Assédio, cultura do estupro e adolescentes feministas

Texto de Vanessa Rodrigues para as Blogueiras Feministas.

Aviso: Há o relato de uma situação de abuso sexual vivida por mim quando criança.

Eu tinha 4, 5 anos e vestia o uniforme do jardim de infância: um vestido tipo o das personagens da Turma da Mônica só que em azul, com uma margarida e meu nome bordados. Ele já tinha uns 17, 18 anos. Morava perto da casa da minha avó, que na verdade era perto da casa dos meus pais também. Era meio que um parente, inclusive.

Estava justamente sentada na porta da casa da minha avó, que eu ficava lá a partir da hora do almoço, depois de chegar da escola, quando ele se aproximou. Na noite anterior, eu tinha ficado até tarde ajudando minha mãe a decorar latinhas de refrigerante que, forradas com papel camurça e decoradas com olhinhos e orelhas, viravam fofíssimos porta-lápis que ela daria a seus alunos do ensino inicial. Lembro-me da minha euforia em ajudá-la nisso. E de poder ficar acordada até depois das dez. E sei que, por causa disso, era outubro, na semana do dia das crianças.

Ele disse que minha mãe tinha pedido pra que eu o acompanhasse até minha casa pra pegar as latinhas, que ela não tinha levado. Achei estranho, porque tive a impressão de vê-la saindo com as latinhas numa sacola. Mas, achei que fazia sentido também. “Como ele poderia saber das latinhas?”, pensei. Acho que pensei. Enfim. Eu tinha 5 anos. Fui com ele. Chegamos lá e perguntei se ele tinha a chave. Ele respondeu que não. Demos a volta pelo corredor que levava ao quintal e tentamos abrir por lá. Tudo trancado. Foi aí que ele me mandou levantar o vestido. Recusei. Disso me lembro muito bem. Assim como consigo visualizar a cena, que em minha lembrança tem cor. Meu vestido azul, ele de calção amarelo, sem camiseta. O quintal marrom, de terra. A porta da cozinha cinza, descascada.

Mas, a partir desse momento, já não me lembro de mais nada. Sei, com certeza, que o estupro acabou não ocorrendo, mas não me lembro como saímos de lá. Sei também que contei a história à minha mãe naquele mesmo dia, porque imediatamente fomos as duas até a casa dele, no lusco-fusco do fim da tarde, quase noite. E é quando a memória volta. Porque me lembro claramente da minha mãe conversando com a mãe dele, nervosa, fazendo ameaças de chamar a polícia se ele se aproximasse de mim de novo. A mãe dele se comprometeu a falar com ele e ele mesmo não apareceu por perto.

Minha mãe me pediu pra não contar ao meu pai, porque temia muito sua reação. Na verdade, no fundo, acho que eu também. Talvez ele fizesse algo bem grave se ficasse sabendo. Uma vez, anos mais tarde (eu já com uns 11, 12), quando ele se deu conta que eu tinha sido abusada na rua sem que eu precisasse dizer nada, apenas pela expressão pálida do meu rosto ao entrar em casa, saiu como um doido atrás do cara, e eu sentindo um misto de medo e vontade de ele encontrar e socar o desgraçado!

A gente sente isso, né? Acho normal sentir. Dá vontade de socar, matar, querer que o abusador sofra algo parecido com a violência que perpetrou. Faz parte da catarses mental, creio. Mas, a gente também entende que nosso imperativo moral nos impede de nos transformar na pessoa violenta dessa sociedade violenta que tanto queremos desconstruir. E apoiamos responsabilizações legais e justas. E pedimos por educação, educação, educação. E acreditamos que a crítica precisa ser no macro, que o investimento precisa ser em mudar a estrutura.

