Viral ou violência: como fica a cidadania das pessoas com deficiência?

Texto de Patricia Guedes para as Blogueiras Feministas.

No início desta semana, fomos surpreendidos com a campanha promovida pelo Movimento pela Revisão de Direitos (MRD), que propõe o fim de supostos privilégios concedidos a pessoas com deficiência, como a reserva de vagas em estacionamentos e cotas em concursos públicos.

Atualização: Placa contra ‘privilégio’ de deficientes é ação da prefeitura de Curitiba.

Outdoor colocado em Curitiba. Divulgado na página do Facebook da Radio Banda B.
Outdoor colocado em Curitiba. Divulgado na página do Facebook da Radio Banda B.

Num primeiro momento, pode ser tentador considerar conquistas históricas meras concessões estatais, de cunho paternalista e assistencialista. Esse tipo de análise rasa ocorre quando ignoramos o contexto que motivou a luta por direitos. No caso dos direitos das pessoas com deficiência, as cotas para concursos não servem apenas para inclusão no mercado de trabalho. Também é uma compensação a todas as vagas pelas quais pessoas com deficiência não podem concorrer, como por exemplo, vagas em corporações militares (Forças Armadas, Bombeiros, etc).

As vagas reservadas em estacionamentos parecem ultrajantes para quem não possui uma deficiência. Isso acontece, em grande parte, pelo fato de que a cidade, em todas as suas instâncias, é meramente um cenário estático para as pessoas que têm corpos em conformidade com o espaço construído. Para quem tem uma deficiência, a cidade é um espaço dinâmico de disputa e opressão, uma arena edificada onde cada centímetro quadrado pode ser subtraído. É o espaço que agride, rejeita, aparta e exclui. Nesse contexto, pessoas com deficiência são considerados invasores de um espaço ao qual não pertencem. Portanto, ainda que a campanha gere indignação em um primeiro momento, ela não é nada mais do que um reflexo verbal do cotidiano. Ser excluído do espaço urbano — e, consequentemente, de suas atividades — é o dia a dia de quem tem mobilidade reduzida. Apesar do choque visual, a violência da exclusão é uma realidade diária capaz de surpreender apenas as pessoas que não possuem deficiência.

Algumas horas depois, surgiu a informação de que a campanha teria cunho publicitário, com a finalidade de promover a conscientização para a inclusão de pessoas com deficiência. Ainda que se pense nas boas intenções deste tipo de iniciativa, é necessário que se reflita sobre os meios de promoção e, principalmente, difusão dessa conscientização. É execrável que se use os poucos avanços de direitos a fim de beneficiar e visibilizar terceiros. A apropriação da pauta de luta de uma forma tão violenta não se justifica, ainda que haja uma motivação nobre. Não faz sentido chamar atenção para a falta de cidadania de pessoas com deficiência utilizando-se de linguagem que ameaça a conquista de direitos de minorias. Prova disso é que não é tão óbvio que se trata de ação publicitária. Se fossem direitos assegurados e percebidos por todos, o absurdo ficaria evidente de imediato e o caráter fictício seria identificado.

Não importa se a campanha é real ou publicitária. Os efeitos resultantes de uma ação deste tipo não acrescentam em nada para o fomento da inclusão, apenas dão força à crescente onda de propagação de discursos de ódio cada vez mais forte.

+Sobre o assunto: Menos discurso de ódio, mais espaço de fala. Por Mila Correa.

Autor: Patricia Guedes

Patricia Guedes é feminista e arquiteta. Viciada em cultura pop e máscara capilar. Viajante em construção.