Feminismo radical e liberalismo

Texto de Bia Pagliarini. 

Muitas feministas radicais alegam criticar o liberalismo. Mas vamos analisar certos discursos. O liberalismo coloca grandes poderes às intenções dos indivíduos. Quem critica esta centralidade da ação do indivíduo irá compreender que certas categorias e fenômenos, ao contrário, se estruturam de forma exterior e previamente aos indivíduos. Isto implica compreender que existe uma realidade que determina (estruturalmente) previamente a ação/situação/fenômeno ligado aos indivíduos. Compreender esta realidade exterior ao indivíduo é o que faz uma análise que se pretende materialista.

E se a gente quiser fazer uma análise materialista da transfobia e da situação das pessoas trans na nossa sociedade? Existe duas formas de compreender a exclusão e opressão de pessoas trans: uma liberal, que coloca o individuo como causa E origem de si mesmo e de sua própria situação/existência; uma materialista, que desloca o indivíduo deste lugar fundante central e dá lugar a uma análise estrutural que coloca a causa dos fenômenos como exterior a qualquer indivíduo.

Vejamos exemplos destas duas formas diferentes de compreender o mundo. O liberalismo irá compreender a situação de exclusão de pessoas trans culpabilizando o indíviduo (pq justamente, é assim que funciona este discurso, como me referi acima). Uma perspectiva materialista, ao contrário, irá compreender que antes mesmo do indivíduo ser causa ou origem de sua “própria situação social”, é a situação social que previamente determina certos lugares sociais de exclusão que os indivíduos ocupam.

Foto de Landyn Pan.
Foto de Landyn Pan.

Uma análise materialista acerca da transfobia irá compreender que a exclusão de pessoas trans da sociedade não se origina nas e pelas ações dos indivíduos transgêneros, mas se dá de forma prévia a eles. A transfobia existe previamente aos casos contingentes de exclusão; a transfobia não tem origem em indivíduos que transgridem as normas; a transfobia não é causada pela ação de indivíduos contingentes que supostamente “do nada” e “livremente” se colocariam à margem das normas; ao contrário, a transfobia existe porque ela é necessária para a reprodução das normas sociais de gênero, para a própria noção acerca da verdade dos sexos.

Feministas radicais colocam muitas vezes que pessoas trans são culpadas por sofrerem transfobia. Isto se dá já que as mesmas não compreendem que este tipo de opressão se estrutura previamente aos indivíduos. Neste processo, é o próprio liberalismo que irrompe neste discurso como forma de compreender uma realidade social; e, ironicamente, são as mesmas que julgam se distanciar de um suposto liberalismo: mal conseguem perceber que estão chafurdadas nele.

Autora

Bia Pagliarini é estudante de letras, interessada na relação entre discurso e gênero. Transfeminista, revoltada contra o cistema. Esse texto foi publicado em seu perfil pessoal do Facebook em 13/12/2015.

Autor: Autoras Convidadas

Somos várias, com diferentes experiências de vida. A gente continua essa história do Feminismo nas ruas e na rede.