KD Mulheres: escritoras, mercado e visibilidade

Texto de Vanessa Rodrigues para as Blogueiras Feministas.

“Queria dizer que sou a favor de todas as lutas igualitárias. Mas, vocês não acham que deveria ter um homem nessa mesa, já que representamos a maioria, pra abrir um pouco mais a conversa?”. Taí uma pergunta que sempre aparece nos debates em que há somente presença de mulheres na mesa. Ocupamos tão poucos espaços de fala que mesmo naqueles com recorte de gênero há quem sugira que as sexistas somos nós!

Essa, por exemplo, surgiu no debate sobre mulher na literatura realizado na Flip – Festa Literária Internacional de Paraty por Martha Lopes e Laura Folgueira, criadoras do movimento KD Mulheres?, que nasceu na Casa de Lua, ONG que ajudamos a criar e da qual sou uma das diretoras. Laura é jornalista, tradutora e criadora da Kayá Editora, que publica literatura produzida por mulheres. Martha é jornalista, produtora de conteúdo, poeta e ficcionista, autora do livro de poesias “Em carne viva”.

O debate aconteceu no dia 4 de julho e contou ainda com a cantora e compositora Karina Buhr, que acaba de lançar “Desperdiçando rima”, seu primeiro livro de poesias e crônicas. A mediação foi feita por Belita Cermelli, uma das diretoras da Flip.

Mesa KD Mulheres? na Flip 2015. Da esquerda para direita: Belita Cermelli, Karina Buhr, Martha Lopes e Laura Folgueira. Foto de Vanessa Rodrigues.

A frase mencionada, felizmente, foi a única com este viés e a plateia lotada me deu a sensação que o assunto da presença de mulheres na literatura está mesmo na pauta. Se em 2014 o KD Mulheres? ocupou a praça pública de Paraty com seu questionamento, agora foi a Câmara Municipal da cidade que abrigou um público muito participativo e interessado em falar do tema. E, desta vez, dentro da programação oficial do evento.

Aliás, eu já vinha animada por ter ido, no dia anterior, a um outro debate que contou também com a participação de Karina, desta vez sobre palavras e ilustração. Pelo menos 1/3 da conversa acabou caindo em gênero, mulheres, literatura e feminismo.

Já no debate do KD Mulheres? uma das primeiras ponderações veio de uma moça que questionou o comentário da curadoria da Flip para quem a pouca presença de escritoras mulheres na Festa se deve pela recusa delas aos convites supostamente feitos. Essa mesma moça sugeriu, então, que a organização da Flip levantasse as razões das recusas e tentasse minimizá-las.

Aliás, devo comentar que até as pedras de Paraty estão curiosas pra saber quantas escritoras foram convidadas e recusaram e quem são elas. Porque, né.

Mulheres no comando

O KD Mulheres? surgiu em 2014 a partir da constatação de que menos de 15% das mesas principais da Flip naquele ano contavam com a presença de escritoras. Das 13 edições realizadas até hoje, apenas uma escritora foi a homenageada: Clarice Lispector. Em 2015, pouca coisa mudou e essa porcentagem praticamente não subiu. O escritor homenageado foi Mario de Andrade.

Laura Folgueira defendeu que é fundamental ter mais mulheres nos postos de comando das editoras e nas curadorias das festas e feiras literárias, a começar pela própria Flip. Ela acredita que, com isso, naturalmente um equilíbrio pode ocorrer, com mais mulheres sendo publicadas e visibilizadas.

Lis Calder, criadora da Flip e que estava na plateia no debate, também concorda, recordando que há 30 anos já fazia essa mesma pergunta: cadê mulheres na literatura? Uma das ações que ela criou foi o Orange Prize, atualmente The Baileys Women’s Prize for Fiction, que premia somente escritoras.

Claro que me perguntei, e me pergunto até agora, qual foi o hiato que fez com esse espírito tenha se perdido da Festa brasileira que ela mesma ajudou a criar.

Fanzine KD Mulheres?
Fanzine KD Mulheres? Imagem: divulgação.

Laura relatou que a cadeia que culmina com poucas escritoras recebendo visibilidade e/ou sendo publicadas está calcada em vários nós, começando com a insegurança da mulher em mostrar seus escritos e se assumir escritora (mulheres são mais cobradas que os homens? A pouca representatividade influencia essa falta de coragem?), passando pela restrição das mulheres a determinados nichos literários e culminando com menos títulos de mulheres oferecidos no mercado e, consequentemente, com menos prêmios, menos resenhas, etc.

“Olhe para a sua estante: quantos livros escritos por homens e quantos livros escritos por mulheres você tem?”, provocou Martha Lopes, que também ressaltou que a literatura produzida por escritoras negras é mais invisibilizada ainda. Aliás, um dos dados que as duas levantaram é que mais de 90% da literatura produzida no Brasil é de autores brancos, homens, em sua maioria.

Isso quando não se coloca em dúvida a própria capacidade da autora de realizar determinada obra. Karina Buhr contou que já ouviu algumas vezes se ela tinha mesmo escrito seu livro sozinha ou se tinha contado com a ajuda de um ghostwirter!

Há ainda o fato de que a literatura produzida por mulheres costuma ficar restrita à nomenclatura única de “literatura feminina”, o que pode acabar essencializando a produção e criando uma categoria que não observa as especificidades literárias de cada uma, ao passo que a literatura produzida por homens está separada por ficção, prosa, poesia, novela, etc.

Devo mencionar que também vi Aline Valek, escritora de ficção científica e ilustradora, numa mesa incrível sobre esse mesmo assunto promovida pela editora Rocco. No texto No Caminho das Pedras – Mulheres e Escritoras na Flip, ela conta como foi a experiência.

Outro fato que celebramos bastante é que o livro mais vendido da Flip foi “Jóquei”, da poeta portuguesa Matilde Campilho.

Como dá pra perceber, há coisas a comemorar, mas ainda temos muitas perguntas a fazer, situações a questionar e  muitas ações assertivas a realizar e que podem ajudar a desatar os nós dessa cadeia. O KD Mulheres?, por exemplo, já está organizando uma série de eventos de formação para mulheres que querem escrever e publicar.

Só espero que na próxima edição da Flip e em outras feiras e festas literárias tenhamos uma presença mais paritária.

O KD Mulheres? produziu uma fanzine com textos e ilustrações somente de mulheres. Tem até uma prosa minha. Em breve terá uma versão online pra quem quiser dar uma lida nos textos. Por enquanto, dá pra comprar uma edição impressa pelo email: kdmulheres@gmail.com.

Autora

Vanessa Rodrigues é jornalista, co-fundadora da Casa de Lua e gostosa. Atualmente escreve no Brasil Post e no Biscate Social Club. Também pode ser encontrada no Facebook e Twitter.

+ Sobre o assunto: #KDMulheres: questionamento e ocupação. Por Vanessa Rodrigues no Biscate Social Club.

Autor: Autoras Convidadas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. A gente continua essa história do Feminismo nas ruas e na rede.