Por que ser feminista?     

Texto de Laura Guedes de Souza para as Blogueiras Feministas.

Fui questionada por um amigo muito querido a respeito do feminismo. Dentre tantas indagações, ele estava sinceramente indignado por minha escolha de defender as mulheres quando no mundo também existem homens que sofrem. No meio da discussão, ele achou meu pensamento “demais” para ser levado em consideração e eu continuei falando sozinha. Então, acabei refletindo sobre o porquê dessa minha escolha de adotar o feminismo como ideologia e “selecionar” as mulheres como foco da minha luta.

Marcha das Mulheres Contra Cunha. Rio de Janeiro, 2015. Foto de Mídia NINJA.
Marcha das Mulheres Contra Cunha. Rio de Janeiro, 2015. Foto de Mídia NINJA.

Primeiramente, penso em um mundo melhor, um mundo mais justo e igualitário para todas as pessoas. Porém, sabemos que há os conflitos sociais e as desigualdades que permeiam a sociedade. Gosto muito de pensar num trecho do livro “A águia e a galinha” de Leonardo Boff para pensar na solidariedade, na empatia, no sentir a dor do outro como se fosse sua: “Cada sofrimento humano, em qualquer parte do mundo, cada lágrima chorada em qualquer rosto, cada ferida aberta em qualquer corpo é como se fosse uma ferida no meu próprio corpo, uma lágrima dos meus próprios olhos e um sofrimento do meu próprio coração”.

É com esse sentimento de preocupação com o outro que me vejo nos movimentos de luta. Porém, a realidade é dolorosa e muitas vezes as pessoas lutam pelo básico, pela sobrevivência. Todos os dias vemos violações de direitos humanos, especialmente de grupos minoritários que tem pouca representação social e sofrem com o preconceito e a exclusão. Os indígenas estão sendo exterminados, estamos tirando sua cultura, suas terras e suas esperanças. Negras e negros cotidianamente sofrem com a herança escravagista. E, até mesmo as crianças estão abandonadas, num país em que há tanta defesa da vida dos fetos que não nasceram.

Dentre tanta gente que sofre, poderia escrever um texto somente sobre eles, mas por que escolhi defender mulheres? A melhor resposta que encontrei foi: porque eu quis. Sim, simplesmente isso, por uma questão de vontade pessoal e porque tenho liberdade para fazer. A partir disso, percebi que querer defender mulheres já é um obstáculo que eu, mulher, preciso enfrentar. Porque o inconsciente coletivo se estabeleceu no sentido de que eu não poderia escolher pelo que lutar, em que acreditar, o que vestir, com quem ficar, o que falar.

Eu escolhi defender as mulheres porque minha luta não anula as outras, que são tão importantes quanto. O que eu vivo dia após dia é um poder legislativo que regula minha roupa e meu útero. Eu preciso lidar com homens que acreditam fielmente que podem encostar no meu corpo quando bem entenderem. Escuto cada vez mais pessoas que fazem planos sinceros para minha, vida sem ao menos perguntar o que acho: “Você pode estudar agora, mas o importante mesmo é se casar”. “Ganhar dinheiro é bom, mas dinheiro demais assusta os homens”. “E os filhos? Quando vai começar a ter?”.

Minha capacidade de indignação continua a mesma, e sou muito grata por isso. Mesmo com tanta desgraça no mundo, ainda me indigno com as mazelas e fico perplexa como o ser humano consegue me impressionar (de um jeito ruim) todos os dias. Eu não sofro mais ou menos quando vejo uma notícia de estupro de uma mulher ou de uma criança. Não estou mais ou menos irritada quando um homem ou uma mulher são esfaqueados. Eu simplesmente escolhi lutar por mim (sim, pode ser egoísmo) e por todas as mulheres que precisam acordar todos os dias de manhã e enfrentar um mar de obstáculos. Simplesmente por ser o que somos, mulheres.

Autora

Laura Guedes de Souza é advogada, pós-graduanda em Direito Penal. Militante e pesquisadora feminista.

Autor: Autoras Convidadas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. A gente continua essa história do Feminismo nas ruas e na rede.