Sobre um dia de trabalho e o que podemos fazer contra o machismo

Texto de Emilia Hamam de Figueiredo para as Blogueiras Feministas.

Ao contrário do que possa parecer, o quadro abaixo não foi tirado de um blog pseudo-satírico-de-conteúdo-machista. Está na parede de uma sala usada para fins recreativos, pela Associação de Empregadas e Empregados em uma empresa real, situada na cidade do Rio de Janeiro.

Foto de Emilia Hamam de Figueiredo.
Foto de Emilia Hamam de Figueiredo.

Nessa mesma empresa, em um dia comum de trabalho, onde todos se cumprimentam com aparente cordialidade, ao entrar no elevador ouço um representante “Alfa” filosofar que “a boa de hoje é a baranga de amanhã”. Me limito a fazer cara de poucos amigos e engolir (“se estivesse na rua, esse cara ia ouvir”, penso).

Já na minha sala de trabalho, abro o correio eletrônico corporativo e estranho ao ler na caixa de entrada um e-mail cujo título é: “A destruição da família”. O remetente, trabalhador na mesma empresa que eu, desconheço. No corpo do e-mail vinha escrito que “na região da grande Porto Alegre, muitos pais tiraram seus filhos da escola e contrataram professores particulares para dar aulas em casa, por medo de colocar seus filhos em escolas que dizem que irão EDUCAR mas que na realidade estão simplesmente transformando seus filhos, netos, sobrinhos etc em verdadeiros vilões de uma educação imoral (sic)”. Em anexo, um vídeo de conteúdo com forte tendência fundamentalista, que deturpa de maneira vil e antiética os conceitos de gênero e transexualidade, baseado em teorias preconceituosas, disseminadoras de discriminação. Dessa vez levei o assunto à Administração da empresa, que prometeu tomar as providências cabíveis.

Na empresa onde trabalho, de ano em ano, no dia das mães e no dia das mulheres, muitas trabalhadoras reivindicam rosas e bombons. A Associação representante das empregadas e dos empregados distribui flores e mensagens carinhosas, daquelas que reforçam os estereótipos de gênero, um dos alvos de nossa luta constante.

Aqui na empresa, no entanto, existe um grupo de mulheres e homens que realiza um trabalho árduo, mas quase invisível, muitas vezes desprezado, buscando incentivar uma mudança substancial nas relações de trabalho, eliminar todo tipo de discriminação, garantindo a livre expressão das diversidades e sua representação apropriada no mundo do trabalho. Esse grupo de trabalhadoras e trabalhadores atua nos Comitês Nacional e Regionais Pró Equidade de Gênero e Raça, que são parte do Programa Pró Equidade de Gênero e Raça, conduzido pela Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República(1).

Lutamos diariamente pela diminuição das desigualdades de gênero e raça no âmbito do trabalho, tarefa nada fácil quando, antes de tudo, precisamos transformar  a mentalidade de homens e mulheres da empresa, ainda, em sua maioria com fortes raízes na sociedade patriarcal.

Travamos batalhas diárias contra esses pequenos golpes, como os acima narrados, que tanto afetam as lutas a favor da diversidade e da igualdade. Tentamos responder com números, estatísticas, estudos e muita paciência aos trabalhadores e trabalhadoras que não só desprezam, como constroem críticas negativas ao trabalho dos Comitês.

Para alguns colegas, trata-se de um “clube da Luluzinha”. Para outros, grupos de feministas, histéricas e mal amadas, reforçando o velho estereótipo, os velhos clichês.

Às trabalhadoras e aos trabalhadores que  se interessam em entender os motivos pelos quais lutamos, fazemos tornar visíveis, por exemplo,  os tetos de vidro que impedem a ascensão das mulheres aos cargos com maior poder de decisão e confiança, ainda que as estatísticas apontem maior ou igual grau de escolaridade destas em relação aos homens. Diferença esta que se torna mais gritante no caso das mulheres negras e pardas.

Mas ao contrário do que possa parecer, quanto maior o desafio, maior o estímulo para continuarmos travando nossas batalhas contra o preconceito, a discriminação e a favor da igualdade.

Continuemos na luta!

Referência

Ministra Eleonora Menicucci, in “ Trabalho precisa ser também expressão dos sujeitos e elo social”. Programa Pró Equidade de Gênero e Raça – 4ª edição – Práticas de Igualdade (Ações de Destaque na 4ª Edição).

Autora

Emilia Hamam de Figueiredo é advogada, feminista e membro do Comitê Regional Pró Equidade de Gênero e Raça de empresa pública situada da cidade do Rio de Janeiro.

Autor: Autoras Convidadas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. A gente continua essa história do Feminismo nas ruas e na rede.