A violência contra mulheres e a campanha #PrimeiroAssedio

Nos últimos dias, o assédio vivido pela menina de 12 anos participante do MasterChef Júnior me fez reviver essa e muitas outras histórias, pois foi um dos episódios mais nojentos que já vi acontecer na web. Mesmo não surpreendendo, porque, enfim, sofrer assédio desde novinha é um clichê na vida de muitas de nós, não fica menos aterrorizante. Especialmente porque sai das ruas, em geral restrito aos nossos ouvidos, e vai pras redes sociais, com toda sua amplitude e replicabilidade.

Aliás, isso acabou estimulando uma campanha criada pela Think Olga com a hashtag #PrimeiroAssedio, gerando mais de 80 mil tweets, com relatos muito tristes e dolorosos. Tenho várias lembranças que me desconcertam até hoje. Uma vez, dois caras ficaram andando sempre alguns passos atrás de mim tecendo comentários sobre o quanto eu era “selada”. Ou seja, que o formato de minha bunda permitiria que eles me colocassem numa sela, me pusessem de quatro e me montassem enquanto metiam. Como uma mula. O racismo disso só entendo hoje. Mas, a desumanização, esta eu senti desde o primeiro segundo.

Eu tinha 11 anos.

Junta isso com a aprovação pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara dos Deputados do PL 5069/2013, de autoria de Eduardo Cunha, que dificulta que mulheres vítimas de abuso sexual e estupro acessem o atendimento emergencial do SUS, já que para isso será necessário um exame no IML, a gente fica assim, se sentindo um lixo mesmo, dentro dessa estrutura que estimula e justifica violência sexual e que culpabiliza mulheres vítimas dessa violência.

Palestra sobre machismo e racismo em escola do ensino médio. Foto de Cobogó - Curadoria de Inteligência Criativa.
Palestra sobre machismo e racismo em escola do ensino médio. Foto de Cobogó – Curadoria de Inteligência Criativa no Facebook.

Pela Casa de Lua, ONG que dirijo, tenho andado em escolas de ensinos fundamental e médio, tanto públicas quanto particulares, participando de conversas e debates sobre gênero, principalmente depois que o tema foi banido do Plano Municipal de Educação da cidade de São Paulo.

Inclusive, nos locais que fui, sempre foram as alunas que nos convidaram e organizaram o evento. Aliás, nessas escolas e algumas outras que tomei conhecimento, vi ou soube de estudantes muito jovens se organizando em coletivos feministas ou na perspectiva do feminismo. Os temas do assédio e cultura do estupro são os mais urgentes. Dizem respeito à vida cotidiana, que elas percebem desde cedo, e têm relação direta com o direito de ir e vir, com a liberdade, com vivências e experiências de desejo e sexualidade que se confundem nesse emaranhado perverso que coloca sexo, tesão, descobertas e violência sexual num mesmo balaio.

Na escola municipal onde meu filho caçula estuda, as meninas se organizaram e convocaram colegas, professores e gestores pruma assembleia no pátio. Uma de suas principais demandas é o direito de usar a roupa que quiserem sem o risco de assédio. Vários depoimentos surgiram, inclusive de meninas muito jovens, ao redor dos 9 anos, que disseram no microfone que não querem mais ser “xingadas” de gostosas, o que me parece reiterar uma possível mudança de narrativa muito expressiva.

O que isso terá de impacto ainda não sei. Acredito que ainda não seja possível mensurar as implicações nos formatos de novos agrupamentos de mulheres, principalmente dessa faixa etária, ou nos relacionamentos e nas maneiras de lidar com o próprio corpo e com o outro. Ou nos jeitos de reagir ao machismo e mesmo na semântica e nos novos significados e juízos de valor que algumas palavras vão recebendo e de seus contextos.

