O machismo de quem se diz defensor dos direitos humanos

Texto de O. L. para as Blogueiras Feministas.

Levei um tempo pra escrever isso. Mas reencontrar recentemente a pessoa que me abusou fez as coisas voltarem à tona. Como temos amigos em comum, sempre evito situações em que possa haver um encontro, mas como eu tinha esquecido que esse ser desprezível existe, a lua me traiu e nos encontramos num bar.

Vamos aos fatos. Era uma sexta feira como muitas outras: bar depois do trabalho com os colegas, de todas as hierarquias. Todo mundo tomando umas e outras, clima super festivo. Tranquilidade total. Éramos uns 20 colegas bebendo noite adentro.

Deu a hora, os colegas com carro deram carona aos demais. Fui num carro com um colega que eu estava pegando e mais duas pessoas que ocupavam cargos de chefia, mas que até então eram amigáveis. Até bebemos cerveja junto! Viva a esquerda anarquista! É a subversão da hierarquia, certo? Errado. O motorista era meu chefe e foi deixando um a um em suas casas. Me deixou por último. Parou o carro um pouco a frente do meu prédio e começou uma “pregação” sobre amor livre. Imagino que por ele ser casado e por ter me visto pegando meu colega.

Como eu estava bêbada, só lembro dele falar que a esposa dele não ligava e que eu também não deveria ligar. Lembro de falar algo como “isso não faz diferença pra mim se não é da minha conta Não quero nada. Boa noite”. Repentinamente ele mete as mãos nos meus peitos. Eu reajo, até porque doeu. Tinha pouco tempo que eu tinha colocado silicone e os peitos ainda estavam sensíveis. Não satisfeito, ele me agarra e me beija. Nojo era tudo o que sentia. Consegui sair, cheguei em casa, apaguei. Não pensei muito no assunto.

Semana seguinte, volta ao trabalho, meio receosa. Foram dias e dias ouvindo “precisamos terminar aquele assunto”. Obviamente, não cedi. E isso teve um preço. Dia a pós dia meu trabalho foi sendo colocado em xeque. Nas reuniões em que eu liderava, cujos assuntos eram de minha expertise, eu era sistematicamente questionada, em tom agressivo e até jocoso. Mais adiante tive um corte no meu salário de 50%. Pedi demissão. Não dava mais.

Isso tudo me causa extrema repulsa. Mas esse nojo tem um plus quando vem de um “defensor de direitos humanos”. A pessoa pode defender os direitos de muita gente, desde que não interfira no que ela achar que seja direito dela. Numa tacada só esse sujeito violou meu corpo, minha dignidade e meus direitos trabalhistas. Foi muito doloroso depois ouvir de colegas que ele “sempre faz isso” e que quem cede, ganha mais. Foi terrível perceber que outras pessoas ali, que dizem igualmente ser defensores de direitos humanos, coadunem com isso.

Infelizmente, não posso denunciar a pessoa porque não tenho provas. Também não sou a favor do puro e simples escracho, até porque isso abriria uma brecha para que eu fosse mais uma vez humilhada, ao ser processada por calunia, injuria ou difamação.

Então, por que escrever isso? Para traduzir em miúdos que os direitos humanos são muitos. E que não raro homens, “defensores de direitos humanos”, só o são até ver um rabo de saia e achar que você está pedindo, está disponível.

Ser defensor de direitos humanos é muito mais do que estar presente em Marchas, receber dinheiro público para realizar projetos em favela e tirar foto com uns pretinhos. Ser defensor de direitos humanos é ter empatia e ter a capacidade de:

Sendo homem, desconstruir o machismo;

Sendo mulher branca, desconstruir o racismo e reconhecer as peculiaridades do feminismo negro;

Sendo cis, desconstruir sua cisgeneridade;

Sendo hétero, desconstruir sua heteronormatividade;

Sendo gay, desconstruir sua transfobia.

Todos temos que desconstruir algo. Mas tem aqueles que não querem, exatamente porque tiram proveito de seu privilégio. E eles estão por toda parte, algumas vezes sob pele de cordeiro.

Imagem da Campanha #WhoWillYouHelp, do governo de Ontario, Canadá. A ideia da campanha é mostrar que, enquanto ficamos calados diante da violência contra a mulher, seja ela física ou psicológica, nós estamos ajudando o agressor. Para mostrar isso, o vídeo coloca o espectador em vários cenários em que ele atua como uma testemunha de situações de assédio ou agressão.
Imagem da Campanha #WhoWillYouHelp, do governo de Ontario, Canadá. A ideia da campanha é mostrar que, enquanto ficamos calados diante da violência contra a mulher, seja ela física ou psicológica, nós estamos ajudando o agressor. Para mostrar isso, o vídeo coloca o espectador em vários cenários em que ele atua como uma testemunha de situações de assédio ou agressão.

Autora

O.L. prefere não se identificar. Decidiu compartilhar esse relato porque acredita que outras mulheres também passam pela mesma situação e porque é preciso criticar a seletividade do machismo de quem diz ser defensor dos Direitos Humanos, além do corporativismo das organizações.

Autor: Autoras Convidadas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. A gente continua essa história do Feminismo nas ruas e na rede.