estudam o tema. Ela envia estudantes a empresas de tecnologia ou conferências para mulheres na tecnologia com objetivo de que conheçam e troquem informações com outras mulheres da área.

Para Khan, houve vários eventos que a impulsionaram a continuar sua especialização. Um pequeno mas decisivo aconteceu logo no início, ela conta: após ter sua primeira aula introdutória, o professor lhe enviou um email incentivando que ela fosse na próxima aula.

O seminário sobre as mulheres na computação lhe deu a oportunidade de discutir algumas de suas inseguranças em relação a área, disse ela. E, ainda como caloura, ela participou de um hackathon com amigos — mesmo estando receosa em não ter qualificações para participar — e conquistou o segundo lugar.

“Antes, eu meio que pensava na ciência da computação como uma área muito isolada, onde eu trabalharia apenas comigo mesma o dia inteiro, mas na verdade você tem que trabalhar com outras pessoas e então você conhece ideias diferentes”, disse Khan.

Os esforços de sua universidade refletem o que outras universidades têm tentado fazer. A Universidade de Indiana, que usou dados estatísticos para mapear ações e assim aumentar a matrícula de mulheres, ganhou o segundo lugar no prêmio concedido pelo National Center for Women & Information Technology. Assim também fez a Universidade de Michigan, que abriu um laboratório para que os alunos possam trabalhar conjuntamente em exercícios de computação.

“Não é só a mentalidade do “trabalhe duro ou caia fora”, o que na minha humilde opinião tem estado presente em demasia no meio educacional da computação”, disse Lucy Sanders, co-fundadora e presidente executiva do Centro.

A faculdade Harvey Mudd aumentou sua cota de mulheres estudando ciência da computação propondo ações como incluir fotos de mulheres em panfletos distribuídos nas escolas e contratando estudantes do sexo feminino para fazer visitas guiadas pelo campus. A universidade Carnegie Mellon começou um programa de orientação formal para as mulheres que estudam o assunto, já que muitas vezes elas são excluídas das redes informais de conhecimento pelos alunos do sexo masculino.

O foco no recrutamento e retenção de mulheres pode aumentar seus números mas também segregá-las, dizem alguns críticos dos programas que mudam currículos para atrair mais mulheres ou oferecer aulas especificamente para mulheres. As estudantes muitas vezes alegam que querem ser vistas como cientistas da computação, não uma cientista da computação do sexo feminino.

Porém, Sanders diz que há a necessidade de uma revisão completa no currículo de ciência da computação americana, não apenas para as mulheres.

“Eu particularmente não acho que o currículo de ciência da computação existente tem sido eficaz para qualquer pessoa”, diz ela. “Ele precisa ser situado em um mundo real ou num contexto significativo para que as pessoas entendam porque elas estão fazendo isso. Isso não significa ser menos rigoroso — os estudantes aprendem as mesmas coisas mas de maneiras diferentes”.

Autora

Claire Cain Miller escreve para o blog The Upshot do The New York Times sobre política, economia e vida cotidiana. Cobre gênero, trabalho e família, bem como tecnologia e a forma como isso muda nossas vidas. Nasceu em Portland e vive com sua família em San Francisco. Twitter: @clairecm.

Autor: Blogueiras Feministas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. Somos feministas. A gente continua essa história do feminismo, nas ruas e na rede.