Pode até ser que se acirre a misandria. Inclusive porque quanto menos passivas elas são, mais defensivos e agressivos eles podem ficar. E nesse bem bolado, muita ferocidade pode rolar. Ao mesmo tempo, vi meninas dizendo que sem os colegas homens o caminho fica muito mais complicado e que elas querem que eles se envolvam nas conversas sobre gênero. Uma delas me disse que falar de gênero é falar de redução da maioridade penal, porque impacta expressivamente a vida dos meninos! O caso é que tudo isso me parece novo, enorme, instigante e quero muito mais estar junto e perto delas do que apenas criticando possíveis radicalismos. Talvez, sejam inevitáveis em alguma medida e podem ser modulados e problematizados com o tempo.

Sou de uma geração educada a se calar numa situação de assédio ou abuso. Ou a enxergar como elogio. Sublimei por anos a história das latinhas e mesmo com minha mãe só voltamos a tocar no assunto há pouco tempo. Quando meu colégio fez uma reunião com as meninas da minha sala e nos responsabilizou pelo comportamento abusivo dos meninos, nós nos calamos e aquiescemos. Não soubemos responder e dizer que a culpa não era nossa. Não tínhamos repertório ou empoderamento pra isso. Assim como, com 16 anos, eu não teria coragem de subir no palco do pátio da escola e na frente de quase 200 colegas gritar que Top 10 Vadias é absurdo, que quem faz isso não tem respeito, e que é uma enorme violência que uma menina sofre na escola. Vi acontecer na minha frente, numa escola pública em Parelheiros, no extremo sul da Grande São Paulo, não tem nem 5 dias.

Mais tarde, vi essa mesma adolescente respondendo pruma colega que disse que “as meninas precisam se dar ao respeito” que seu corpo não é mercadoria pra alguém dizer quanto que vale ou não. “Se eu me esfrego com um monte de menino no muro da escola, isso não é da conta de ninguém e não diz que eu valho menos do que qualquer outra pessoa!”. Nesta escola, a organização se deu pelo grêmio, que só se consolidou mesmo quando elas assumiram. E por ser tocado por alunas, o olhar feminista já está no DNA. Algumas delas, inclusive, vêm com um ativismo interseccional empírico, porque já participam de outros movimentos sociais já existentes na região, como coletivos negros formado por mulheres. Na escola, se agruparam com colegas brancas e não-brancas, tentando construir juntas um jeito próprio de atuação.

E não vi, até agora, um discurso vitimista. Vi foi valentia.

Sinto que elas estão ávidas e urgentes por mudanças e muito mais informadas do que muitas de nós na mesma idade. E esta percepção não é só minha. Gente que trabalha com adolescentes também está vendo isso acontecer. E elas não querem mais ficar caladas enquanto são encoxadas no transporte público ou são “xingadas” de gostosa por desconhecidos na rua ou quando são obrigadas pela própria coordenação da escola a morrer de calor porque somente os meninos podem usar shorts no verão. E tampouco querem ser coibidas de expressar e vivenciar sua sexualidade — quando elas quiserem e não quando alguém decide sexualizá-las — porque isso pode representar convite pra estupro.

Aliás, o assunto é tão urgente que — a despeito de gênero, racismo e orientação sexual terem sido retirados dos Planos de Educação — no ENEM 2015, 7 milhões de estudantes tiveram que pensar sobre feminismo e violência contra a mulher. A prova contou com uma questão sobre a filósofa feminista Simone de Beauvoir e o tema da redação sobre violência contra mulher, com jovens usando suas próprias vivências como base para o texto.

Elas estão reagindo, com as ferramentas que dispõem. E com a mesma disposição, em alguns momentos bem belicosa, que muitas vezes o mundo age com elas também. E me interessa bastante acompanhar esse movimento e o processo. Junto com elas, se elas me quiserem por perto.

Autora

Vanessa Rodrigues é jornalista e co-fundadora da Casa de Lua. Atualmente escreve no Brasil Post e no Biscate Social Club. Também pode ser encontrada no Facebook e Twitter.

Autor: Autoras Convidadas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. A gente continua essa história do Feminismo nas ruas e na rede.